Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 14 de outubro de 2007, às 20:24h

Meme

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Álbum Ancestral - Faixa 1 (Quarteto Romançal)

Dimas Lins

Vou quebrar um pouquinho o estilo do Estradar e não postarei um artigo literário. Além do mais, a música que acompanha o texto está lá apenas para não dar a sensação de total abandono à caracaterística do blog. É que estou atendendo ao chamado do Blog dos Perrusi e entrando numa corrente na blogosfera que atende pelo nome de “meme”. Já busquei o significado no dicionário, levantei informações em livros de grandes literatos e cheguei até mesmo a enviar mensagem para o além, mas não obtive resposta. Sei apenas que “meme” é uma “espécie de criatura simbólica e produto da cultura humana, seguindo outras vias evolucionárias”, segundo o Blog dos Perrusi.

Este meme que recebi já veio de outros blogs e está girando pela internet. Tenho um medo da gota de quebrar corrente e, ao invés de viver até os 190 anos, só permanecer vivo até os 170. O meme que chegou até o Estradar traz consigo uma missão para o blogueiro:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

O livro mais próximo que encontrei, quando cheguei a minha casa foi O Encontro Marcado de Fernando Sabino. O livro, que ainda não iniciei a leitura, mas estava separado para que eu iniciasse o mais breve possível, é “um drama de uma geração, de uma idade, de uma época social”, segundo Tristão de Athayde. É a história de um jovem em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão da sua vida.

Na página 161, procuro a 5ª frase completa e encontro um diálogo entre vários personagens iniciado desde a página 149. A esta altura da conversa, eles estão falando sobre a esposa de um deles, quando o marido diz que ela é uma grande mulher. Um concorda, o outro também e alguém acrescenta que ela é uma grande mulher em todos os sentidos. É quando o marido, tomado pela surpresa, pergunta que história é essa de “em todos os sentidos”. Aí vem a resposta do amigo que está exatamente na 5ª frase completa da página 161 e que publico abaixo:

“- Em todos, ué. Não começa…”

Confesso que cheguei a pensar em trocar de livro para encontrar outra coisa que passasse uma mensagem decisiva para a espécie humana, mas meme é meme, seja ele o que for, é melhor deixar como está. Depois de alguns minutos, passei a gostar da frase aleatória e do contexto em que ela estava inserida.

No final da minha missão percebi que, ao menos em parte, quebraria a corrente. É que sou novo na blogosfera e não tenho cinco blogs para indicar que ainda não tenham sido escolhidos. Por isso, indicarei apenas três:

1) Estuário;
2) Pelas ruas que andei;
3) Sobre umas e outras.

Mas numa coisa não posso negar que, no mínimo, o meme me fez ter vontade de começar a ler o livro de Fernando Sabino imediatamente. Então vocês me dão licença, que vou iniciar a leitura agora mesmo.



Nota: Infelizmente, a capa do CD do Quarteto Romançal está bastante gasta pelo tempo e não foi possível identificar o nome da música nem os seus autores.

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Uma crônica por acaso

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Canção por acaso (Adriana Calcanhoto)

Dimas Lins

Alguns amigos têm me procurado para saber se estou bem. Alegre e satisfeito com a atenção e a demonstração de amizade, tenho sempre respondido que sim, que estou muito bem. Aproveito obviamente essas ocasiões para também perguntar se os amigos vão bem. Geralmente vão, mas, apesar da serenidade na troca de palavras, ainda permanecem desconfiados sobre o meu estado.

No começo, devo confessar, estranhei a preocupação, pois como me olhava no espelho diariamente e não via sinais de abatimento, ficava tentando imaginar por qual motivo algumas pessoas contavam com a possibilidade de eu estar com o espírito um tanto perturbado. A primeira coisa que pensei é que minha aparência deveria estar horrível. Como não gosto muito de me barbear, isso parecia fazer algum sentido.

Por isso, como primeira medida, tomei a resolução de fazer a barba mais vezes por semana. Não custava nada arriscar e talvez isso melhorasse um pouco o meu aspecto. E embora minha esposa agradecesse minha nova resolução envolvendo lâmina e espuma, as impressões sobre o meu abatimento não se modificaram. Só soube de que se tratavam as preocupações zelosas, quando recebi um e-mail de um amigo dizendo claramente sua motivação. Tentei tranqüilizado, também por e-mail, e acabei recebendo de volta uma mensagem de alívio.

