Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Mano velho

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Sobre o tempo (Pato Fu)

Dimas Lins

Já tive medo do tempo. Medo de envelhecer, de morrer jovem, de deixá-lo escorrer por entre os dedos e de me perder metido em coisas desnecessárias. Tive medo de não usá-lo com sabedoria, de não aceitar a sua passagem e não tê-lo suficientemente devotado aos que me acolheram e aos que, de fato, me importaram.

Já tive medo do tempo. Medo de não sarar uma ferida, de não me curar com o esquecimento e de não me confortar com uma lembrança. Medo de ser esquecido pelos amigos distantes, de não ser estimado por quem estimo, de não ser compreendido, nem de compreender, de não ser perdoado, nem de perdoar e de não renunciar a minha própria punição, quando eu me pegar em erro.

Já tive medo do tempo. Medo de buscar o que não me cabia e querer o que não era meu. Tive medo de viver por caminhos errados e não aprender nenhuma lição valiosa. Medo de quem sou hoje não se contentar com o que serei amanhã. Medo de amanhã me envergonhar do que fui hoje.

Já tive medo do tempo. Medo de não ser suficiente, medo da arrogância e de me perceber mais quando sou menos. Tive medo de não ser nada e querer ter tudo. Medo de estagnar, da paralisia, da preguiça, de me entregar.

Já tive medo do tempo. Medo de não viver o que me cabe, de sonhar apenas o possível, de ser premido pelo limite, de não me permitir, de não tentar, nem de querer.

Semana passada fiz 41 anos e, talvez por isso, já não tenha mais medo. Descobri no tempo um companheiro de jornada, um conselheiro, um tutor e um amigo. O tempo foi justo comigo. Deu-me o necessário e nada que recebi foi além ou aquém do meu esforço.

Não sou mais o mesmo, é verdade. E embora não seja um homem velho, o meu corpo já não tem a mesma juventude, o mesmo vigor, nem a mesma saúde dos meus vinte e poucos anos.

Por tudo isso, não tenho mais pressa. Melhor deixar o tempo passar rasteiro, mansinho. Melhor atrasar as horas do que adiantar os ponteiros. É tempo de vasculhar as gavetas, lembrar boas lembranças e jogar fora o que não me serve mais. É hora de ficar satisfeito com coisas miúdas, com pequenas conquistas. É que esse negócio de ser feliz no atacado dá um trabalho danado e não leva a gente muito longe.

Tempo, mano velho, segue comigo sem pressa e me ensina o que eu ainda preciso saber. E quando chegar a hora, não espicha a minha vida além do necessário, mas só me derrube no final.

4 Comentários

  1. Ana Cláudia 30 de outubro de 2007, às 7:00h

    Estou aos 36, já me desfiz de alguns medos e começo a alimentar outros. A essa altura, não tenho planos de mudar a essência mas me incomodam algumas bordas que eu pretendia retirar, e não consegui. Adquiri o medo de não me adaptar. Começo a temer pela minha inconstância.
    Dimas, ler seus textos tem sido equivalente a ir ao analista. Pode cobrar a consulta, amigo.

  2. josias de paula jr. 30 de outubro de 2007, às 10:36h

    Amigo, vivo num eterno litígio com o tempo. Até o qualitativo que uso, “eterno”, parece que é para provocá-lo… Desejo muito chegar a sua comunhão com ele, e vê-lo “correr tranquilo”. Mais uma bela crônica.

  3. André Tricolor Virtual 30 de outubro de 2007, às 13:26h

    Meu caro “Dimas”

    Sempre um bom texto seu para melhorar nossos dias … Segue o tempo e com ele o sentido da vida, que é a espera, as atitudes, as conquistas, as voltas, as idas, as derrotas, o sofrimento … E nada mais puro que nossos medos, assim como é o fechar dos olhos em uma noite escura … E o sol que nos dá um bom dia é o sinal que temos que seguir em frente, sempre em frente, sem medo !!!!!

    Aliás, tô com medo do Santinha cair pra TERCEIRONA !!!!

  4. libarx 10 de novembro de 2007, às 11:51h

    Velho Dimas,

    Muito bom seu filosofar sobre o tempo.

    Só quero acrescentar uma frase do velho Machado:

    “a gente mata o tempo, e ele nos enterra”.

    Um abraço . Libarx

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