Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 11 de outubro de 2007, às 0:00h

Uma crônica por acaso

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Canção por acaso (Adriana Calcanhoto)

Dimas Lins

Alguns amigos têm me procurado para saber se estou bem. Alegre e satisfeito com a atenção e a demonstração de amizade, tenho sempre respondido que sim, que estou muito bem. Aproveito obviamente essas ocasiões para também perguntar se os amigos vão bem. Geralmente vão, mas, apesar da serenidade na troca de palavras, ainda permanecem desconfiados sobre o meu estado.

No começo, devo confessar, estranhei a preocupação, pois como me olhava no espelho diariamente e não via sinais de abatimento, ficava tentando imaginar por qual motivo algumas pessoas contavam com a possibilidade de eu estar com o espírito um tanto perturbado. A primeira coisa que pensei é que minha aparência deveria estar horrível. Como não gosto muito de me barbear, isso parecia fazer algum sentido.

Por isso, como primeira medida, tomei a resolução de fazer a barba mais vezes por semana. Não custava nada arriscar e talvez isso melhorasse um pouco o meu aspecto. E embora minha esposa agradecesse minha nova resolução envolvendo lâmina e espuma, as impressões sobre o meu abatimento não se modificaram. Só soube de que se tratavam as preocupações zelosas, quando recebi um e-mail de um amigo dizendo claramente sua motivação. Tentei tranqüilizado, também por e-mail, e acabei recebendo de volta uma mensagem de alívio.

É que alguns dos meus amigos têm acompanhado o Estradar e, obviamente, percebido alguns contos e crônicas um tanto mais densos e, à toa, acabam se preocupando. Perguntam se estou bem, se meu casamento também vai bem e seguem levantando todo tipo de suspeita sobre o que anda me afetando o pensamento.

Mesmo bem, achei que não deveria desprezar impressões de amigos tão leais. Depois de conversar com a minha esposa, decidi procurar alguém que entendesse do assunto e, como nestes casos não há nada melhor do que procurar um especialista, decidi me aconselhar com um psiquiatra. Porém, não poderia ser um profissional qualquer. Teria necessariamente que ser alguém gabaritado, pois, do contrário, um médico inexperiente poderia tomar-me por louco ou depressivo e eu teria muita dificuldade em provar o contrário, pois já havia suspeitas nesta direção. Procuraria, assim, o melhor entre os melhores.

Resolvi me informar por andava Sigmund Freud. Afinal, ninguém melhor que ele para desembaraçar o caso. Embora alguns atestassem que o pai da psicanálise já havia morrido, decidi confirmar a veracidade da informação. Depois de muitas pesquisas, não só descobri que ele está muito bem vivo, mas também morava próximo a minha cidade. Descobri mais. Descobri, por exemplo, que ele não é austríaco coisíssima nenhuma! Longe disso. Que apenas havia morado na França, onde fez doutorado. Na verdade, Sigmund é pernambucano e hoje clinica em João Pessoa sob a alcunha de Dr. Rutra, para manter-se incógnito. Como não tinha dúvidas das minhas fontes, peguei o carro e fui bater em Intermares, local de seu consultório, na filial paraibana.

Confesso que fiquei surpreso, quando o vi. Aquela imagem de homem de barba e cabelos brancos não era verdadeira. Tudo fazia parte do folclore em torno dele. Ele, na verdade, era mais baixo do que eu e tinha os cabelos castanhos, um pouco encaracolados. Perguntei, ainda tomado de grande espanto, por que ele aparentava ser tão jovem e também a razão de nunca revelar publicamente sua condição de brasileiro. Com um ar abusado, como se houvesse respondido tantas vezes a mesma questão, me disse que tem fez feito seguidas plásticas e aconselha o mesmo a qualquer um que entre em seu consultório. Além do mais, mantivera em segredo a sua brasilidade, para ganhar notoriedade por seu trabalho. Achava que ninguém daria bola para aquela história sobre Édipo e sua mãe. No máximo, apontar-lhe-iam o dedo e acusariam os brasileiros de serem todos pervertidos. Não queria isso.