É que alguns dos meus amigos têm acompanhado o Estradar e, obviamente, percebido alguns contos e crônicas um tanto mais densos e, à toa, acabam se preocupando. Perguntam se estou bem, se meu casamento também vai bem e seguem levantando todo tipo de suspeita sobre o que anda me afetando o pensamento.

Mesmo bem, achei que não deveria desprezar impressões de amigos tão leais. Depois de conversar com a minha esposa, decidi procurar alguém que entendesse do assunto e, como nestes casos não há nada melhor do que procurar um especialista, decidi me aconselhar com um psiquiatra. Porém, não poderia ser um profissional qualquer. Teria necessariamente que ser alguém gabaritado, pois, do contrário, um médico inexperiente poderia tomar-me por louco ou depressivo e eu teria muita dificuldade em provar o contrário, pois já havia suspeitas nesta direção. Procuraria, assim, o melhor entre os melhores.

Resolvi me informar por andava Sigmund Freud. Afinal, ninguém melhor que ele para desembaraçar o caso. Embora alguns atestassem que o pai da psicanálise já havia morrido, decidi confirmar a veracidade da informação. Depois de muitas pesquisas, não só descobri que ele está muito bem vivo, mas também morava próximo a minha cidade. Descobri mais. Descobri, por exemplo, que ele não é austríaco coisíssima nenhuma! Longe disso. Que apenas havia morado na França, onde fez doutorado. Na verdade, Sigmund é pernambucano e hoje clinica em João Pessoa sob a alcunha de Dr. Rutra, para manter-se incógnito. Como não tinha dúvidas das minhas fontes, peguei o carro e fui bater em Intermares, local de seu consultório, na filial paraibana.

Confesso que fiquei surpreso, quando o vi. Aquela imagem de homem de barba e cabelos brancos não era verdadeira. Tudo fazia parte do folclore em torno dele. Ele, na verdade, era mais baixo do que eu e tinha os cabelos castanhos, um pouco encaracolados. Perguntei, ainda tomado de grande espanto, por que ele aparentava ser tão jovem e também a razão de nunca revelar publicamente sua condição de brasileiro. Com um ar abusado, como se houvesse respondido tantas vezes a mesma questão, me disse que tem fez feito seguidas plásticas e aconselha o mesmo a qualquer um que entre em seu consultório. Além do mais, mantivera em segredo a sua brasilidade, para ganhar notoriedade por seu trabalho. Achava que ninguém daria bola para aquela história sobre Édipo e sua mãe. No máximo, apontar-lhe-iam o dedo e acusariam os brasileiros de serem todos pervertidos. Não queria isso.

Passada a fase preambular em que lentamente eu me acostumava com o seu forte sotaque pernambucano misturado a uma indisfarçável e artificial pronúncia alemã, Sigmund perguntou-me o que me angustiava. Disse-lhe que tudo estava bem comigo e que a questão era os amigos. Afirmou que se o problema não era meu, os amigos que viessem se tratar. Não dava. Eles eram muitos e a conta da consulta certamente sairia além da conta e da minha própria conta. Mas em poucas linhas, expliquei-lhe a razão de suas preocupações. Falei do blog e dos textos tristes que gosto de escrever. Ele se virou em direção ao seu computador e pediu-me o endereço na internet. Em poucos segundos, estava ele, o pai da psicanálise, lendo minhas crônicas. Primeiro deu uma leve risada e disse que tinha gostado de alguns contos psiquiátricos. “Muito loucos!”, foram suas palavras. Depois, mais sério, pôs-se a ler as crônicas carregadas de tristezas e amarguras. Leu dois ou três textos e, ainda com um ar grave, perguntou-me se eu amava a minha mãe. Respondi um óbvio “claro que sim!”, mas ele não mudou a fisionomia. Ao contrário, continuo a me fazer perguntas.

– De que forma?
– Como de que forma? Como mãe, é claro! - respondi meio aborrecido, imaginando aonde ele queria chegar.

Ele deu um suspiro contrariado e seguiu dizendo que a relação entre pais e filhos já não era mais tão interessante para a psicanálise. Em seguida, deu seu parecer. Disse que todo escritor, por natureza, tem a alma perturbada. Embora eu não seja escritor, posso dizer com convicção que, ao menos pelo espírito perturbado, estou no caminho certo. Assumo que, mesmo sem muita habilidade, misturo o triste e o engraçado, a loucura e a sanidade, pois assim são os corações humanos. Rabisco pelo acaso e pelo prazer da escrita.

