Uma canção desnaturada

Uma Canção Desnaturada - Suely Costa (Chico Buarque)
Dimas Lins
Havia terminado meus afazeres mais cedo do que imaginava e fiquei naquela incerteza de ir para casa ou seguir para a consulta médica. Percebi que teria de ir direto para o consultório, se quisesse manter o horário do meu compromisso. Chegaria mais cedo e aguardaria pacientemente a minha vez.
Não iria cuidar de nenhuma rinite alérgica ou apenas de uma gripe mal-curada. Cuidaria da força moral do espírito, da alma. Enfim, trocando em miúdos, faria uma visita ao psiquiatra.
Foi quando o relógio deu seis horas que eu toquei a campainha. A consulta estava marcada para as 19h30min e, portanto, aguardaria uma hora e meia. Isso se o médico não atrasasse a agenda. Gosto do horário noturno para ir a um consultório, pois geralmente é mais silencioso e há menos pacientes impacientes com os atrasos habituais.
Tão logo cheguei, a secretária abriu a porta, me recebeu e se despediu. É que o seu horário de trabalho termina antes do horário do psiquiatra. Fechei a porta e sentei. Nessas ocasiões, procuro ler alguma coisa, uma revista ou um livro. No caso do livro, invariavelmente, trago-o de casa e, por coincidência, já andava com ele no carro, preparado para os esperes e pares do mundo. A bola da vez é Clamor - A Vitória de Uma Conspiração Brasileira, do jornalista Samarone Lima, também escritor de Estuário, um livro-blog. Esse aí ao lado, em forma de link.
Não deram cinco minutos de leitura e a campainha tocou. Na ausência da secretária, abro eu mesmo a porta. Dou boa noite, passo a chave e volto ao meu lugar. Do lado de fora, um carro se afasta e o motorista acena para a recém-chegada. No recinto agora, uma jovem na casa dos trinta anos, demonstrando um pouco de ansiedade, senta no outro sofá. E é na hora que eu retomo a leitura que ela puxa conversa.
- Você é paciente ou está esperando alguém?
- Sou paciente.
- É o próximo?
- Não. Eu cheguei mais cedo e ficarei de castigo por algum tempo.
- Ah! Pensei que tinha errado o horário.
Sorri amavelmente e tentei retomar a leitura.
- Depressão?
Já estive naquele mesmo consultório antes e posso assegurar que não é comum este tipo de conversa na ante-sala. Afinal, cada paciente está lá por algum assunto psíquico não satisfatoriamente resolvido. E, nessas ocasiões, melhor o silêncio. Mesmo assim, respondi. Afinal, aquele que não for louco que atire a primeira pedra.
- Não. Um pouco de estresse e um pouco de loucura.
Ela sorriu e emendou, sem perder o ritmo.
- É do trabalho?
- Perdão?
- O estresse… É por causa do trabalho?
- É. É, sim.
- E o senhor trabalha em quê?
- Sou servidor público.
- Servidor público com estresse?!
- Pra você ver como os tempos são outros.
Ela sorriu, provavelmente não acreditando. Fez-se uma pequena pausa e, em seguida, ela retomou a conversa.
- Meu caso é depressão.
- Depressão?
- Isso. Depressão.
- E como você está?
- Deprimida.
Silêncio.
- Tenho depressão pós-parto.
- Eu sinto muito.
- Eu também.
Novo silêncio.
- É uma menina, sabe? - continuou ela.
- Quantos meses?
- Um ano e meio.
- Um ano e meio?!
- É. Depressão pós-parto mal-curada.
Não sabia que tinha isso de depressão pós-parto mal-curada. Talvez não tenha mesmo. Talvez aquele diagnóstico não fosse do médico, mas dela, quem sabe? Meu reino por um diploma em psiquiatria.
- É terrível, sabe? Sinto-me sufocada perto dela.
- Imagino o quanto deve ser difícil.
- Você não tem idéia.
Não tinha mesmo.
- Isso vai passar, você vai ver - disse, já sentindo um nó no coração.
- Eu já tentei me matar, por causa do bebê - disse ela, fazendo da ante-sala o consultório e de mim, o médico.
(Li depois em algum lugar que a depressão pós-parto causa uma tristeza muito grande e de caráter prolongado, com perda da auto-estima, da motivação para a vida, podendo levar ao suicídio. Algumas mulheres apresentam tendência ao abandono do recém-nascido, ou mesmo ao seu extermínio.)
Tive compaixão por ela. Uma jovem mãe tão ansiosa que não conseguia aguardar a consulta para dizer algo tão profundo, tão caro e tão íntimo. E eu, ali na frente dela, incapaz de saber o que dizer. Senti-me impotente. Apelei então à misericórdia divina, meu último recurso.
- Tenha fé em Deus que tudo vai acabar bem.
- Que Deus me perdoe, mas acho que Ele me abandonou.
Não deve haver dor maior para uma mãe do que o sentimento de rejeição pela própria cria. Odiei a mente humana e sua fragilidade. Por causa de uma química que eu não compreendo, estava diante de alguém que lutava desesperadamente para aceitar a sua maternidade. Era como se a natureza traísse a si mesma e mudasse o curso da correnteza, seguindo rio acima.
De repente, a porta do consultório se abriu e o médico convidou-a para entrar. Desejei boa sorte e ela se esforçou para sorrir. Depois disso, não consegui mais me concentrar na leitura. Apenas pensava nessas coisas da vida que estão além da nossa vontade e compreensão. Achei tudo aquilo injusto.
Cinqüenta minutos depois, a porta abriu e ela saiu. Olhou-me com um sorriso sem graça e, mesmo de longe, me disse baixinho que ficaria bem. Tomara que sim.
Depois no consultório, percebi que a minha consulta já não tinha importância. Meu corpo conversava com o médico, enquanto minha alma pensava na maternidade mal-resolvida. No final, fui embora para casa achando a vida uma merda.
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