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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 11 de setembro de 2007, às 0:01h

Ao meu avô, uma benção!

Arte sobre pintura: Dimas Lins
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Avohai (Zé Ramalho)

Dimas Lins

Era um homem do povo. Não sei o ano de seu nascimento, mas sei que foi lá em Maraial, uma pequena cidade na mata sul de Pernambuco. Não tenho guardado na lembrança imagens suas na juventude, é claro. Das minhas próprias recordações, trago à memória apenas o homem velho de pele cabocla, mãos grossas da lida com a enxada, sorriso amável e fala mansa, bem baixinha, quase inaudível. Além do incansável trabalhador e seu boxe de frutas e verduras no mercado de Rio Doce, em Olinda.

Aos sete anos, já era apaixonado por minha avó. Aos quinze, foi levado para longe pelo pai e antes dos vinte, tão logo retornou, casou-se com ela. Foi nesta época que se mudaram para um sítio, na zona rural da cidade.

Desde sempre, deu muito duro. Com a ajuda dos filhos, cuidava da roça e, nas pequenas covas, plantava de tudo o que aquela terra podia dar. Fazia empreitada, contratando trabalhadores, para a colheita nas grandes fazendas da região. Com o tempo, comprou uma carroça puxada a cavalos e começou a transportar frutas e verduras da estação de trem para os armazéns da cidade. A nova atividade forçou quase toda a família a mudar-se para a zona urbana. Ficaram no sítio apenas ele e minha mãe. Permaneceram por lá até a solidão da noite e o medo do escuro forçarem a mudança. Foi quando, no fim de um dia, ele retornou para casa, cansado da lida, e minha mãe, ainda uma criança, recusou-se a deixá-lo entrar. Pensava que era um estranho. Só abriu quando ele colocou as mãos por baixo da porta e ela o reconheceu pelo toque. Foi por isso que decidiu vender o sítio, pouco tempo depois, e voltou para os seus.

Nesta época, uma doença misteriosa afetou minha avó. Internada num hospital em Catende, passou por duas cirurgias, mas não ficou curada. Um dia, recebeu a visita de um grupo evangélico e uma das irmãs lhe disse que ela ficaria boa em breve. Prometeu então que, assim sendo, se converteria. Ficou boa e, embora não haja provas da intervenção divina, cumpriu a promessa.

Foi aí que começaram os desentendimentos entre meus avós. Católico praticante, ele não aprovava sua conversão e, por isso, deram início a uma guerra santa particular. Mesmo diante da influência coativa do marido, minha avó não cedeu e trocou os dogmas católicos pela preconização evangélica. Depois disso, passaram um tempo falando, entre si, apenas o necessário. Ele seguiu até o fim da vida sem conformar-se. Engraçado é que, algumas vezes, conversavam como se nada houvesse ocorrido; noutras, o silêncio exercia o seu supremo poder. As religiões que reúnem pessoas são as mesmas que separam. É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito, já dizia Einstein.

Mas a vida seguiu e, com o tempo, ele passou a trazer carregamentos de bananas para Recife. Foi então que resolveu colocar um pequeno negócio no bairro de Cajueiro e mudou-se de vez para a capital. Passou dez anos por lá, até que comprou uma casinha no então longínquo bairro de Rio Doce, uma verdadeira “cidade” de conjuntos habitacionais. De um boxe de frutas e verduras, tirava o seu sustento, enquanto parte dos filhos ganhavam o mundo, em busca dos seus próprios sonhos.

É a partir daí que as lembranças da minha mãe se misturam com as minhas próprias. E a mais marcante que tenho é, com certeza, de sua generosidade. É que um homem acostumado à vida custosa do interior nordestino sabe bem o que é não ter.

Sem pai desde os nove, muitos irmãos e pouco dinheiro, cumpríamos semanalmente uma rotina de buscar, na casa de meu avô, uma feira de frutas, verduras e carnes. Foi assim por muito tempo, até quando deixou de ser necessário. Por meu lado, confesso que achava ruim, em pleno sábado, ter que fazer o mesmo itinerário, mecanicamente. É que, naquela época, não enxergava bem o mundo e estava mais preocupado em ocupar meu tempo brincando com os amigos. Coisas de criança, é certo. Nunca dei o devido valor ao gesto de meu avô e, mesmo assim, ele me recebia sempre com a mesma alegria.

Um dia, aconteceu uma dessas pequenas tragédias urbanas. Aos 82 anos, ele foi atropelado, enquanto atravessava uma avenida próxima a sua casa, para ir à igreja. O carro jogou seu corpo longe e abandonou o local, sem socorrê-lo. Acredito que o acidente só não foi fatal, porque a vida dura da juventude condicionara muito bem seus músculos e vigor físico.

O atropelamento não o matou de pronto, é verdade, mas o levou aos poucos. O homem raçudo do interior começava a perder as forças. Depois que saiu do hospital, passou a respirar com dificuldade e ficava a maior parte do tempo deitado. Vitimado pela esclerose no sistema nervoso central, imaginava que a filha mais velha queria envenená-lo. Em algumas ocasiões, só comia pelas mãos da minha mãe.

Nos momentos de lucidez, sentia falta do trabalho. Ao visitá-lo, certa vez, perguntei-lhe como estava e, com uma sinceridade desconcertante, disse-me que preferia morrer a viver assim. Nos meses que antecederam a sua morte, estava tão debilitado que era possível ver o seu coração pulsando sob a pele.

Hoje, vez por outra, lembro-me dele e sinto saudades. Lembro de pedir-lhe a benção, sempre que o encontrava. Lembro também do seu andar decidido, da sua ingenuidade e simplicidade, de seu indefectível chapéu e da sua altivez. E mesmo sua guerra santa não conseguiu apagar o homem que ele foi.

Já faz muito tempo que ele se foi. Imagino, às vezes, como seria bom poder conversar com o meu avô novamente, ouvir suas histórias e aprender com a sua experiência. Mas, infelizmente, isso não é mais possível. E, assim sendo, resta-me apenas pedir a sua benção e dizer-lhe que aqui estamos todos bem.

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