Opções:

Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Onde há fumaça, há fogo 2

Efeito e montagem: Dimas Lins

Sombrinha na mão, fazia eu o passo nas ladeiras de Olinda, seguindo e perseguindo um bloco de frevo aqui e outro de maracatu acolá, quando fui sacado abruptamente da multidão. Puxado pelos cabelos, fui conduzido à força até a calçada. Não pude deixar de pensar naquelas mulheres da pré-história assim levadas, de maneira tão gentil e delicada, por homens das cavernas, tacape na mão, num ato de disposição preliminar que geralmente dava início a algum empreendimento amoroso. Ainda bem que, tempos depois, inventaram o jantar à luz de velas, menos agressivo e de resultado mais satisfatório.

Mas, nas ladeiras de Olinda, preparei-me para algo menos afetivo. Poderia, por exemplo, estar sendo atacado por fanáticos seguidores de Pitombeiras, já que casualmente seguia a troça Elefantes, arqui-rival de antigos carnavais. Mas ao chegar à calçada, qual não foi a minha surpresa quando dei de cara com Nero, Imperador emperucado que botou fogo em Roma. Nosso último encontro, ainda me causava terríveis recordações. Por conta dele, fui alvo de investigação policial, onde se buscava apurar o meu envolvimento no incêndio criminoso que pôs abaixo o Mercado da Boa Vista, antigo reduto de boêmios e intelectuais e agora também de loucos de todos os gêneros. Ainda por sua causa, perdi a amizade e fui processo por Sigmund, psicanalista que ficou famoso por tratar das sem-vergonhices entre mãe e filho e que fincara raízes na bela praia de Intermares, território paraibano, onde também teve o seu consultório destruído por um incêndio provocado pelo Imperador. Ainda assim, com o couro cabeludo dolorido, como se houvera sido escalpelado, protestei pelos modos com que fui tratado. Em tom enérgico, disse que quem usava peruca era ele, não eu, portanto, aquilo doía pra burro. Ele demonstrou alguma irritação e foi aí que percebi que, em lugar de sua peruca de estimação, Nero apresentava alguns hectares de um desmatamento sem precedentes na história antiga.

Aportamos, não necessariamente por vontade minha, numa barraca de comes e bebes e passamos a conversar. Desgostoso, ele me contou, ao mesmo tempo em que pedia em meu nome uma cerveja e um Frango à Passarinha, que passaram a mão em sua peruca nas ladeiras de Olinda, quando ele acompanhava o Homem da Meia-Noite. O homem, não o da meia-noite, pegou fogo e quase pôs fogo no bloco, mas foi contido pelos foliões. Disse que acaso achasse o batedor de perucas, mandar-lhe-ia crucificar nos Quatro Cantos, no meio da folia de Momo. Se não achasse – eis o pior – poria fogo em toda a cidade histórica.

Tentei dissuadir meu pirômano amigo de tão assustadora idéia. Lembrei-lhe do desastre no Mercado da Boa Vista, do incêndio no consultório do Dr. Sigmund, da destruição de sua pousada em Porto de Galinhas e das cinzas que se transformou todo o seu império.

Nero ficou pensativo, comeu de uma tacada só o Frango à Passarinha e bebeu de um gole toda a nossa cerveja. Pediu um Sarapatel, segundo ele, invenção dos romanos, e começou a falar de sua vida. Visivelmente exasperado, contestou que o seu reinado estivesse sempre associado à tirania e extravagância, mas reconheceu uma ligeira predileção por uma ou outra crucificaçãozinha e pelas festinhas que costumava patrocinar regadas a vinho e a sacanagem muita. Negou envolvimento na morte do seu tio Cláudio e disse que se tornou Imperador em lugar dele, por causa muito justa.

