Arquivo de 28 de setembro de 2007, às 0:00h
História de uma viciada em laquê
Arte sobre foto: Dimas Lins

Chocolate - Marisa Monte (Tim Maia)
Dimas Lins
Digo logo assim de cara, sem afetação: era dependente química. Manteve por muito tempo um costume censurável e prejudicial. Os familiares e amigos deram-lhe apoio e força, mas foi por muito pouco que ela não se perdeu para sempre.
Os jornais estão cheios de histórias de pessoas que tem a sua vida destruída pelo vício e, por isso, o alívio foi geral quando ela se reabilitou. No começo, desconfiaram de muita coisa. Pensaram em maconha, cocaína, crack, heroína, álcool, cigarro, café, chocolate, sexo, internet, jogos de azar, televisão e… nada! Sabiam que tinha algo errado, mas não conseguiam perceber o que era. Ás vezes, o vício está onde menos se espera. A resposta estava embaixo do nariz, ou melhor, acima dele. Melhor ainda, acima da testa, mais precisamente no cabelo. Ela era viciada em laquê. Isso mesmo, laquê! Aquele produto que se vaporiza sobre os cabelos para fixar o penteado.
Seu vício começou igual a todos os outros vícios. Surgiu de maneira casual e inesperada até tomar o domínio de suas ações. Foi no dia do casamento de sua prima que usou laquê pela primeira vez. Depois de chegar do salão de beleza, teve a ingrata surpresa de ver que seu penteado se desmanchara. Foi a mamãe, aquela desnaturada, sangue do seu próprio sangue, que lhe ofereceu aquela droga. Fez um penteado rápido e aplicou o produto para fixar o cabelo. O resultado foi impressionante! O cabelo não se desfez e pouco importava se ela ficara com a cara de Marge Simpson, mulher do abilolado Homer. O efeito do produto lhe deixou anestesiada. Gostou tanto da sensação que não tinha dúvidas que usaria novamente o alucinógeno. Alucinógeno, sim! Pois, só alguém alucinada iria se achar atraente com a cara de um dos personagens dos Simpsons. Sem contar que seu estado eufórico não era natural. Também não era natural o formato de seu cabelo que ficara grudento e parecido com um rolo de arame farpado.
Com o tempo, passou a usar laquê em todos os encontros sociais. Começou, como disse, em casamentos, depois passou para formaturas, festas de debutantes e bailes de carnaval. Mas as pessoas começaram a perceber que havia algo errado quando ela passou a ir para a balada usando laquê. Outra, não perdia um programa de Hebe Camargo, o fim da picada para uma jovem de 25 anos.
O tempo passou e as coisas só pioraram. Ela começou a usar o fixador de penteado para ir ao shopping, ao cinema ou a qualquer barzinho. Quando lhe perguntavam por que ela usava tanto laquê, a resposta era uma só: “meu cabelo não desarma nem sob tempestade!”. As amigas achavam tudo aquilo muito estranho, mas sempre que tocavam no assunto, ela, cheia de topete, tinha um ataque histérico e ia embora, deixando-as falando sozinhas.
No estágio mais avançado da dependência química, passou a usar laquê no trabalho. Era vista com estranheza quando, em meio a uma reunião, sacava o fixador de cabelo e aplicava ali, na frente de todo mundo. Uma despudorada! Chegou a ser advertida por seu chefe em várias ocasiões, mas não se emendou. Finalmente, foi demitida quando lhe flagraram no banheiro, cheirando com sofreguidão um tubo do aerossol.
Desde então, passava o dia em casa, trancada em seu quarto, sorvendo tubos e mais tubos de laquê. Foi aí que a família resolveu intervir. Como primeira medida, os pais jogaram fora todos os frascos de areossol que havia em casa. Foram tempos difíceis. Testemunharam a filha, em inúmeras oportunidades, tomada pela dependência química, quebrando as coisas da casa e roubando dinheiro para sustentar seu vício.
Foi então que resolveram interná-la numa clínica de reabilitação para dependentes químicos. Fugiu diversas vezes, mais foi graças à perseverança dos pais e o apoio dos amigos que finalmente conseguiu vencer o vício.
