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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 1 de outubro de 2007, às 0:00h

Atrás da porta

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Atrás da Porta - Elis Regina (Francis Hime/Chico Buarque)

Dimas Lins

São inúteis as coisas que giram em torno do amor, essa tolice. A sua busca incessante é sempre em vão, pois um dia, com ou sem avisos, ele irá embora. E, durante sua permanência, ainda que fugaz, surgirão dúvidas incontáveis. Seremos amados com a mesma intensidade com que amamos? Será eterno ou algo se perderá pelo caminho? Seremos capazes de amar a mesma pessoa pelo resto da vida? E ela, nos amará também de volta? Do quê se sustentam os amores? De quê se alimentam, de quê vivem e por que sobrevivem? Por que morrem?

Afinal, de quê são feitos os sonhos? Que aventura é essa, que é o amor? Que bobagem é essa em que tentamos desesperadamente acreditar? Por que o amor é tão franzino? Por que não encontra em si, e somente em si, a razão para manter-se vivo?

Haverá registros, através das fotografias, dos momentos que, muitos anos depois, nenhum dos dois saberá explicar o riso, a alegria e a felicidade. Isso, sorriam! Guardem os risos na lembrança e nos álbuns, porque só lá eles sobreviverão. A verdade é que, atrás da porta, o amor é covarde.

***

Pela porta entreaberta na área social do 18º andar, avista-se a sala de estar. A arrumação bem cuidada dos móveis dá a falsa impressão de harmonia. O equilíbrio das cores, tons, nuanças e proporções agradáveis de forma e volume dos objetos contrastam com a atmosfera do ambiente. Os sorrisos no porta-retrato já não são sinceros. Na estante, os discos que antes embalavam os animados jantares com os amigos, agora silenciam. Vinícius, Chico e Tom foram esquecidos no compartimento de CD.

Na cozinha, a louça intocada indica que o jantar ainda não foi servido e, provavelmente, não será. No corredor, nenhum movimento, nenhuma sombra, nenhum vulto. Crianças não correm pela casa, nem espalham vida onde a vida é necessária.

No escritório, o computador está desligado e os livros continuam na estante. Cem Anos de Solidão. A mesa está impecavelmente arrumada. Sobre ela, um bloco de notas rabiscado com uma frase adaptada de Fernando Sabino: “o espírito já nasce maduro e faz com que a gente às vezes se sinta um velho”.

No primeiro quarto, não há brinquedos espalhados, nem roupas infantis no armário. Não há sonhos, não há nada. Os lençóis e travesseiros estão postos e alinhados, como se nenhum corpo ainda tivesse se deitado sobre eles.

No banheiro, o branco do revestimento se espalha por todos os cantos. Um frescor invade as narinas, mas não há narinas para cheirar. Um conjunto de toalhas de banho e de rosto espera as visitas que não virão. Um pequeno floral enfeita o balcão da pia, enquanto o sabonete aguarda inutilmente ser tocado por mãos carinhosas.

Atrás da porta do quarto do casal, o amor se despede. A janela entreaberta deixa o vento balançar as cortinas dando a falsa sensação de leveza ao ambiente. No cômodo, a mala aberta e as roupas espalhadas pela cama denunciam que não se trata apenas de mais uma briga de casal, mas do rompimento definitivo de uma relação que já foi amorosa. Juntando o que resta de suas forças, ela tenta inutilmente devolver ao guarda-roupa o que já não lhe pertence. Não há mais o que fazer. Chegou o dia em que o amor tornou-se inexeqüível.

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