Passada a fase preambular em que lentamente eu me acostumava com o seu forte sotaque pernambucano misturado a uma indisfarçável e artificial pronúncia alemã, Sigmund perguntou-me o que me angustiava. Disse-lhe que tudo estava bem comigo e que a questão era os amigos. Afirmou que se o problema não era meu, os amigos que viessem se tratar. Não dava. Eles eram muitos e a conta da consulta certamente sairia além da conta e da minha própria conta. Mas em poucas linhas, expliquei-lhe a razão de suas preocupações. Falei do blog e dos textos tristes que gosto de escrever. Ele se virou em direção ao seu computador e pediu-me o endereço na internet. Em poucos segundos, estava ele, o pai da psicanálise, lendo minhas crônicas. Primeiro deu uma leve risada e disse que tinha gostado de alguns contos psiquiátricos. “Muito loucos!”, foram suas palavras. Depois, mais sério, pôs-se a ler as crônicas carregadas de tristezas e amarguras. Leu dois ou três textos e, ainda com um ar grave, perguntou-me se eu amava a minha mãe. Respondi um óbvio “claro que sim!”, mas ele não mudou a fisionomia. Ao contrário, continuo a me fazer perguntas.

– De que forma?
– Como de que forma? Como mãe, é claro! - respondi meio aborrecido, imaginando aonde ele queria chegar.

Ele deu um suspiro contrariado e seguiu dizendo que a relação entre pais e filhos já não era mais tão interessante para a psicanálise. Em seguida, deu seu parecer. Disse que todo escritor, por natureza, tem a alma perturbada. Embora eu não seja escritor, posso dizer com convicção que, ao menos pelo espírito perturbado, estou no caminho certo. Assumo que, mesmo sem muita habilidade, misturo o triste e o engraçado, a loucura e a sanidade, pois assim são os corações humanos. Rabisco pelo acaso e pelo prazer da escrita.

Sigmund acrescentou que embora eu tivesse a alma melancólica, posto que enxergava beleza na tristeza, também tinha o coração travesso. Por fim, sentenciou que a única coisa que ainda aperreava o meu juízo era o velho e glorioso Santa Cruz Futebol Clube, mas isso não era culpa minha e que ele próprio também andava aperreado pela mesma razão.

Já em casa, concluí que certamente meus escritos podem confundir os amigos. Afinal, eles não conheciam esse meu lado rabiscador e de repente passaram a me enxergar como alguém “enterrado em meu próprio corpo”. Sem contar que uso a separação como tema recorrente em meus contos. Mas para tudo há uma razão.

O Estradar tem sido um companheiro inestimável que me permite experimentações literárias. E como não encontrei um único estilo que abrigue as minhas medidas, me aproveito de todos os que encontro pelo caminho para experimentar. Nem sempre o que escrevo está contextualizado no mundo real, a não ser, certamente, o fato de usá-lo como fonte de inspiração.

O coração humano, em toda a sua beleza e inquietude, é a minha musa inspiradora. A minha medida, enquanto rabiscador, é não ter medida. Procuro tentar todas as formas até encontrar o meu próprio caminho ou perceber que meu estilo é não ter estilo nenhum. O que me importa mesmo é o prazer incontrolável que sinto em escrever, ainda que o faça com certa fragilidade literária.

O Estradar tem sido um grande desafio, porque não é fácil associar uma música a um texto. De fato, em muitas situações, primeiro escolho a música, depois rabisco a crônica. Nesse aspecto, é o tema da música que determina o que o texto dirá. Por isso, o processo de criação, às vezes, tem sido lento e dolorido.

E não tendo um único estilo, se eu pudesse me definir como rabiscador, usaria as palavras de Adriana Calcanhoto, que, por acaso, me empresta sua música como âncora neste texto. Escrevo sem ordem, sem harmonia, sem belo, sem passado. Sem arte, sem artéria, sem matéria, sem artista, sem voz, sem formato. Sem escalas, sem achados, sem sol, sem tom, sem melodia. Sem tempo, sem contratempo, sem mito, sem rito, sem ritmo, sem teoria. Escrevo uma crônica por acaso e, quem sabe um dia, um texto sem palavras.

Ah, antes que eu me esqueça, aproveito para esclarecer aos amigos que meu casamento vai muito bem, obrigado, e que sou um homem feliz.

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