Nero chorou sinceramente ao relembrar como havia ficado careca. Contou que tinha uma vasta cabeleira e que fazia sucesso com os meninos e meninas da sua época. Ele a havia mandado cortar, a pedido de sua mãe Agripina, para lançar moda nova no Império Romano. Aparou as madeixas e passou então a usar peruca, o que influenciou toda a corte de seu reinado. Logo, Agripina estava inaugurando a “Império do Chinó”, primeira loja de cabeleira postiça de Roma e ponto de partida para um projeto maior, o primeiro shopping da Antiguidade. Outras lojas de peruca tentaram abocanhar uma fatia do novo mercado, mas Agrepina passou a eliminar a concorrência, literalmente, com a ajuda do filho e de umas poucas crucificações. Certa vez, cansado da peruca, Nero decidiu deixar a cabeleira crescer novamente e foi aí que notou que, com o passar do tempo, o cabelo já não crescia mais. Tomado de cólera, mandou raspar a cabeça da sua mãe, para fazer-lhe novos cabelos, e ordenou a sua execução. Em seguinda, pôs fogo nos cabelos de toda a população e Roma então ardeu em chamas.

Decidido a interferir na história, comprei de um ambulante uma peruca colorida de palhaço e agraciei o Imperador. Ele se derramou em lágrimas sinceras e cobriu com satisfação a área de desmatamento capilar. Ainda emocionado, jurou deixar de lado essa mania incendiária e, prova disso, fez promessa de, na manhã seguinte, subir e descer ladeira fantasiado de bombeiro. Dei-lhe um abraço apertado e partir. Já ia indo longe quando ele me parou no grito:

― Pagai a conta, pagão!

Depois, seguiu atrás de um bloco, por certo, doido para incendiar o carnaval.

Seqüestro

Era madrugada, quando fui arrancado de casa e arrastado para dentro de um carro. Fiquei impressionado com o senso de organização da seqüestradora, pois ela teve o tempo e o cuidado de arrumar a minha mala antes de sair. Cuecas, meias, calças, camisas e sapatos, cada coisa em seu lugar. Preparei-me para o pior, pois havia indícios que não se tratava de apenas um seqüestro-relâmpago. Na fuga, ela roubou um taxi e me obrigou a pagar a corrida. Ao menos fiquei com o troco.

A seqüestradora me levou para o aeroporto. Sem poder dizer nada, pois certamente havia a ameaça de uma arma, segui para o check-in. Tentei dizer, com os olhos, para a atendente que estava ali contra a minha vontade. Foi em vão. Ela pediu a minha identidade e despachou a minha bagagem.

Segui para o portão de embarque e mantive a esperança que a arma da seqüestradora fosse descoberta pelo detector de metais. Nada. Concluí que tinha mais gente envolvida.

Já dentro do avião, acionei o botão para chamar a aeromoça e novamente tentei falar com o olhar, mas percebi que toda essa gente que trabalha em aviação, na terra ou no ar, não entende absolutamente nada de linguagem corporal. Sem saída, pedi água. Só aí notei que ela também estava envolvida, já que caí em sono profundo assim que refresquei a garganta.

Fui acordado enquanto roncava. A seqüestradora prudentemente não queria chamar atenção. Assim, ainda com sono, cheguei ao meu destino. Pelo sotaque estranho e pela placa “bem-vindo a Porto Alegre”, deduzi que estava no sul. Pegamos outro carro. Dessa vez, não havia taxímetro, mas tive que deixar uma caução no saguão do aeroporto. Fomos em direção à serra.

Entre árvores, enfim, cheguei ao cativeiro. Um homem uniformizado nos recebeu à porta e nos conduziu a um balcão. Preenchi um formulário e recebi uma chave. Dadas as circunstâncias, as acomodações não eram ruins. Havia cama, TV, frigobar e até mesmo um telefone, embora seguramente as ligações fossem monitoradas.

Fui obrigado a comprar roupas e bijuterias para a seqüestradora e a comer estranhos alimentos, como avestruz ao molho de amora e linguine al pesto e joelho de porco. Não tinha direito à água. Forçado, tomava vinho e cerveja. Era mais fácil me controlar, se ela me mantivesse alcoolizado. Após quinze dias no cativeiro, fui liberado assim que paguei o resgate. Parcelei em três vezes sem juros no cartão de crédito.

