Ao meu avô, uma benção!
Arte sobre pintura: Dimas Lins

Avohai (Zé Ramalho)
Dimas Lins
Era um homem do povo. Não sei o ano de seu nascimento, mas sei que foi lá em Maraial, uma pequena cidade na mata sul de Pernambuco. Não tenho guardado na lembrança imagens suas na juventude, é claro. Das minhas próprias recordações, trago à memória apenas o homem velho de pele cabocla, mãos grossas da lida com a enxada, sorriso amável e fala mansa, bem baixinha, quase inaudível. Além do incansável trabalhador e seu boxe de frutas e verduras no mercado de Rio Doce, em Olinda.
Aos sete anos, já era apaixonado por minha avó. Aos quinze, foi levado para longe pelo pai e antes dos vinte, tão logo retornou, casou-se com ela. Foi nesta época que se mudaram para um sítio, na zona rural da cidade.
Desde sempre, deu muito duro. Com a ajuda dos filhos, cuidava da roça e, nas pequenas covas, plantava de tudo o que aquela terra podia dar. Fazia empreitada, contratando trabalhadores, para a colheita nas grandes fazendas da região. Com o tempo, comprou uma carroça puxada a cavalos e começou a transportar frutas e verduras da estação de trem para os armazéns da cidade. A nova atividade forçou quase toda a família a mudar-se para a zona urbana. Ficaram no sítio apenas ele e minha mãe. Permaneceram por lá até a solidão da noite e o medo do escuro forçarem a mudança. Foi quando, no fim de um dia, ele retornou para casa, cansado da lida, e minha mãe, ainda uma criança, recusou-se a deixá-lo entrar. Pensava que era um estranho. Só abriu quando ele colocou as mãos por baixo da porta e ela o reconheceu pelo toque. Foi por isso que decidiu vender o sítio, pouco tempo depois, e voltou para os seus.
Nesta época, uma doença misteriosa afetou minha avó. Internada num hospital em Catende, passou por duas cirurgias, mas não ficou curada. Um dia, recebeu a visita de um grupo evangélico e uma das irmãs lhe disse que ela ficaria boa em breve. Prometeu então que, assim sendo, se converteria. Ficou boa e, embora não haja provas da intervenção divina, cumpriu a promessa.
Foi aí que começaram os desentendimentos entre meus avós. Católico praticante, ele não aprovava sua conversão e, por isso, deram início a uma guerra santa particular. Mesmo diante da influência coativa do marido, minha avó não cedeu e trocou os dogmas católicos pela preconização evangélica. Depois disso, passaram um tempo falando, entre si, apenas o necessário. Ele seguiu até o fim da vida sem conformar-se. Engraçado é que, algumas vezes, conversavam como se nada houvesse ocorrido; noutras, o silêncio exercia o seu supremo poder. As religiões que reúnem pessoas são as mesmas que separam. É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito, já dizia Einstein.
Mas a vida seguiu e, com o tempo, ele passou a trazer carregamentos de bananas para Recife. Foi então que resolveu colocar um pequeno negócio no bairro de Cajueiro e mudou-se de vez para a capital. Passou dez anos por lá, até que comprou uma casinha no então longínquo bairro de Rio Doce, uma verdadeira “cidade” de conjuntos habitacionais. De um boxe de frutas e verduras, tirava o seu sustento, enquanto parte dos filhos ganhavam o mundo, em busca dos seus próprios sonhos.
É a partir daí que as lembranças da minha mãe se misturam com as minhas próprias. E a mais marcante que tenho é, com certeza, de sua generosidade. É que um homem acostumado à vida custosa do interior nordestino sabe bem o que é não ter.
Sem pai desde os nove, muitos irmãos e pouco dinheiro, cumpríamos semanalmente uma rotina de buscar, na casa de meu avô, uma feira de frutas, verduras e carnes. Foi assim por muito tempo, até quando deixou de ser necessário. Por meu lado, confesso que achava ruim, em pleno sábado, ter que fazer o mesmo itinerário, mecanicamente. É que, naquela época, não enxergava bem o mundo e estava mais preocupado em ocupar meu tempo brincando com os amigos. Coisas de criança, é certo. Nunca dei o devido valor ao gesto de meu avô e, mesmo assim, ele me recebia sempre com a mesma alegria.
