Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 28 de novembro de 2007, às 10:00h

Quatro guerras em canção

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Passaredo - Chico Buarque (Francis Hime/Chico Buarque)

Dimas Lins

Quando lancei o Estradar, em 19 de agosto deste ano, tinha a perspectiva de criar um blog pessoal. Escreveria sobre pensamentos e sentimentos intimistas, mas também sobre personagens que fogem ao meu universo particular. O Estradar, enfim, seria uma forma de descobrir, aprender e exercitar o meu estilo literário.

Ao longo do tempo, percebi que o Estradar tornou-se daqueles personagens que ganham vida própria, apesar das escolhas iniciais do autor, e encontram o caminho a seguir por seus méritos. E foi naturalmente que passei a receber convidados, cujas palavras aconchegantes tornaram-se as minhas próprias palavras. Elas mantêm a agradável sensação de uma conversa descontraída entre amigos e estimulam a reflexão.

Minha convidada de hoje é Maria Mattoso. Ela é atriz, escritora de peças de teatro, contos e poesias. Maria tirou primeiro lugar no Concurso de Teatro Universitário em 1975 pelo MEC/FUNARTE/Serviço Nacional de Teatro, com a peça Dorotéia Lourenço, uma tragédia nordestina em três atos. A peça foi publicada num volume chamado Coleção Prêmios - Teatro Universitário - 1975 e foi encenada pelo Teatro Espontâneo do Recife. Em breve, a atriz estará retornando aos palcos. Como poetisa, Maria publicou um livro de poesias chamado Lamento de Mar e Brisa pela Editora Livros do Mundo Inteiro.

Atualmente, além de escritora, ela é Terapeuta Holística. E talvez daí venha a sua conexão com a natureza e o gosto por trilhas ecológicas.

Em seu primeiro poema no Estradar, Maria fala com rara sensibilidade do meio-ambiente, pois antes de qualquer coisa - e apesar de tudo - ela ainda acredita no ser humano.

Maria, seja bem-vinda a nossa conversa entre amigos.


Quatro Guerras em Canção

Maria Mattoso


“…queimou-se a terça parte das árvores e toda a erva verde foi queimada.” (Ap.7:8)

I

Já não há jasmins
Pássaros negros
Ou pavões azuis.

Por que os pátios
Continuam vazios?

Capins sem verde
Rosas sem carmim
Adornam os campos que foram.

II

Pássaros sedentos
Ensaiando vôos
Em meio a ruínas
E pastos devastados.
Astros opacos adornam
Um céu de chumbo.

III

Campos estéreis,
Lagos esmaecidos.
Pássaros arquejando
Em lodaçais.
Não há cigarras,
Libélulas douradas,
Garças níveas,
Lebres selvagens…

Só flores esmaecidas
Compõem jardins.

IV

No lago dos peixes de prata
Rouxinóis cantavam
Sob uma brisa leve.
Havia papoulas rosadas,
Gansos bravios e
Gaviões perseguindo lebres.

Peixes asfixiados e
Rouxinóis mudos se debatem.
Os gansos bravios e
Os gaviões que perseguiam lebres
Adornam salas de museus.
Papoulas emurchecidas
Pendem dos ramos
Outrora com vida.

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O filho que eu quero ter

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O filho que eu quero ter - Chico Buarque (Toquinho/Vinícius de Moraes)

Dimas Lins

É comum a gente sonhar, eu sei, mas esta semana sonhei acordado. Era um domingo à tarde e eu estava em frente ao computador, escrevendo alguma coisa para exercitar os dedos, a mente e o coração. Foi quando minha esposa chegou de mansinho e parou ao meu lado sem dizer nada. No rosto um sorriso bonito e nas mãos um teste de gravidez.

No instante em que vi o resultado, percebi uma leve desaceleração do mundo. Senti uma redução gradual dos movimentos de rotação da terra até chegar a um ponto de inércia, uma parada total. Não houve sobressaltados, apenas a perda da sensação da gravidade. Nossos corpos se elevaram no ar e flutuamos entre beijos e abraços, enquanto na cabeça distendia-se uma profusão de imagens, cores e sons de uma criança.

Suspensos no ar, nos deslocamos pelas ruas e, com o mundo parado, tivemos tempo para prestar atenção nas coisas. Vi um colorido diferente na cidade e uma leveza incomum nas pessoas. Senti um desejo incontrolável de abraçar quem vinha pela frente, de afagar um cão sem dono e de declarar o meu amor à humanidade. A cada passo no ar, uma dança, um carinho e um sorriso. Abraçava os desconhecidos como velhos amigos costumam fazer e chorava lágrimas de felicidade.

