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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 18 de setembro de 2007, às 0:00h

Existirmos, a que será que se destina?

Arte sobre foto: Dimas Lins
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Cajuína (Caetano Veloso)

Dimas Lins


A existência não é apenas absurda, é simplesmente trabalho pesado.

Charles Bukowski


Tinha pouca habilidade social. Sempre foi assim, embora tenha vivido um breve período de inversão, quando criança. É que só começou a falar aos quatro anos de idade. Antes disso, não dizia uma palavra sequer. Nada mesmo. Nem um simples mamã ou papá ou qualquer outro som capaz de ser percebido pelo sistema auditivo humano. Sua voz não produzia qualquer ruído. Pensou-se no início que não podia ouvir ou falar ou que, talvez, tivesse alguma deficiência mental. Envolveu-se em uma bateria de exames, mas não surgiu uma única evidência de mau funcionamento em sua estrutura física.

Vêm da gravidez as razões para que acreditassem que ele tivesse algum problema. É que, apesar de todos os testes acusarem a gestação, sua existência no útero, através da ultra-sonografia, só foi confirmada lá pelo oitavo mês. E, ainda assim, chamou a atenção de um dos médicos o fato de o feto parecer estar tentando se esconder. Diante de tal circunstância improvável, o obstetra preferiu guardar para si suas impressões a ter que pôr em risco sua ilibada reputação profissional.

O nascimento também foi cercado de estranhezas. É que, ao nascer, teve dificuldades de sair do ventre. Relatos fantásticos dão conta de uma luta entre o médico e o bebê na hora do parto. Dizem que não saiu primeiro a cabeça, mas os pés, posto que, com as mãos, se agarrava ao que podia para permanecer lá dentro. Tanto assim que, ao vir ao mundo, escorregou das mãos do médico e deu com a cabeça no chão. Talvez, a queda explique algumas coisas. Talvez não, desconfia o obstetra.

Desde pequeno odiava ser tocado ou acarinhado. Quando ia para o colo, chorava. Ao contrário, no berço, mantinha a serenidade. E se, no início, pensavam que ele nunca falaria, depois da primeira palavra, todos acharam que ele nunca mais iria parar de falar. Virou uma metralhadora verbal, um trololó ininterrupto. Nem parava para respirar. Foi o período de inversão a que me referi lá em cima. Segundo a mãe, foi o efeito da água de chocalho que o fizera desatar o nó das cordas vocais. Porém, com a mesma imprevisibilidade com que falou, calou-se novamente. Assim, do nada, sem motivo aparente.

E sua vida seguiu desse jeito, no silêncio. Na escola, cansou de levar falta, por não responder a chamada. Também cansou de tirar notas baixas em prova oral. Quando se apaixonava, sofria calado. Nos jogos de futebol, adorava quando havia um minuto de silêncio. Gostava de filmes, mas só da época do cinema-mudo. Preferia o silêncio da noite à aglomeração ruidosa do dia.

Mas o silêncio não era sua única divergência com o mundo em que vivemos. Na verdade, não entendia o sentido da vida ou da existência. Não sabia, de fato, o que fazia por aqui. Por que diabos tínhamos que nascer, estudar, trabalhar, namorar, casar, ter filhos e depois morrer?! E comer? Qual a necessidade disso, se depois era obrigado a devolver organicamente o que se comeu?! Por que nascer nu e depois cobrir-se com roupas? Via no beijo apenas uma troca de saliva, não achava a escova de dentes importante, não entendia a função do dedo mínimo do pé, nem compreendia a fé. Não era intolerante, nem desagradável. Não ria, nem chorava. Acreditava mesmo que a vida era esquisita.

Não achava o mundo fácil e, decerto, não o considerava o seu habitat natural. Era incompreendido e não compreendia seus iguais ou desiguais. Vivia como se carregasse um fardo nas costas. Não suportava o peso do mundo e suas vicissitudes. Não tinha amigos, nunca teve uma namorada e seus pais, aos poucos, desistiram de compreendê-lo. Tentou fazer terapia, mas não funcionou, pois não falava com estranhos. Em verdade, não falava com ninguém. Não se sentia em casa, na sua própria casa, nem confortável em sua própria cama ou à vontade com sua própria família. Não se sentia gente da sua própria gente, nem sangue do seu sangue. A verdade é que nunca quis entrar no mundo e não via razão para não descer.

Um dia, sem mais nem menos, desapareceu. Não avisou a ninguém. Não telefonou, não deixou recado, nem carta, ou mesmo uma nota no jornal. Levou-se não se sabe pra onde.

Alguns vizinhos especulam que ele sumiu no mundo para procurar o sentido da vida. Outros acreditam que ele simplesmente fugiu ao convívio social e deve estar morando em alguma caverna no Himalaia. Mas a maioria acredita mesmo que ele não era deste mundo e veio para cá por engano. Talvez, tenha entrado por descuido nalguma estrada cósmica fora da sua rota e se extraviado numa fenda do espaço-tempo. Há testemunhas que juram que ele embarcou num disco voador, sumiu no espaço e voltou para casa. Sua verdadeira casa.

Mas, a versão que mais gosto é a de o terem visto entrando no mar e caminhando sobre as águas, até desaparecer no horizonte. Pareceu-me mais sublime e compatível com a trajetória fantástica de alguém tão incompreendido e incompreensível e tão diferente dos habitantes deste mundo.

Se um dia tornar a vê-lo, perguntarei, assim de mansinho, como quem não quer nada: “existirmos, a que será que se destina?”. Mas acho que ele, nem sob tortura, me dirá.

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