Hoje, ela está à frente de uma organização não governamental que tem como objetivo conscientizar e prevenir a população dos riscos que o laquê pode causar às pessoas. Em seus depoimentos, ela conta que apesar do esforço, não está totalmente curada e que a luta contra a dependência nunca terminará. Ela, ainda hoje, se esforça para não cair em tentação. Não vai mais a casamentos nem formaturas, por exemplo, com medo de uma recaída. Tem evitado usar qualquer produto no cabelo e, a muito custo, voltou a usar xampu na semana passada, mesmo assim com acompanhamento terapêutico.
Semana que vem, ela tem em sua agenda um encontro marcado com o presidente da república, onde apresentará um anteprojeto de lei de iniciativa popular que pretende transformar o laquê em droga ilícita. O anteprojeto encontra resistência nos fabricantes de produtos de beleza, cabeleireiros em geral e algumas apresentadoras de TV. A briga promete ser boa e vamos ver no que isso vai dar.
A história dessa jovem deixa, ao menos, uma mensagem inequívoca às mulheres: laquê é uma droga!
8 comentáriosQue a terra nos seja leve

Pequeno perfil de um cidadão comum (Belchior/Toquinho)
Dimas Lins
A morte ainda causa espanto. Não sei exatamente se o que me espanta mais é o fim da existência ou a ausência, em caráter definitivo, de quem amamos. Sinto-me incomodado em saber que, na maioria das vezes, esta separação permanente ocorre a contragosto dos que vão e dos que ficam. A natureza natural da morte encontra resistência na naturalidade do sofrimento, causado pela privação do convívio. Não importa se há outra vida além desta vida, pois, ainda assim, a morte causa a ruptura no tecido social, deixando um oco na célula familiar. E esse vácuo se estenderá entre os amigos, pelas ruas do bairro, pelos cantos da cidade e pelos rincões do país.
Soube da morte do pai de um amigo, poucas horas antes do funeral. Passei o dia anterior desconectado do resto do mundo, por causa da bateria do meu celular e, por isso, recebi a notícia apenas no dia seguinte.
Apesar da amizade de muito tempo, não conhecia seu pai. A bem da verdade, não sabia quase nada da vida dele, embora soubesse os detalhes de sua morte. Senti uma sensação estranha ao perceber que conhecia mais sobre as circunstâncias da sua morte do que sobre todo o resto de sua vida. Fiquei me perguntando sobre ele e tentando imaginar seu modo de viver.
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida
Na entrada do cemitério, emoções se misturam. Há um entra e sai de lágrimas e dores, enquanto ambulantes, flanelinhas e coveiros, imunizados pelo cotidiano, falam alto e até dão gargalhadas. O mundo dos vivos precisa de reformas.
Ao lado da minha esposa, atravesso em silêncio as ruas cercadas de mausoléus e me dirijo à capela. Lá dentro, entre preces e cânticos, encontro dezenas de pessoas mergulhadas em profunda tristeza. Embora não saiba o que fazer nessas horas, me aproximo do amigo e dou-lhe um abraço, sem dizer uma só palavra. O silêncio é melhor do que uma palavra errada. Ele, apesar da perda, parece bem, embora as aparências possam enganar.
Em pouco tempo, alguém se aproxima e pergunta sobre as circunstâncias da morte. Ouço o relato, exaustivamente repetido por ele - imagino - sobre o enfarte do pai na sexta-feira, a melhora súbita na manhã do sábado e o falecimento no meio da tarde. A morte ocorreu enquanto o pai conversava com o médico. Dizia que estava se sentindo bem e queria ser transferido da UTI para um apartamento no hospital. O médico, depois de dizer que melhor seria esperar até a segunda-feira, virou-se para falar com a enfermeira. Foi nesse exato momento que veio outro enfarto e travou-se uma luta para manter o paciente vivo. Não foi possível.