No rio Capibaribe, a vida estava desperta. Os peixes imitavam golfinhos e saltavam a nossa frente, enquanto caranguejos acenavam com as suas patas. No céu, esquadrilhas de andorinhas faziam acrobacias mágicas e araras vermelhas se misturavam à imensidão azul.

No passeio público, carreatas nos saudavam e sindicatos faziam manifestação de apoio à gestação de uma nova vida. Nas calçadas, as pessoas nos felicitavam e agitavam bandeirinhas estampadas com roupinhas de bebê. Milhares de crianças entoavam cantigas de ninar, enquanto poetas declamavam doces poesias.

No teatro, uma peça infantil foi montada em nossa homenagem e na TV a programação era interrompida a cada instante para dar a boa nova. Cantores e músicos se reuniram na praça e executaram uma audição pública para celebrar o amor.

Por toda a cidade, os bandidos, um a um, abandonavam o crime e plantavam árvores junto com policiais. Nas escolas, professores e alunos discutiam entusiasmados sobre a origem da vida e, nos hospitais, médicos e pacientes comemoravam a descoberta da cura para todos os males.

Nas estradas, os carros agora eram berços e os motoristas, crianças. Nos aeroportos, cegonhas aterrissavam e decolavam levando e trazendo recém-nascidos.

Nas casas, os muros eram derrubados pelas famílias e os vizinhos antecipavam o natal. Nos estádios, as torcidas rivais em harmonia entoavam acalantos.

Já de volta ao lar, encontramos uma criança engatinhando pela casa e nos sentamos ao seu lado para brincar. Em seu sorriso havia o nosso sorriso e em sua paz, a nossa paz. Quando enfim nela bateu o cansaço, cantamos uma cantiga de ninar e a pusemos a dormir.

Ao me debruçar naquele berço imaginário, acalentei o filho que eu quero ter e, baixinho, cantei os versos da canção:

Dorme, meu pequeninho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

Para Lena, com amor.

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Meu corpo e eu

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Qualquer canção (Chico Buarque)

Alice Matias

Se o meu corpo falasse
Ele diria que é um só
Mesmo em partes dividido
Mesmo de fato partido:
Um cortejo de pernas e braços,
Mas um só.

E se o meu corpo calasse
A cada desejo contido
Por medo do teu abraço
Não ser um abraço de amigo…
Ah! Meu corpo, coitado,
Com braços e pernas cerrados,
Andando à margem da vida,
Andando coberto de pó.

Mas se meu corpo pensasse
Diante de tanto carinho
Vestido de razão nata
Despido de qualquer um dos sentidos,
Como o meu corpo veria
Ou sentiria o teu corpo
Que já me escapa, de direito,
Deixando o meu corpo perdido?

Ah! Se meu corpo encontrasse
O peso real das medidas
Mas que felicidade
Seria viver destemida.
O medo, a ânsia e o jogo
Iriam embora para sempre
E eu sentiria o meu corpo
Como o meu corpo me sente.

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Paixão de Cristo

Pintura: Vicent Van Gogh
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Calix Bento - Milton Nascimento (Folclore mineiro adaptado por Tavinho Moura)

Dimas Lins

Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais velho, é que independente das religiões era estranho tornar-se partidário de algo sem ao menos ter uma idéia precisa daquilo em que estava tomando parte. Ia além. Considerava sem sentido tomar partido de qualquer coisa, enquanto fosse incapaz de articular idéias, como era o caso de qualquer recém-nascido. Dizia isso, embora compreendesse perfeitamente o desejo dos pais de querer repassar aos filhos seus usos, costumes e crenças.

Dessa forma, viveu a primeira fase da infância num ambiente católico. Morava próximo à Basílica da Penha no tradicional bairro de São José em Recife e ia lá, vez por outra, em alguma ocasião especial. Como a maioria das famílias católicas, a sua não seguia com rigor os dogmas da igreja. Havia certa frouxidão na relação entre sua família e o Vaticano e, para ele, isso estava de bom tamanho, pois significava um pouco mais de liberdade, ainda que comedida.

