Querer bem

Lobo bobo - Emílio Santiago (Carlos Lyra/Ronaldo Bôscoli)
Dimas Lins
- Não, não e não! - protestou o garotinho ao deduzir que a vovozinha iria ser comida pelo lobo mau.
- Mas a estória é assim mesmo, filho! - defendeu-se a mãe.
Não importava. Ela que contasse de outro jeito que daquele não servia. Por acaso não teria a mãe sentimentos? Afinal, não há nada mais terrível do que ter uma mulher idosa, que muito bem poderia ser a sua avó, devorada por um lobo.
E não adiantou a mãe prometer ao filho que a vovó ficaria bem. Não ficaria. Como poderia uma velhinha ficar confortável no bucho do bicho? E não era só uma questão de espaço. Havia que levar em consideração a mastigação do lobo, pois seus dentes afiados certamente machucariam a vovó.
A mãe, vendo a agitação do filho, um menininho de apenas cinco anos de idade, chegou ainda mais perto, deu-lhe um beijo na testa e ajeitou-lhe no edredom.
- Querido, se o lobo mau não comer a vovó, como ele poderá se passar por ela, quando Chapeuzinho vermelho chegar, hein?
Não sabia responder. Não era ele quem contava a estória, mas sua mãe. Portanto, ela que pensasse em alguma coisa. Que mandasse a vovó passear no shopping na hora que o lobo fosse a sua casa. Isso mesmo! Assim, sem encontrar a velha, o lobo mau poderia se disfarçar à vontade, sem precisar devorar ninguém.
- Meu filho, shopping na floresta?! Tenha paciência!
Não tinha. Não deixaria o lobo levar a melhor só porque a mãe não queria construir um shopping na mata. Que construísse! O que importava era tirar a boa senhora de casa. É claro que a mamãe ainda tentou argumentar que a vovó estava doente e pessoas doentes não vão passear no shopping. Então que fosse a um hospital, ora bolas!
Percebendo o filho agitado e, cada vez mais, com menos chances de dormir cedo, resolveu, vendo as horas se passando velozes, abrir mão da versão original da estória e mandou a vovó se tratar num hospital. A partir daí, tudo correu bem. Até, é claro, a hora de o lobo mau comer a Chapeuzinho.
O garotinho não deixou o lobo comer a avó, por que deixaria que comesse Chapeuzinho? Isso é que não! Se dependesse dele, o bichano passaria fome. Fome não! Não precisaria ser cruel com o lobo. Que fosse comer biscoitos! Claro que a mãe, mais uma vez, protestou.
- Filhão, deixa disso! Chapeuzinho vai viver feliz para sempre, te garanto! - antecipou a mãe o final da estória, já impaciente com as intervenções do rebento.
Duvidava que Chapeuzinho, assim como a vovó, pudesse ser feliz dentro da barriga de um animal. Mas o coração apertou mesmo quando a mãe lhe comunicou que um caçador abriria a barriga do lobo para salvar a menina. O lobo mau, coitado, não merecia isso. Protestou e pediu a mãe outra solução. E se o caçador chegasse antes do lobo engolir Chapeuzinho? Neste caso, não seria necessário abrir a barriga de ninguém.
- Filho, você já está mudando a estória de novo. Assim não dá!
Mas era tarde demais. Já estava decidido. O caçador chegaria antes. Melhor ainda, não seria um caçador, mas um médico, pois, de quebra, ainda cuidaria da doença da vovó. Ah! Seria bom também que o lobo não fosse mau. Melhor que fosse um cachorrinho de estimação de Chapeuzinho, mais interessado em afagos e brincadeiras do que em comer pessoas inocentes.
Como o que importava era o sono do garoto, a mãe mudou novamente a estória. Agora, todos os personagens seriam felizes para sempre, desde o início.
- Era uma vez…
E foi só desse jeitinho, com a estória totalmente modificada que ele, finalmente, conseguiu dormir em paz e a mamãe pôde então seguir para o seu quarto. No caminho, ainda cansada, sorriu das bobagens do filho, que era incapaz de querer mal a alguém. Mesmo que esse alguém fosse apenas um personagem de estória infantil.
Para João Vinícius, que desde criança só aprendeu a querer bem.
2 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



O seu afilhado de cá jamais faria isso. Ele na certa iria argumentar com a mãe que é impossível um lobo devorar uma pessoa assim, na boa, fácil. Teria que morder muito, iria sangrar demais e levaria muito tempo para devorar todos os pedaços - “pq é óbvio que a senhora da terceira idade teria que ser repartida em pedaços de… digamos, uns 10cm no máximo, a depender da estatura do lobo e…”.
Pois é. Olha só no que o menino se transformou.
E ainda assim, é uma gostosura!
Acho que todos nós temos um poko de medo do LOBO MAL !!!!