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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

A vida no sertão

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Último pau de arara – Fagner (Venâncio/Corumba/J. Guimarães)

Dimas Lins

Era São João e estava fazendo um friozinho danado em Serra Negra no município de Bezerros, em Pernambuco, quando fomos eu, minha esposa, irmãos e amigos para a tenda de espetáculo para ver, ouvir e dançar um forró. Como todo pernambucano, gosto muito da dança e, vez por outra, me arrisco nos passos e naquele chamego gostoso.

Naquele dia em especial, tive uma surpresa boa quando ouvi uma banda chamada Fim de Feira, até então desconhecida para mim, tocar um forrozinho intercalado por uns decassílabos bons de se ouvir.

Decassílabos são versos com dez sílabas poéticas utilizados por Camões em Os Lusíadas e largamente decantados pelos poetas nordestinos. Tenho muita estima por quem faz decassílabos, pois quem entende do riscado sabe o quanto eles são difíceis de fazer.

Por isso, foi com grata satisfação que, outro dia, degustando umas coisinhas boas de beber e ouvindo umas músicas de primeira qualidade, descobri a habilidade do meu amigo e cunhado Maison de Figueiredo para rabiscar uns versos decassilábicos. Não pensei duas vezes e o convidei para publicá-los aqui no Estradar.

Para quem não o conhece, Maison pode passar à primeira vista a impressão de ser mineiro, por sua discrição e seu jeito silencioso. Ele, de fato, não é de desperdiçar palavras, ao contrário de mim. Paciente, é capaz de ouvir as minhas tagarelices por horas sem reclamar – ao menos em voz alta!

Cearense lá das bandas do bom e velho Cariri e radicado em Recife desde os tempos de universidade, quando veio cursar direito, Maison é apaixonado pelas coisas do sertão. Por isso mesmo, o seu primeiro decassílabo publicado no Estradar teria que passar necessariamente pela vida do sertanejo.

Sem mais demora, o Estradar apresenta o seu primeiro convidado e espera que ele volte mais vezes. Com a palavra, ou melhor, com os versos: Maison.


A vida no sertão

Maison de Figueiredo


Quando amanhece no sertão
Nos dias de seca inclemente
Tudo parece cinza, e de repente
O sol nasce com o seu clarão
O matuto olha pro seu rincão
A sua feição entristece
Na terra seca ele padece
Mas logo vem na lembrança
Os bons tempos de invernança
E o sertanejo reza uma prece

Reza para agradecer
Pelo feijão e milho que tem
Coisas que da terra vêm
Que ele não pode perder
Pois o tempo que leva pra colher
Parece até uma eternidade
Em São Pedro vê bondade
Quando manda uma chuva fina
Ou até mesmo uma neblina
Acompanhada de tempestade

A rotina no sertão é esperar
A chuva é aguardada em janeiro
Mas tem ano que entra fevereiro
E a danada nem pensa em chegar
Espera-se março no estradar
Do ano que já corre embalado
Mês que São José é louvado
Porque é o salvador eterno
É a esperança de um bom inverno
Com o céu de nuvens carregado

A chuva chega e inunda o chão
Que estava seco e maltratado
E vai logo ficando mudado
Esperando o plantio do grão
De arroz, milho e feijão
Que mais tarde será colhido
No roçado daquele atrevido
Sertanejo de pele queimada
Do sol que antecede a luarada
E ilumina o “cabra” destemido

Sol que alimenta o canto lento
Do galo-de-campina, do sabiá
Da ave-de-arribação que quer pousar
Na beira do açude barrento
Onde começa a soprar o vento
No fim do dia azulado
De onde se ouve o chiado
Saindo do mato a cascavel
Com a abelha fabricando o mel
No pé do juazeiro florado

Chega junho e já é hora
De apanhar o que foi plantado
É festa pra todo lado
O sertanejo comemora
Do lugar não vai embora
Pois quer comer o milho cozido
E também o feijão colhido
Naquele pedaço de terra
Que tem o cabrito que berra
E o boi que faz mugido

Três ou quatro meses pra frente
O calor é colossal
Faz qualquer um passar mal
Não tem cristão que agüente
Tudo ao redor tá diferente
A paisagem ficou mudada
A folha seca é ameaçada
Por qualquer faísca que venha
Do fogão que queima lenha
Naquela noite enluarada

Na cozinha o café fervendo
Cheirando coisa gostosa
No terreiro o matuto prosa
Com a meninada correndo
E com saudade ele revendo
Os bons tempos de criança
E também da boa dança
Nos forrós da redondeza
Com muita cachaça e beleza
Da donzela que tem lembrança