Na verdade, gostava mesmo de ir à igreja na semana santa, por causa da encenação da Paixão de Cristo, onde crianças indomáveis eram protagonistas da famosa peça sacra. A bem da verdade, o melhor papel que conseguiu em todos aqueles anos foi o de soldado romano Nº 8, um mero figurante sem direito a proferir uma palavra sequer, por mais monossilábica que fosse. E mesmo assim, nunca atuou na peça em qualquer apresentação pública. Ensaiava, ensaiava e ensaiava, mas ficava apenas no ensaio. Não era tão-somente um péssimo ator, era também irrequieto demais. Numa peça, há que se ter paciência para respeitar as marcações e este não era exatamente o seu caso. E esta inquietação não era apenas sua, mas também de seu melhor amigo, outro ator-mirim, cujo talento não foi reconhecido pelas freiras que produziam o espetáculo.

Acostumaram-se muito mais a tumultuar a montagem a portas fechadas do que propriamente a atuar. Na busca por Jesus no monte das Oliveiras, por exemplo, os dois costumavam procurá-Lo embaixo das cadeiras, atrás das cortinas ou até mesmo dentro dos sapatos dos atores que ensaiavam descalços. Tudo isso, obviamente, desagradava tremendamente às freiras. Ficaram conhecidos e marcados por isso e, um dia, a fama cobrou seu preço.

Certa vez, os dois amigos foram desqualificados como atores e rebaixados a assistentes de palco. De representar o soldado romano Nº 8, ele passou a cuidar dos efeitos especiais. Na verdade, as únicas participações dos dois na peça se restringiriam à cena da morte de Jesus onde, munidos de interruptores e lâminas de metal, simulariam os relâmpagos e trovões.

Do começo ao fim, em todas as sessões preparatórias à estréia para o público, agiram de acordo com a marcação do texto. Era só Jesus pronunciar a citação “Pai, perdoai! Eles não sabem o que fazem!” e as luzes acendiam e apagavam freneticamente, enquanto as lâminas de metal eram agitadas. Tudo ocorria perfeitamente, de acordo com o previsto.

Depois de tantos ensaios, o cansaço e a monotonia de esperar o tempo certo da marcação dos efeitos especiais finalmente chegaram. E vieram exatamente na estréia da Paixão de Cristo. O local improvisado para a reprodução dos relâmpagos e trovões assemelhava-se a um sótão acima e ao redor do palco e seu acesso se dava por uma escada de madeira. No dia do espetáculo, os dois recolheram a escada e, antes que alguém desse conta, já estavam isolados e inacessíveis.

Todos a postos, Jesus entrou triunfante em Jerusalém, montado numa bicicleta adornada com cabeça e rabo de jumento, para mostrar publicamente que, com seu reinado, chegava o tempo da simplicidade. Nesse momento, viu-se um discreto relâmpago. Um erro de marcação, talvez.

Um pouco mais adiante, Jesus pregava na cidade, enquanto no céu surgiam relâmpagos, agora um pouco mais desinibidos, desta vez acompanhados de um tímido trovão. A platéia não se deu conta, mas os atores-mirins já estranhavam os efeitos fora do tempo.

Entretanto, os efeitos especiais deixaram a timidez de lado mesmo quando Jesus indignou-se com a presença dos vendedores no templo. Relâmpagos surgidos no céu e trovões ensurdecedores davam dramaticidade à cena. Enquanto Jesus tropeçava nos ambulantes e os apóstolos colocavam as mãos nos ouvidos, embaixo do sótão percebia-se o movimento das freiras numa tentativa silenciosa de mantê-los sob controle. Era inútil.

A partir dali, cada uma das unidades de ação da peça era acompanhada de efeitos especiais. À medida que Jesus curava os enfermos, por exemplo, viam-se e ouviam-se relâmpagos e trovões seguidos de gritos de “viva!”, “aleluia!” ou “glória a Deus!” vindos do sótão. Também foi em meio a uma tempestade que aconteceu a última ceia. Conta-se que o Messias, já impaciente com o barulho, mandou os apóstolos calarem a boca antes de repartir o pão. E na cena do beijo em que Judas traiu Jesus, houve certo constrangimento no ar quando os dois gritaram lá de cima “safado!” e “morte ao traidor!”.

A platéia dividida reagia com indignação e gargalhadas, enquanto relâmpagos e trovões acompanhavam o suicídio de Judas e toda a via crucis do Mestre. Por coincidência, a única cena sem tempestade foi justamente a da morte de Jesus.

Quando finalmente terminou a peça, Jesus e seus apóstolos, além dos soldados romanos, os aguardavam furiosos embaixo do sótão. Sob os olhares de reprovação das freiras, eles, com ar de inocência, elogiaram a atuação de todo o elenco e ainda tiveram a cara de pau de perguntar o horário da próxima sessão.

