Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 30 de outubro de 2007, às 0:00h

Mano velho

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Sobre o tempo (Pato Fu)

Dimas Lins

Já tive medo do tempo. Medo de envelhecer, de morrer jovem, de deixá-lo escorrer por entre os dedos e de me perder metido em coisas desnecessárias. Tive medo de não usá-lo com sabedoria, de não aceitar a sua passagem e não tê-lo suficientemente devotado aos que me acolheram e aos que, de fato, me importaram.

Já tive medo do tempo. Medo de não sarar uma ferida, de não me curar com o esquecimento e de não me confortar com uma lembrança. Medo de ser esquecido pelos amigos distantes, de não ser estimado por quem estimo, de não ser compreendido, nem de compreender, de não ser perdoado, nem de perdoar e de não renunciar a minha própria punição, quando eu me pegar em erro.

Já tive medo do tempo. Medo de buscar o que não me cabia e querer o que não era meu. Tive medo de viver por caminhos errados e não aprender nenhuma lição valiosa. Medo de quem sou hoje não se contentar com o que serei amanhã. Medo de amanhã me envergonhar do que fui hoje.

Já tive medo do tempo. Medo de não ser suficiente, medo da arrogância e de me perceber mais quando sou menos. Tive medo de não ser nada e querer ter tudo. Medo de estagnar, da paralisia, da preguiça, de me entregar.

Já tive medo do tempo. Medo de não viver o que me cabe, de sonhar apenas o possível, de ser premido pelo limite, de não me permitir, de não tentar, nem de querer.

Semana passada fiz 41 anos e, talvez por isso, já não tenha mais medo. Descobri no tempo um companheiro de jornada, um conselheiro, um tutor e um amigo. O tempo foi justo comigo. Deu-me o necessário e nada que recebi foi além ou aquém do meu esforço.

Não sou mais o mesmo, é verdade. E embora não seja um homem velho, o meu corpo já não tem a mesma juventude, o mesmo vigor, nem a mesma saúde dos meus vinte e poucos anos.

Por tudo isso, não tenho mais pressa. Melhor deixar o tempo passar rasteiro, mansinho. Melhor atrasar as horas do que adiantar os ponteiros. É tempo de vasculhar as gavetas, lembrar boas lembranças e jogar fora o que não me serve mais. É hora de ficar satisfeito com coisas miúdas, com pequenas conquistas. É que esse negócio de ser feliz no atacado dá um trabalho danado e não leva a gente muito longe.

Tempo, mano velho, segue comigo sem pressa e me ensina o que eu ainda preciso saber. E quando chegar a hora, não espicha a minha vida além do necessário, mas só me derrube no final.

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Dança partidária

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Brasil - Cazuza (Cazuza/Nilo Roméro/George Israel)

Maison de Figueiredo


Feita por ocasião da discussão no STF sobre a fidelidade partidária


 Venho por esses versos
De um assunto sério tratar
Como um simples cidadão
Que passou a observar
A movimentação partidária
Dos políticos desse lugar

Vejo nessa classe de gente
Um descaramento total
Cada um atrás de um partido
Em ano pré-eleitoral
Parece até “nêgo” perdido
Em folia de carnaval

É um troca-troca danado
Partido prá lá, partido prá cá
Quem não tá satisfeito em “B”
Muda-se para o partido “A”
Tem ainda aquele que foi
Pela primeira vez se filiar

Tudo isso com o olho
No ano que vai ter eleição
Todos querendo no voto
Ser o grande campeão
Com o nome consagrado
Em toda a região

A fidelidade partidária
É conversa prá boi dormir
Troca-se de partido
Como quem vai daqui pr’ali
É todo mundo querendo
Seu espaço garantir

Toda eleição é assim
É candidato de montão
Alguns tentando a primeira vez
Outros buscando a renovação
Do mandato que garante
Especial remuneração

No período da campanha
É um falatório danado
Correria atrás do voto
Daquele eleitorado
Formado por boa gente
Que mais tarde é enganado

Se o fulano se elege
Por um partido de oposição
Logo logo é procurado
Pelos governistas de plantão
E o troca-troca continua
Inclusive com “mensalão”

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Pra dizer adeus

Arte sobre foto: Dimas Lins

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Pra dizer adeus - Roberta Sá (Edu Lobo/Torquato Neto)

Dimas Lins

Por mais de uma hora manteve-se em silêncio. Faltava-lhe a coragem necessária para dizer a mulher sua última resolução. Enquanto esteve cabisbaixo, nem chegou a perceber os cortejos que passavam a sua volta. Não ouvia a marcha silenciosa dos que, naquele instante, diziam adeus. Durante esse breve tempo, apenas permaneceu sentado e com a cabeça voltada para o chão, pois sabia que a esposa, seguramente, reprovaria a sua decisão.

