Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 16 de outubro de 2007, às 0:00h

A vida no sertão

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Último pau de arara - Fagner (Venâncio/Corumba/J. Guimarães)

Dimas Lins

Era São João e estava fazendo um friozinho danado em Serra Negra no município de Bezerros, em Pernambuco, quando fomos eu, minha esposa, irmãos e amigos para a tenda de espetáculo para ver, ouvir e dançar um forró. Como todo pernambucano, gosto muito da dança e, vez por outra, me arrisco nos passos e naquele chamego gostoso.

Naquele dia em especial, tive uma surpresa boa quando ouvi uma banda chamada Fim de Feira, até então desconhecida para mim, tocar um forrozinho intercalado por uns decassílabos bons de se ouvir.

Decassílabos são versos com dez sílabas poéticas utilizados por Camões em Os Lusíadas e largamente decantados pelos poetas nordestinos. Tenho muita estima por quem faz decassílabos, pois quem entende do riscado sabe o quanto eles são difíceis de fazer.

Por isso, foi com grata satisfação que, outro dia, degustando umas coisinhas boas de beber e ouvindo umas músicas de primeira qualidade, descobri a habilidade do meu amigo e cunhado Maison de Figueiredo para rabiscar uns versos decassilábicos. Não pensei duas vezes e o convidei para publicá-los aqui no Estradar.

Para quem não o conhece, Maison pode passar à primeira vista a impressão de ser mineiro, por sua discrição e seu jeito silencioso. Ele, de fato, não é de desperdiçar palavras, ao contrário de mim. Paciente, é capaz de ouvir as minhas tagarelices por horas sem reclamar - ao menos em voz alta!

Cearense lá das bandas do bom e velho Cariri e radicado em Recife desde os tempos de universidade, quando veio cursar direito, Maison é apaixonado pelas coisas do sertão. Por isso mesmo, o seu primeiro decassílabo publicado no Estradar teria que passar necessariamente pela vida do sertanejo.

Sem mais demora, o Estradar apresenta o seu primeiro convidado e espera que ele volte mais vezes. Com a palavra, ou melhor, com os versos: Maison.


A vida no sertão

Maison de Figueiredo


Quando amanhece no sertão
Nos dias de seca inclemente
Tudo parece cinza, e de repente
O sol nasce com o seu clarão
O matuto olha pro seu rincão
A sua feição entristece
Na terra seca ele padece
Mas logo vem na lembrança
Os bons tempos de invernança
E o sertanejo reza uma prece

Reza para agradecer
Pelo feijão e milho que tem
Coisas que da terra vêm
Que ele não pode perder
Pois o tempo que leva pra colher
Parece até uma eternidade
Em São Pedro vê bondade
Quando manda uma chuva fina
Ou até mesmo uma neblina
Acompanhada de tempestade

A rotina no sertão é esperar
A chuva é aguardada em janeiro
Mas tem ano que entra fevereiro
E a danada nem pensa em chegar
Espera-se março no estradar
Do ano que já corre embalado
Mês que São José é louvado
Porque é o salvador eterno
É a esperança de um bom inverno
Com o céu de nuvens carregado

A chuva chega e inunda o chão
Que estava seco e maltratado
E vai logo ficando mudado
Esperando o plantio do grão
De arroz, milho e feijão
Que mais tarde será colhido
No roçado daquele atrevido
Sertanejo de pele queimada
Do sol que antecede a luarada
E ilumina o “cabra” destemido

Sol que alimenta o canto lento
Do galo-de-campina, do sabiá
Da ave-de-arribação que quer pousar
Na beira do açude barrento
Onde começa a soprar o vento
No fim do dia azulado
De onde se ouve o chiado
Saindo do mato a cascavel
Com a abelha fabricando o mel
No pé do juazeiro florado

Chega junho e já é hora
De apanhar o que foi plantado
É festa pra todo lado
O sertanejo comemora
Do lugar não vai embora
Pois quer comer o milho cozido
E também o feijão colhido
Naquele pedaço de terra
Que tem o cabrito que berra
E o boi que faz mugido

Três ou quatro meses pra frente
O calor é colossal
Faz qualquer um passar mal
Não tem cristão que agüente
Tudo ao redor tá diferente
A paisagem ficou mudada
A folha seca é ameaçada
Por qualquer faísca que venha
Do fogão que queima lenha
Naquela noite enluarada

Na cozinha o café fervendo
Cheirando coisa gostosa
No terreiro o matuto prosa
Com a meninada correndo
E com saudade ele revendo
Os bons tempos de criança
E também da boa dança
Nos forrós da redondeza
Com muita cachaça e beleza
Da donzela que tem lembrança

Mas a difícil vida continua
Naquele sertão empobrecido
De um povo tão esquecido
E de uma terra seca e crua
De vegetação quase nua
Onde a juriti vive a cantar
E como a rotina é esperar
Nada mais tão natural
Agora é esperar o Natal
Que logo outro inverno virá

E assim segue o sertanejo
Nessa peleja tamanha
Vivendo sem artimanha
Com o seu gado no pastejo
Que dá o leite e o bom queijo
De coalho que ali é feito
Com o amor que traz no peito
Servindo sempre a quem precisa
Na estrada da vaidade não pisa
Só sabe viver desse jeito

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