Um dia qualquer

O dia em que a terra parou (Raul Seixas)
Dimas Lins
Amanheceu e nada havia de diferente. Não acordei tão cedo, nem levantei mais tarde. Os sinos da igreja não badalaram em meu nome, nem o padre rezou uma missa para mim. Não fui acordado por uma bela canção, nem pássaros vieram me dar bom dia na janela. Não acordei mais sábio, nem me senti mais estúpido. Levantei da cama seguro de que era a mesma pessoa de antes de dormir e nem ao menos o dia me pareceu melhor do que qualquer outro dia.
Não me converti a nenhuma religião, nem me tornei ateu. Não presenciei milagres, nem vi no céu sinais de tragédia. Não me arrependi dos meus erros - mesmo tendo muita coisa para lamentar - nem os ignorei, como se não fossem nada demais.
Não me desviei do caminho correto mais do que costumo me desviar, nem tentei fazer a coisa certa mais do que costumo tentar. Não plantei uma árvore, nem derrubei uma mata. Não botei fogo em nada, nem apaguei um incêndio. Não dei causa a um grande acontecimento, nem contribuí para a desgraça humana.
Não comprei um livro, nem vendi os que eu tinha. Não li nada revolucionário, nem causei admiração pelas coisas que escrevi. Não me considerei um intelectual, nem me percebi um tolo. Não rabisquei uma poesia, nem recitaram versos para mim.
Não aprendi a tocar um instrumento musical, nem dedilharam as cordas de um violão em minha homenagem. Ouvi novas músicas, mas não aprendi uma nova canção. Minha voz não se afinou e mesmo assim cantei no chuveiro.
Não prometi fazer dieta, nem vi razão para comer um pouco mais. Não decidi fazer exercícios físicos, não procurei um endocrinologista, nem deixei de beber, embora continuasse preocupado com o meu sobrepeso.
A polícia não me ofereceu segurança especial, nem os bandidos deixaram de ameaçar a minha rua. Não saí à noite despreocupado, nem achando que morreria num assalto. Não selei um tratado de paz, nem declarei a guerra. Não combati a violência, nem dela parei de reclamar.
Não ri um riso desnecessário, nem chorei sem razão. Não fiquei em depressão, muito menos eufórico. Não chorei de rir, nem ri de chorar. Não pisei em bosta, nem achei o mundo uma merda.
Não acordei mais bonito, nem perdi um dente da frente. Não usei paletó, nem rasguei as minhas roupas. Não me vesti de vaidade, nem saí às ruas como um mendigo. Desprezo as imposições da moda, embora me revista dela.
Não fiz um novo amigo, nem me desfiz de nenhum. Não dei esmolas a um necessitado, nem recebi ajuda de desconhecido algum. Não queimei dinheiro, nem achei moedas na rua. Não elogiei um colega, nem ofendi um estranho. Não pratiquei o bem, nem desejei um mal tamanho.
Não fiz nada especial, nem a rotina me pareceu ordinária. E apesar de tudo igual, achei o dia valioso. E ainda que o sol não brilhasse mais do que costuma brilhar, passei um tempo na varanda recebendo o seu calor e tomando uma cerveja, para tentar me refrescar.
Hoje é um dia qualquer e talvez por isso eu me sinta tão bem. Tudo está no seu lugar no meu aniversário.
8 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



… É com isso nobre “Dimas” que o pior é aquele que FICA INERTE, esperando as coisas acontecerem a sua volta !!!!! Lembro uma frase de “Chico Science” que diz o seguinte: …” um passo a frente e vc não está mais no mesmo lugar…”
Abraços meu caro amigo !!!!
É permitido sorrir sempre, mas mesmo quando não é tão fácil, é possível.
“Guardavas talvez o amor
em tripla cerca de espinhos.
Já não precisavas guardá-lo.
No escuro em que fases anos,
no escuro,
é permitido sorrir.”
Drummond
Ainda bem que existe comunicação! Te achei pelo blog de Flávia Suassuna e não consigo mais parar de te ler …
Já me sinto de casa, mas nunca te alarmei de minha entrada.
Os texto são lindos, parabéns.
Sofia,
É um prazer recebê-la em nossa casa e, como você bem disse, ainda bem que existe comunicação. Encontrei teu blog e adorei a leitura. Tenho me dividido entre ler os blogs e os livros e isso tem me dado muito prazer.
A propósito, adicionei um link do blog Metáfora aqui no Estradar.
Dimas
Bonito, Dimas! Simples, inesperado… Bonito.
Parabéns!
Nossa vida nos leva a fazer as coisas pelo simples movimento do cotidiano. Temos sede, porém busquemos a água para aplacar nossas sede. A não mudança, não significar que nada tenha mudado se entregar ao sabor do tempo, não significa esta estagnado, pois “o tempo não para” como diria o poeta Cazuza.
Um grande abraço,
O q
Ops. Apertei em alguma tecla errada no post aí de cima, e foi tudo para o espaço - um trecho para o espaço sideral, o outro para o espaço de seu blog. Desculpe.
Só queria comentar que este será um dia rotineiro, normal, sem novidades. Possivelmente um parecido com uns 340 por ano, ou seja, sem razão para guardá-lo na memória. Mas nunca será igual - nem o dia, nem a gente. A mudança é perene: quando a gente percebe, já é.
O que eu mais gosto dos seus textos é que eles sempre me fazem viajar. E não dão ressaca. Nem mexe no bolso.
Parabéns, Dimas.