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Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Fim de tarde

Efeito cartoon sobre foto: Dimas Lins

Ronaldo Correia de Brito, escritor

No fim de tarde desta última segunda-feira, tive o prazer de conhecer pessoalmente o escritor Ronaldo Correia de Brito. Nosso encontro foi ambientado num café em Casa Forte, bairro residencial de Recife, e intermediado por uma amiga em comum para que eu tivesse, humildemente, a oportunidade de colher do escritor suas impressões sobre minhas primeiras tentativas literárias na forma dos originais do Estradar – Crônicas de uma gente brasileira, que tenho o interesse em um dia publicar.

O encontro, para mim, foi um privilégio sem igual. Senti-me honrado em ouvir de um escritor com tanta bagagem dicas e conselhos tão caros para quem busca iniciar uma experiência literária.

Ronaldo tem um corpo franzino e é um pouco mais baixo do que eu. Ainda assim, me senti pequeno demais, minúsculo mesmo, perto dele. Também pudera, ele já tem quase quarenta anos de estrada e é autor dos elogiados Faca e o Livro dos Homens. Em 2007, foi convidado para ser escritor residente e professor visitante na Universidade de Berkeley, Califórnia. Dramaturgo, criou, juntamente com Assis Brasil e Antônio Madureira, o Baile do Menino Deus, encenado em todo país há mais de duas décadas. Em 2009, foi o vencedor do cobiçado Prêmio São Paulo de Literatura, um dos mais importantes do país. Em 2010, é um dos homenageados do A Letra e a Voz – Festival Recifense de Literatura.

Generoso, Ronaldo se deu ao trabalho de um encontro com um escrevente iniciante do qual nunca ouviu falar e nem sabia ao menos se possui alguma qualidade literária. A bem da verdade, nem mesmo eu sei. Numa tarde agradável, com ligeira brisa e temperatura amena e ao sabor de um suco de caju, de um lado, e um cappuccino, de outro, o escritor me deu dicas preciosas sobre processo de criação e publicação. Sugeriu a mudança do nome de um dos capítulos do livro, por causa de uma cacofonia provocada pela união não harmônica de duas palavras, que eu aquiesci e sancionarei a modificação. Provoquei-o sobre o número de crônicas que me propunha a publicar, se não se tratava de um exagero. Ele considerou que um formato com um menor número de crônicas é mais interessante, o que me fez pensar em uma nova seleção dentre os textos já selecionados. Confessei o perigoso apego às coisas que escrevo e que, por isso, tenho enormes dificuldades em ceifar o excedente. Daí, a minha necessidade de uma visão exterior e mais crítica, já que, apesar da dificuldade em cortar, eu reconheço facilmente desníveis na qualidade de alguns escritos.

Sobre o mercado editorial, Ronaldo me disse sem rodeios que não é fácil a publicação de crônicas e contos, pois se dá preferência, geralmente, aos romances. E deu o seu próprio testemunho, já que só agora, depois de tanto tempo de carreira, irá lançar seu primeiro livro de contos, Retratos Imorais (28 de agosto, às 18h30minh, no auditório da Livraria Cultura, Editora Alfaguara). Mesmo assim, aconselhou-me a manter a persistência, já que ele mesmo só conseguiu sua primeira publicação literária depois de vinte anos como escritor. A demora, segundo ele, foi fruto de tímidas tentativas de mostrar o seu trabalho.

Médico, Ronaldo disse que a medicina e a literatura têm uma relação profunda. “A primeira pergunta que um médico faz ao seu paciente é ‘qual é a sua história?’”. Entendi que a partir dali se abria um mundo de possibilidades literárias. Fiquei com uma pontinha de inveja desse universo, já que o meu mundo é diferente, mais fechado, pois sou auditor e há uma tendência natural à retração do auditado diante do exame comprobatório relativo às atividades contábeis e financeiras de uma instituição.

Tinha muita coisa para lhe perguntar e, por isso, demonstrei alguma ansiedade. Disse-lhe que faço e refaço um texto muitas vezes durante o processo de criação. Ronaldo revelou que, somente um dos capítulos de Galileia, ele reescreveu cerca de cento e vinte vezes. Senti alívio. Disse-lhe então que estava em tempo de iniciar o meu primeiro romance e que intencionava sistematizar o livro, de acordo com as sugestões do escritor americano Robert J. Ray (O escritor de fim de semana, editora ática) para a criação dos personagens, a construção das cenas e enredo, mas temia desperdiçar muito tempo num processo longo e que eu não sabia, por inexperiência, se era, de fato, eficiente. Soube então que Ronaldo praticamente escreve livros paralelos aos seus livros, onde mantém as informações detalhadas sobre os personagens e tramas. Contou ainda como considera importante pensar na cena com todas as suas nuances, como a luminosidade, o cheiro e a ambientação.