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O diálogo entre o corvo e o pombo

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Ancestral, Faixa Um (Quarteto Romançal)

Dimas Lins

Agora em dezembro, fará um ano que conheci Artur Perrusi e, apesar do pouco tempo de convívio, já o considero um de meus melhores amigos. A aproximação foi natural e a empatia, instantânea. Nessas condições, a amizade aproveitou o terreno fértil para crescer e se fortalecer.

Minha amizade com Artur, aliás, não por coincidência, vem da época em que criei o Torcedor Coral, um blog sobre o Santa Cruz, uma paixão comum no futebol. Na ocasião, ele era um dos únicos três leitores que eu tinha. O segundo era eu mesmo e o terceiro se manteve incógnito e permanece no anonimato até hoje. Há, inclusive, uma recompensa para quem descobrir o seu nome e paradeiro, mas isto já é outra história.

Com muita estrada na blogosfera, Artur passou a escrever artigos para o Torcedor Coral. Antes, ele escrevia para o extinto Futiba e foi responsável pela melhor crônica de todos os tempos sobre o Santa Cruz, uma história de um milagre presenciado por um Ateu Moderno, também conhecida como A Besta Fubana.

Artur atualmente é editor, diretor, escritor e serve cafezinho no Blog dos Perrusi, um espaço criado por ele para abrigar “crônica, política, doidice e o escambau!”. Perrusi foi também o primeiro a conhecer o projeto de criação do Estradar e colaborou comigo na fase de desenvolvimento da idéia do blog.

Semana passada, convidei-o para que me enviasse uma crônica para o Estradar. Dono de um estilo inconfundível, ele respondeu que aqui era um espaço para gente grande e escritora e que seu rabiscado sarcástico transformaria o blog numa usina de cinismo. Que venha o cinismo então. Mas, como é de seu feitio, que venha em alto nível!


O diálogo entre o corvo e o pombo

Artur Perrusi



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- De tudo fica um pouco… - disse o pombo, já temeroso da reação sombria do corvo.

- Sim, um asco, gosto amargo na boca; sim, sempre fica um pouco na cabeceira da cama, o maxilar inferior de nossos mortos…

- Ora, corvo, por que não a esperança?

- A esperança é uma folha morta de outono!

- Não, corvo, você está enganado. A esperança é a saudade do futuro, uma folha marrom caindo flutuando sonhando com a primavera…

O corvo olhou o pombo com o seu pior olhar: o de comiseração. O pombo detesta isso, esse olhar de poeta desesperado, cujo maior inimigo é o tempo - meu Deus, logo o tempo, fundador do homem…

- O tempo… - riu triste, o corvo - Tempo é sinônimo de cansaço. O tempo diz adeus. Produz o esquecimento, essa força ativa, essa faculdade positiva que a tudo destrói para dar lugar à repetição.

- Qual o quê, corvo! O tempo não é a repetição de um “mesmo”, uma mera reprodução de algo, e sim o que Kierkegaard chamou de “repetição no sentido grego” ou repetição diferencial, produtora de diferenças. Repetição se identifica com o termo grego de Kinesis (mudança e movimento): a repetição implicaria algo novo.

- Repetição, pra mim, é a gosma do passado que gruda feito um pesadelo nos meus sonhos!

- Corvo, deixe de ser fresco! Sonhe de dia! Faça da sua ontologia uma vontade… Há alguma coisa mais poderosa do que a vontade, este rio caudaloso que não espera enchente para ultrapassar os seus limites? A vontade é a superação dos limites, uma fissura no ser que rasga no presente um futuro, ainda ensangüentado do parto que acontece - volição suprema de uma paixão em brasa que vulcaniza tudo ao seu redor. Um ato de vontade é a realização de um sonho em plena luz do dia!

- e sou eu o fresco da estória…

O corvo ficou surpreendido com a eloqüência do pombo. Não que as palavras pudessem ainda causar tempestades em sua alma, pois há muito o seu espírito vivia navegando numa calmaria sem fim - no núcleo de um furacão. Na verdade, estava surpreso com o otimismo do pombo.

- O otimismo é uma filosofia cruel nesse milênio maldito! - disse ele, olhando pro alto e suspirando. O corvo adora suspirar, a cada sílaba um suspiro, a cada suspiro uma pequena morte anunciada.

