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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Universo particular

Arte sobre desenho: Dimas Lins
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Paranóia (Raul Seixas)

Dimas Lins

A mente é um universo particular. Um mundo paralelo, independente, sem medidas e limites, e desconexo dos outros universos ao redor. No plano físico, ela é materializada na forma do cérebro. Essa pequena coisinha alojada na caixa óssea, que ocupa a parte superior e inferior da cabeça e coordena todas as ações do corpo, é capaz de transmitir o que há de mais elevado no sentimento humano ou de cometer as maiores excentricidades e tolices.

Essa massa cinzenta de substância nervosa, às vezes, pode apresentar pequenas imperfeições que tornam o comportamento humano mais imprevisível do que já é. Mas é no plano metafísico, onde a mente é o poder intelectual do espírito, que os sintomas dessas imperfeições se manifestam com mais claridade.

No seu caso, não se sabe exatamente quando apareceram as primeiras manifestações do conflito psicológico. Entretanto, há lembranças de pequenas mudanças no seu comportamento ainda na infância.

Criado segundo os dogmas religiosos, era comum ouvir referências sobre a transcendência e onipresença de Deus e todas essas coisas sobre anjos da guarda e espíritos rondando, invisíveis, o mundo dos vivos. Fazendo exatamente o quê, não se sabe.

O que se sabe mesmo é que ele nunca achou natural esse tipo de coisa que ultrapassa o natural. Por isso, cresceu com essa cisma. Sentia desconfiança e medo em relação a tudo que era fantasmagórico e sobrenatural. Começou a ter temor do escuro e, depois, a falar sozinho, como se conversasse com alguém. Vez por outra, era visto com o ouvido nas paredes ou pressionando seu corpo contra alguma porta, como se tentasse atravessá-la. Além do mais, andava cercado de livros, muitos livros, de todos os tipos e assuntos. Ia desde publicações espíritas a história da humanidade.

Foi nessas circunstâncias, quando aumentaram os delírios e a família compreendeu mais claramente que ocorrera uma ruptura psicótica, que resolveram levá-lo a um psicanalista. Por certo, seria um distúrbio delirante paranóide com riscos de internação.

Entrou no consultório com ar superior e parou no meio da sala.

- E onde eu me sento?

O psicanalista apontou-lhe o divã e convidou-o a deitar-se.

- Em que posso servi-lo?
- No máximo uma água mineral, que eu não bebo nada alcoólico, nem tomo refrigerante.
- Quis dizer, como posso lhe ajudar?
- Se o senhor que é o médico não sabe, eu que vou saber?
- Soube que você anda ouvindo vozes - disse o médico, indo direto ao ponto, para evitar mais desencontros verbais.
- E o senhor, não?!
- Não.
- E por acaso todos os seus pacientes falam pela linguagem dos sinais?
- Claro que não!
- Nesse caso, é melhor o senhor procurar um otorrino.

O psicanalista sorriu, percebendo que o paciente usaria da ironia, durante a consulta, para desviar ardilosamente a sua atenção.

- Eu ouço muito bem. Mas vamos falar de você…
- Por quê?
- Porque eu não tenho importância. O que importa aqui é você.
- Coitado! Um médico com complexo de inferioridade.
- Você ouve vozes dos mortos? - disse, tentando manter o controle da conversa.
- Eu tenho a impressão que o senhor nunca foi a um funeral, porque, se tivesse ido, saberia que mortos não falam.
- Você ouve ou não vozes sobrenaturais? - disse o médico, dando os primeiros sinais de impaciência.
- Ouço, sim.

Finalmente uma resposta que poderia ser o fio condutor da consulta.

- E você tem idéia de como tudo começou?
- Tudo começou com o bigue-bangue. Foi uma grande explosão, milhares de partículas se espalharam e…

Aborrecido, o psicanalista interrompeu a sua fala. Explicou-lhe o objetivo da sessão e, depois disso, pediu que prosseguisse dentro da linha terapêutica. Ele pediu desculpas e disse que foi um desejo incontrolável, porque sempre quis dizer isso numa terapia. Era um pequeno prazer ao qual não resistiu. Mas tão logo o médico devolveu-lhe a palavra e pediu para que continuasse, retomou a palestra sobre os átomos e, milhões de anos depois, sobre o surgimento das primeiras formas de vida. Aborrecido, o médico deu por encerrada a sessão e dispensou o paciente.

Dois anos se passaram desde então e ele continua sob os cuidados do mesmo psicanalista que, até hoje, não sabe dizer se o paciente sofre de alguma paranóia ou é, na verdade, um grande gozador.

Durante todo esse tempo de psicanálise, o doente contou tudo o que sabia sobre o bigue-bangue, a história dos dinossauros, as primeiras sociedades primitivas, as civilizações antigas e a queda de Constantinopla. Na semana passada, começou a falar sobre a revolução francesa e a queda da bastilha.

Apesar do tratamento não ter evoluído, o médico não tem do que reclamar, pois alguns alunos da escola de seu filho passaram a ter reforço das aulas de história geral, em seu próprio consultório, pagando, obviamente, uma pequena contribuição. O sucesso foi tanto que ele já pensa em investir num curso de história, para o pré-vestibular, em sociedade com seu paciente.

Que assim seja. Afinal, quando não se pode curar o doente, melhor usar a loucura para outros fins.

2 Comentários para “Universo particular”

  1. Gravatar

    Na primeira gozação, eu já o internaria — psicanalista tem uma paciência… Por isso, antes da papoterapia, assumo logo os efeitos anti-gozação da medicação. Gostei da crônica. A brincadeira com o big bang tá muito boa! Abs.

  2. Gravatar

    Delícia de crônica, Dimas. Para o diagnóstico, voto na ironia com uma pequena dose de loucura, e não ao contrário.
    Bom de se ler.

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