Depois de uma longa e proveitosa conversa, caminhamos pelas ruas do bairro de Casa Forte em direção às nossas casas, já que moramos próximos um do outro. Ronaldo foi embora levando os originais de Estradar debaixo do braço e prometendo, em breve, me dizer as suas impressões. Desde então fiquei ansioso. Considerando a extensão do material que lhe entreguei e seus compromissos pessoais, sei bem que seu retorno levará algum tempo. A mesma ansiedade tive quando entreguei uma cópia dos originais a Flávia Suassuna, professora de literatura e escritora, cuja opinião também considero pra lá de relevante. No meio de tanta satisfação, apenas um frio na barriga, que vem do receio que meus textos não estejam à altura de tão ilustres leitores.

Saí do encontro satisfeito da vida e voltei para casa louco para seguir adiante. E cá estou.

Aniversário

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Palavras não falam – Mariana Aydar (Kavita)

Atravesso o portão e sou saudado pelo porteiro, que ergue a mão, assim como fazem os índios americanos nos filmes de Hollywood. Já no hall de entrada, com o dedo indicador, empurro os óculos contra o rosto e sigo em direção ao elevador. Na sua chegada, a do elevador, aperto o botão do nono andar e subo. Olhar disperso, volto-me para o espelho e vejo meu reflexo. Embora a juventude ainda tenha visível prevalência sobre a velhice – minha velhice está incubada em forma de doença reumática – meus gestos e expressões faciais são desleixados, meus ombros estão arqueados e a minha postura deixa ligeira curvatura para frente na coluna, só perceptível ao olhar mais atento. Apesar de mais magro, a barriga ainda chama atenção por sua desarmonia com o resto da silhueta do meu corpo. Meus olhos demonstram fadiga e aborrecimento. O dia trouxe cansaço, que trouxe o desejo irrevogável de tomar um banho, me enfiar na cama e assistir a TV até pegar no sono. Em minhas mãos está um pacote de padaria com alguns pães, queijo e presunto, que serão devorados nesta mesma noite e na manhã seguinte. Abro a porta e, ainda no escuro, ponho o embrulho sobre a mesa para só depois acender a luz. Quando a lâmpada ilumina o ambiente, ouço gritos de “surpresa!” e sou tomado pelo susto, bastante natural, aliás, nessas ocasiões. Involuntariamente, faço um movimento brusco e deixo cair a chave ao chão, mas logo me refaço, apanhando-a. Ao tornar a ficar ereto, os olhos subitamente ficam cheios de emoção e lágrimas. À minha frente, os companheiros, verdadeiros amigos de estrada nesses últimos três anos.

Foi Alberto o primeiro a me cumprimentar. Depois veio o Tavinho e pude reparar, pela alegria dos dois, que os tempos de happy hour tinham voltados e que a amizade, afinal, havia superado os percalços da infidelidade cruzada entre as esposas. Mendoncinha veio em seguida e me confidenciou que agora só anda de metrô com medo de pegar uma blitz no trânsito. Um menino, com jeito estranho, se aproximou, mas não disse uma palavra. Puxei-o mais para perto e perguntei-lhe ao pé do ouvido “existirmos, a que será que se destina?”, mas nem sob tortura ele me respondeu. Uma jovem me beijou no rosto com alegria, mas depois de cinco minutos de conversa revelou que não era fácil manter-se longe do vício do laquê. De brincadeira, sugeri que ela tentasse naftalina. Ela fez um olhar pensativo e tentei dizer que não falava sério, mas já era tarde. Como a Monalisa, um homem, com uma taça de um vinho de cor púrpura, muito escuro, quase roxo, com pouca transparência, abriu um sorriso enigmático. Perguntei o que ele estava pensando. “Em nada”, respondeu. Não quis ir adiante com aquela conversa oca e virei os olhos para uma mulher morena, alta e muito sensual que, com um sorriso malicioso, agradeceu num sussurro aqueles momentos antes da enfermidade. Embaraçado, bebi um gole d’água e me afastei. Minha mulher poderia estar perto e não queria que ela tivesse a falsa impressão que aqueles olhos febris eram para mim. Uma mãe com um menino no colo disse que ainda lhe conta histórias antes de dormir, embora ele sempre mude o final. Assim, terminou por acostumar-se e estava satisfeita, pois agradecia, porque o menino tinha boa índole e só sabia querer bem. Embora Miguel também estivesse apenas de passagem, seu motivo era outro. Tinha um encontro marcado com Sofia e não queria deixá-la esperar sentada no banco da praça. Abraçou-me apertado e saiu. O Soldadinho Romano Nº 8, um garoto travesso do bairro de São José, confirmou que já não era mais ator da Paixão de Cristo na igreja da Penha, mas que ainda ria só de pensar nos relâmpagos e trovões. As freiras, posso apostar, não devem achar tanta graça. Um dentuço com ar de louco passou rápido à minha frente procurando o agente Smith e gritava “quero voltar para a Matrix!”. Ainda sonhava em ser spalla numa orquestra de música erudita.