E foi desse jeito, cabeça baixa, sem olhar em sua direção, que aos poucos ele foi rompendo a privação voluntária da fala. Ainda assim, preferiu não ir direto ao ponto, para não melindrá-la. Falaria com jeito e usaria do cuidado, na intenção de evitar o desapontamento.

Lembrou-lhe quando a conheceu no primeiro dia de aula na faculdade e que mudara a perspectiva de sua vida, pela viva afeição que sentiu naquele instante. Que soube então que ela, e mais ninguém, cruzara o seu caminho de modo determinante e que sentir seu cheiro era tão necessário quanto encher de ar os pulmões.

Lembrou-lhe o casamento um ano depois e as dificuldades que passaram no início da vida conjugal pela falta de dinheiro. O ajuste natural da vida, enquanto os dois, gradativamente, cresciam na profissão e davam-se mutuamente um conforto melhor. O nascimento do primeiro filho, depois a chegada do segundo e o encantamento que sentiram em ser responsáveis por vidas tão pequenas e tão maravilhosas.

Lembrou-lhe a felicidade pela formatura do mais velho e a tristeza profunda pela morte do mais novo, num assalto em plena luz do dia, diante de um sinal de trânsito fechado. A despedida do primeiro filho que se estabeleceu profissionalmente em outro país e por lá se casou, dando-lhes o primeiro e único neto.

Lembrou-lhe que, apesar de todos os embaraços que a vida trouxe, tiveram juntos uma caminhada venturosa e plena de amor. Que jamais tiveram ranhuras em seu casamento e que, ao contrário, o amor sempre encontrou terreno fértil em seus corações para crescer e se solidificar.

Por fim, lembrou de sua morte, três meses atrás, do tempo em que ela passara na UTI, do medo que ele teve da solidão e da certeza de não saber viver sem sua companheira de todas as horas.

Ao calar a voz, estava comovido. De seus olhos vertia um córrego de lágrimas que se espalhava pelo chão em forma de pequenas gotas e misturava-se aos grânulos de areia por entre seus pés. Ao derramar seu pranto, contou finalmente que não vivera tudo aquilo em sua companhia, para terminar seus dias na solidão. Estava velho e cansado e agora fazia as contas para, quem sabe, encontrá-la novamente em outras paragens. Ele estava ali, diante de seu jazigo, para dizer adeus.

Esperou alguns minutos, finalmente levantou a cabeça e olhou em sua direção. Ela sorria um sorriso meigo, através da fotografia fixada na laje do sepulcro. Ele sorriu de volta agradecido pela compreensão. Em seguida, inclinou-se para frente, beijou-lhe o rosto de senhora, depositou uma rosa em seu túmulo e disse adeus.

Ao levantar-se, enxugou as lágrimas, ajeitou os cabelos brancos e suspirou antes de partir. Depois, caminhou lentamente pela rua central do cemitério, desaparecendo no horizonte até sua silhueta perder a forma.

Quando enfim deram por sua falta, encontraram-no sentado em sua cadeira de balanço, próximo à janela, metido num corpo inanimado. Não havia sinais de interrupção propositada da vida. A permissão da esposa foi o bastante para interrompê-la. O amor foi tanto que morreu por ele.

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Um dia qualquer

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O dia em que a terra parou (Raul Seixas)

Dimas Lins

Amanheceu e nada havia de diferente. Não acordei tão cedo, nem levantei mais tarde. Os sinos da igreja não badalaram em meu nome, nem o padre rezou uma missa para mim. Não fui acordado por uma bela canção, nem pássaros vieram me dar bom dia na janela. Não acordei mais sábio, nem me senti mais estúpido. Levantei da cama seguro de que era a mesma pessoa de antes de dormir e nem ao menos o dia me pareceu melhor do que qualquer outro dia.