Sigmund acrescentou que embora eu tivesse a alma melancólica, posto que enxergava beleza na tristeza, também tinha o coração travesso. Por fim, sentenciou que a única coisa que ainda aperreava o meu juízo era o velho e glorioso Santa Cruz Futebol Clube, mas isso não era culpa minha e que ele próprio também andava aperreado pela mesma razão.

Já em casa, concluí que certamente meus escritos podem confundir os amigos. Afinal, eles não conheciam esse meu lado rabiscador e de repente passaram a me enxergar como alguém “enterrado em meu próprio corpo”. Sem contar que uso a separação como tema recorrente em meus contos. Mas para tudo há uma razão.

O Estradar tem sido um companheiro inestimável que me permite experimentações literárias. E como não encontrei um único estilo que abrigue as minhas medidas, me aproveito de todos os que encontro pelo caminho para experimentar. Nem sempre o que escrevo está contextualizado no mundo real, a não ser, certamente, o fato de usá-lo como fonte de inspiração.

O coração humano, em toda a sua beleza e inquietude, é a minha musa inspiradora. A minha medida, enquanto rabiscador, é não ter medida. Procuro tentar todas as formas até encontrar o meu próprio caminho ou perceber que meu estilo é não ter estilo nenhum. O que me importa mesmo é o prazer incontrolável que sinto em escrever, ainda que o faça com certa fragilidade literária.

O Estradar tem sido um grande desafio, porque não é fácil associar uma música a um texto. De fato, em muitas situações, primeiro escolho a música, depois rabisco a crônica. Nesse aspecto, é o tema da música que determina o que o texto dirá. Por isso, o processo de criação, às vezes, tem sido lento e dolorido.

E não tendo um único estilo, se eu pudesse me definir como rabiscador, usaria as palavras de Adriana Calcanhoto, que, por acaso, me empresta sua música como âncora neste texto. Escrevo sem ordem, sem harmonia, sem belo, sem passado. Sem arte, sem artéria, sem matéria, sem artista, sem voz, sem formato. Sem escalas, sem achados, sem sol, sem tom, sem melodia. Sem tempo, sem contratempo, sem mito, sem rito, sem ritmo, sem teoria. Escrevo uma crônica por acaso e, quem sabe um dia, um texto sem palavras.

Ah, antes que eu me esqueça, aproveito para esclarecer aos amigos que meu casamento vai muito bem, obrigado, e que sou um homem feliz.

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Pelas ruas que andei
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Devaneios solitários de um blogueiro

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Blog dos Perrusi
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Crônica, política, doidice e o escambau!

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Enterrado em meu próprio corpo

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Para um amor no Recife (Paulinho da Viola)

Dimas Lins

Fui um tolo. Fui esse pateta, porque de uns tempos para cá envelheci sem que eu tivesse me tornado um homem velho. Quando me encontrava diante de um espelho, não via mais o que restava da minha juventude, nem sentia sua energia e vigor pulsando em mim. Fui assim, porque diante de um naufrágio, sequer tentaria agarrar-me a uma tábua de salvação. Deixar-me-ia tão somente ser guiado pela correnteza. E, embora acidentalmente eu pudesse sobreviver, sei que, de fato, estaria morto. Estaria como estive até agora, enterrado em meu próprio corpo.

Sepultado nele, e não na terra, tornei-me apenas um espectador de mim mesmo. Minhas atitudes e meus passos mecânicos não me levaram a lugar nenhum. E sendo assim, assistia ao que fazia, sem verdadeiramente fazê-lo. Estive sem graça e, mergulhado na autocomiseração, não guiei meus atos. Segui com a maré. Se eu dobrava à esquerda, era ela quem manobrava; se virava à direita, também. Estava à deriva. E, neste estado letárgico, vivi sem vida.

O fardo que carregava tinha um nome: covardia. A vida são escolhas e eu não fiz as que me cabiam. Inerte, deixei que a vida se encarregasse de fazê-las. Transferi para o acaso as minhas próprias resoluções e abri mão do que eu queria, por temer a luta.

Já não estou morto, mas ainda há palidez em mim, pois lento é o despertar de um corpo paralisado. E se, por agora, não reajo a contento é porque continuo cicatrizando por dentro.

