Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Todos os homens são iguais

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Foi Assim - Maria Bethânia (Lupicinio Rodrigues)

Dimas Lins

Emília vivia o fim do seu primeiro casamento. À época, já era mãe de dois filhos quando sua vida conjugal perdeu o vigor. O homem intenso e apaixonado com quem convivera durante quase dez anos deu lugar a um desconhecido que ultimamente apenas dormia e roncava em sua cama. Os mesmos corpos que em outros tempos copulavam com tanto viço, agora faziam uso do móvel de dormir apenas para o repouso.

A mudança aconteceu - como sempre acontece - aos poucos. Começou sutil e terminou avassaladora. Foram-se escasseando as carícias e as frases sacanas embaixo dos lençóis. Os apelidos carinhosos já não soavam bem, nem mesmo entre quatro paredes. No sentido inverso, cresceram as brigas, os insultos e as trocas de acusações. Quando o amor abre a guarda, a indiferença ocupa o espaço vazio.

Da parte dele, começaram as escapadas. Com o tempo, elas deixaram de ser uma aqui e outra acolá e passaram a acontecer com constância. Elevaram-se ao ponto de não existir mais a preocupação em apagar os rastros incriminadores e as provas irrefutáveis da infidelidade conjugal. Foi assim, na desarmonia das horas que a fizera retornar mais cedo para casa, que Emília viu, com seus próprios olhos, o que no íntimo ela já sabia há tempos. A lubricidade dele, estava claro, não acabara, apenas o interesse se transferira para outros corpos. Ele não manifestou nenhum sinal de arrependimento, nem enunciou qualquer pedido de clemência. De sua boca não saiu nenhuma palavra. Apenas um olhar direto que parecia dizer “finalmente!”. Nada mais.

Foram-se os sonhos, ficaram as dores. Mas foi nesta época de separação, desesperança e solidão que seu segundo marido apareceu em sua vida. A relutância natural de um novo envolvimento afetivo fora paulatinamente cedendo espaço à sorte de um amor tranqüilo. Em vez da paixão arrebatadora, quase animal, que lhe tirava o discernimento, a serenidade da afeição e da ternura dos amantes.

Emília, enfim, começava um novo ciclo. Um ciclo do romance à moda antiga, das poesias e das flores, da dama e do cavalheiro, do charme e do fino trato, da admiração, do companheirismo e do respeito mútuo. Um ciclo de um amor retilínio, sem sobressaltos. Adeus às angústias e às madrugadas intermináveis na solidão do quarto de dormir. Em casa, um novo marido, um novo amor, um novo pai para seus filhos, um novo lar.

Mas todos os homens são iguais. E o tempo - ah, o tempo! - sempre se volta contra o amor e os amantes. Não há corações perfeitos, nem amores sempre amáveis. O amor não tolera distração, nem perdoa a traição.

A infidelidade do segundo marido não era igual a do primeiro. A um faltava a retidão, ao outro, não. Um era infiel por opção, o outro, por distração, por desatenção, por descuido. Cometera o deslize de deixar-se levar. Deixou-se seduzir pelo desconhecido, pelo novo. Não tomou a iniciativa. Foi tomado por ela. Para o traído, tanto faz se o parceiro é ativo ou passivo na ação. O que vale é o significado do verbo, é demonstrar infidelidade a. Foi uma vez, uma única vez, uma mísera vez. Mas foi fatal. Ela notara, percebera, testemunhara. Ele exalou sinais de arrependimento, implorou clemência, enunciou mil palavras de pesar. Todas em vão. O remorso não desfaz a traição, no máximo, atenua. Dois pesos, a mesma medida. Quando o coração é tomado pela mágoa e pelo rancor, mais que depressa a mão cega executa, pois que senão o coração perdoa.

Agora Emília está só. Não há ninguém em sua vida. Em seu coração, o desengano feriu de morte a esperança. “Todos os homens são iguais!”. Não há mais espaço para uma nova paixão, um novo alumbramento, um novo amor. A estrada sempre a leva ao mesmo lugar. Quem aparece em seu caminho tem os defeitos iguais.

2 Comentários

  1. Gravatar Artur 24 de agosto de 2007, às 12:45h

    Pois é… Essa crônica deixou-me pensativo em relação ao seu conteúdo e não propriamente sobre sua forma. Diria que o amor é a paixão em movimento. Todo casal deveria colocar isso num brasão. Se a paixão é apenas o início fulgurante da relação, o que sobra ao amor? Família? Companheirismo? Na verdade, se amor e paixão não estiverem conectados, bye-bye sentimentos amorosos na conjugalidade. O amor sem paixão torna-se um imenso gostar, condição necessária, mas insuficiente para manter a chama. Resultado? Infidelidade, apatia e roncos na cama. Mostrarei a tua crônica a Afta (hehe…).

  2. Gravatar Robson/Piauí 24 de agosto de 2007, às 16:54h

    Beleza a associação do texto com a música de Lupicíno Rodrigues. Homens são iguais, mulheres são iguais, mas uns mais iguais que os outros. Talvez entendendo as diferenças os dois poderão permanecer sempre sendo um.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos