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Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

No dia em que eu vim embora

Pintura: Janet Karam

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No dia em que eu vim-me embora – Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)

Não sou poeta. Não tenho as qualidades do amigo Josias. Mas um dia, depois de ouvir um disco antigo de Caetano Veloso, resolvi arriscar uns versos. Tinham a cara nordestina e a métrica da minha terra.

Eles foram publicados, aqui mesmo no Estradar, no dia 30 de junho de 2008. Como faz quase um ano, achei por bem trazê-los de volta. Pensei que seria uma boa maneira de passar o tempo, enquanto uma nova crônica não vem.

E ela virá – breve, breve – mesmo que Belchior teime em dizer “e não acredite nisso muito não”, com toda razão.

Dimas

No dia em que eu vim embora,
Não encontrei alegria em nada,
Senti saudade de casa,
Morri de medo aqui fora.

No dia em que eu vim embora,
Minha mãe me abraçou,
Meu pai me consolou,
E disse “meu filho, é hora”.

No dia em que eu vim embora,
Deixei tanta coisa pra trás,
Parti aflito, sem paz,
Tremi ao me ver mundo afora.

No dia em que eu vim embora,
Carregava apenas a esperança,
Saí sem dinheiro ou herança,
Levei só a dor de quem chora.

No dia em que eu vim embora,
Ir já não parecia tão certo,
Quase desisti, cheguei perto,
Que eu perguntei a Deus: “e agora?”

No dia em que eu vim embora,
Deixei discos, cadernos e livros,
Ficaram também os amigos,
Criança, rapaz e senhora.

No dia em que eu vim embora,
Muita gente na estação,
Tanto adeus, tantas mãos,
Tanta tristeza que aflora.

No dia em que eu vim embora,
Meu pai disse pra eu ser forte,
Minha mãe desejou boa sorte,
E pediu pr’eu escrever sem demora.

No dia em que eu vim embora,
Não prestei atenção na paisagem,
Encolhi e chorei na viagem,
Que nem vi beleza na aurora.

No dia em que eu vim embora,
Deixei um pedaço de mim,
Dizer adeus foi como um fim,
Pois às vezes a saudade apavora.

Bola dividida

infiel
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Bola dividida (Luiz Ayrão)

O Maurinho brigou com a Gigi e se mudou de mala e cuia para a casa do Guimarães. “Seria por alguns dias”, garantiu. Mesmo assim, a Darlene não gostou. Não queria abrigar em sua casa um salafrário que traíra a sua melhor amiga.  Mas os argumentos do marido acabaram convencendo a mulher quando ele alegou que não poderia deixar na mão um amigo de infância e, é claro, concordou em dar em seu aniversário aquela jóia que ela tanto desejava.

No começo, a Darlene ficava de tromba para o Maurinho. Por isso, ele procurava minimizar a sua presença e tentava, na medida do possível, não incomodar o casal. O Maurinho, por exemplo, evitava comer em casa para não dar trabalho, mas, mesmo assim, recolhia e lavava toda a louça do jantar. Não fazia isso apenas por delicadeza ou por um gesto de gratidão. Fazia, principalmente, por uma questão de higiene.

Maurinho era assim. Tinha compulsão por limpeza. Gostava de manter a ordem no lar, ainda que fosse no lar alheio. Reclamava quando o amigo, na hora do futebol, colocava a cerveja em cima do centro – “é para não manchar o móvel” – ou quando caíam cinzas do seu charuto no tapete – “presta atenção no serviço, Guima!”.

Maurinho surpreendeu o Guimarães e a Darlene quando, num sábado de manhã, decidiu, por conta própria, arrumar a casa. Ficou uma beleza, um brinco mesmo, mas o Guimarães achou tudo aquilo um exagero. Já a Darlene não só desfez a tromba, como também passou a enxergar o Maurinho com outros olhos.

- Que beleza, hein Maurinho? E eu que nem sabia que você era assim tão prendado.

Nas conversas com a Gigi, Darlene já não era mais tão incisiva como antes. Ao contrário, chegava mesmo a defender o Maurinho.

- Aquele calhorda!

- Sei não, Gigi, sei não. Vai ver que você deu algum motivo para o Maurinho.

- Mmmm.