Depois do relato, o ouvinte se afastou e ficamos a sós. Meu amigo comentou que há vinte horas era massacrado por rituais fúnebres. Cansado, concluiu dizendo que queria apenas que tudo terminasse, para que todos pudessem descansar. Não entendo a maratona a que a família e os amigos têm que se submeter durante um funeral. Desde a liberação do corpo pelo hospital, a demora no IML e a contratação de uma agência funerária que, em muitos casos, age como urubus, não se importando com a dor da família. Mas o pior de tudo é o velório que, às vezes, leva a exaustão corações já exaustos.
Enfim, chega a hora de levar o caixão e me aproximo pela primeira vez para oferecer ajuda. Ao ver o morto, lembrei-me das palavras de Afta no Blog dos Perrusi, onde ela diz:
Mas havia um corpo ali dentro, um corpo morto, inerte, agressivamente inerte. O que choca naquele corpo é a radical ausência de movimento. A gente olha um corpo humano e espera ver alguma vida lá dentro. Mas ali não. O mais feio da morte é essa ausência absoluta de movimento. Olhando bem, o corpo tem tanto a ver com a pessoa que morreu quanto suas roupas ou até a madeira do caixão.
Saímos da capela em direção ao jazigo. Durante o percurso, o silêncio é interrompido apenas pelo vento nas folhas das árvores e pelas pisadas das pessoas que acompanham o cortejo. Numa das ruas do cemitério, uma cena me comove. Um homem vestindo uma farda de motorista ou de cobrador de ônibus está sentado à frente de uma das gavetas funerárias. Ele está só, de cabeça baixa e em silêncio. Ignorando a multidão, permanece na mesma posição, enquanto passamos. No túmulo, velas acesas. Dentro dele, talvez sua esposa, seu filho, seu pai ou sua mãe. Imaginar a sua história me deixa emocionado.
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para morte pensando em vencer na vida
O caixão encontra-se com seu jazigo e todos, em silêncio, esperamos. Antes de irmos embora, meu irmão recebe a ligação de um amigo em comum que também está no cemitério. Sua tia falecera no final da noite, por causa de um tumor na vesícula. Seguimos todos para abraçá-lo, inclusive, o que acabara de enterrar o pai. Conversamos um pouco, mas não acompanhamos o sepultamento. Havia muita morte no ar e era preciso respirar um pouco de vida. Despedimo-nos e deixamos a família em seu recolhimento.
Na manhã seguinte, já no trabalho, recebo a notícia do falecimento da mãe de um colega. Alguns amigos encaminham-se ao cemitério, mas eu prefiro seguir para casa. Parece que chegou o tempo de morrer e, por isso mesmo, é preciso cuidar dos vivos, enquanto há tempo.
Que a terra nos seja leve.
7 comentáriosUniverso particular
Arte sobre desenho: Dimas Lins

Paranóia (Raul Seixas)
Dimas Lins
A mente é um universo particular. Um mundo paralelo, independente, sem medidas e limites, e desconexo dos outros universos ao redor. No plano físico, ela é materializada na forma do cérebro. Essa pequena coisinha alojada na caixa óssea, que ocupa a parte superior e inferior da cabeça e coordena todas as ações do corpo, é capaz de transmitir o que há de mais elevado no sentimento humano ou de cometer as maiores excentricidades e tolices.
Essa massa cinzenta de substância nervosa, às vezes, pode apresentar pequenas imperfeições que tornam o comportamento humano mais imprevisível do que já é. Mas é no plano metafísico, onde a mente é o poder intelectual do espírito, que os sintomas dessas imperfeições se manifestam com mais claridade.
No seu caso, não se sabe exatamente quando apareceram as primeiras manifestações do conflito psicológico. Entretanto, há lembranças de pequenas mudanças no seu comportamento ainda na infância.
Criado segundo os dogmas religiosos, era comum ouvir referências sobre a transcendência e onipresença de Deus e todas essas coisas sobre anjos da guarda e espíritos rondando, invisíveis, o mundo dos vivos. Fazendo exatamente o quê, não se sabe.
