Que a terra nos seja leve

Pequeno perfil de um cidadão comum (Belchior/Toquinho)
Dimas Lins
A morte ainda causa espanto. Não sei exatamente se o que me espanta mais é o fim da existência ou a ausência, em caráter definitivo, de quem amamos. Sinto-me incomodado em saber que, na maioria das vezes, esta separação permanente ocorre a contragosto dos que vão e dos que ficam. A natureza natural da morte encontra resistência na naturalidade do sofrimento, causado pela privação do convívio. Não importa se há outra vida além desta vida, pois, ainda assim, a morte causa a ruptura no tecido social, deixando um oco na célula familiar. E esse vácuo se estenderá entre os amigos, pelas ruas do bairro, pelos cantos da cidade e pelos rincões do país.
Soube da morte do pai de um amigo, poucas horas antes do funeral. Passei o dia anterior desconectado do resto do mundo, por causa da bateria do meu celular e, por isso, recebi a notícia apenas no dia seguinte.
Apesar da amizade de muito tempo, não conhecia seu pai. A bem da verdade, não sabia quase nada da vida dele, embora soubesse os detalhes de sua morte. Senti uma sensação estranha ao perceber que conhecia mais sobre as circunstâncias da sua morte do que sobre todo o resto de sua vida. Fiquei me perguntando sobre ele e tentando imaginar seu modo de viver.
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida
Na entrada do cemitério, emoções se misturam. Há um entra e sai de lágrimas e dores, enquanto ambulantes, flanelinhas e coveiros, imunizados pelo cotidiano, falam alto e até dão gargalhadas. O mundo dos vivos precisa de reformas.
Ao lado da minha esposa, atravesso em silêncio as ruas cercadas de mausoléus e me dirijo à capela. Lá dentro, entre preces e cânticos, encontro dezenas de pessoas mergulhadas em profunda tristeza. Embora não saiba o que fazer nessas horas, me aproximo do amigo e dou-lhe um abraço, sem dizer uma só palavra. O silêncio é melhor do que uma palavra errada. Ele, apesar da perda, parece bem, embora as aparências possam enganar.
Em pouco tempo, alguém se aproxima e pergunta sobre as circunstâncias da morte. Ouço o relato, exaustivamente repetido por ele - imagino - sobre o enfarte do pai na sexta-feira, a melhora súbita na manhã do sábado e o falecimento no meio da tarde. A morte ocorreu enquanto o pai conversava com o médico. Dizia que estava se sentindo bem e queria ser transferido da UTI para um apartamento no hospital. O médico, depois de dizer que melhor seria esperar até a segunda-feira, virou-se para falar com a enfermeira. Foi nesse exato momento que veio outro enfarto e travou-se uma luta para manter o paciente vivo. Não foi possível.
Depois do relato, o ouvinte se afastou e ficamos a sós. Meu amigo comentou que há vinte horas era massacrado por rituais fúnebres. Cansado, concluiu dizendo que queria apenas que tudo terminasse, para que todos pudessem descansar. Não entendo a maratona a que a família e os amigos têm que se submeter durante um funeral. Desde a liberação do corpo pelo hospital, a demora no IML e a contratação de uma agência funerária que, em muitos casos, age como urubus, não se importando com a dor da família. Mas o pior de tudo é o velório que, às vezes, leva a exaustão corações já exaustos.
Enfim, chega a hora de levar o caixão e me aproximo pela primeira vez para oferecer ajuda. Ao ver o morto, lembrei-me das palavras de Afta no Blog dos Perrusi, onde ela diz:
Mas havia um corpo ali dentro, um corpo morto, inerte, agressivamente inerte. O que choca naquele corpo é a radical ausência de movimento. A gente olha um corpo humano e espera ver alguma vida lá dentro. Mas ali não. O mais feio da morte é essa ausência absoluta de movimento. Olhando bem, o corpo tem tanto a ver com a pessoa que morreu quanto suas roupas ou até a madeira do caixão.
