O pão dos vivos
Quadro: Mauro Andriole

Aguapé - Fagner e Belchior (Belchior)
Dimas Lins
As alpercatas gastas pelo uso deixam um rastro de poeira na estrada batida de terra. Sobre elas, um homem de pele cabocla, mãos engelhadas e olhos cansados atravessa o sertão. Entre ele e o céu, um velho chapéu de couro, última proteção contra um sol difícil de ser suportado. Em seus ombros, uma maleta de pano amarrada na ponta de uma enxada. Ao seu lado, mulher e filhos acompanham seus passos. Ficaram para trás a casa abandonada e o pequeno pedaço de terra, que agora oculta o corpo da filha morta.
Em se plantando, nada dá. A mesma enxada que até poucos dias inutilmente revolvera o solo seco tentando fecundar a terra estéril, cavara a sepultura da caçula, embaixo de uma velha catingueira. Por entre os seus galhos secos, ao invés de uma réstia, desce um sol imenso, um inferno na terra. Deixai toda esperança, vós que entrais!
Do pó viemos e ao pó retornamos. No funeral da pequena lavradora, velas, cânticos e preces clamavam pela misericórdia divina. A submissão à vontade do destino é capaz de asfixiar a esperança. Homens e mulheres pouco providos do necessário entregam sua vida nas mãos de Deus.
A vida não é mãe, é madrasta. O corpo inerte de hoje já correra pela casa, por entre os cômodos precários de mobília, e brincava de boneca. O alimento invisível do brinquedo era também o seu. Alimentava-se de luz e esperança, enquanto morria de fome.
Anos atrás, veio à luz apressada e agora se foi com a mesma impaciência. Saiu do ventre para um mundo cão e para a morte certa, prematura, injustificada. Nasceu para gritar por socorro e não ser ouvida. Como ela, tantos outros vieram e ainda virão.
De volta à estrada, segue a busca por um canto novo, um açude, um lago represado de esperança - o pão dos vivos. Enquanto isso, caminham lado a lado, a morte, a saudade e a dor.
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