O que se sabe mesmo é que ele nunca achou natural esse tipo de coisa que ultrapassa o natural. Por isso, cresceu com essa cisma. Sentia desconfiança e medo em relação a tudo que era fantasmagórico e sobrenatural. Começou a ter temor do escuro e, depois, a falar sozinho, como se conversasse com alguém. Vez por outra, era visto com o ouvido nas paredes ou pressionando seu corpo contra alguma porta, como se tentasse atravessá-la. Além do mais, andava cercado de livros, muitos livros, de todos os tipos e assuntos. Ia desde publicações espíritas a história da humanidade.
Foi nessas circunstâncias, quando aumentaram os delírios e a família compreendeu mais claramente que ocorrera uma ruptura psicótica, que resolveram levá-lo a um psicanalista. Por certo, seria um distúrbio delirante paranóide com riscos de internação.
Entrou no consultório com ar superior e parou no meio da sala.
- E onde eu me sento?
O psicanalista apontou-lhe o divã e convidou-o a deitar-se.
- Em que posso servi-lo?
- No máximo uma água mineral, que eu não bebo nada alcoólico, nem tomo refrigerante.
- Quis dizer, como posso lhe ajudar?
- Se o senhor que é o médico não sabe, eu que vou saber?
- Soube que você anda ouvindo vozes - disse o médico, indo direto ao ponto, para evitar mais desencontros verbais.
- E o senhor, não?!
- Não.
- E por acaso todos os seus pacientes falam pela linguagem dos sinais?
- Claro que não!
- Nesse caso, é melhor o senhor procurar um otorrino.
O psicanalista sorriu, percebendo que o paciente usaria da ironia, durante a consulta, para desviar ardilosamente a sua atenção.
- Eu ouço muito bem. Mas vamos falar de você…
- Por quê?
- Porque eu não tenho importância. O que importa aqui é você.
- Coitado! Um médico com complexo de inferioridade.
- Você ouve vozes dos mortos? - disse, tentando manter o controle da conversa.
- Eu tenho a impressão que o senhor nunca foi a um funeral, porque, se tivesse ido, saberia que mortos não falam.
- Você ouve ou não vozes sobrenaturais? - disse o médico, dando os primeiros sinais de impaciência.
- Ouço, sim.
Finalmente uma resposta que poderia ser o fio condutor da consulta.
- E você tem idéia de como tudo começou?
- Tudo começou com o bigue-bangue. Foi uma grande explosão, milhares de partículas se espalharam e…
Aborrecido, o psicanalista interrompeu a sua fala. Explicou-lhe o objetivo da sessão e, depois disso, pediu que prosseguisse dentro da linha terapêutica. Ele pediu desculpas e disse que foi um desejo incontrolável, porque sempre quis dizer isso numa terapia. Era um pequeno prazer ao qual não resistiu. Mas tão logo o médico devolveu-lhe a palavra e pediu para que continuasse, retomou a palestra sobre os átomos e, milhões de anos depois, sobre o surgimento das primeiras formas de vida. Aborrecido, o médico deu por encerrada a sessão e dispensou o paciente.
Dois anos se passaram desde então e ele continua sob os cuidados do mesmo psicanalista que, até hoje, não sabe dizer se o paciente sofre de alguma paranóia ou é, na verdade, um grande gozador.
Durante todo esse tempo de psicanálise, o doente contou tudo o que sabia sobre o bigue-bangue, a história dos dinossauros, as primeiras sociedades primitivas, as civilizações antigas e a queda de Constantinopla. Na semana passada, começou a falar sobre a revolução francesa e a queda da bastilha.
Apesar do tratamento não ter evoluído, o médico não tem do que reclamar, pois alguns alunos da escola de seu filho passaram a ter reforço das aulas de história geral, em seu próprio consultório, pagando, obviamente, uma pequena contribuição. O sucesso foi tanto que ele já pensa em investir num curso de história, para o pré-vestibular, em sociedade com seu paciente.
Que assim seja. Afinal, quando não se pode curar o doente, melhor usar a loucura para outros fins.
2 comentáriosExistirmos, a que será que se destina?
Arte sobre foto: Dimas Lins

Cajuína (Caetano Veloso)
Dimas Lins
A existência não é apenas absurda, é simplesmente trabalho pesado.