O soldado Oliveira contou em confidência que pensara em morrer ao entrar, contra a sua vontade, num esquadrão de extermínio. Passado algum tempo, já não sente remorso. Francisco, poeta e comunista, falou da luta armada nos anos de chumbo e, com tristeza, disse que naquele tempo o Brasil era o País do adeus. Já Papai Noel, de bermuda e chinela, disse que naquela festa faltava apenas um tambor bater e que bom mesmo era o natal na favela. Uma andorinha entrou pela janela em busca por uma clave de sol, enquanto Maria das Dores de Amar, ainda vestida de noiva, sussurrava em meu ouvido “me leva”, me dando um frio na barriga. Fui salvo por Nero, que me arrastou pelos cabelos e me pediu um cigarro. Como onde há fumaça, há fogo, neguei temendo que meu apartamento incendiasse. Noemi disse em voz alta que agora tem orgasmos múltiplos e que Fernando ainda está com BTI, por isso, faz terapia com Freud, um psiquiatra que tem um consultório Intermares, na Paraíba. A cada consulta, ela nota, o namorado sai com um olhar cada vez mais distante. Fiquei me perguntando se, nesse estágio, Fernando seria capaz de provocar um orgasmo, ainda mais múltiplo. Uma nuvem negra sobrevoou a sala, quando um homem amargo entrou no apartamento. Maurinho sugeriu que era falta de mulher e Darlene respirou como se sentisse um cheiro de jasmim no ar. Guimarães, como um zagueiro, entrou de sola naquela bola dividida. Um motoboy provocou uma invasão a domicílio, me entregou a carta de um médico, que lamentava não poder comparecer, mas me parabenizava pelos três anos. Concluía dizendo que, finalmente, arrumara uma atividade para o seu motoqueiro. Dois morcegos dançaram no ar e pude ouvir com certa nitidez a fêmea dizer para o macho que iria morder o seu pescoço. Antes de saírem pela janela, ainda fui capaz de ouvir o macho perguntar com olhos de carneiro reprodutor: “na minha casa ou na sua?”. Um casal deixava as turbulências para trás e se trancava no meu banheiro, para voar em céu de brigadeiro. Tentei sugerir o meu quarto, mas eles não me deram ouvido. Num canto da sala, Julinha, Ana Lu, Cecília e Regina, mesmo à noite, tomavam um chá da tarde, enquanto articulavam a criação de uma sociedade secreta feminina, nos mesmos moldes daquela que homens usam para acobertar suas sacanagens. Osvaldo veio em minha direção e perguntei se ele ainda estava de dieta. Ele respondeu que agora passava os dias a comer bem, mas Mariana se apressou em dizer que o marido só almoça em casa. Deitado no divã, um paciente dizia a sua psiquiatra, com a voz acelerada, que não tinha habilidade com as mulheres, enquanto ela olhava insistentemente para o relógio. Um escritor de fins de semana, um pouco alto pelo uísque, perguntou se eu também não achava que Madame Bovary era uma vagabunda. Disse que nunca tinha lido o romance e ele, com olhar de desprezo, afirmou que era preciso urgentemente preencher essa lacuna.