Lentamente me refaço. Hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje. Peço ao amor apenas a caridade da espera. Daqui por adiante, serei breve.

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Querer bem

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Lobo bobo - Emílio Santiago (Carlos Lyra/Ronaldo Bôscoli)

Dimas Lins

- Não, não e não! - protestou o garotinho ao deduzir que a vovozinha iria ser comida pelo lobo mau.

- Mas a estória é assim mesmo, filho! - defendeu-se a mãe.

Não importava. Ela que contasse de outro jeito que daquele não servia. Por acaso não teria a mãe sentimentos? Afinal, não há nada mais terrível do que ter uma mulher idosa, que muito bem poderia ser a sua avó, devorada por um lobo.

E não adiantou a mãe prometer ao filho que a vovó ficaria bem. Não ficaria. Como poderia uma velhinha ficar confortável no bucho do bicho? E não era só uma questão de espaço. Havia que levar em consideração a mastigação do lobo, pois seus dentes afiados certamente machucariam a vovó.

A mãe, vendo a agitação do filho, um menininho de apenas cinco anos de idade, chegou ainda mais perto, deu-lhe um beijo na testa e ajeitou-lhe no edredom.

- Querido, se o lobo mau não comer a vovó, como ele poderá se passar por ela, quando Chapeuzinho vermelho chegar, hein?

Não sabia responder. Não era ele quem contava a estória, mas sua mãe. Portanto, ela que pensasse em alguma coisa. Que mandasse a vovó passear no shopping na hora que o lobo fosse a sua casa. Isso mesmo! Assim, sem encontrar a velha, o lobo mau poderia se disfarçar à vontade, sem precisar devorar ninguém.

- Meu filho, shopping na floresta?! Tenha paciência!

Não tinha. Não deixaria o lobo levar a melhor só porque a mãe não queria construir um shopping na mata. Que construísse! O que importava era tirar a boa senhora de casa. É claro que a mamãe ainda tentou argumentar que a vovó estava doente e pessoas doentes não vão passear no shopping. Então que fosse a um hospital, ora bolas!

Percebendo o filho agitado e, cada vez mais, com menos chances de dormir cedo, resolveu, vendo as horas se passando velozes, abrir mão da versão original da estória e mandou a vovó se tratar num hospital. A partir daí, tudo correu bem. Até, é claro, a hora de o lobo mau comer a Chapeuzinho.

O garotinho não deixou o lobo comer a avó, por que deixaria que comesse Chapeuzinho? Isso é que não! Se dependesse dele, o bichano passaria fome. Fome não! Não precisaria ser cruel com o lobo. Que fosse comer biscoitos! Claro que a mãe, mais uma vez, protestou.

- Filhão, deixa disso! Chapeuzinho vai viver feliz para sempre, te garanto! - antecipou a mãe o final da estória, já impaciente com as intervenções do rebento.

Duvidava que Chapeuzinho, assim como a vovó, pudesse ser feliz dentro da barriga de um animal. Mas o coração apertou mesmo quando a mãe lhe comunicou que um caçador abriria a barriga do lobo para salvar a menina. O lobo mau, coitado, não merecia isso. Protestou e pediu a mãe outra solução. E se o caçador chegasse antes do lobo engolir Chapeuzinho? Neste caso, não seria necessário abrir a barriga de ninguém.

- Filho, você já está mudando a estória de novo. Assim não dá!

Mas era tarde demais. Já estava decidido. O caçador chegaria antes. Melhor ainda, não seria um caçador, mas um médico, pois, de quebra, ainda cuidaria da doença da vovó. Ah! Seria bom também que o lobo não fosse mau. Melhor que fosse um cachorrinho de estimação de Chapeuzinho, mais interessado em afagos e brincadeiras do que em comer pessoas inocentes.

Como o que importava era o sono do garoto, a mãe mudou novamente a estória. Agora, todos os personagens seriam felizes para sempre, desde o início. 

- Era uma vez…

E foi só desse jeitinho, com a estória totalmente modificada que ele, finalmente, conseguiu dormir em paz e a mamãe pôde então seguir para o seu quarto. No caminho, ainda cansada, sorriu das bobagens do filho, que era incapaz de querer mal a alguém. Mesmo que esse alguém fosse apenas um personagem de estória infantil.


Para João Vinícius, que desde criança só aprendeu a querer bem.

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