Conversa oca
Arte sobre pintura: Dimas Lins

Ele me Deu um Beijo na Boca (Caetano Veloso)
Dimas Lins
Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.
- Em nada - respondi.
(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)
- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.
- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.
E eu ri à beça.
- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?
- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.
- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.
E ela riu e riu e ria. E continuou:
- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.
Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.
- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!
Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.
- De quê você está rindo?
- De nada - respondi.
- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!
- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.
- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!
Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.
- Você está apaixonado?
- Eu sempre estou apaixonado.
- Por quem?
- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.
-Você está apaixonado por outra pessoa?
- Por que essa pergunta oca agora?!
- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!
- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.
Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.
- Basta de filosofia! - ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.
Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.
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