A morte também veio me ver e trouxe notícias de lá. Contou que a boa senhora estava bem e me mandava lembranças. Chorei com uma ponta de saudade, ainda mais, quando, diante de todos, um filho, banhado em lágrimas e transbordando de amor no coração, abraçou seu velho e finalmente lhe disse “adeus, meu pai, adeus!”. Sem o cisco no olho, outro pai beijava a filha, enquanto Dona Maria Quitéria, de joelhos, pedia o indulto a Benedita pela panela de pressão. Numa cama, um paciente terminal lutava contra células anárquicas e incessantes que se espalhavam rapidamente por todo o seu corpo. No silêncio da voz, seus olhos fundos teimavam em dizer que ele ainda estava vivo. Dona Eunice, saiu do seu exílio, para dizer que, apesar de tudo, perdoava o filho e que desejava a sua felicidade. Um homem, coberto por lençol branco, que já não o protegia do frio, me perguntava se estava morto ou se tudo aquilo não passava de um sonho. Uma mulher com ar tristonho me abraçou com força e chorou com o nosso reencontro. Perguntei com ia a filha e ela cantou então uma canção desnaturada. Prometi, comovido, que sua história teria um final feliz. Ela foi embora dizendo que ficaria bem. Escondida atrás da porta, outra mulher me observava. Chorava e eu, sinceramente, pensei em consolá-la. Prevendo a intenção do meu gesto, ela deixou o apartamento antes que eu me aproximasse. Alheio aos convidados, um homem velho olhava a cena de longe. Ele deixou uma rosa sobre a mesa e disse que veio apenas pra dizer adeus. O pai da noiva trouxe aos olhos opacos o mesmo lenço que usara ao perceber que morrera em vida para a filha. Um velho magro e de pele cabocla vendia frutas e verduras na sala de jantar. Ao avistá-lo, pedi ao meu avô, uma benção. Minha mãe o abraçava e derramava sobre nós o maior amor do mundo.

Um jovem viajante falava com saudade de sua casa no sertão. Com a voz embargada, garantiu que “no dia em que eu vim embora, uma flor nasceu na rua”. Dona Rosinha, ao ouvi-lo, chorou e foi consolada por seu marido, que se emocionou como se estivesse entre a poesia e a prosa. No cordão da saideira, o poeta Josias, mostrando toda a sua vocação, recitou um poema, quando Antônio, de mãos dadas com Helena, me disse não sentir rancor, pois a nossa amizade ia muito além do livro.

Por fim, uma mulher barriguda repousou minha mão em seu ventre e apontou para uma criança. Perguntei quem vem lá, mas ela não respondeu. A menininha, vinda de uma nascente, atravessou a sala em seu traje espacial à procura da nave-mãe e meu deu o primeiro sorriso. Depois, perguntou se haveria guerra ainda. Tomara que não. Chegava ao fim, um dia perfeito.

Aos leitores do Estradar, obrigado por esses três anos juntos.

Dimas Lins

Assim se passaram três anos

No próximo dia 19 de agosto, o Estradar completará três anos de vida. Nem parece, mas já faz um tempão que me instalei neste canto da internet. Aqui, me encontrei na ficção dos meus personagens, que muito bem poderiam ter vividos suas histórias na vida real.

O Estradar surgiu de outro blog meu, o Torcedor Coral. Nele, escrevia crônicas sobre o Santa Cruz, meu time do coração e fonte de infinitas tristezas. Com o tempo, senti a necessidade de expandir meu universo, de ampliar o horizonte e explorar o mundo literário. Inicialmente, pensava em escrever sobre alegrias contidas e tristezas profundas, mas percebi, antes mesmo de começar a escrever, que minha intenção era experimentar formas, estilos e possibilidades. Assim, melhor deixar que liberdade me levasse a escrever um drama num dia e, no outro, uma comédia.

A proposta inicial do Estradar era simples e permanece praticamente intacta até hoje, qual seja, a publicação de textos associados a uma canção da música popular brasileira, à exceção de textos de outros autores. Às vezes, eu partia da música e chegava à crônica; noutras, fazia o caminho inverso e encontrava uma canção que se encaixava perfeitamente no texto.

De lá para cá, foram 170 contos e crônicas de uma gente brasileira e 746 comentários dos nossos leitores que me orgulharam bastante. Entre as mais queridas – também tenho as minhas preferidas – estão as crônicas melancólicas, como Pra dizer adeus, Notícias de lá, Uma canção desnaturada, Adeus, meu pai, adeus!, Terminal e Exílio, e aquelas que buscam a leveza do espírito, como Conversa oca, Paixão de Cristo, Onde há fumaça, há fogo!, Nascente, BTI, Bola dividida, Happy Hour, Morcegos, Um dia perfeito e a trilogia Muito além do livro. Esta trilogia, aliás, vem servindo de base para meu primeiro romance, cujos personagens já comecei a construção.

Nesses três anos, também houve reveses. A freqüência de publicação das crônicas, por exemplo, diminuiu. A queda no ritmo foi motivada principalmente por minhas atividades profissionais, além de um hobby recém-adquirido, o desenvolvimento de blogues e sites. Aliás, esse hobby, assim espero, fará surgir uma rede de blogues amigos que, além do Estradar, contará com a participação do Blog dos Perrusi, Inscritos em Pedra e Sementeiras, além de outros que irão se incorporar ao nosso projeto.