Mas o que importa mesmo é que estou vivo. E de volta a Recife.

Por isso, pé na estrada. Ou melhor, no Estradar.

Nota do autor:

Este pequeno texto é para informar que estive de férias. Aliás, ainda estou, mas já estou de volta a terrinha. Infelizmente, antes de partir – e mesmo depois de viajar – não foi possível sequer deixei uma notinha no Estradar.

Tem nada não. Aos poucos a gente vai retomando a escrita.

Abraços,

Dimas

Divã

Efeito cartoon sobre foto: Dimas Lins
(Either JavaScript is not active or you are using an old version of Adobe Flash Player. Please install the newest Flash Player.)
Da maior importância (Caetano Veloso)

Certa vez, escrevi no Torcedor Coral, meu blog sobre o Santa Cruz – um amor não correspondido – uma crônica a respeito de um torcedor que passava por uma crise de abstinência, pois fazia tanto tempo que não via seu time jogar, que lhe bateu um ataque de ansiedade. A narrativa despejava uma montanha de palavras num ritmo frenético que impediam ou dificultavam que o personagem chegasse a algum lugar.

É possível – ou até mesmo provável – que não haja valor literário nesta narrativa que agora faço. Mas a descarga de palavras é forte, como uma rajada de balas, e serve, ao menos, para quebrar a forma, a fórmula e o estilo.

Por isso, fiquei com o desejo de passar a ansiedade de outro personagem para os leitores do Estradar, para que o registro deste formato pudesse ficar por aqui também. Na pior das hipóteses, foi divertido fazer algo tão despretencioso, onde não se quer – ou usando a linguagem do personagem, talvez se queira – chegar a lugar algum.

Dimas Lins

Vou dizer uma coisa, antes que me arrependa. Digo isso, dessa maneira, antes de dizer qualquer coisa, porque quando a gente já começa dizendo uma frase assim é sinal de que vai se arrepender mesmo. E logo eu – por que não me arrependeria? – que tenho um sentimento de culpa que pesa uma tonelada, talvez mais que uma tonelada, quando digo uma coisa que não devia. Mas vou dizer, porque disse antes que ia dizer e não fica bem agora ficar calado ou voltar atrás.

Mas como disse – e não disse ainda, na verdade – tenho algo a dizer, e direi sem rodeios, embora às vezes ande em círculos e não consiga chegar diretamente ao ponto que desejo, porque entre o querer e o fazer há, em certas situações – situações inescapáveis – uma enorme distância. Digo isso, porque, exatamente neste momento em que desejo ir direto ao ponto, mesmo com o relógio correndo, dou voltas e mais voltas para dizer o que quero dizer, o que vou dizer. Mas quando algo nos atormenta é melhor deixar sair, botar pra fora, pois sempre há que se cuidar em primeiro lugar das coisas da alma – depois a gente cuida do resto – mas a força moral do espírito, essa mesma, que impulsiona a gente pra frente, que nos dá equilíbrio, deve mesmo vir em primeiro plano. A topada também nos impulsiona para frente, mas ao contrário da força moral do espírito, não nos dá o equilíbrio necessário para nos manter de pé. Mas falo assim, de cuidar das coisas da alma, porque um sujeito ruim da cabeça terá mais dificuldades que um homem são em fazer algo de útil na vida. Não que os inúteis não tenham lá suas utilidades, mas daquilo que penso e digo – não sei se falo com clareza – que é o que importa agora, não tem qualquer serventia.

Por isso, sem mais demora, porque não sou de me demorar – a não ser em situações iguais a esta, posto que ninguém, eu disse absolutamente ninguém, consegue ter autocontrole sobre algo que não controla – vou dizer o que quero, o que penso e o que pretendo. Farei isso, embora deixe bem claro, pois não quero que restem dúvidas, que o que eu vou dizer não é da conta de ninguém.