Não me converti a nenhuma religião, nem me tornei ateu. Não presenciei milagres, nem vi no céu sinais de tragédia. Não me arrependi dos meus erros - mesmo tendo muita coisa para lamentar - nem os ignorei, como se não fossem nada demais.

Não me desviei do caminho correto mais do que costumo me desviar, nem tentei fazer a coisa certa mais do que costumo tentar. Não plantei uma árvore, nem derrubei uma mata. Não botei fogo em nada, nem apaguei um incêndio. Não dei causa a um grande acontecimento, nem contribuí para a desgraça humana.

Não comprei um livro, nem vendi os que eu tinha. Não li nada revolucionário, nem causei admiração pelas coisas que escrevi. Não me considerei um intelectual, nem me percebi um tolo. Não rabisquei uma poesia, nem recitaram versos para mim.

Não aprendi a tocar um instrumento musical, nem dedilharam as cordas de um violão em minha homenagem. Ouvi novas músicas, mas não aprendi uma nova canção. Minha voz não se afinou e mesmo assim cantei no chuveiro.

Não prometi fazer dieta, nem vi razão para comer um pouco mais. Não decidi fazer exercícios físicos, não procurei um endocrinologista, nem deixei de beber, embora continuasse preocupado com o meu sobrepeso.

A polícia não me ofereceu segurança especial, nem os bandidos deixaram de ameaçar a minha rua. Não saí à noite despreocupado, nem achando que morreria num assalto. Não selei um tratado de paz, nem declarei a guerra. Não combati a violência, nem dela parei de reclamar.

Não ri um riso desnecessário, nem chorei sem razão. Não fiquei em depressão, muito menos eufórico. Não chorei de rir, nem ri de chorar. Não pisei em bosta, nem achei o mundo uma merda.

Não acordei mais bonito, nem perdi um dente da frente. Não usei paletó, nem rasguei as minhas roupas. Não me vesti de vaidade, nem saí às ruas como um mendigo. Desprezo as imposições da moda, embora me revista dela.

Não fiz um novo amigo, nem me desfiz de nenhum. Não dei esmolas a um necessitado, nem recebi ajuda de desconhecido algum. Não queimei dinheiro, nem achei moedas na rua. Não elogiei um colega, nem ofendi um estranho. Não pratiquei o bem, nem desejei um mal tamanho.

Não fiz nada especial, nem a rotina me pareceu ordinária. E apesar de tudo igual, achei o dia valioso. E ainda que o sol não brilhasse mais do que costuma brilhar, passei um tempo na varanda recebendo o seu calor e tomando uma cerveja, para tentar me refrescar.

Hoje é um dia qualquer e talvez por isso eu me sinta tão bem. Tudo está no seu lugar no meu aniversário.

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A morte não lhe cai bem

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Sujeito de sorte (Belchior)

Dimas Lins

Nem sempre é necessário um tempestade para causar uma inundação. Às vezes, uma pequena gota fará transbordar o que já está cheio. E o desespero bate do mesmo jeito afogando a esperança ou ocultando caminhos ainda possíveis de se percorrer.

De uma tacada só, perdeu a mulher, o apartamento, o melhor amigo e o emprego. É que sua mulher andava tendo um caso com o amigo que, por azar, era também seu patrão. O flagrante foi em sua própria cama e ela ainda teve a coragem de pedir-lhe para sair de casa durante a contenda. Foi assim que também perdeu o apartamento. Para não sair tão por baixo, resolveu, de última hora e só pelo orgulho ferido, levar consigo a samambaia.

Alguns meses depois, num pequeno quitinete alugado num bairro afastado de tudo, sentia o impacto de ter tido sua vida devastada tão abruptamente. Não se dobrou completamente, mas bastava um nada para que se dobrasse. Estava ilhado, sem dinheiro e sem perspectivas.

A morte de sua samambaia foi a gota derradeira que o impulsionou a um desejo incontrolável de buscar a interrupção definitiva de sua vida humana. Perdera lentamente sua última companheira, seu último laço afetivo com o mundo e o último ser vivo que o ouvia sem reclamar. Ela morrera de sede, por sua única e exclusiva culpa. A planta lhe dera toda a atenção de que precisava, mas ele foi incapaz de compreender sua necessidades mais básicas. Água, apenas água, e nada mais. Por ironia, a gota d’água que faltara à samambaia sobrava em seu pote cheio de mágoa, selando a sentença de dar cabo à sua vida. Se dera causa a sua morte, ele anteciparia deliberadamente o seu prazo de validade e, quem sabe assim, pagasse a dívida contraída com a planta.