Para comemorar seus três anos, o Estradar estará de cara nova. A idéia é que a mudança ocorra no próprio dia 19, embora, pela proximidade, é possível que a mudança leve mais alguns dias.

Também pretendo incrementar o formato com resenhas pessoais das minhas leituras favoritas, vídeos interessantes ou mesmo fotografias que, de alguma forma, conseguiram captura, como um pintura, a alma humana. Serão experimentos que tentarão me deixar um pouco mais livres para escrever o meu primeiro romance. Pretendo também continuar divulgando outros autores, através de pesquisas na internet ou do recebimento de textos por e-mail ou através do blog.

Enfim, estamos de volta. Ontem, agora e sempre.

Gratidão filial

Foi Vovô Libar (meu literato sogro, pai de minha esposa e avô de minha filha) quem me apresentou às crônicas de Emerson Monteiro, seu amigo e conterrâneo cearense. Apaixonado por literatura, Vovô Libar vez por outra me falava de sua habilidade com as palavras e de sua capacidade em emprestar simplicidade à escrita. Combinação que considero perfeita e que muito bem pode ser lida, por exemplo, na crônica Acerto de Contas, que narra a história de um caboclo que matou a criação de um vizinho, para não chegar em casa de mãos abanando (Cinema de Janela – Crônicas e Narrativas (2001)).

Emerson Monteiro nasceu em 1949, no sítio Tatu em Lavras da Mangabeira, Ceará, mas deu de cara com a vida no Crato em 1954. O tempo passou e Monteiro formou-se em Direito e trabalhou no Banco do Brasil até se aposentar. Nesse ínterim, tornou-se escritor, deixando obras como Noites de Lua Cheia (crônicas), Sombra e Luz (ensaio sobre a espiritualidade) e É domingo – Narrativas de Proveito (2006), este último nascido de sua coluna no Jornal do Cariri.

E se no Crato Emerson Monteiro fez-se escritor, em Lavras de Mangabeira, sua terra natal, foi reconhecido, pois na instalação da Academia Lavrense de Letras, em 2008, passou a ocupar a cadeira de número 17.

Gratidão Filial acrescenta delicadeza à sinceridade de Emerson Monteiro ao firmar, num gesto, a fidelidade dos filhos para com seus pais.


Dimas Lins

Emerson Monteiro

Exercito, hoje, o direito de observar os meus pais e o silêncio onde eles passam os seus dias, apenas quietos em um dos quartos da casa onde vivemos bons momentos de nossa história, agora vazia nos outros cômodos. Ali, acompanhados por pessoas abnegadas, ao vê-los algo mexe dentro de mim. Algo assim parecido com presença invisível de bicho desconhecido a sacolejar o espaço já movimentado do meu peito; um ente abstrato, espécie de animal apreensivo com o futuro. Logo comigo, que tantas ilusões de segurança alimentei e alimento, nas frioleiras das artificialidades e falsas expectativas.

Olho neles e, interrogativo, me pego a analisar o que lhes reservam as esquinas implacáveis do tempo. Eles, que tanto esforço aplicaram na realização dos filhos, cinco, no total. Que tanto se alegraram com nossas alegrias passageiras, nossos sonhos de vitórias em pequeninas coisas. Vislumbram a concretização de nossos projetos, e que raro nos detivemos para receber melhor seus conselhos, classificando-os, por vezes, de preocupações fora de moda. Que comemoraram com vibração inusitada o nascimento de cada neto como sendo novos filhos.

Quantas estradas percorreram para dizer o que disseram e que tão pouco escutamos. Eles, dotados de tamanho equilíbrio no trato dos filhos, sofreram as nossas ausências em noites sombrias de solidão, catadores que somos das baladas de risco, audazes aventureiros de perdidas empresas.

Eles, de faces luminosas nas horas animadas… Lacrimosos nas despedidas… Braços abertos na chegada, um não se conter de satisfação nos instantes animados das reuniões familiares rápidas e transitórias. Reunir todos os filhos em datas especiais e vê-los, depois, dobrar as mesmas curvas estreitas da saudade, nos vazios instransponíveis dos momentos distantes…

Quanta sacralidade tem a beleza da família, mas quanta incompreensão dos filhos, lições vividas na própria pele na matemática que se segue nos nossos próprios filhos.

