Canção da despedida
Dimas Lins
Conheci Arnaldo em 1992, quando passei no concurso para o cargo de Técnico do Tesouro Nacional. Esta transição foi um marco na minha vida, pois deixei a iniciativa privada, onde tentava crescer na carreira de auditor, e passei a exercer atividades no serviço público. Troquei o capitalismo selvagem, com suas horas extras intermináveis e não remuneradas, por um salário mais justo a curto prazo. Quem está na parte de baixo da pirâmide social tem necessidades imediatas e esse era o meu caso. Deixei as portas abertas, mas atravessei-as para nunca mais voltar.
Mas falava de Arnaldo. Foi no curso de formação, etapa ainda eliminatória do concurso, que o conheci. Ele morava em Olinda e fugia aos padrões do olindense típico. Odiava multidão e, por conseqüência, carnaval. Nada de Elefante, Pitombeiras, Ceroulas ou Vassourinhas. Do seu ponto de vista, mais de cinco pessoas já era multidão. Também não gostava de futebol. Para um pernambucano, isso é tão improvável quanto um passista não gostar de frevo. E embora não gostasse de cerveja à época, apreciava uma boa cachaça. O homem, que fique claro, não era caneiro profissional, apenas apreciador moderado.
Sua voz rouca e seu temperamento forte passam sempre a impressão de um sujeito bruto, embora no fundo seja sentimental. As aparências sempre enganam. Arnaldo é inteligente, mas irrequieto. Capaz de fazer cálculos centesimais de cabeça, iniciou cinco cursos universitários e, até onde eu saiba, nunca terminou nenhum. Paciência não é o seu forte. Hábil jogador de sinuca, herança do pai, às vezes jogava contra mim usando apenas uma das mãos. E como destro, usava a esquerda, só para humilhar. Ainda assim, nunca ganhei uma partida sequer. Arnaldo nunca deixou. Não pensem que ele era um competidor compulsivo. Nada disso. Apenas não sabia fingir. Sinceridade até jogando sinuca.
Juntos, atravessamos nossa primeira greve e também nosso primeiro dilema. Ainda estávamos no estágio probatório na Receita Federal e havia o risco real da exoneração de ofício. Em linguagem menos tecnocrata, poderíamos ser postos no olho da rua, a qualquer momento, pois a lei não estava do nosso lado. Éramos jovens demais e agíamos de maneira irrefletida. A bem da verdade, ele relutou em entrar em greve, pois tinha medo de perder o emprego. Eu acabei dando uma forcinha.
Convenci Arnaldo a, não apenas aderir, mas a fazer parte do comando de greve. O cabra frouxo, com o tempo, tornara-se sindicalista, comunista e presidente do primeiro diretório do PC do B em Limoeiro. Foi só um empurrãozinho e lá foi ele ladeira abaixo. “Criei um monstro!”. Infelizmente, o deslocamento do PT da esquerda para o centro jogou fora a sua crença no governo do povo, para o povo e pelo povo. Ele não só largou tudo, como fez questão de não acompanhar mais nada sobre política. Pois é, Arnaldo é assim. Se não há paixão naquilo que se faz, não há razão para fazê-lo.
O tempo passou e nossa amizade se fortaleceu. Foi nesta época que ele conheceu sua prima Suzana e começaram a namorar. E aí vem uma história curiosa.
Tempos atrás, Arnaldo havia feito alguns exames que revelaram sua dificuldade em ter filhos. Não era estéril, é certo, mas a fertilidade só chegaria com um tratamento clínico. Ocorre que, neste meio tempo, Suzana engravidou e, com a gravidez, veio o medo da desconfiança do namorado. Como dizer a um homem clinicamente “estéril” que ele seria pai do seu filho? O tempo passava, a barriga crescia e Suzana não reunia a coragem necessária para ter com o namorado. Até que, aos cinco meses de gravidez, Arnaldo, com o seu senso aguçado de observação e a sensibilidade de um tiranossauro rex, sugeriu discretamente à namorada moderação no apetite. Foi assim, dessa forma arnaldiana, que revelou-se enfim a gravidez.
Hoje, eles estão casados e têm dois filhos, Caio, o primogênito de quem sou padrinho, e Tales. Ah! Arnaldo nunca fez o tratamento de fertilidade. E antes que interpretem mal nossa querida Suzana, basta olhar para os filhos e perceber que são a cara do pai. Há que um dia se entender melhor a medicina e o corpo humano.
Com a nova família, veio o desejo de morar no interior. Queria dar aos filhos a oportunidade de crescer no campo. Pediu transferência para Limoeiro e lá comprou um pequeno sítio. Na ocasião, eu já não trabalhava mais na Receita Federal. Mesmo assim, a amizade se intensificou. De amigos, passamos a compadres e irmãos, embora distantes. A vida tem essas coisas de trazer grandes pessoas para perto da gente e depois levá-las embora.
Passei, junto com a minha esposa, a visitá-los ocasionalmente, embora nos falássemos com alguma freqüência ao telefone. No ano passado, Arnaldo me comunicou solenemente que havia recebido uma proposta para chefiar uma agência da Receita no interior de Minas. Trocaria o calor nordestino pelo frio do sudeste. A surpresa da notícia me fez perceber que há sempre muitas maneiras de ir-se embora mais de uma vez.
Arnaldo levou-se para Minas no final do ano passado e, na oportunidade, produzi este vídeo para registrar a despedida. Confesso que foi difícil fazê-lo, pois, por entre as imagens, é possível perceber uma saudade antecipada e indisfarçável. É que, para mim, este é mais que um vídeo. É o registro de uma amizade sincera, cunhada ao longo do tempo.
Hoje, os contatos têm-se rareado, mesmo nos dias atuais, de internet e dos skypes da vida. Mas a amizade prossegue assim mesmo, silenciosa.
De Recife, te mando um abraço! Fica em paz, meu velho! Segue tua vida daí, que eu sigo a minha daqui. E se bater saudade, ouve a canção e lembra que qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar.
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