Decidido, passou a tramar o seu próprio fim e, em seus planos mirabolantes, percebeu que não seria fácil. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi pular do alto de um edifício. Deixaria seu corpo cair em queda livre sentindo a brisa da manhã de maneira acelerada. Respirou fundo, foi até o telhado do seu prédio e, estranhamente, ficou paralisado. Os músculos não responderam aos comandos de seu cérebro. Estava imóvel, porque acabara de descobrir que tinha acrofobia. De fato, nunca estivera em algum lugar tão alto e sem proteção, para que pudesse confirmar suas suspeitas. Agora estava provado. Tinha medo de altura e, embora isso explicasse muitas coisas em sua vida, achou que não era o momento oportuno para a descoberta. Melhor então seria tentar de um lugar mais baixo.

Dizem que o desespero pode levar algumas pessoas a tomarem atitudes impensadas, mas nunca se soube em toda a história da medicina que alguém, em tais circunstâncias, pudesse ser levado à estupidez. Foi entre o caos no pensamento e a burrice escancarada que decidiu então pular do térreo. Deslocou-se para uma ladeira próxima a sua casa, marcou carreira, desceu-a velozmente e, de certo ponto, jogou-se para frente. Rolou ladeira abaixo desgovernado até se chocar contra uma mureta. Levantou-se com dificuldade e, apesar de ter o corpo ralado dos pés à cabeça, percebeu que não havia quebrado um osso sequer. Morrer, então, estava fora de cogitação. Ainda teve que ouvir uns gritos de “louco” e “retardado” de algumas testemunhas no passeio público.

Apesar do desastre, não desistiria facilmente, embora decidisse concretizar seus planos longe dos olhares dos curiosos, para evitar o constrangimento, em caso de novo fracasso. Primeiro, tentou se afogar numa bacia d’água e depois meteu-se a cortar os pulsos com um barbeador elétrico. Em seguida, tentou se enforcar amarrando uma corda no cano da pia do banheiro. Por fim, desceu intempestivamente e tentou se jogar na frente de um carro. Mas, para seu azar, o sinal estava fechado e, mesmo tendo corrido em direção ao veículo parado, não conseguiu nada além de um pequena mossa no capô.

Reconheceu finalmente que fracassara como suicida e, diante de sua ineficiência em terminar sua própria existência e sua teimosia em manter-se vivo, decidiu viver o que restava de sua vida. Foi assim que, no ano seguinte, tentando superar o medo de altura, entrou num curso de pára-quedismo e conheceu Dinorah, com quem pretende se casar em breve.

Embora sua vida tenha mudado e se considere um sujeito de sorte por não ter morrido nas suas desventuras em busca da morte, vez por outra, ainda lhe bate um impulso suicida, não por sentir-se um miserável ou pela saudade da samambaia, mas pela frustração de não ter tido sucesso em sua empreitada mórbida. Mas, lá no fundo, ele está feliz por saber que a morte não lhe cai bem.

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A vida no sertão

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Último pau de arara - Fagner (Venâncio/Corumba/J. Guimarães)

Dimas Lins

Era São João e estava fazendo um friozinho danado em Serra Negra no município de Bezerros, em Pernambuco, quando fomos eu, minha esposa, irmãos e amigos para a tenda de espetáculo para ver, ouvir e dançar um forró. Como todo pernambucano, gosto muito da dança e, vez por outra, me arrisco nos passos e naquele chamego gostoso.

Naquele dia em especial, tive uma surpresa boa quando ouvi uma banda chamada Fim de Feira, até então desconhecida para mim, tocar um forrozinho intercalado por uns decassílabos bons de se ouvir.

Decassílabos são versos com dez sílabas poéticas utilizados por Camões em Os Lusíadas e largamente decantados pelos poetas nordestinos. Tenho muita estima por quem faz decassílabos, pois quem entende do riscado sabe o quanto eles são difíceis de fazer.

