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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Cordão da saideira

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No Cordão da Saideira (Edu Lobo) 

Dimas Lins


“República soberana de São José, íntima do Capibaribe e do mar-oceano, verticalizada nas torres de suas igrejas que refletem o céu dos tempos.”

 Amílcar Dória Matos


Foi a necessidade que me levou de volta ao velho bairro onde morei. Em tempos de inverno, procurava uma capa de chuva nas lojas populares. As mesmas lojas que antigamente me empurraram para fora de lá, agora me traziam de volta, por uma razão tão banal. Já havia retornado ao bairro em muitas outras oportunidades, mas em nenhuma delas me demorei além do necessário. Seria a primeira vez.

(Na minha infância, o bairro de São José era um dos últimos redutos residenciais encravados no centro de Recife. Com o tempo, o comércio varejista foi ocupando as casas e pequenos prédios do local, deixando o dia agitado e as noites desertas. O bairro foi se transformando até tornar-se inseguro, pois junto com o comércio vieram os assassinos, bandidos e ladrões. Foi desse jeito que se anunciou a hora de partir.)

Deixei o carro nas proximidades da antiga Estação Rodoviária de Santa Rita e caminhei em direção à Rua das Calçadas. À minha esquerda, o Forte das Cinco Pontas, última construção holandesa em Recife, ainda me deslumbrava. A fortaleza, monumento representativo da arquitetura colonial, foi construída em 1630 para proteger dos ataques de navios inimigos as cacimbas de água potável, ponto vital para o abastecimento da cidade naquela época. O local, durante a minha infância, foi desativado pelo exército e serviu de palco para as nossas brincadeiras de criança. O mesmo Forte que servira à repressão da ditadura militar, para onde foi levado o líder comunista Gregório Bezerra, depois de ser arrastado pelas ruas de Recife, em 02 de abril de 1964, também fora responsável por grande parte dos momentos felizes que vivi no bairro. As tragédias e as alegrias às vezes pegam o mesmo atalho.

Apesar de vasto, considerava o bairro, na minha meninice, apenas o perímetro que ia do Mercado de São José à Praça Sérgio Loreto. Para mim, a Casa da Cultura e a Estação Central estariam, por assim dizer, entrincheiradas em território estrangeiro. É que os meus pés pequenos não ousavam se distanciar tanto assim da Rua Padre Floriano, onde residi a maior parte do tempo.

Entrei no bairro pelas ruas das Calçadas e reconheci a pavimentação de pedra, assim como percebi que ainda estavam lá os trilhos onde circulavam os antigos bondinhos em tempos mais remotos. Despejei-me numa loja aqui e acolá, mas não encontrei o que procurava. À altura da Igreja da Penha, dobrei à direita no Beco do Veado e notei que ainda compunha a paisagem a pequena escultura do cervídeo pendurada em uma de suas esquinas, como há trinta anos atrás. Mas foi no reencontro com a Padre Floriano que fiz a passagem no tempo.

Lembrei-me de Seu Cláudio, um homem gordo que, em tom de galhofa, ameaçava engolir a bola de futebol, toda vez que ela batia com força contra a sua porta. Recordei da família grega que morava ao lado de nossa casa e da caçula em quem dei o primeiro beijo. Lembrei de Rutênio e Fernando, dois irmãos, duas crianças, que brigaram por uma bobagem qualquer e, trinta anos depois, ainda não se falam. De Luiz Morto que ganhara este apelido por ter escrito uma carta ao seu tio, assinando-a como o “finado Luiz”, adjetivo bonito, mas de desconhecido significado. Das encenações da Paixão de Cristo na Basílica da Penha que, contrariando as irmãs, sempre terminavam em traquinagem. De agir sorrateiramente como penetra de casamentos pelas igrejas do bairro, para poder comer os doces e salgados. Do cine Ideal, na Vital de Negreiros, onde assisti a Tarzan, meu primeiro filme no cinema. Da Noite dos Tambores Silenciosos e de Vassourinhas, Batutas de São José, Pão Duro, Pás Douradas e tantos outros clubes e troças que desfilavam pelas ruas estreitas do bairro, nos gloriosos carnavais, em meio a uma gente alegre e festeira. Do Galo da Madrugada fundado a duas casas da minha. Das brincadeiras de bola de gude no Pirulito, uma praça de dimensões diminutas com um pequeno obelisco ao centro e cercada por palmeiras-barrigudas.

Hoje não tem dança, nem frevo, na praça ninguém pra cantar. Foi-se o tempo do picolé na casa de Josias, das brincadeiras de polícia e ladrão nas quatro pontas do Forte das Cinco Pontas, da guerra entre ruas travada pela molecada, do futebol no asfalto, da sisudez do Sargento Bombinha, das mentiras de Jorge Mentirinha e tantas outras coisas que marcaram a minha infância.

Ao recordar cada casa e cada amigo, senti saudade. Sentado à Praça do Pirulito, enfim, percebi que a decadência do bairro trazida pelo comércio varejista, embora tenha mudado a paisagem, não apagou nossas pegadas.

No cordão da saideira, deixei o bairro sem a capa de chuva, mas levei comigo as lembranças de uma gente que deixou suas marcas nos anos mais incríveis da minha vida.

6 Comentários

  1. Artur 21 de agosto de 2007, às 0:57h

    Essa junção de imagem, música e crônica foi uma grande sacação. Meu chapa, você está fazendo ópera!!!

  2. Robson/Piauí 21 de agosto de 2007, às 10:55h

    O Bairro de São josé tem algo especial pra mim, e está presente na foto, foi na igreja de São José que meus pais casaram. O Forte de Cinco pontas sempre me deixou pensativo, alí frei Caneca foi fuzilado.

  3. Leonardo Jr. 21 de agosto de 2007, às 16:51h

    Belo passeio Editor-Mor…Dei uma volta “virtual” pelo centro da cidade sob sua perspectiva. Que agora já se misturam as minhas e que já não são mais as mesmas…

    O forte das cinco pontas também tem um significado muito especial para mim… Foi lá que troquei alianças com a mulher da minha vida. Muito especial sem dúvida, num ambiente muito peculiar…

    Saudações Dimas!

  4. Gerrá 21 de agosto de 2007, às 22:23h

    Dimas, tudo de bom pro teu blog. o designer tá de primeira. bora pro texto: camarada, não tenho vergonha de sentir inveja. desde que murilo falava sobre ter vivido no bairro de são josé, já ficava pensando nisto. com essas linhas postadas aí, tenho inveja de vocês. abraços e vida longa pra tua escrita.

  5. Ivan Patriota 22 de agosto de 2007, às 12:05h

    Dimas,

    Parabéns pelo seu blog. Morei toda a minha infância em Jardim Atlântico onde sei que você também morou. Apesar de não ser um bairro tão histórico como o de São José, vivi excelentes momentos da minha vida lá.

    As boas lembranças ficam para sempre.

    Sucesso,
    Ivan Patriota.

  6. Robson/Piauí 23 de agosto de 2007, às 12:09h

    Dimas, os comentários dos internautas são enviados para o meu email, isso é normal?

    Abraços!

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