O Maurinho também gostava de cozinhar e era conhecido por suas incursões na culinária francesa. Aliás, desde o dia em que ele fez o seu famoso ensopado de carneiro que o Guimarães percebeu que, sempre que o Maurinho chegava em casa, a Darlene dava um jeito de ir passar um batom ou uma coisa assim.

À medida que o tempo passava, a Darlene ficava mais satisfeita com a presença do Maurinho em casa e o Guimarães botava cada vez mais tromba para o amigo. Não era apenas ciúme. Era, sobretudo, uma questão de sobrevivência. Seria, por assim dizer, o macho dominante tentando manter o macho rival longe de sua fêmea, de sua comida e de se território.

Maurinho já não falava mais em procurar outro lugar para morar. E sempre que o Guimarães tocava no assunto, a Darlene botava panos quentes dizendo que não havia razão para tanta pressa, que ele era praticamente da família.

A Gigi já nem ligava mais para a Darlene para reclamar do Maurinho. De uns tempos para cá, ela preferia mesmo era falar com o Guimarães.

- Aquele calhorda!

- Um canalha, Gigi! Um canalha!

Mas chato mesmo foi quando o Guimarães chegou em casa e encontrou o Maurinho lavando as calcinhas da Darlene.

- Ô, Guima! Não tem nada demais.

- Ou ele ou eu, Darlene! Ele ou eu!

Maurinho foi morar com o Fagundes por uns tempos e dizem que a Rebeca, mulher dele, já demitiu a empregada.

Na casa de Guimarães, a vida voltou ao normal. Ele agora pode assistir ao futebol e não tem mais problemas se manchar o móvel com a cerveja ou se deixar cair um pouco de cinza no tapete.

A Darlene também voltou ao normal, embora às vezes fique suspirando pelos cantos da casa. Guimarães só não sabe dizer se os suspiros são pela vontade de comer novamente o ensopado de carneiro ou por não sentir mais o cheiro de jasmim que o Maurinho deixava em suas calcinhas.

Blitz

Edição de imagem: Dimas Lins/ Charge: Moa
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Guitarra Baiana (Moraes Moreira)

O Mendoncinha tinha cisma com blitz, pois sempre o paravam nos momentos mais inoportunos. Preso numa operação de trânsito, já perdeu, por exemplo, um negócio importante devido a um atraso em um compromisso profissional inadiável. Do mesmo modo, azar supremo, deixou escapar uma morena irresistível da academia de ginástica, que só lhe dera bola depois de muita insistência.

Mendoncinha tinha tanto azar, que não adiantava mudar o trajeto, pois a blitz mudava também. Parecia de propósito.

- Documento do carro e habilitação do motorista.

- Pois não, seu guarda!

- O senhor estava dirigindo a mais de 130 Km/h.

- Eu e todos os motoristas nesta rodovia.

- É, mas o radar só pegou o senhor.

- Mmmm.

Com o tempo, o Mendoncinha passou a reagir com ironia, que acabou se tornando sua marca registrada contra as blitz.

- O senhor sabia que trafegava acima da velocidade permitida?

- Sabia, Seu Guarda. Mas dá só uma olhada neste carro: motor 3.6, seis cilindros, 254 cavalos de potência e atinge de 0 a 100 em cinco segundos. Diga a verdade, dá pra andar numa máquina dessas a 80 Km/h?

- Mmmm.

Ou ainda:

-E então? O senhor vai ou não fazer o teste do bafômetro?

- Posso pensar um pouco mais?

- De quanto tempo o senhor precisa?

- Só o suficiente para passar o efeito do álcool.

- Mmmm.

Um dia, o Mendoncinha descompensou e, pela primeira vez na vida, decidiu ignorar uma barreira policial.

Contam os amigos que o Mendoncinha jogou o carro contra o bloqueio, saiu em disparada e, enquanto foi perseguido pelas viaturas, trafegou pela contramão e cruzou alguns sinais vermelhos. Depois, abandonou o carro num local de grande movimentação e fugiu a pé, até encontrar abrigo num prédio público. Finalmente, foi cercado no banheiro masculino e preso ainda sentado na bacia sanitária com as calças arriadas até o joelho.

Levado ao tribunal, alegou em sua defesa uma devastadora diarréia, razão pela qual não pôde obedecer às ordens das autoridades policiais.