Mas a difícil vida continua
Naquele sertão empobrecido
De um povo tão esquecido
E de uma terra seca e crua
De vegetação quase nua
Onde a juriti vive a cantar
E como a rotina é esperar
Nada mais tão natural
Agora é esperar o Natal
Que logo outro inverno virá

E assim segue o sertanejo
Nessa peleja tamanha
Vivendo sem artimanha
Com o seu gado no pastejo
Que dá o leite e o bom queijo
De coalho que ali é feito
Com o amor que traz no peito
Servindo sempre a quem precisa
Na estrada da vaidade não pisa
Só sabe viver desse jeito

31 Comentários para “A vida no sertão”

  1. Gravatar

    Ainda temos muito a aprender com o povo sertanejo. O que mais me causa inveja é a simplicidade com que esse povo vê e vive a vida, algumas vezes de uma forma que nos parece essencialmente bruta, mas é simplesmente a vida como é, sem frescuras nem voltas.

    Parabéns, Maison.

    Dimas, conhece o site da Associação Brasileira de Cordel? Dá uma olhadinha: http://ablc.com.br/

    Abração!

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    Grande Dimas,

    Obrigado pela apresentação. Gostaria só de fazer um adendo para registrar que sou Cearense lá das bandas do bom e velho Cariri.

    Abraço brejeiro,

    Maison de Figueiredo

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    “Maison” que BELEZA de versos !!!! E como a vida no campo, no SERTÃO por mais difícil que seja,é MARAVILHOSA, quanta coisa BOA para nos passar, é o SOL que brilha, o AR sem poluição, o povo sem rouquidão, sem doenças graves, pela alimentação farta e saudável … quanta coisa boa, quantos sentimentos a serem expressados, a cultura, a música as danças … o povo sempre hospitaleiro, cuidadoso, gentil … é um MUNDO SIMPLES que QUERÍAMOS PARA NÓS !!!!!

    “Dimas” vc que se ARRISCA ATÉ NO BALLET, imagine dançando um forrozinho pé-de-serra !!!!!

    Um grande abraço !!!!

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    Maison,

    Aproveitei o adendo e inseri no texto. O blog tremeu tanto com essas coisas do Cariri que desmantelou todos os versos. Depois de mexer para um lado e para outro, finalmente, consegui consertar.

    Cláudia,

    Fui lá. Boa dica. Vez em quando, estarei indo na fonte.

    Andrezinho, No ballet, vou no máximo assistir, agora já no forró…

    Abraços,

    Dimas

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    Abração “Dimas”, que BLZ de BLOG !!!!

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    Dimas,

    Que bela mensagem! Sou um urbanóide que morou por três anos no sertão e gostou muito. Tudo bem que Petrolina é um sertão diferente, com um rio lindo para se banhar e tomar cerveja nas beiradas com os pés dentro d’água.
    Andei um pouco pelos sequeiros, as regiões sem água e sem eira nem beira. Triste prá caramba, ficava doído mesmo.

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    O Sertanejo que na estrada da vaidade não pisa, vivendo a realidade apenas com o amor que traz no peito… Lindo isso! Pena que a vida impõe ao Sertanejo a quebra de valores tão sagrados quando da sua terra se distancia…Bom seria se pudéssemos eternizar esses sentimentos…
    Parabéns pelos versos!

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    o povo é legal

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    Que bom seria que nossos politicos tivessem o minimo do minimo da dignidade do SERTANEJO.

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    Que grata surpresa, Dimas, não conheço teu cunhado, mas também sou do “velho e bom Cariri” cearense. Mais especificamente, Brejo Santo. Estou em Recife há muito tempo, porém não perco minha referência…coisas de cabeça chata.
    Tenho um amigo que dizia que nós cearenses somos extraterrestres disfarçados e temos o objetivo de tomar posse do mundo. Vai ver que é.
    Abraço.
    Magna

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    Ah meu Brasil… Brasileiro
    Quem me dera agora lá
    Brincando com o meu amor
    Nos braços de Iemanjá!!!

  12. Gravatar

    oi

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    Maison,

    O poeta não pode morrer!!! A inspiração do povo do Ceará, mais especificamente do Brejo Santo, como você falou que é de lá, nunca mais apareceu por aqui, impedindo a gente de se encantar…
    É sempre muito bom “sentir a alma” dos poetas…

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    Maison,
    Mencionei no comentário passado que você era do Brejo Santo, mas na verdade confundi com o comentário da Magna. Apenas considere o bom e velho Cariri.
    O pessoal daqui da nossa Fortaleza adorou esse espaço matuto..
    Abraço

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    Não é tao daora mais tudo bem.
    É legal (pouco) não tanto.
    É interessante o que esta escrito é um poema eu adoro poemas!!!!!!!!!

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    Foi legal a historinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!é um poemaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!eu adoroooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!

