Enterrado em meu próprio corpo

Para um amor no Recife (Paulinho da Viola)
Dimas Lins
Fui um tolo. Fui esse pateta, porque de uns tempos para cá envelheci sem que eu tivesse me tornado um homem velho. Quando me encontrava diante de um espelho, não via mais o que restava da minha juventude, nem sentia sua energia e vigor pulsando em mim. Fui assim, porque diante de um naufrágio, sequer tentaria agarrar-me a uma tábua de salvação. Deixar-me-ia tão somente ser guiado pela correnteza. E, embora acidentalmente eu pudesse sobreviver, sei que, de fato, estaria morto. Estaria como estive até agora, enterrado em meu próprio corpo.
Sepultado nele, e não na terra, tornei-me apenas um espectador de mim mesmo. Minhas atitudes e meus passos mecânicos não me levaram a lugar nenhum. E sendo assim, assistia ao que fazia, sem verdadeiramente fazê-lo. Estive sem graça e, mergulhado na autocomiseração, não guiei meus atos. Segui com a maré. Se eu dobrava à esquerda, era ela quem manobrava; se virava à direita, também. Estava à deriva. E, neste estado letárgico, vivi sem vida.
O fardo que carregava tinha um nome: covardia. A vida são escolhas e eu não fiz as que me cabiam. Inerte, deixei que a vida se encarregasse de fazê-las. Transferi para o acaso as minhas próprias resoluções e abri mão do que eu queria, por temer a luta.
Já não estou morto, mas ainda há palidez em mim, pois lento é o despertar de um corpo paralisado. E se, por agora, não reajo a contento é porque continuo cicatrizando por dentro.
Lentamente me refaço. Hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje. Peço ao amor apenas a caridade da espera. Daqui por adiante, serei breve.
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