O que quero dizer, na verdade, é que não há outra verdade senão aquela que digo agora. E antes que me arrependa, que volte atrás – porque não sou de voltar atrás, a não ser quando me convém, porque às vezes convém voltar atrás – digo para quem quiser ouvir, ainda que reticente, com três pontinhos, com um pé atrás, que eu tenho uns surtos de ansiedade diante de uma mulher, uns ataques repentinos, umas coisa vindas do nada. Não exatamente do nada, porque nada vem do nada, mas de alguma coisa que não seja nada ou diferente de nada, se é que sou compreendido agora quando falo de absolutamente nada.

Mas o fato é que não, definitivamente não, eu não tenho habilidade com as mulheres. Não quero que você me interprete mal, pois sei como funciona a mente humana, capaz de, propositadamente, julgar com dados poucos seguros, maliciar, maldar e espalhar mentiras pela vizinhança e muito além dela, posto que a internet está aí para levar verdades e inverdades aos quatro cantos do planeta. Por isso, digo, redigo e digo de novo que não caio do banco, não atravesso, não solicito, não participo, não peço passagem, não tenho uma vida dentro do armário, não ando como quem vai soltar um pum a qualquer momento e nem tenho atração por pessoas do mesmo sexo ou de outro sexo que achem que são, ou gostariam de ser, ou mesmo pretendem ser, do mesmo sexo que eu. Também deixo claro, como se o sol tivesse caído bem no meio desta sala, pois, como disse, sei como funciona a mente humana, cheia de malícia, de maldade, que não quero ser tratado como uma pessoa preconceituosa, uma vez que não sou, absolutamente não sou, de emitir opinião ou de deixar vazar sentimentos sem um exame crítico, uma análise acurada dos fatos, pois do contrário seria apenas presunção da minha parte achar isso ou aquilo das pessoas e eu não me considero de jeito nenhum uma pessoa presunçosa e também não acho isso ou aquilo das pessoas, senão com algum grau de certeza, mesmo sabendo que a certeza é relativa e depende do ponto de vista de cada observador.

Minhas palavras foram lançadas nesse nosso encontro – e peço-lhe logo que cumpra o seu juramento profissional e não as deixe sair desta sala, nem de boca em boca, nem andando, nem saltitando feito uma gazela – apenas para afirmar com toda franqueza que, embora não tenha nenhum dilema moral com a opção sexual de cada um, a essência do que trato aqui é outra: não tenho habilidade social com as mulheres e ponto final. Não exatamente ponto final, porque ainda não terminei, já que somente agora, depois de dar muitas voltas, coisa que tenho tentado evitar, começo a falar daquilo que finalmente interessa.

Quanto tempo ainda?!

Tenho dificuldades em penetrar nas trincheiras femininas – digo isso sem maldade alguma, pois não sou de maldar, de maliciar como tantos outros, portanto deixo claro que não trato aqui da copulação, do coito, mas de atingir a alma da mulher. Para que você possa fazer melhor juízo do meu juízo, digo, por exemplo, que é penoso visitá-la em seu consultório, pois antes de tudo, você é uma mulher e eu, como já disse, não tenho habilidade com as mulheres. E mesmo pagando para que você me receba bem e trate do meu problema, posto que isto esteja implícito em nossa relação profissional, tenho medo que você, sem motivo algum, já que não dou motivo para que ninguém me destrate mesmo sem motivo algum, bata a porta na minha cara.

A explicação dessa falta de habilidade com as mulheres, essa coisa toda que paralisa minhas pernas, braços e língua – língua, sim, porque se tiver que beijar uma mulher será com a língua e uma língua paralisada não beijará ninguém – se dá por uma razão, uma só razão, uma única razão, que é a razão pela qual fico assim, agoniado, com os pés e mãos suando, salivando, como se estive preste a comer um sarapatel no Mercado da Boa Vista – que é um manjar dos deuses, uma coisa de louco – com os olhos arregalados e com jeito de quem andou tomando drogas, logo eu que acho as drogas uma droga e não busco satisfação pessoal na química, porque eu já detestava química quando fazia segundo grau e não vejo razão para gostar de química agora. Neste aspecto, mais do que qualquer outro aspecto, prefiro a matemática, que é uma coisa mais lógica, com pé e cabeça, ao contrário da química que provoca mudanças no comportamento, porque não há outra coisa que justifique a TPM na mulher ou o meu estranho comportamento diante de uma criatura do sexo feminino, que não a química.