Até hoje ninguém sabe dizer se a alegação foi verdadeira ou se teria sido mais uma das tiradas do Mendoncinha. O fato é que ele não dirige mais, por determinação judicial. Teve que trocar o carro pela bicicleta. Mesmo assim, para evitar surpresas, sempre dá meia volta quando encontra uma blitz no caminho. Justifica para os amigos que faz isso com medo que algo dê em merda.

O Mendoncinha é mesmo incorrigível.

Na teia da aranha

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De volta ao samba (Chico Buarque)

Esta semana, marquei um encontro com um grande amigo num barzinho em Recife. Nenhuma ocasião especial. Apenas aproveitamos a oportunidade para botar a conversa em dia. Gosto daqueles papos que acrescentam vida à vida da gente. No cardápio, amenidades e sarapatel, o manjar dos deuses do Olimpo, segundo os grandes filósofos gregos. Pouca gente sabe, mas eles também eram profundos conhecedores da gastronomia pernambucana.

Em algum momento da nossa conversa, o assunto girou em torno do Estradar. Ele falou da poeira sobre móveis e do mato crescente que vêm tomando conta desse pequeno espaço na internet. O puxão de orelha tinha uma só motivação: acabar com a crônica escassez de crônicas no blog.

Passado alguns minutos, como é da minha natureza, tentei contra-argumentar. Usei em minha defesa as mesmas desculpas de sempre, como a falta de tempo, o excesso de afazeres em meu trabalho, a nova função de pai e o conseqüente entusiasmo com a minha filha. Nem disso eu mesmo me convenci, pois sabia que, no fundo, havia algo mais. Se não encarasse o problema de frente, a situação certamente ficaria um tanto pior.

A verdade, a verdadeira verdade, a inescapável verdade, é que tem me faltado inspiração. Meu cérebro está oco e coberto de teias de aranhas. Nem uma gota de pensamento, nem um trisco de sopro criador. As gavetas do armário estão vazias de idéias e o criado-mudo fez voto de silêncio. Não encontrei nem mesmo fragmentos de estórias iniciadas tempos atrás que me fizessem recuperar o fio de alguma meada a ponto de levar a trama ao seu final. No que dependesse de mim, a literatura estaria mergulhada para sempre num oceano abissal. Tornei-me um escritor – se é que posso me chamar assim – que não escreve. Lá se vai a minha chance de entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Meu amigo, é claro, veio em meu socorro.

- Esse branco total é temporário.

- Você acha mesmo?

- Claro! E caso não seja, você pode tentar outras coisas, como tricô ou dominó.

- Mmmm.

- Por que você não escreve sobre a morte? Tem tanto suicida interessado no assunto.

- Minhas últimas dez crônicas trataram da interrupção definitiva da vida. Temo ter matado meus leitores de tédio.

- Interrupção definitiva da vida? Que coisa mais dramática! Você precisa mesmo é escrever uma comédia!

- Ando rabugento e mau humorado demais pra isso. Além do mais, gosto de uma coisa mais deprê, entende? Confesso que às vezes choro depois de ler o que escrevo.

- Grande coisa! Sua esposa me disse uma vez que você chorou assistindo a Superman. Se eu não lhe conhecesse bem, diria que você foi criado com vó.

- Engraçadinho.

- Deve haver uma explicação para essa falta de inspiração. Teu casamento não anda em crise, não?

- Minha esposa ainda me ama, apesar de mim.

- Já sei! Escreve alguma coisa sobre umas mulheres gostosas num bacanal. Faz isso que eu até juro que volto a frequentar teu blog.

- Você já me viu escrever pornografia, Juvenal?!

- Se é assim, desisto! Agora estou eu sem inspiração para te inspirar.

- Pelo visto, isto pega.

Voltei para casa abatido, mas, depois de um banho, fui direto ao computador. Espanei as teias de aranhas do cérebro e comecei a bater nas teclas devagar. “Esta semana, marquei um encontro com um grande amigo num barzinho em Recife…”.

Deixei esse negócio de inspiração de lado, pois já era mais do que tempo de recomeçar.

Agar

Pintura: Perfil de mulher (Eduardo Cambuiú Junior)
perfil-de-mulher-eduardo-cambui-junior

Kalina Paiva

Ao servir por 10 anos
Vivendo vida d´atriz
Recebi meu galardão:
face da terra, dia feliz!

