História de uma viciada em laquê
Arte sobre foto: Dimas Lins

Chocolate - Marisa Monte (Tim Maia)
Dimas Lins
Digo logo assim de cara, sem afetação: era dependente química. Manteve por muito tempo um costume censurável e prejudicial. Os familiares e amigos deram-lhe apoio e força, mas foi por muito pouco que ela não se perdeu para sempre.
Os jornais estão cheios de histórias de pessoas que tem a sua vida destruída pelo vício e, por isso, o alívio foi geral quando ela se reabilitou. No começo, desconfiaram de muita coisa. Pensaram em maconha, cocaína, crack, heroína, álcool, cigarro, café, chocolate, sexo, internet, jogos de azar, televisão e… nada! Sabiam que tinha algo errado, mas não conseguiam perceber o que era. Ás vezes, o vício está onde menos se espera. A resposta estava embaixo do nariz, ou melhor, acima dele. Melhor ainda, acima da testa, mais precisamente no cabelo. Ela era viciada em laquê. Isso mesmo, laquê! Aquele produto que se vaporiza sobre os cabelos para fixar o penteado.
Seu vício começou igual a todos os outros vícios. Surgiu de maneira casual e inesperada até tomar o domínio de suas ações. Foi no dia do casamento de sua prima que usou laquê pela primeira vez. Depois de chegar do salão de beleza, teve a ingrata surpresa de ver que seu penteado se desmanchara. Foi a mamãe, aquela desnaturada, sangue do seu próprio sangue, que lhe ofereceu aquela droga. Fez um penteado rápido e aplicou o produto para fixar o cabelo. O resultado foi impressionante! O cabelo não se desfez e pouco importava se ela ficara com a cara de Marge Simpson, mulher do abilolado Homer. O efeito do produto lhe deixou anestesiada. Gostou tanto da sensação que não tinha dúvidas que usaria novamente o alucinógeno. Alucinógeno, sim! Pois, só alguém alucinada iria se achar atraente com a cara de um dos personagens dos Simpsons. Sem contar que seu estado eufórico não era natural. Também não era natural o formato de seu cabelo que ficara grudento e parecido com um rolo de arame farpado.
Com o tempo, passou a usar laquê em todos os encontros sociais. Começou, como disse, em casamentos, depois passou para formaturas, festas de debutantes e bailes de carnaval. Mas as pessoas começaram a perceber que havia algo errado quando ela passou a ir para a balada usando laquê. Outra, não perdia um programa de Hebe Camargo, o fim da picada para uma jovem de 25 anos.
O tempo passou e as coisas só pioraram. Ela começou a usar o fixador de penteado para ir ao shopping, ao cinema ou a qualquer barzinho. Quando lhe perguntavam por que ela usava tanto laquê, a resposta era uma só: “meu cabelo não desarma nem sob tempestade!”. As amigas achavam tudo aquilo muito estranho, mas sempre que tocavam no assunto, ela, cheia de topete, tinha um ataque histérico e ia embora, deixando-as falando sozinhas.
No estágio mais avançado da dependência química, passou a usar laquê no trabalho. Era vista com estranheza quando, em meio a uma reunião, sacava o fixador de cabelo e aplicava ali, na frente de todo mundo. Uma despudorada! Chegou a ser advertida por seu chefe em várias ocasiões, mas não se emendou. Finalmente, foi demitida quando lhe flagraram no banheiro, cheirando com sofreguidão um tubo do aerossol.
Desde então, passava o dia em casa, trancada em seu quarto, sorvendo tubos e mais tubos de laquê. Foi aí que a família resolveu intervir. Como primeira medida, os pais jogaram fora todos os frascos de areossol que havia em casa. Foram tempos difíceis. Testemunharam a filha, em inúmeras oportunidades, tomada pela dependência química, quebrando as coisas da casa e roubando dinheiro para sustentar seu vício.
Foi então que resolveram interná-la numa clínica de reabilitação para dependentes químicos. Fugiu diversas vezes, mais foi graças à perseverança dos pais e o apoio dos amigos que finalmente conseguiu vencer o vício.
Hoje, ela está à frente de uma organização não governamental que tem como objetivo conscientizar e prevenir a população dos riscos que o laquê pode causar às pessoas. Em seus depoimentos, ela conta que apesar do esforço, não está totalmente curada e que a luta contra a dependência nunca terminará. Ela, ainda hoje, se esforça para não cair em tentação. Não vai mais a casamentos nem formaturas, por exemplo, com medo de uma recaída. Tem evitado usar qualquer produto no cabelo e, a muito custo, voltou a usar xampu na semana passada, mesmo assim com acompanhamento terapêutico.
Semana que vem, ela tem em sua agenda um encontro marcado com o presidente da república, onde apresentará um anteprojeto de lei de iniciativa popular que pretende transformar o laquê em droga ilícita. O anteprojeto encontra resistência nos fabricantes de produtos de beleza, cabeleireiros em geral e algumas apresentadoras de TV. A briga promete ser boa e vamos ver no que isso vai dar.
A história dessa jovem deixa, ao menos, uma mensagem inequívoca às mulheres: laquê é uma droga!
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