Já esgotou o tempo?!

Foi por isso – e somente por isso, não por outra razão – que pus tudo a perder na virada do ano, e tudo ficou estranho, e tudo ficou esquisito, quando conheci uma mulher maravilhosa, uma mulher sensacional, um manjar dos deuses – como o Sarapatel do Mercado da Boa Vista – uma mulher deliciosa, que tinha pernas, braços, peitos, boca, dentes, olhos e cabelos como nenhuma outra. Digo que conheci, mas na verdade eu não a conheci, ela me conheceu, pois foi ela, não eu, nem outra pessoa, quem tomou a iniciativa de puxar assunto antes da passagem do ano. Suei em bicas, as mãos ficaram geladas, tive taquicardia e quase o coração saltou pela boca quando ela disse oi. Ela poderia ter dito outra coisa, qualquer coisa, falar que o universo está se expandindo e, sendo assim, cada dia fica mais difícil que Deus nos enxergue de onde está, pois somos pequenos, minúsculos e insignificantes, que a minha reação seria exatamente a mesma. Oi já era uma coisa muito difícil de responder, o que dizer então de uma teoria metafísica sobre a miopia divina?

Espera, só mais um minutinho…

Ficamos então conversando, quero dizer, ela ficou conversando, pois eu só conseguia balançar a cabeça para cima e para baixo e às vezes para os lados e mesmo quando deu meia-noite, e soaram as dozes badaladas, e ocorreu a passagem de ano, e ela me abraçou, e me desejou um feliz ano novo, eu ainda só balançava a cabeça para cima e para baixo e às vezes para os lados. Ela me levou para a praia, e eu a segui balançando sem parar a cabeça, desta vez apenas para cima e para baixo, e eu só pensava “eu quero!, eu quero!”, quando ela se deitou comigo na areia e eu fiquei sujo de areia, e eu detesto ficar sujo de areia, porque a areia entra em toda a parte, até nas partes íntimas, e eu só queria beijar a sua boca, tocar em seu sexo, fazer sexo e ficar de boca fechada, só balançando a cabeça para cima e para baixo, não para os lados, porque não haveria razão para balançar a cabeça para os lados, mas ela não, ela gostava de falar, pois achava que eu não dizia nada, porque sabia ouvir, pois os homens não sabem ouvir, e eu também não, eu não sabia ouvir, pois ninguém, a não ser que esteja tendo um ataque de ansiedade, assim como eu estava, balança sem parar a cabeça para cima e para baixo e às vezes para os lados e eu já não balançava a cabeça para cima e para baixo, só para os lados, querendo que ela parasse de falar, que deixasse de blablablá, que me beijasse, para que tudo acontecesse, para eu tocar a minha língua na sua língua, minha mão no seu sexo, meu sexo no seu sexo.

Juro que estou terminando…

Foi nessa hora, nesse justo momento, nesse exato instante, que ela, ao invés de beijar a minha boca, de tocar a sua língua em minha língua, de tocar a sua mão em meu sexo, de tocar o seu sexo em meu sexo e de ficar de boca fechada – por que será que as mulheres têm que falar tanto? – me disse que pensava no aquecimento global,  na camada de ozônio e no degelo da Antartida, que Recife será inundada daqui a cinqüenta anos, já que está abaixo do nível do mar, que o sertão vai virar mar, que o mar vai virar sertão, que enchentes, tsunamis e furacões devastarão a terra, porque os líderes mundiais não entraram em acordo sobre o clima em Copenhague. Eu parei também de balançar a cabeça para os lados, pois já tinha parado de balançar a cabeça para cima e para baixo, para finalmente abrir a boca e dizer que não custava nada ela ficar de boca fechada por um instante, um só instante, que ninguém consegue entrar no clima sabendo das condições do clima daqui a cinqüenta anos, que a temperatura poderia subir, mas do jeito que a coisa ia, outras coisas certamente não subiriam, porque isso não é hora para ficar sabendo que sua cidade será inundada e que me ocorreu que eu também, assim como tantos outros, provavelmente, não teria onde morar daqui a cinqüenta anos, por causa da inundação em Recife, que ela falava em furacões, mas talvez fizesse tempestade em copo d’água.