Minha felicidade
sempre foi clandestina
temporã e amarga
basta olhar minhas retinas

Aprendi um só canto:
Sem liberdade eu existia?
Embalava acalantos
Com tecido d´agonia

O meu rouco canto acre
meu céu, meu inferno
transita nesses dois mundos
marcado pelo ferro

Conquistei liberdade
com lamentação e castigo
agora só tem uma verdade:
não tenho sequer abrigo

Liberta nessa terra
Cumprirei a minha sina
Sendo escrava da palavra
Vagando nessa rotina…

A incrível linguagem das moscas

teia

Kalina Paiva

Embora seja australiana, moro no Brasil, na Baía de Guanabara, após meu navio ter aportado aqui acidentalmente. Fui ficando, ficando… Não vem ao caso explicar agora. Por hora, só posso dizer que meus filhos morreram tragicamente e preferi ficar por aqui mesmo, longe dos ares australianos.

A fim de repelir o imenso breu dessa noite fria, eu havia pintado os meus pêlos de loiro para iluminar esses cômodos sombrios desse apartamento minúsculo onde vivo, porém repleto de tanta solidão a ponto de escapar pelas janelas. Já havia perdido as esperanças de que ele voltaria com seus beijos e corpo de juízo final tão prometidos e estranhamente não esperados. Dá para se ter idéia do que é esperar por algo que se sabe que não virá? Meu corpo permanece insone e sedento. Mas logo, logo, providenciarei uma saída.

Mal acreditei quando vi uma mosca doméstica noturna sobrevoando o alimento que eu degustava pouco a pouco. A solidão é terrível. Enfim, uma companhia. Mas aquele inseto se apropriara do meu pedaço e isso me deixou irritada. Mesmo assim, quedei muda, vendo aquelas asas membranosas, agindo de maneira tão natural. Sua língua afagava o alimento, embalando-o torcicolosamente. Nunca esquecerei aquela imagem: uma mosca lambendo o meu alimento. Aquilo me excitava e muito. Como será a textura da sua língua? Será quente? Será úmida? Será áspera? Meu corpo se oferecia em sacrifício à sua língua até então desconhecida por mim, porém desejada.

Sob o manto da felonia, dela eu me aproximei, observando a sua teatralidade, sua dança envolvente coreografada em vôos curtos e rápidos. Parecia ter medo de que eu a afugentasse para longe. Eu não faria isso com um ser que acompanha o homem desde os tempos imemoriais e que, certamente, teria muito a contribuir comigo.

Assim como eu, o inseto tinha medo de ir lá fora. Parecíamos duas presidiárias com receio paranóico de serem reintegradas à vida social. Nunca alguém me entendera tão bem sem pronunciar uma palavra sequer. Aliás, falamos idiomas diferentes. Num momento, percebi que ela perscrutava o meu olhar e lia nas entrelinhas o manto da minha perfídia, minha angustiante perfídia. Por que ela não fugiu nesse momento? Se bem que eu já estava me acostumando com a sua presença, me sentindo parte de sua vida. Aos poucos, passei a entender a incrível linguagem das moscas.

Tenho que confessar: sempre tive um temperamento agressivo e tomava a iniciativa em tudo na minha vida, principalmente no que diz respeito à sedução, mas, desta vez, eu queria sentir como é ser seduzida. Assim, adotei um comportamento passivo.

Foi então que ela saiu, deu três voltas e pousou sobre mim, afagando a minha tez. Meu corpo estava deitado sobre a poltrona. Eu o inclinava mais para sentir o leve peso dela sobre mim, sonhando com a textura da sua língua. Não consegui me conter e expeli um líquido forte e característico que fê-la paralisar incólume, inebriada pelo cheiro.

Girei o meu corpo de forma que a minha boca mirasse a sua, fechei os olhos e esperei. Ela se aproximou, sentiu o meu cheiro de fêmea, mas eu não suportei o cheiro de prazer que ela também exalava. Isso me arrebatou de tal maneira que abri instantaneamente meus olhos, penetrei profundamente em sua alma e disse:

- Muito prazer, sou Aracne.

Em seguida, devorei-a num só momento naquela madrugada silenciosa e fui dormir tranqüila e saciada. De mosca em mosca, aprendi a ser mais aranha e a entender o mundo como algo que pertence ao tamanho da nossa fome. Exatamente por pensar assim, eu devorei o meu marido antes que meus filhos nascessem. Depois, saboreei os meus filhotes, após embalá-los em minha teia, sentindo um pouco o meu próprio sabor de viúva-negra.