Fim de tarde
- 25 de agosto de 2010 | 11:42h
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Efeito cartoon sobre foto: Dimas Lins

Ronaldo Correia de Brito, escritor
No fim de tarde desta última segunda-feira, tive o prazer de conhecer pessoalmente o escritor Ronaldo Correia de Brito. Nosso encontro foi ambientado num café em Casa Forte, bairro residencial de Recife, e intermediado por uma amiga em comum para que eu tivesse, humildemente, a oportunidade de colher do escritor suas impressões sobre minhas primeiras tentativas literárias na forma dos originais do Estradar – Crônicas de uma gente brasileira, que tenho o interesse em um dia publicar.
O encontro, para mim, foi um privilégio sem igual. Senti-me honrado em ouvir de um escritor com tanta bagagem dicas e conselhos tão caros para quem busca iniciar uma experiência literária.
Ronaldo tem um corpo franzino e é um pouco mais baixo do que eu. Ainda assim, me senti pequeno demais, minúsculo mesmo, perto dele. Também pudera, ele já tem quase quarenta anos de estrada e é autor dos elogiados Faca e o Livro dos Homens. Em 2007, foi convidado para ser escritor residente e professor visitante na Universidade de Berkeley, Califórnia. Dramaturgo, criou, juntamente com Assis Brasil e Antônio Madureira, o Baile do Menino Deus, encenado em todo país há mais de duas décadas. Em 2009, foi o vencedor do cobiçado Prêmio São Paulo de Literatura, um dos mais importantes do país. Em 2010, é um dos homenageados do A Letra e a Voz – Festival Recifense de Literatura.
Generoso, Ronaldo se deu ao trabalho de um encontro com um escrevente iniciante do qual nunca ouviu falar e nem sabia ao menos se possui alguma qualidade literária. A bem da verdade, nem mesmo eu sei. Numa tarde agradável, com ligeira brisa e temperatura amena e ao sabor de um suco de caju, de um lado, e um cappuccino, de outro, o escritor me deu dicas preciosas sobre processo de criação e publicação. Sugeriu a mudança do nome de um dos capítulos do livro, por causa de uma cacofonia provocada pela união não harmônica de duas palavras, que eu aquiesci e sancionarei a modificação. Provoquei-o sobre o número de crônicas que me propunha a publicar, se não se tratava de um exagero. Ele considerou que um formato com um menor número de crônicas é mais interessante, o que me fez pensar em uma nova seleção dentre os textos já selecionados. Confessei o perigoso apego às coisas que escrevo e que, por isso, tenho enormes dificuldades em ceifar o excedente. Daí, a minha necessidade de uma visão exterior e mais crítica, já que, apesar da dificuldade em cortar, eu reconheço facilmente desníveis na qualidade de alguns escritos.
Sobre o mercado editorial, Ronaldo me disse sem rodeios que não é fácil a publicação de crônicas e contos, pois se dá preferência, geralmente, aos romances. E deu o seu próprio testemunho, já que só agora, depois de tanto tempo de carreira, irá lançar seu primeiro livro de contos, Retratos Imorais (28 de agosto, às 18h30minh, no auditório da Livraria Cultura, Editora Alfaguara). Mesmo assim, aconselhou-me a manter a persistência, já que ele mesmo só conseguiu sua primeira publicação literária depois de vinte anos como escritor. A demora, segundo ele, foi fruto de tímidas tentativas de mostrar o seu trabalho.
Médico, Ronaldo disse que a medicina e a literatura têm uma relação profunda. “A primeira pergunta que um médico faz ao seu paciente é ‘qual é a sua história?’”. Entendi que a partir dali se abria um mundo de possibilidades literárias. Fiquei com uma pontinha de inveja desse universo, já que o meu mundo é diferente, mais fechado, pois sou auditor e há uma tendência natural à retração do auditado diante do exame comprobatório relativo às atividades contábeis e financeiras de uma instituição.
Tinha muita coisa para lhe perguntar e, por isso, demonstrei alguma ansiedade. Disse-lhe que faço e refaço um texto muitas vezes durante o processo de criação. Ronaldo revelou que, somente um dos capítulos de Galileia, ele reescreveu cerca de cento e vinte vezes. Senti alívio. Disse-lhe então que estava em tempo de iniciar o meu primeiro romance e que intencionava sistematizar o livro, de acordo com as sugestões do escritor americano Robert J. Ray (O escritor de fim de semana, editora ática) para a criação dos personagens, a construção das cenas e enredo, mas temia desperdiçar muito tempo num processo longo e que eu não sabia, por inexperiência, se era, de fato, eficiente. Soube então que Ronaldo praticamente escreve livros paralelos aos seus livros, onde mantém as informações detalhadas sobre os personagens e tramas. Contou ainda como considera importante pensar na cena com todas as suas nuances, como a luminosidade, o cheiro e a ambientação.
Depois de uma longa e proveitosa conversa, caminhamos pelas ruas do bairro de Casa Forte em direção às nossas casas, já que moramos próximos um do outro. Ronaldo foi embora levando os originais de Estradar debaixo do braço e prometendo, em breve, me dizer as suas impressões. Desde então fiquei ansioso. Considerando a extensão do material que lhe entreguei e seus compromissos pessoais, sei bem que seu retorno levará algum tempo. A mesma ansiedade tive quando entreguei uma cópia dos originais a Flávia Suassuna, professora de literatura e escritora, cuja opinião também considero pra lá de relevante. No meio de tanta satisfação, apenas um frio na barriga, que vem do receio que meus textos não estejam à altura de tão ilustres leitores.
Saí do encontro satisfeito da vida e voltei para casa louco para seguir adiante. E cá estou.