Ela levantou, talvez porque não gostasse do que eu disse, porque percebesse que eu também não sabia ouvir, assim como todos os outros homens, ou detestasse o som da minha voz, ou odiasse minha eloqüência, ou ainda achasse a minha língua ferina e línguas ferinas não merecem ser beijadas. Em silêncio – só agora ela fez silêncio – ela sumia da minha vista, enquanto eu gritava, eu implorava, que ela falasse do aquecimento global, da camada de ozônio e do degelo na Antartida. Foi aí que eu…

(…)

Eu bem sabia que estava certo quando desconfiei que um dia você, que recebe meu dinheiro para me tratar bem, para cuidar do meu problema profissionalmente, sem motivo aparente, me botasse para fora e batesse a porta na minha cara. Tomara que daqui a cinqüenta anos a enchente inunde também o seu consultório e…

Comer bem


(Either JavaScript is not active or you are using an old version of Adobe Flash Player. Please install the newest Flash Player.)
Ciume de você – Roberto Carlos (Luiz Ayrão)

Quando Mariana se casou com Osvaldo, todo mundo falou que ela fez um bom negócio, como se o casamento fosse um trato mercantil. Abstraindo-se a relação comercial que envolve toda relação afetiva, Osvaldo era, de fato, um bom partido.

Ele, por exemplo, sempre fora um homem atencioso. Sabia ouvir os contratempos e conflitos de Mariana como nenhum outro fora capaz em sua vida. Também era paciente. Certa vez, na véspera do natal, deixou a roda de cerveja com os amigos para passar, sem reclamar, horas a fio num shopping center acompanhando a noiva em suas últimas compras de fim de ano. Coisas do Osvaldo.

Osvaldo também estava em franca ascensão profissional, pois pelo terceiro ano consecutivo era promovido e já ocupava um lugar de destaque na empresa.

Mas, talvez, a maior virtude de Osvaldo – do ponto de vista de uma relação monogâmica, é claro – fosse a fidelidade. Nunca se soube de qualquer indício ou evidência que maculasse o respeito quase venerável que sentia por sua parceira. Nem mesmo os companheiros de farra tinham um tantinho assim para dizer algo que sugerisse um ato de infidelidade. Para os amigos, Osvaldo justificava sua demonstração de zelo com Mariana com uma simples brincadeira. Dizia que, se uma mulher já era difícil de administrar, imaginem então duas ou mais. Para as amigas, inclusive as de Mariana, ficava a convicção de que Osvaldo, como homem íntegro, devia considerar que pior que o peso da infidelidade à mulher amada, só mesmo o peso da traição sobre a sua consciência. Para os homens, enfim, ele era um tolo; para as mulheres, um santo.

Apesar de todas as suas virtudes – ou talvez por causa delas, não se sabe bem – Mariana morria de ciúmes de Osvaldo. Tinha medo, diziam as amigas, de perder um partidão daqueles. Não raro, Mariana fuçava suas roupas, carteira e objetos pessoais. Vasculhava gavetas, arquivos no computador e checava algum novo contato feminino no celular. Reclamava também das vezes que Osvaldo chegava tarde do trabalho. Ele, com toda serenidade, respondia que sua posição na empresa exigia certas obrigações, enquanto ela considerava esses excessos de horas-extras bastante suspeitos.

Mariana agora também implicava quando Osvaldo saía para ver o futebol ou beber com os amigos. Daí o seu afastamento um tanto forçado de amizades tão antigas. Para uns, botava a culpa nas obrigações profissionais; para outros, nos afazeres domésticos.