Charles Bukowski
Tinha pouca habilidade social. Sempre foi assim, embora tenha vivido um breve período de inversão, quando criança. É que só começou a falar aos quatro anos de idade. Antes disso, não dizia uma palavra sequer. Nada mesmo. Nem um simples mamã ou papá ou qualquer outro som capaz de ser percebido pelo sistema auditivo humano. Sua voz não produzia qualquer ruído. Pensou-se no início que não podia ouvir ou falar ou que, talvez, tivesse alguma deficiência mental. Envolveu-se em uma bateria de exames, mas não surgiu uma única evidência de mau funcionamento em sua estrutura física.
Vêm da gravidez as razões para que acreditassem que ele tivesse algum problema. É que, apesar de todos os testes acusarem a gestação, sua existência no útero, através da ultra-sonografia, só foi confirmada lá pelo oitavo mês. E, ainda assim, chamou a atenção de um dos médicos o fato de o feto parecer estar tentando se esconder. Diante de tal circunstância improvável, o obstetra preferiu guardar para si suas impressões a ter que pôr em risco sua ilibada reputação profissional.
O nascimento também foi cercado de estranhezas. É que, ao nascer, teve dificuldades de sair do ventre. Relatos fantásticos dão conta de uma luta entre o médico e o bebê na hora do parto. Dizem que não saiu primeiro a cabeça, mas os pés, posto que, com as mãos, se agarrava ao que podia para permanecer lá dentro. Tanto assim que, ao vir ao mundo, escorregou das mãos do médico e deu com a cabeça no chão. Talvez, a queda explique algumas coisas. Talvez não, desconfia o obstetra.
Desde pequeno odiava ser tocado ou acarinhado. Quando ia para o colo, chorava. Ao contrário, no berço, mantinha a serenidade. E se, no início, pensavam que ele nunca falaria, depois da primeira palavra, todos acharam que ele nunca mais iria parar de falar. Virou uma metralhadora verbal, um trololó ininterrupto. Nem parava para respirar. Foi o período de inversão a que me referi lá em cima. Segundo a mãe, foi o efeito da água de chocalho que o fizera desatar o nó das cordas vocais. Porém, com a mesma imprevisibilidade com que falou, calou-se novamente. Assim, do nada, sem motivo aparente.
E sua vida seguiu desse jeito, no silêncio. Na escola, cansou de levar falta, por não responder a chamada. Também cansou de tirar notas baixas em prova oral. Quando se apaixonava, sofria calado. Nos jogos de futebol, adorava quando havia um minuto de silêncio. Gostava de filmes, mas só da época do cinema-mudo. Preferia o silêncio da noite à aglomeração ruidosa do dia.
Mas o silêncio não era sua única divergência com o mundo em que vivemos. Na verdade, não entendia o sentido da vida ou da existência. Não sabia, de fato, o que fazia por aqui. Por que diabos tínhamos que nascer, estudar, trabalhar, namorar, casar, ter filhos e depois morrer?! E comer? Qual a necessidade disso, se depois era obrigado a devolver organicamente o que se comeu?! Por que nascer nu e depois cobrir-se com roupas? Via no beijo apenas uma troca de saliva, não achava a escova de dentes importante, não entendia a função do dedo mínimo do pé, nem compreendia a fé. Não era intolerante, nem desagradável. Não ria, nem chorava. Acreditava mesmo que a vida era esquisita.
Não achava o mundo fácil e, decerto, não o considerava o seu habitat natural. Era incompreendido e não compreendia seus iguais ou desiguais. Vivia como se carregasse um fardo nas costas. Não suportava o peso do mundo e suas vicissitudes. Não tinha amigos, nunca teve uma namorada e seus pais, aos poucos, desistiram de compreendê-lo. Tentou fazer terapia, mas não funcionou, pois não falava com estranhos. Em verdade, não falava com ninguém. Não se sentia em casa, na sua própria casa, nem confortável em sua própria cama ou à vontade com sua própria família. Não se sentia gente da sua própria gente, nem sangue do seu sangue. A verdade é que nunca quis entrar no mundo e não via razão para não descer.