Um dia, aconteceu uma dessas pequenas tragédias urbanas. Aos 82 anos, ele foi atropelado, enquanto atravessava uma avenida próxima a sua casa, para ir à igreja. O carro jogou seu corpo longe e abandonou o local, sem socorrê-lo. Acredito que o acidente só não foi fatal, porque a vida dura da juventude condicionara muito bem seus músculos e vigor físico.
O atropelamento não o matou de pronto, é verdade, mas o levou aos poucos. O homem raçudo do interior começava a perder as forças. Depois que saiu do hospital, passou a respirar com dificuldade e ficava a maior parte do tempo deitado. Vitimado pela esclerose no sistema nervoso central, imaginava que a filha mais velha queria envenená-lo. Em algumas ocasiões, só comia pelas mãos da minha mãe.
Nos momentos de lucidez, sentia falta do trabalho. Ao visitá-lo, certa vez, perguntei-lhe como estava e, com uma sinceridade desconcertante, disse-me que preferia morrer a viver assim. Nos meses que antecederam a sua morte, estava tão debilitado que era possível ver o seu coração pulsando sob a pele.
Hoje, vez por outra, lembro-me dele e sinto saudades. Lembro de pedir-lhe a benção, sempre que o encontrava. Lembro também do seu andar decidido, da sua ingenuidade e simplicidade, de seu indefectível chapéu e da sua altivez. E mesmo sua guerra santa não conseguiu apagar o homem que ele foi.
Já faz muito tempo que ele se foi. Imagino, às vezes, como seria bom poder conversar com o meu avô novamente, ouvir suas histórias e aprender com a sua experiência. Mas, infelizmente, isso não é mais possível. E, assim sendo, resta-me apenas pedir a sua benção e dizer-lhe que aqui estamos todos bem.
5 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Sempre me emociono “Dimas” com “Histórias de Família”, porque na realidade nunca tive aproximação com meus avôs, tios, primos … Meus pais sempre foram “reservados” e os contatos com familiares eram poucos mesmo. E ainda hoje é dessa forma! Perdi um avô que era um “médico” formado pela Vida, colecionava selos e outras coisas que não me lembro… Meu outro avô pai do meu pai, quando nasci já não estava mais nessa vida, e lembro uma vez em minha adolescência que tive a curiosidade de perguntar por ele a minha mãe! A vida em família é de uma grande importância, e é sempre Benéfico termos em nossa memória “avôs, tios” que deixaram lembraças Boas, Ensinamentos para todos nós !!!!
»» Parabéns pelo texto!
Dimas, pedir a bênção é talvez a pequena lição de humanidade de nós, filhos e netos.
Estou tendo a honra de ajudar a cuidar da minha tia-avó de 80 anos, e tenho aproveitado cada momento.
Engraçado como nestes momentos, tudo muda de importância. Farras com amigos, festas, fins de semana.
Acabei de pegar os remédios da dona Flocely, depois de uma peregrinação na Farmácia do Estado. Vou ao Cabo com um isonor cheio de gelo e muita esperança.
Vamos nessa, velho.
Abraços,
Samarone
Caro Dimas,
Confesso que tenho me tornado um leitor assíduo do ESTRADAR! Que idéia genial, a sua! Lembrar da nossa infância, das nossas raízes, do nosso povo, da nossa eterna ” pobre ” vida. Fico emocionado com suas lembranças da vida, fico triste com a vida deste povo tão sofrido e abandonado. Pra você, tiro o chapéu! Vejo que és bom filho, que foste bom neto, que és bom amigo e que nunca esquerás tuas raízes. Parabéns amigo Dimas!
Velho Dimas,
Emocionante o texto sobre seu avô.
Abraço,
Libarx
Confesso que chorei ao perceber o quanto estou distante de meus avós. Todos os 4 vivos, porém em São Luis-MA e eu aki, Niteroi - RJ.
Sinto tanta saudade deles que estou me derretendo em lagrimas enquanto escrevo este texto.
Eles me criaram por 5 anos, quando meu pai era ausente e minha meu, saparada dele, veio tentar a vida aqui no Rio.
Muito obrigado por abrir meus olhos e ver que o que é de mais valor nessa vida é, DE FATO, a nossa FAMÍLIA.
OBRIGADO!