O tempo passou e Osvaldo já não trabalha mais até tarde. Ele aproveita o horário de almoço para fazer uma refeição rápida, lá mesmo no escritório. Desse jeito, consegue manter a alta produtividade sem desagradar a esposa. Também não sai mais com os amigos. Quem sabe assim não teria, enfim, um pouco de sossego.

Mariana estava satisfeita com a vida do marido, que tomou o hábito de ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Tanto assim que resolveu fazer-lhe um agrado e de surpresa decidiu preparar-lhe um filé ao molho de vinho tinto com risoto de champignon, seu prato predileto.

Nem bem parou na porta do prédio onde o marido trabalhava, Mariana o viu sair de carro do estacionamento e, como nos filmes de espionagem, resolveu segui-lo. Do taxi, ela observou quando ele apanhou uma mulher num bairro do subúrbio e seguiu para um motel. No portão de entrada da casa da felicidade alheia, Mariana armou um tremendo barraco. Tentou arrancar os cabelos da amante e só não atirou o filé em cima do marido, porque foi contida pelo segurança do motel, que pedia que Mariana se controlasse, pois ela estava num lugar de respeito. Exagero, é claro, do segurança, como bem afirmou Mariana, já que motel não era lugar de respeito, mas sim de sacanagem.

Osvaldo pediu que a amante tomasse um taxi e levou a esposa embora. Já em casa, os vizinhos tiveram que conter Mariana, que ameaçava matar o marido com uma faca de cozinha. Foi quando Osvaldo levou a mão ao peito e foi se ajoelhando devagarzinho até deitar-se no chão. Mariana largou a faca e correu em socorro do marido, ao mesmo tempo em que pedia para que alguém chamasse uma ambulância. A vizinha discretamente ainda insinuou que se ela queria mesmo matar o marido, aquela era uma boa oportunidade, mas ficou o dito pelo não dito.

Já faz alguns meses do incidente entre o casal. Os amigos desconfiam que Osvaldo simulara o ataque cardíaco, pois os laudos médicos não acusaram nada que indicasse problemas no coração. E tanto se surpreenderam com as peripécias de Osvaldo que o elegeram o canalha do ano.

Para as amigas de Mariana, ela foi a única culpada, pois o seu ciúme o empurrou para o caminho da perdição, transformando assim, um santo num pagão.

Mariana e Osvaldo estão fazendo terapia de casal e, por sugestão do terapeuta, ela agora permite que ele saia com os amigos. “Uma farrinha de vez em quando é até bom para manter um casamento saudável, pois abre espaço para a individualidade necessária em toda relação”, aconselhou o terapeuta.

Mariana aceitou o trato sob uma condição. Osvaldo agora almoça em casa todos os dias. Pelo sim, pelo não, melhor manter um olho no padre e o outro na missa. Além do mais, quem tem filé em casa não precisa ficar na rua comendo galinha.

Natal na favela

natal.gif

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Papai Noel de Camiseta (Celso Viásfora)

O tempo se movimentava no momento preciso em que o sol se interpõe entre a manhã e a tarde. Mesmo assim a festa de natal já havia começado. Por toda a favela, enfeites decoravam as vias públicas e as casas. Algumas crianças corriam de um lado para o outro, enquanto outras jogavam futebol pelas ruas estreitas.

O mundo cabia na favela e as pessoas chegavam mansamente de todos os lados. Surgiam de lugar nenhum meninos de rua, sem-tetos, sem-amores, amantes e amados, solitários, além dos vizinhos e amigos. Alguém chegou com um violão, outro com um tamborim e mais outro com um pandeiro.

Famílias inteiras se sentavam em volta da mesa e se confraternizavam. No almoço, uma feijoada preparada por várias mãos era servida aos presentes junto com cervejas, cachaças e refrigerantes, que saltavam das geladeiras espalhadas pela vizinhança e se assentavam nos copos e nas gargantas.

Quando enfim chegou a noite e as luzes da favela se acenderam, o mundo parecia mais iluminado. Para satisfação geral, Papai Noel também estava lá e chegou de cara limpa. Não havia barba branca, gorro ou roupa vermelha, nem botas pretas. Apenas chinelo, bermuda e camiseta. De dentro de sua Kombi saltaram bolas, bonecas, lençóis, camisas, toalhas e até mesmo um berço novinho em folha. A festa varou a madrugada, pois não tinha hora para acabar.