Um dia, sem mais nem menos, desapareceu. Não avisou a ninguém. Não telefonou, não deixou recado, nem carta, ou mesmo uma nota no jornal. Levou-se não se sabe pra onde.
Alguns vizinhos especulam que ele sumiu no mundo para procurar o sentido da vida. Outros acreditam que ele simplesmente fugiu ao convívio social e deve estar morando em alguma caverna no Himalaia. Mas a maioria acredita mesmo que ele não era deste mundo e veio para cá por engano. Talvez, tenha entrado por descuido nalguma estrada cósmica fora da sua rota e se extraviado numa fenda do espaço-tempo. Há testemunhas que juram que ele embarcou num disco voador, sumiu no espaço e voltou para casa. Sua verdadeira casa.
Mas, a versão que mais gosto é a de o terem visto entrando no mar e caminhando sobre as águas, até desaparecer no horizonte. Pareceu-me mais sublime e compatível com a trajetória fantástica de alguém tão incompreendido e incompreensível e tão diferente dos habitantes deste mundo.
Se um dia tornar a vê-lo, perguntarei, assim de mansinho, como quem não quer nada: “existirmos, a que será que se destina?”. Mas acho que ele, nem sob tortura, me dirá.
6 comentáriosMiséria em qualquer canto
Arte sobre foto: Dimas Lins

Milagres - Adriana Calcanhoto (Cazuza/Frejat/Denise Barroso)
Miséria - Adriana Calcanhoto (Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Paulo Miklos)
Dimas Lins
Tenho acordado todos os dias com a sensação de que o mundo anda mais pesado. Pelo menos pras bandas de cá, do hemisfério sul. E neste país, para onde a gente se vira, encontra um Brasil muito pequeno, onde falta alma e sobram miseráveis e patifes.
Ontem, enquanto ia de casa para o trabalho, conversávamos dentro do carro, meu irmão, minha esposa e eu sobre pequenas imperfeições da vida e da degradação humana. Falávamos com uma ponta de tristeza, pois, às vezes, não reconhecemos o mundo em que vivemos. A bem da verdade, durante o trajeto, optei pelo silêncio, pois ando um pouco cansado de ouvir, falar, ler e ver sobre essas coisas ruins. E, nesse brasil, minúsculo e deformado, é só o que vemos.
Chego ao escritório sem graça e sem ânimo, pois o trabalho quando não dá prazer, dá trabalho. Sou varrido todos os dias para dentro de um furacão de interesses e um jogo de empurra, onde o responsável pelas coisas ruins é sempre o outro. Neste mundo corporativo distorcido, as pessoas socializam seus próprios erros e costumam trazer para si méritos que nem sempre são seus. Parecer é mais importante do que ser e, nessa inversão de valores, a imagem ganha uma outra dimensão. No final das contas, tudo é vaidade.
Saio do trabalho e o fim do expediente é um breve, muito breve, momento de prazer. No carro, a conversa entre os mesmos passageiros da ida é outra, desta vez, mais amena. Nos sinais, homens, mulheres e crianças pedindo esmolas disputam espaço com os vendedores dos mais diversos produtos. Num desses semáforos, o carro parado à minha frente é atacado por um assaltante de arma em punho. O assaltante, um homem negro e magro que trajava uma camisa verde clara e bermudas, parece não se incomodar em agir à luz do dia sob os olhares apavorados de centenas de espectadores. E se no meu carro o pânico é geral, imaginem o que deveria estar se passando na cabeça do homem de cabelos brancos que estava sendo roubado, enquanto respeitava as leis do trânsito. Manobro rapidamente e saio em velocidade, enquanto meu irmão liga desesperadamente para o 190 da polícia. Uma policial feminina atende ao telefone, registra a chamada e lamenta o nível de violência da cidade. Enquanto a polícia desabafa, o mundo desaba em nossas cabeças.