Desse modo, vejo os meus velhos e sinto amolecer o coração. Quero assim trazer cá de dentro dos meus compromissos esta mínima gratidão a pessoas tão preciosas, plenitude da mais honesta dignidade do trabalho, dedicação fiel nas pautas da natureza e na harmonia do lar.

Espécie de gelo revira o meu interior. Palavras afloram no pensamento e lembram o amor que a existência impõe na amizade, no companheirismo…

Enquanto alguns enrijecem a musculatura do pescoço com o temor travoso das emoções impacientes, outros aceitam enxergar a nobreza dos laços verdadeiros que jamais se desfarão. Daí quis firmar, num gesto, a fidelidade pelos que me deram a mim; e concedo aos meus filhos o testemunho do que isto representa em termos de agradecimento aos responsáveis pela nossa existência neste mundo.

Comunicado:

Desde segunda-feira, dia 28/06, o Dreamhost, servidor onde está hospedado o Estradar, sofreu um grave problema técnico e todos os sites sairam do ar. Desde então, o suporte do Dreamhost vem tentando recuperar os dados danificados para dar início a migração do Estradar e de outros sites para um novo storage (espécie de HD onde fica armazenado nosso banco de dados). Ao que parece, voltamos ao normal.

Lamento os transtornos e comunico que acompanhei junto ao Dreamhost as providências adotadas. Também não desconsidero a possibilidade de migrar para um novo servidor, caso os problemas não tenham sidos resolvidos satisfatoriamente.

Abraços,

Dimas Lins

O que você fez dos seus sonhos?

Conheci Ducaldo, tempos atrás, através da internet. Nossos caminhos se cruzaram por uma convergência no futebol: ambos somos tricolores. Não tricolores quaisquer, somos torcedores apaixonados pelo Santa Cruz Futebol Clube, esteja ele metido no buraco em que estiver. Por causa desta grata coincidência, Ducaldo, cujo apelido escancara a sua predileção pelos populares caldinhos dos bares de Recife, passou a freqüentar – e a comentar – com grande regularidade o meu blog esportivo Torcedor Coral, que traduz os sonhos e frustrações da torcida mais apaixonada do Brasil. Daí vem nossa amizade.

De uns anos para cá – os amigos em comum são testemunhas – insisto para que Ducaldo se torne cronista oficial do TC, por enxergar em seus comentários um grande potencial para a escrita. Apesar da enorme insistência – ou talvez por conta dela – Ducaldo sempre se esquivou. Mesmo assim, nunca me dei por vencido e guardo comigo a convicção que um dia, enfim, ele cederá aos meus apelos.

Por isso, qual não foi a minha surpresa ao receber dele, espontaneamente, uma crônica para publicação. A surpresa transformou-se em espanto, quando o alvo da publicação foi o Estradar, que Ducaldo também tornou-se leitor assíduo, ao invés do TC.

Homem de grande paixão literária e musical, Ducaldo, através desta crônica, nos pergunta o que fizemos dos nossos sonhos, para depois revelar que nem tudo que se perde ao longo da vida tem, necessariamente, um gosto amargo.

Tomara que Ducaldo tome gosto pela crônica e volte por aqui mais vezes. E que aceite, de uma vez por todas, o convite que lhe faço há três anos.


Dimas Lins

Ducaldo

Acordar, forrar a cama, tomar banho, um comprimidozinho de Nexium, café da manhã, despedidas e taxi para o trabalho. Desenhava-se mais um dia branco, burocrático e igual a tantos outros.

Mas a pergunta grafitada no muro meio sujo e cheio de garatujas, pareceu saltar à minha frente ou soar como se pronunciada pela voz de Deus nos épicos cafonas de Cecil B. De Mille.

Perturbou-me o dia todo, como um grilo noturno daqueles que se esconde no quarto, na fresta mais improvável e impossível de localizar, para irradiar sonoras ondas de aporrinhação e insônia.

Processo número tal, partes, órgão julgador, acórdão, vistos e… O que você fez dos seus sonhos? Intrometia-se de novo a pergunta.  Fingi que não era comigo. Conectei o fone de ouvido, digitei o mais rápido que pude, tentei inutilmente me desvencilhar, mas não consegui. Estava na minha cabeça, na tela do monitor, em todos os lugares, me deixando meio aparvalhado.

Capitulei e me engalfinhei com a interrogação impertinente. Revirei a caixa de papelão das memórias – que baú é coisa para memorialista de estirpe – e não me veio nem um mísero sonho, daqueles “quando crescer quero…”, “um dia serei…”. Nada. Pelo menos na infância, onde as brincadeiras na rua e em casa, a escola e as brigas homéricas com os irmãos mais novos não deixaram espaço para sonhar futuros improváveis.  A não ser que se leve em consideração Zorro, National Kid, Fantasma, Tarzan, Ramon e Pelé.

