A morte não lhe cai bem

Sujeito de sorte (Belchior)
Dimas Lins
Nem sempre é necessário um tempestade para causar uma inundação. Às vezes, uma pequena gota fará transbordar o que já está cheio. E o desespero bate do mesmo jeito afogando a esperança ou ocultando caminhos ainda possíveis de se percorrer.
De uma tacada só, perdeu a mulher, o apartamento, o melhor amigo e o emprego. É que sua mulher andava tendo um caso com o amigo que, por azar, era também seu patrão. O flagrante foi em sua própria cama e ela ainda teve a coragem de pedir-lhe para sair de casa durante a contenda. Foi assim que também perdeu o apartamento. Para não sair tão por baixo, resolveu, de última hora e só pelo orgulho ferido, levar consigo a samambaia.
Alguns meses depois, num pequeno quitinete alugado num bairro afastado de tudo, sentia o impacto de ter tido sua vida devastada tão abruptamente. Não se dobrou completamente, mas bastava um nada para que se dobrasse. Estava ilhado, sem dinheiro e sem perspectivas.
A morte de sua samambaia foi a gota derradeira que o impulsionou a um desejo incontrolável de buscar a interrupção definitiva de sua vida humana. Perdera lentamente sua última companheira, seu último laço afetivo com o mundo e o último ser vivo que o ouvia sem reclamar. Ela morrera de sede, por sua única e exclusiva culpa. A planta lhe dera toda a atenção de que precisava, mas ele foi incapaz de compreender sua necessidades mais básicas. Água, apenas água, e nada mais. Por ironia, a gota d’água que faltara à samambaia sobrava em seu pote cheio de mágoa, selando a sentença de dar cabo à sua vida. Se dera causa a sua morte, ele anteciparia deliberadamente o seu prazo de validade e, quem sabe assim, pagasse a dívida contraída com a planta.
Decidido, passou a tramar o seu próprio fim e, em seus planos mirabolantes, percebeu que não seria fácil. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi pular do alto de um edifício. Deixaria seu corpo cair em queda livre sentindo a brisa da manhã de maneira acelerada. Respirou fundo, foi até o telhado do seu prédio e, estranhamente, ficou paralisado. Os músculos não responderam aos comandos de seu cérebro. Estava imóvel, porque acabara de descobrir que tinha acrofobia. De fato, nunca estivera em algum lugar tão alto e sem proteção, para que pudesse confirmar suas suspeitas. Agora estava provado. Tinha medo de altura e, embora isso explicasse muitas coisas em sua vida, achou que não era o momento oportuno para a descoberta. Melhor então seria tentar de um lugar mais baixo.
Dizem que o desespero pode levar algumas pessoas a tomarem atitudes impensadas, mas nunca se soube em toda a história da medicina que alguém, em tais circunstâncias, pudesse ser levado à estupidez. Foi entre o caos no pensamento e a burrice escancarada que decidiu então pular do térreo. Deslocou-se para uma ladeira próxima a sua casa, marcou carreira, desceu-a velozmente e, de certo ponto, jogou-se para frente. Rolou ladeira abaixo desgovernado até se chocar contra uma mureta. Levantou-se com dificuldade e, apesar de ter o corpo ralado dos pés à cabeça, percebeu que não havia quebrado um osso sequer. Morrer, então, estava fora de cogitação. Ainda teve que ouvir uns gritos de “louco” e “retardado” de algumas testemunhas no passeio público.
Apesar do desastre, não desistiria facilmente, embora decidisse concretizar seus planos longe dos olhares dos curiosos, para evitar o constrangimento, em caso de novo fracasso. Primeiro, tentou se afogar numa bacia d’água e depois meteu-se a cortar os pulsos com um barbeador elétrico. Em seguida, tentou se enforcar amarrando uma corda no cano da pia do banheiro. Por fim, desceu intempestivamente e tentou se jogar na frente de um carro. Mas, para seu azar, o sinal estava fechado e, mesmo tendo corrido em direção ao veículo parado, não conseguiu nada além de um pequena mossa no capô.
Reconheceu finalmente que fracassara como suicida e, diante de sua ineficiência em terminar sua própria existência e sua teimosia em manter-se vivo, decidiu viver o que restava de sua vida. Foi assim que, no ano seguinte, tentando superar o medo de altura, entrou num curso de pára-quedismo e conheceu Dinorah, com quem pretende se casar em breve.
Embora sua vida tenha mudado e se considere um sujeito de sorte por não ter morrido nas suas desventuras em busca da morte, vez por outra, ainda lhe bate um impulso suicida, não por sentir-se um miserável ou pela saudade da samambaia, mas pela frustração de não ter tido sucesso em sua empreitada mórbida. Mas, lá no fundo, ele está feliz por saber que a morte não lhe cai bem.
2 Comentários
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“Dimas” ainda bem que ele demonstrou “incompetência” como suicida! Certamente após a morte seu sofrimento seria maior! A vida tem muitas lições a nos dar e pela pior desgraça que passamos, sempre existe um sol nos esperando no dia seguinte! E a luz que ilumina nossos dias, pode iluminar perfeitamente nossos caminhos! Têm feridas que não se fecham nunca, mais o tempo sempre suaviza as mágoas! Para ele uma nova mulher trouxe um novo sentido a sua vida de decepções!
Um grande abraço meu amigo !!!!
Haha! Só agora li. Muito bom. E acho que ele deve continuar se matando. Aliás, a vida não é isso?