Por isso, foi com grata satisfação que, outro dia, degustando umas coisinhas boas de beber e ouvindo umas músicas de primeira qualidade, descobri a habilidade do meu amigo e cunhado Maison de Figueiredo para rabiscar uns versos decassilábicos. Não pensei duas vezes e o convidei para publicá-los aqui no Estradar.

Para quem não o conhece, Maison pode passar à primeira vista a impressão de ser mineiro, por sua discrição e seu jeito silencioso. Ele, de fato, não é de desperdiçar palavras, ao contrário de mim. Paciente, é capaz de ouvir as minhas tagarelices por horas sem reclamar - ao menos em voz alta!

Cearense lá das bandas do bom e velho Cariri e radicado em Recife desde os tempos de universidade, quando veio cursar direito, Maison é apaixonado pelas coisas do sertão. Por isso mesmo, o seu primeiro decassílabo publicado no Estradar teria que passar necessariamente pela vida do sertanejo.

Sem mais demora, o Estradar apresenta o seu primeiro convidado e espera que ele volte mais vezes. Com a palavra, ou melhor, com os versos: Maison.


A vida no sertão

Maison de Figueiredo


Quando amanhece no sertão
Nos dias de seca inclemente
Tudo parece cinza, e de repente
O sol nasce com o seu clarão
O matuto olha pro seu rincão
A sua feição entristece
Na terra seca ele padece
Mas logo vem na lembrança
Os bons tempos de invernança
E o sertanejo reza uma prece

Reza para agradecer
Pelo feijão e milho que tem
Coisas que da terra vêm
Que ele não pode perder
Pois o tempo que leva pra colher
Parece até uma eternidade
Em São Pedro vê bondade
Quando manda uma chuva fina
Ou até mesmo uma neblina
Acompanhada de tempestade

A rotina no sertão é esperar
A chuva é aguardada em janeiro
Mas tem ano que entra fevereiro
E a danada nem pensa em chegar
Espera-se março no estradar
Do ano que já corre embalado
Mês que São José é louvado
Porque é o salvador eterno
É a esperança de um bom inverno
Com o céu de nuvens carregado

A chuva chega e inunda o chão
Que estava seco e maltratado
E vai logo ficando mudado
Esperando o plantio do grão
De arroz, milho e feijão
Que mais tarde será colhido
No roçado daquele atrevido
Sertanejo de pele queimada
Do sol que antecede a luarada
E ilumina o “cabra” destemido

Sol que alimenta o canto lento
Do galo-de-campina, do sabiá
Da ave-de-arribação que quer pousar
Na beira do açude barrento
Onde começa a soprar o vento
No fim do dia azulado
De onde se ouve o chiado
Saindo do mato a cascavel
Com a abelha fabricando o mel
No pé do juazeiro florado

Chega junho e já é hora
De apanhar o que foi plantado
É festa pra todo lado
O sertanejo comemora
Do lugar não vai embora
Pois quer comer o milho cozido
E também o feijão colhido
Naquele pedaço de terra
Que tem o cabrito que berra
E o boi que faz mugido

Três ou quatro meses pra frente
O calor é colossal
Faz qualquer um passar mal
Não tem cristão que agüente
Tudo ao redor tá diferente
A paisagem ficou mudada
A folha seca é ameaçada
Por qualquer faísca que venha
Do fogão que queima lenha
Naquela noite enluarada

Na cozinha o café fervendo
Cheirando coisa gostosa
No terreiro o matuto prosa
Com a meninada correndo
E com saudade ele revendo
Os bons tempos de criança
E também da boa dança
Nos forrós da redondeza
Com muita cachaça e beleza
Da donzela que tem lembrança

Mas a difícil vida continua
Naquele sertão empobrecido
De um povo tão esquecido
E de uma terra seca e crua
De vegetação quase nua
Onde a juriti vive a cantar
E como a rotina é esperar
Nada mais tão natural
Agora é esperar o Natal
Que logo outro inverno virá

E assim segue o sertanejo
Nessa peleja tamanha
Vivendo sem artimanha
Com o seu gado no pastejo
Que dá o leite e o bom queijo
De coalho que ali é feito
Com o amor que traz no peito
Servindo sempre a quem precisa
Na estrada da vaidade não pisa
Só sabe viver desse jeito

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