Havia muita coisa a celebrar. Um nascimento, sorrisos sinceros, abraços fraternos, amigos verdadeiros e o prazer de querer bem. Para quem mantém o coração aquecido, a felicidade se faz com poucas coisas. Às vezes, basta um tambor bater.

Amor e paixão: a velha dupla que nunca fará as pazes

Amor

Kalina Paiva

Aos 32 anos, cheguei à conclusão: eu nunca amei ninguém! Pois é, se você ficou admirado (a), leitor(a), com o que leu aqui, lamento decepcioná-lo, mas nunca amei de verdade. Cazuza também disse isso em uma canção e ninguém o levou a sério. Certamente, pessoas que me conhecem também acharão a mesma coisa ao verem isso escrito aqui, no entanto permanecerei com esse acontecimento constatado há quatro semanas: eu nunca amei ninguém!

Alguns poderiam dizer que uma comprovação desse tipo é algo frustrante. Para mim, não. Ao menos, agora, eu sei o que não conheço. Talvez, assim, eu venha amar verdadeiramente um dia. Ao menos, dei o primeiro passo, escolhendo a floresta escura e não o caminho das flores: conheci logo a paixão. Com ela, tive experiências difíceis até de acreditar e de narrar. Hoje, não correria mais certos riscos, sinceramente, desnecessários.

É muito confortável lermos o poema Instantes, falsamente atribuído a Jorge Luís Borges, tagarelando aos nossos ouvidos:

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

[...] correria mais riscos…”

(Don Herold, autor de Instantes)

Até já gostei muito desse poema, no entanto Instantes se encontra no limiar entre o carpe diem horaciano e a falta de responsabilidade, depende de como o leitor olha para ele. Correr mais riscos? Uma vida construída sobre paixões, isso sim é correr riscos! Falo de paixões de todo tipo que levam a descontroles emocionais. A poesia nos testemunha tantos desatinos… O episódio de Inês de Castro que o diga!

Paixões são facilmente reconhecíveis e perecíveis também, pois tiram o nosso chão, a ponto de “funcionarmos” em caráter emergencial. Tudo passa a ser exigido, porém camuflado com as vestes da simpatia. Na paixão, o desejo fica salivando. Visceral e impulsiva, sua moeda é a posse e, automaticamente, o egoísmo.

Nesse terreno, existe um prazo de validade, que, segundo pesquisadores da Universidade de Stony Brooks, de Nova York, não é tão passageiro assim. Recentemente, esses cientistas descobriram, analisando a atividade cerebral de casais que estão juntos há pelo menos 20 anos, que a paixão dos primeiros anos não desaparece facilmente com o passar dos anos. A pesquisa feita pela universidade constatou que 10% desses casais mostraram as mesmas reações químicas em seus cérebros quando viram fotos de seus parceiros.

Tão logo me deparei com essa reportagem, pensei: como se já não bastasse ser difícil diferenciar amor e paixão na prática, agora a pesquisa nos diz que esse sentimento emergencial já consegue durar mais tempo, contrariando a ideia de que a paixão é breve, “um fogo de palha”, conforme nossos experientes avôs e avós – Um ano e três meses? Duas semanas? Um mês? 20 anos? A minha durou quase 12 anos bem distribuídos em picos de angústia, felizmente detectável ainda em idade balzaquiana!

Não sou exímia conhecedora da paixão. Mesmo tendo dela falado, continuo sem conhecer o amor, mas acredito que, quando ele estiver sorrindo para mim, será algo sublime que me levará a uma paz inexplicável e à sensação de estar plena. Quem sabe assim, num futuro próximo ou distante, poderei escrever algo a respeito da experiência com esse sentimento? O xis da questão é: como saberei quando o amor estiver sorrindo para mim, cara a cara? Meu único infortúnio é que não posso estabelecer um prazo para a criação desse novo texto, para decepção dos leitores.