Durante o resto da viagem, não se falou em outra coisa. E eu, que não queria falar de coisas ruins, me pego contando a história do quase assalto que sofri, quando dois ladrões cercaram meu carro e me apontaram uma pistola. Naquele dia, fiquei surpreso com a minha reação, pois ao invés de abrir a porta, engatei a primeira marcha, acelerei o carro e saí pela contramão. Quando percebi a bobagem que tinha feito, pensei em dar marchar ré e pedir desculpas aos ladrões. No dia seguinte, uma professora tentou fazer o mesmo, num sinal em Boa Viagem, e acabou assassinada.
No final do caminho de volta para casa, a consciência aperta e a gente discute se dava para fazer mais do que fizemos. Às vezes, bate essa sensação ruim de, após abandonar o próximo numa situação difícil, imaginar se não era possível fazer mais, além de ligar para a polícia. A conclusão de que nada poderíamos fazer contra um revólver não nos conforta e voltamos para casa nos sentindo abandonados pelo Estado. A Colômbia agora é aqui, pois lá o mundo está um pouco melhor.
À noite, saio de casa e vou à padaria comprar algumas coisas para comer mais tarde. No rádio, ouço a notícia de que, enquanto deputados se desentendiam no plano físico com seguranças do congresso, o senado, assim minúsculo mesmo, absolvia seu presidente da acusação de ter suas despesas pessoais pagas por um lobista. Do legislativo brasileiro, não espero outra coisa, mas, infelizmente, isso também não me serve de consolo.
Na saída da padaria, eu sou obrigado a dar um trocado ao flanelinha, para que, possivelmente, ele possa proteger meu carro dele mesmo. E, assim, de maneira forçada, acabo contribuindo para uma melhor distribuição de renda no país.
Num mundo onde as crianças brincam com a violência, os pais não impõem limites aos filhos e as pessoas só querem levar vantagem em tudo, só é possível ver miséria em qualquer canto. Infelizmente, é a violência, não a poesia, que toma conta das ruas.
Amanhã será um novo dia e, certamente, pequenas novas tragédias do cotidiano acontecerão. E eu, já sufocado por essas coisas do mundo, me pergunto que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver. Pelo visto, meu ânimo não deve melhorar tão cedo.
3 comentáriosAo meu avô, uma benção!
Arte sobre pintura: Dimas Lins

Avohai (Zé Ramalho)
Dimas Lins
Era um homem do povo. Não sei o ano de seu nascimento, mas sei que foi lá em Maraial, uma pequena cidade na mata sul de Pernambuco. Não tenho guardado na lembrança imagens suas na juventude, é claro. Das minhas próprias recordações, trago à memória apenas o homem velho de pele cabocla, mãos grossas da lida com a enxada, sorriso amável e fala mansa, bem baixinha, quase inaudível. Além do incansável trabalhador e seu boxe de frutas e verduras no mercado de Rio Doce, em Olinda.
Aos sete anos, já era apaixonado por minha avó. Aos quinze, foi levado para longe pelo pai e antes dos vinte, tão logo retornou, casou-se com ela. Foi nesta época que se mudaram para um sítio, na zona rural da cidade.
Desde sempre, deu muito duro. Com a ajuda dos filhos, cuidava da roça e, nas pequenas covas, plantava de tudo o que aquela terra podia dar. Fazia empreitada, contratando trabalhadores, para a colheita nas grandes fazendas da região. Com o tempo, comprou uma carroça puxada a cavalos e começou a transportar frutas e verduras da estação de trem para os armazéns da cidade. A nova atividade forçou quase toda a família a mudar-se para a zona urbana. Ficaram no sítio apenas ele e minha mãe. Permaneceram por lá até a solidão da noite e o medo do escuro forçarem a mudança. Foi quando, no fim de um dia, ele retornou para casa, cansado da lida, e minha mãe, ainda uma criança, recusou-se a deixá-lo entrar. Pensava que era um estranho. Só abriu quando ele colocou as mãos por baixo da porta e ela o reconheceu pelo toque. Foi por isso que decidiu vender o sítio, pouco tempo depois, e voltou para os seus.