Revirando a caixa mais um pouco, dei de cara com as espinhas e os óculos fundo de garrafa de adolescente tímido que, finalmente, viajava como se sob o efeito de um galão de chá de trombeta. Solos de guitarra e sexo, violão e sexo, livros e sexo, filmes e sexo, política e… sexo. Claro, pombas! Em que mais pode pensar um adolescente espinhudo?

E o espinhudo quatro-olhos entrou no labirinto da fantasia – sonho, projeto, é outra história – e se perdeu entre guitarras flamejantes, vocais esganiçados, melodiosos violões, belos filmes, romances e política revolucionária. Tudo muito bem fantasiado e nada feito.

Soterrado embaixo de milhares de folhas digitadas e mal redigidas, no vetusto e nada bonito linguajar forense, abri mão de mergulhar, arriscar e buscar meus, digamos, sonhos.

Ainda bem. Com minha inacreditável falta de talento teria me esborrachado no chão, feito trapezista sem rede segurança. Admito a minha mediocridade sem o menor pudor, especialmente quando, por baixo das tais folhas digitadas, me passam um bom contracheque, que me permite apreciar tudo que nunca tive dom para fazer, em boa companhia e atracado com uma garrafa de vinho – vodca e cachaça também servem.

O meu caro leitor – supondo que tenha alguém aí – esperava o quê? Choro sobre os sonhos derramados? Uma diatribe sobre a massacrada vida do homem comum? Facas que procuram pulsos ou cordas enroladas em pescoços na calada da noite? Lamento. Procure literatura russa, Machado, Proust e quetais, pois estas mal tecladas quase não dão nem para uma carta, quanto mais para as profundidades filosóficas que exigem tais assuntos.

Ganhei um box de Coltrane, comprei Hendrix remasterizado e duas garrafas de Cousiño Macul- Antiquas Reserva. A companhia? Prometi não revelar.

Saúde!

Lacuna

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Alfômega (Caetano Veloso)

Tenho um vão em meu passado. Embora a leitura exerça um papel fundamental em minha vida, nunca li um clássico da literatura mundial. Para quem tem pretensões de um dia tornar-se um escritor nacionalmente desconhecido – ser um autor conhecido é coisa para poucos, cuja destreza com as palavras vai além da minha capacidade intelectual, por isso, me contento humildemente com o anonimato que me cabe e me aguarda – isto é uma lacuna imperdoável. Equivale, na vida de um cidadão comum, desses que se vê na rua, a um desvio de caráter, uma falha moral. Está certo que não fico muito atrás nos clássicos brasileiros e que li, e leio, grandes autores nacionais e até internacionais da atualidade com alguma freqüência, como João Ubaldo ou Gabriel García Márquez, mas nos clássicos internacionais, confesso, um tanto envergonhado, que sou uma negação. Com essa confissão, aliás, reduzo a praticamente zero as minhas já remotíssimas chances de um dia pertencer à Academia Brasileira de Letras. Esse é o preço, me consolo, da honestidade.

Por isso, a minha preocupação quando o Célio Potência – seu verdadeiro nome, Célio de Freitas e Freitas, vem de um descuido de um funcionário do cartório ao registrar a sua certidão de nascimento, que elevou ao quadrado o sobrenome do pai, ao invés de também dar o devido crédito ao sobrenome da mãe, daí o apelido – me convidou para um encontro informal em sua casa com alguns escritores e poetas pernambucanos. Não me sinto habilitado para um encontro desse porte. Sempre tive medo de me sentir inferior e não conseguir manter uma conversa de alto nível com os intelectuais. Provavelmente, não acompanharia a engenharia empregada por eles nos temas complexos que costumam debater. Guardo comigo o assombroso receio de perder o fio da meada do raciocínio de um desses grandes pensadores e ser desmascarado em praça pública, como um farsante do conhecimento humano.

― E você, também não acha que o Mito da Caverna de Platão trata da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade?

― Hein?!

Ainda assim, fico a imaginar o proveito que se pode tirar da troca de palavras entre gente tão gabaritada, cujo resultado vem, certamente, de profundas reflexões. Sei o quanto isso acrescentaria à minha experiência de vida. Mas ao invés de participar ativamente de uma dessas conversas que, sem dúvidas, causaria danos irreversíveis em minha auto-estima, teria muito mais valia pessoal, se fosse possível manter-me, reservadamente, sentado ali num cantinho qualquer, munido apenas de papel e caneta, para depois checar algumas palavras no dicionário, que desconheço o significado.

