Pra dizer adeus
Arte sobre foto: Dimas Lins

Pra dizer adeus - Roberta Sá (Edu Lobo/Torquato Neto)
Dimas Lins
Por mais de uma hora manteve-se em silêncio. Faltava-lhe a coragem necessária para dizer a mulher sua última resolução. Enquanto esteve cabisbaixo, nem chegou a perceber os cortejos que passavam a sua volta. Não ouvia a marcha silenciosa dos que, naquele instante, diziam adeus. Durante esse breve tempo, apenas permaneceu sentado e com a cabeça voltada para o chão, pois sabia que a esposa, seguramente, reprovaria a sua decisão.
E foi desse jeito, cabeça baixa, sem olhar em sua direção, que aos poucos ele foi rompendo a privação voluntária da fala. Ainda assim, preferiu não ir direto ao ponto, para não melindrá-la. Falaria com jeito e usaria do cuidado, na intenção de evitar o desapontamento.
Lembrou-lhe quando a conheceu no primeiro dia de aula na faculdade e que mudara a perspectiva de sua vida, pela viva afeição que sentiu naquele instante. Que soube então que ela, e mais ninguém, cruzara o seu caminho de modo determinante e que sentir seu cheiro era tão necessário quanto encher de ar os pulmões.
Lembrou-lhe o casamento um ano depois e as dificuldades que passaram no início da vida conjugal pela falta de dinheiro. O ajuste natural da vida, enquanto os dois, gradativamente, cresciam na profissão e davam-se mutuamente um conforto melhor. O nascimento do primeiro filho, depois a chegada do segundo e o encantamento que sentiram em ser responsáveis por vidas tão pequenas e tão maravilhosas.
Lembrou-lhe a felicidade pela formatura do mais velho e a tristeza profunda pela morte do mais novo, num assalto em plena luz do dia, diante de um sinal de trânsito fechado. A despedida do primeiro filho que se estabeleceu profissionalmente em outro país e por lá se casou, dando-lhes o primeiro e único neto.
Lembrou-lhe que, apesar de todos os embaraços que a vida trouxe, tiveram juntos uma caminhada venturosa e plena de amor. Que jamais tiveram ranhuras em seu casamento e que, ao contrário, o amor sempre encontrou terreno fértil em seus corações para crescer e se solidificar.
Por fim, lembrou de sua morte, três meses atrás, do tempo em que ela passara na UTI, do medo que ele teve da solidão e da certeza de não saber viver sem sua companheira de todas as horas.
Ao calar a voz, estava comovido. De seus olhos vertia um córrego de lágrimas que se espalhava pelo chão em forma de pequenas gotas e misturava-se aos grânulos de areia por entre seus pés. Ao derramar seu pranto, contou finalmente que não vivera tudo aquilo em sua companhia, para terminar seus dias na solidão. Estava velho e cansado e agora fazia as contas para, quem sabe, encontrá-la novamente em outras paragens. Ele estava ali, diante de seu jazigo, para dizer adeus.
Esperou alguns minutos, finalmente levantou a cabeça e olhou em sua direção. Ela sorria um sorriso meigo, através da fotografia fixada na laje do sepulcro. Ele sorriu de volta agradecido pela compreensão. Em seguida, inclinou-se para frente, beijou-lhe o rosto de senhora, depositou uma rosa em seu túmulo e disse adeus.
Ao levantar-se, enxugou as lágrimas, ajeitou os cabelos brancos e suspirou antes de partir. Depois, caminhou lentamente pela rua central do cemitério, desaparecendo no horizonte até sua silhueta perder a forma.
Quando enfim deram por sua falta, encontraram-no sentado em sua cadeira de balanço, próximo à janela, metido num corpo inanimado. Não havia sinais de interrupção propositada da vida. A permissão da esposa foi o bastante para interrompê-la. O amor foi tanto que morreu por ele.
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