Saímos da capela em direção ao jazigo. Durante o percurso, o silêncio é interrompido apenas pelo vento nas folhas das árvores e pelas pisadas das pessoas que acompanham o cortejo. Numa das ruas do cemitério, uma cena me comove. Um homem vestindo uma farda de motorista ou de cobrador de ônibus está sentado à frente de uma das gavetas funerárias. Ele está só, de cabeça baixa e em silêncio. Ignorando a multidão, permanece na mesma posição, enquanto passamos. No túmulo, velas acesas. Dentro dele, talvez sua esposa, seu filho, seu pai ou sua mãe. Imaginar a sua história me deixa emocionado.
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para morte pensando em vencer na vida
O caixão encontra-se com seu jazigo e todos, em silêncio, esperamos. Antes de irmos embora, meu irmão recebe a ligação de um amigo em comum que também está no cemitério. Sua tia falecera no final da noite, por causa de um tumor na vesícula. Seguimos todos para abraçá-lo, inclusive, o que acabara de enterrar o pai. Conversamos um pouco, mas não acompanhamos o sepultamento. Havia muita morte no ar e era preciso respirar um pouco de vida. Despedimo-nos e deixamos a família em seu recolhimento.
Na manhã seguinte, já no trabalho, recebo a notícia do falecimento da mãe de um colega. Alguns amigos encaminham-se ao cemitério, mas eu prefiro seguir para casa. Parece que chegou o tempo de morrer e, por isso mesmo, é preciso cuidar dos vivos, enquanto há tempo.
Que a terra nos seja leve.
7 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Terra leve ou pesada, tanto faz, desde que não esteja em cima de alguém que eu ame.
É… precisamos cuidar dos vivos, precisamos nos cuidar… por conscidência, ou não, também havia colocado na segunda-feira crônica falando sobre minha avó e seu falecimento, que ocorreu na semana passada.
Ontem estive novamente no mesmo cemitério, dessa vez enterrando um jovem aluno, o que Sama colocou uma singela homenagem no seu blog.
Parece que a morte está nos alertando sobre nossas vidas… ontem olhando a mãe do meu aluno, percebendo a tamanha dor que ela expressava… me veio a mente que a dor do nascimento as mães esquecem… mas a dor que uma mãe sente ao ver um filho morto acredito que nunca será esquecida, pois sempre irar doer.
http://www.sobreumaseoutras.blogspot.com
Daí vem a importância de se valorizar, se preservar e respeitar a VIDA! É tempo de celebrar a vida, é tempo de viver intensamente com um olhar mais carinhoso sobre as pessoas, a vida tem que preponderar! A morte é o encontro com DEUS, é a tristeza para os que ficam e esperança para quem se foi!
Abraços meu amigo “Dimas” !!!!
Dimas, lembra eu falei que era difícil comentar os textos do estradar? Que terminaria em depoimento e comentários quilométricos? Então lá vai. E antes que eu esqueça, gostei de tudo que foi postado até agora, sem exceções.
Acho que eu tinha uns cinco anos - ou menos, não sei direito – quando vi uma pessoa dentro de um caixão pela primeira vez: a avó de uns amigos meus. Claro, não entendi nada; me impressionou mais o caixão no meio da sala, o ritual de orações e o entra e sai das pessoas, coisas de cidade do interior aí pelo final dos anos sessenta.
Depois seguiram-se vários encontros com a “indesejada das gentes”; uns mais e outros menos dramáticos; mortes chocantes, que até hoje me trazem a impressão de terem acontecido antes do tempo, de trajetórias incompletas, e outras meio que anunciadas, pela velhice ou doenças graves.
Mas tudo sempre visto com um certo distanciamento, pelo menos até a ceifadeira começar a atingir pessoas amigas e, finalmente, um parente próximo. Até aí, sempre fazia o possível para fugir das solenidades fúnebres, depois não foi mais possível e aceitei que havia obrigações sociais e, dependendo do caso, razões afetivas que me levariam a participar de tais ritos.
Fui várias vezes atingido pela tristeza de perder alguém de quem gostava. Duas em especial, por razões óbvias, foram mais marcantes: Primeiro, meu pai, aos 72 anos de idade, em 1984. Uma perda anunciada e para a qual todos vinham se preparando, pois dois anos antes havia sido operado para extração de um tumor no esôfago. Seus últimos dias foram, até a perda total da consciência, por conta dos analgésicos, uma lenta, dolorosa e imerecida agonia. Em suas últimas palavras, desejou descansar e nos deixar descansar. E eu, que sempre abominei os tais rituais, me apanhei ajudando a enfeitar o caixão e fazendo um carinho na sua face inerte e com aparência tranqüila como se domisse depois de todo o sofrimento. Não pôde colher todos os frutos do muito que plantou, mas de certo modo cumpriu sua trajetória, criando educando os nove filhos, dos quais o menos ajustado sou eu mesmo.