Como não podia recusar um convite amável de Célio Potência, amigo dos tempos de colégio, fiz o que me coube e foi possível fazer em tão pouco tempo de preparo: li um resumo – bastante resumido, aliás – de alguns clássicos da literatura, para não ficar tão por fora.

No dia do encontro promovido por Célio Potência, meu primeiro momento de aflição foi ainda em casa. Em verdade, não tinha idéia do que vestir e, ao menos uma vez na vida, me senti como uma mulher que experimenta dezenas de roupas, antes de sair de casa. No final, optei por um terno azul marinho e gravata vermelha, para manter a falsa esperança de passar despercebido entre gente de espécie mais refinada.

À porta do apartamento, Célio Potência me chamou de pândego e puxou-me para dentro com um sorriso cínico. Na sala de estar, descobri a razão. Fui apresentado a alguns convivas como sócio legítimo da festa, por ser, é claro, o único vestido de paletó e gravata, enquanto os demais presentes se vestiam de calças jeans a camisas de manga. Houve, inclusive, quem calçasse um par de sandálias de couro igual ao que costumo usar quando dou um pulinho nos bares de Recife para molhar a garganta com os amigos. Diante do primeiro revés, procurei observar atentamente o que todos bebiam, para não destoar novamente. Desta vez, minha impressão sobre os intelectuais estava correta, pois nove entre dez bebiam generosas doses de uísque. Emborquei a garrafa num copo com muito gelo, apesar da minha reconhecida preferência pela cerveja.

Circulei algumas vezes pela sala e qual não foi a minha decepção ao notar que as conversas giravam em torno de temas mais prosaicos e desprovidos de charme e distinção, como futebol e novela das oito. Por isso, tomei a iniciativa de elevar o nível do debate.

― E o Rasponikov, hein?

― Quem?

― O Rasponikov, do Fiofór Dostoiévsky.

― Ah, o Raskólnikov, de Crime e Castigo. Que é que tem ele?

― Vocês não acham que ele encara o niilismo de uma época de colapso dos valores tradicionais?

Ninguém soube ou quis responder ao certo, nem se deu grande importância à questão. Apesar disso, todos concordaram que se tratava de uma obra de primeira grandeza.

― Primeiríssima, meus caros, primeiríssima! – arrisquei, com o entusiasmado de quem acredita agora estar no mesmo nível dos demais debatedores.

A certa altura, minha confiança já estava plenamente restaurada e transformou-se em pura exibição, resultado da minha decepção com os intelectuais e também por umas doses a mais de um extraordinário uísque de 12 anos.

― A Emma é uma vagabunda! – tomei nova iniciativa.

― Não fale assim da maior ave brasileira – desdenhou um.

― Que ave o quê? Falo mesmo é de madame Bovary, que botou uns chifres bons no marido. Ele, corno; ela, decadente!

― Madame Bovary foi a obra que despertou em mim o desejo de ser escritor – disse um dos convidados, autor de uma dúzia de romances.

― Um dos melhores livros que li – emendou outro escritor.

― É, mas a depender do tradutor, a qualidade do livro cai assustadoramente. Certa vez, para economizar alguns trocados, comprei o livro de uma coleção baratinha e me arrependi. O tradutor não fez jus à qualidade de Flaubert. Uma pena. Quem é o tradutor do livro que você tem em sua estante?

Senti que atravessava um momento perigoso. Para quem fora tão longe na ousadia, corria agora o risco de ver materializados os meus temores de antes do encontro na casa de Célio Potência. Acuado, parti para o ataque.

― Não tem tradutor. Meu exemplar é em francês mesmo. Prefiro assim, para não correr o risco de ser traído na tradução – exagerei, já que não falo um naco sequer de francês. Um amigo meu, por exemplo, leu Os Lusíadas traduzidos por um carioca de Realengo. O resultado, segundo ele, é que Camões usava a expressão “Tipo assim” em todo o livro.

Alguém ainda me perguntou se eu não havia trocado de livro, já que Os Lusíadas não carecia de tradução, por ser obra de um famoso escritor português. Foi Célio Potência quem me salvou a pele, com o mesmo sorriso cínico que me recebera em sua porta.

― Ele é ou não é um pândego?

Todos riram e concordaram. Por garantia, decidi maneirar no uísque para tentar baixar um pouco a minha autoconfiança.