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    a vida no sertao é um pouco ruim mas todo tem o seu lado bom

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    a vida no sertao deve ser muito boa, porque as pessoas tem socego, paz e tranquilidade

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    Assim como essa musica assim como esta foto é tambem uma história de vida a vida de um sertanista que é uma vida de um homem do campo e deve ser feito sim a disneycamp do brasil imaginem como seria pelo numeros de musicais

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    Dimas lins toda pessoa que pega uma estrada logo tem que dar uma paradinha não é mesmo e este um lugarejo qualquer não é um lugar que o progresso não chegou ou chegou e por uma razão qualquer acabou más la em algum passado foi sem duvida nenhuma um verdadeiro susseço imagine um país com 26 estado e mais de 5000 mil miniçipios imagine quantos lugarejos não existe por ai então meu amigo dimas voçe tem o dom de escrever escreva uma hitória de restauração e resgate de uma epoca diretamente do tunel do tempo e se quizer fique a vontade na coneção mae http://www.moacir antonio esquevani.com.br e por la veja se alguma acresçenta seu enrendo estadado do sertão magico em suas histórias.

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    E imagine tambem num patrimônio destes como aqui em birigui o patrimônio Casa de Tabua os bofes de elite em cena sendo de um lado o ton cavalcante e do outro lado o tiririca e quem sacar a arma primeiro [é o vencedor) e tambem com a bola no pé quem chutar primeiro pra dentro do buteco é o vençedor.

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    Nosso verde nosso ouro, nossas praias nosso encanto, nosso meio preçioso é jusus no meio desse povo 1= Amazonia todinha 2 parte litorânea do nosso país 3 Anel viario federal BRASILIS que liga tudo esse meio de transporte seja ele qual for e pelo combustivel que for o importante é ligar as franteiras a administração publica nacional e tambem ao descobrimento papel esse que começou pelos portugueses sendo assim teremos um turismno mais negoçiavel e mais desenvolvista, este é um sertão com cara de cinema.

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    Que tal a musica do zé ramalho a coração alado desfolharei meus olhos neste escuro ……. não acredito mais nu fogo intenço das paichões são tantas ilusões perdidas nas lembraças – o que realmente foi perdido por acaso não seria um desenvolvimento inrresponsalvel que são as ideias senão aproveitalas por inteiro são sementes não germinadas e tão logo taltam nos nossos seleiros das vontades e dos caprichos de outrem eo o nosso proprio e aguçado desejo de conquistar o imaginario eu vou aplicando uma semente aqui outra la um dia eu terei minha cidade meu estado e meu país bem frutificado e vou colher aquilo que plantei.

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    muito bom

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    E ai mano dimas voçe vai pegar carona com mauricio manieri é caro ele acertou de cheio com o por do sol e hora de fazer uma palinha com o mesmo e soar a camisa no estradar do sertão onde o sol é mais ardente e assim saia uma outra inspiração musical,afinal de contas tudo acontece nas 24 horas se é dia ou noite a estrada esta sempre la.

  26. Gravatar

    na google eu escrevi como é a vida no sertão não uns poemas e alguns texto sem falar o que eu pedi ta da qui aus 4 dias eu quero ver ai !!!!!!!!!!!!!!! que se não vcs vão ver chico pra quem fica !!!!!!!! e eainda falo pro meu papis !!!1!!!! ver

  27. Gravatar

    Maison,
    Amigo, gostei dos versos sobre a vida no Sertão, meus parabéns, é gratificante em sabermos que tem pessoas que preserva nossos costumes e tradição,
    A Cultura Sertaneja é a mais bela do universo.
    Sou matuto sertanejo, Nasci no alto sertão, La no meio da caatinga, Entre a serra e o grotão, Bebo água da cacimba, Que cavei no riachão.

    Francisco Nunes

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    Isso só vai mesmo ser um susseço total quando a band fazer um programa ligado ao campo “BANDCAMP” e fornecer tudo sobre o homem do campo e seus sonhos e suas histórias e as estradas da vida que ele percorre do seu trabalho todos os dias.

  29. Gravatar

    Dimas o estradar pode ser preciso mudar porque a ponte caiu e temos que chegar do outro lado então mandei a ideia de “Sonhos de um homem do campo” pra band mas agora recetemente mandei outra Bandcamp-other way outro caminho se das locomotivas e dos rios a serem navegavel e acho que mesmo assim a band vai precisar muito se ela montar uma programação do tipo do seus versos deste seu trabalho então capriche meu amigo.

  30. Gravatar

    Voçeis virão o “Canasauro por ai ele quer ficar seu amigo o dinosauro do canvial.

  31. Gravatar

    E quem o ver e quando ver pergunte a ele o canasauro o que ele esta sabendo sobre o rodobol.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!