A outra, foi meu melhor amigo, falecido em 02/07/97, aos 29 anos, de diabetes. A gente sempre tinha a mania de posar de “deprê” e falar que iria morrer cedo, mas ele resolveu levar a sério e exagerou na dose. Casou duas vezes e, depois de dois fracassos, achou por bem apenas ciscar, embora me aparecesse quinzenalmente dizendo que encontrara a mulher de sua vida. Nunca vi tantas “ex” num só enterro.
Lembro de tê-lo visto num sábado, conversamos sobre as neuras habituais e marcamos para tomar umas no fim de semana seguinte, mas não deu tempo. Na terça-feira seguinte seu cunhado me ligou perguntando se sabia do seu paradeiro e eu disse que não. Um pouco mais tarde, outra ligação, da mesma pessoa, me diz que ele foi encontrado morto no apartamento em que morava sozinho, vizinho ao da última namorada. Me senti como se tivesse tomado uma descarga elétrica; larguei os processos na primeira mesa que encontrei pela frente e caminhei meio desorientado entre os colegas assustados com a palidez do meu rosto, até desabar numa crise de choro como nunca havia tido antes. Não tive coragem de ir vê-lo no local em que foi encontrado e, muito menos, no caixão. Não deu.
Dessas duas experiências ficaram várias lições. Aprendi, definitivamente, que não dá para fugir dos rituais fúnebres, por mais difíceis que sejam de agüentar. Que não faz o menor sentido visitar túmulos, pois não há nada lá. As pessoas que amamos estarão sempre com a gente, em memória e coração. Vivas, até que a nossa chama também seja extinta.
Passado um tempo, veio a conformação junto com as boas lembranças do que vivi ao lado de cada um deles. E ainda hoje, depois de 23 anos da partida de um e 10 anos da do outro, sinto mais fortes do que nunca as suas presenças na minha vida. Sempre, nos momentos de crise, ainda penso em como meu pai me ajudaria a resolvê-los ou como ficaria satisfeito com o que sua prole conseguiu. E, vez em quando, tenho a impressão de escutar junto à minha janela a voz de Saulo, com um sorriso escancarado: “Diz cretino, vamos tomar umas”. Temos que cuidar dos vivos e dos “vivos”.
A vida tem sido dolorosa nesses últimos dias. Muitos blogueiros que conheço, por coincidência, trataram da morte. A morte está mais viva do que nunca.
Ducaldo seu comentário é como um poema triste. Peço, inclusive, sua permissão para publicá-lo depois aqui no Estradar.
Depois das dores, resolvi fazer uma crônica radicalmente oposta a este texto. Quem sabe, trará um pouco de alegria a esta estrada.
Um abraço a todos,
Dimas
Dimas, se você acha que há qualidade suficiente para isso, pode publicar. Mas dá uma revisada antes.
Na verdade eu escrevi tudo de cambulhada ontem à noite. Foi necessidade mesmo, pois passei a semana toda pensando na “indesejada” e tinha que passar para o papel aquilo que não pude verbalizar com ninguém.
Pensei em retocar o texto e acrescentar outras passagens e personagens, mas isso tiraria a espontâneidade do que escrevi e o deixaria muito extenso, com o risco de perder o foco por causa de detalhes, de coisas menos relevantes. E como não tinha a pretensão de vê-lo publicado, apenas fui passando para o papel, aos borbotões, o que me veio à cabeça e ao coração. E apertei o botão de “enviar” antes de sucumbir à tentação.
Então, ficou do jeito que está.
Abs.
Ducaldo
Dema não poderia esperar outra coisa de um amigo como você, peço desculpas por não ter lido antes, mas a verdade é que tentei durante esse tempo, me desligar um pouco desta triste realidade. Agradeço de coração do amigo,
Beto