Nesta época, uma doença misteriosa afetou minha avó. Internada num hospital em Catende, passou por duas cirurgias, mas não ficou curada. Um dia, recebeu a visita de um grupo evangélico e uma das irmãs lhe disse que ela ficaria boa em breve. Prometeu então que, assim sendo, se converteria. Ficou boa e, embora não haja provas da intervenção divina, cumpriu a promessa.
Foi aí que começaram os desentendimentos entre meus avós. Católico praticante, ele não aprovava sua conversão e, por isso, deram início a uma guerra santa particular. Mesmo diante da influência coativa do marido, minha avó não cedeu e trocou os dogmas católicos pela preconização evangélica. Depois disso, passaram um tempo falando, entre si, apenas o necessário. Ele seguiu até o fim da vida sem conformar-se. Engraçado é que, algumas vezes, conversavam como se nada houvesse ocorrido; noutras, o silêncio exercia o seu supremo poder. As religiões que reúnem pessoas são as mesmas que separam. É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito, já dizia Einstein.
Mas a vida seguiu e, com o tempo, ele passou a trazer carregamentos de bananas para Recife. Foi então que resolveu colocar um pequeno negócio no bairro de Cajueiro e mudou-se de vez para a capital. Passou dez anos por lá, até que comprou uma casinha no então longínquo bairro de Rio Doce, uma verdadeira “cidade” de conjuntos habitacionais. De um boxe de frutas e verduras, tirava o seu sustento, enquanto parte dos filhos ganhavam o mundo, em busca dos seus próprios sonhos.
É a partir daí que as lembranças da minha mãe se misturam com as minhas próprias. E a mais marcante que tenho é, com certeza, de sua generosidade. É que um homem acostumado à vida custosa do interior nordestino sabe bem o que é não ter.
Sem pai desde os nove, muitos irmãos e pouco dinheiro, cumpríamos semanalmente uma rotina de buscar, na casa de meu avô, uma feira de frutas, verduras e carnes. Foi assim por muito tempo, até quando deixou de ser necessário. Por meu lado, confesso que achava ruim, em pleno sábado, ter que fazer o mesmo itinerário, mecanicamente. É que, naquela época, não enxergava bem o mundo e estava mais preocupado em ocupar meu tempo brincando com os amigos. Coisas de criança, é certo. Nunca dei o devido valor ao gesto de meu avô e, mesmo assim, ele me recebia sempre com a mesma alegria.
Um dia, aconteceu uma dessas pequenas tragédias urbanas. Aos 82 anos, ele foi atropelado, enquanto atravessava uma avenida próxima a sua casa, para ir à igreja. O carro jogou seu corpo longe e abandonou o local, sem socorrê-lo. Acredito que o acidente só não foi fatal, porque a vida dura da juventude condicionara muito bem seus músculos e vigor físico.
O atropelamento não o matou de pronto, é verdade, mas o levou aos poucos. O homem raçudo do interior começava a perder as forças. Depois que saiu do hospital, passou a respirar com dificuldade e ficava a maior parte do tempo deitado. Vitimado pela esclerose no sistema nervoso central, imaginava que a filha mais velha queria envenená-lo. Em algumas ocasiões, só comia pelas mãos da minha mãe.
Nos momentos de lucidez, sentia falta do trabalho. Ao visitá-lo, certa vez, perguntei-lhe como estava e, com uma sinceridade desconcertante, disse-me que preferia morrer a viver assim. Nos meses que antecederam a sua morte, estava tão debilitado que era possível ver o seu coração pulsando sob a pele.
Hoje, vez por outra, lembro-me dele e sinto saudades. Lembro de pedir-lhe a benção, sempre que o encontrava. Lembro também do seu andar decidido, da sua ingenuidade e simplicidade, de seu indefectível chapéu e da sua altivez. E mesmo sua guerra santa não conseguiu apagar o homem que ele foi.
Já faz muito tempo que ele se foi. Imagino, às vezes, como seria bom poder conversar com o meu avô novamente, ouvir suas histórias e aprender com a sua experiência. Mas, infelizmente, isso não é mais possível. E, assim sendo, resta-me apenas pedir a sua benção e dizer-lhe que aqui estamos todos bem.
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