- Não sou otimista, corvo ibérico! Tampouco sou pessimista, um mero assassino da ação! Sou um céptico, duvido da própria dúvida, estou entre a alegria e a desgraça, entre o nascimento e a morte, entre o vermelho e o negro, entre o suspiro e a gargalhada - sou Prometeu, rindo dos deuses, embora acorrentado! Se você não entende que dar um sentido à vida é escolher e possuir o extraordinário privilégio da responsabilidade, o conhecimento dessa rara liberdade, desse império sobre nós mesmos e nosso destino, revelando o nome do nosso instinto dominante: a consciência; então, corvo, voe e mergulhe no Achéron, lugar onde terminam os corvos gays. Se de tudo fica um pouco, prefiro ficar com o pouco que resta nessa vida: a amizade entre dois pássaros, de cores diferentes, asas também, vôos, sem dúvida, mas que fazem da diferença o núcleo da fraternidade!

- não há corvo gay. Ficar entre o vermelho e o negro, isto sim é frescura rubro-negra! Fui!

O corvo, nem mesmo, meneou a cabeça. Lançou-se num vôo triste, mas decidido, em direção a Hispânia, terra dos corvos, junto da Lusitânia, origem dos pombos, os novos habitantes de Pindorama, onde tudo muda, mas sempre fica um pouco…

(O pombo, por sua vez, foi atrás de umas pombinhas, porque ninguém é de ferro.)

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Encontro marcado

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Choro Bandido (Chico Buarque)

Dimas Lins


Conto inspirado em personagens do livro O Encontro Marcado de Fernando Sabino.

Miguel se apaixonou desde o primeiro instante em que a viu. Precisamente, desde o colegial. Porém, nunca tivera a coragem de se aproximar e puxar uma conversa, por mais casual que fosse. Sua beleza e seu sorriso ao mesmo tempo em que o atraíam também o intimidavam.

Nos tempos de escola, Sofia esteve sempre além do seu alcance. Ao menos era isso o que pensava. Costumava vê-la entre muitos amigos, transitando com a naturalidade de uma adolescente que se sabia admirada. Ele não se atreveria a disputar a sua atenção, pois a sorte certamente lhe seria desfavorável. Preferiu assim mantê-la apenas em seus pensamentos. Guardaria as suas impressões sobre ela somente para si.

Os tempos de escola também despertavam outros interesses em Miguel, além de Sofia. Paralelamente, tinha a sua atenção voltada para a literatura e as aulas de português, especialmente depois que um dos professores passou a incentivá-lo à escrita. Foi nessa época que começou a escrever os seus primeiros contos e chegou mesmo a ganhar um concurso patrocinado pela prefeitura do município onde morava. Recebeu o prêmio diretamente das mãos do próprio prefeito, uma honra para qualquer cidadão. Teve seus quinze minutos de glória.

Foi a partir daí que passou a escrever semanalmente para o jornalzinho da escola. Mas foi justamente para Sofia que ele, aos quinze anos, reservou o seu primeiro poema. Falava do amor platônico, vívido e contemplativo que sentia e esmagava-lhe a vontade, a voz e a naturalidade de ser e estar. Porém, assim como tornou recônditos os seus pensamentos sobre ela, manteve os versos na mais alta confidencialidade. Seria o guardião das palavras não reveladas.

O tempo passou e, embora nunca soubesse a razão, deixou de vê-la. Já não se fazia necessário chegar mais cedo à escola apenas para encontrá-la no portão de entrada. Também não via mais razão para precipitar-se ao recreio tão-somente para observá-la. Da mesma forma, deixou de fazer sentido abandonar às pressas a sala de aula para testemunhar a sua volta para casa. Onde quer que ele estivesse, ela não estaria lá. Sumiu da escola, da cidade e da sua vida.

Miguel então deixou para trás a adolescência, os versos de contemplação e cresceu. Agora era um homem de vinte e poucos anos e começava a carreira de jornalista. Durante a sua curta evolução profissional, fora anarquista, comunista e revolucionário. Escrevia crônicas ferozes contra o governo, a igreja e todos os opressores do povo, mas, aos poucos, aquietou-se. Contentava-se agora em apenas escrever a sua coluna diária no jornal e, nas horas livres, correr atrás do sonho de tornar-se escritor e poeta. Estava em fase de finalização do seu primeiro romance. Quando começou a escrever, pensava que um dia mudaria o mundo, através das palavras. Depois, deixou pra lá. Viveria, por que não, somente o momento. Por isso, virou farrista. Revirava as madrugadas, na companhia dos amigos de redação, metido nos botequins e bordéis da cidade.

Certa vez, em uma manhã de domingo, num de seus raros momentos diurnos fora da cama em dias inúteis, viu o passado atravessar a rua. Ele retornava personificado no seu amor virtuoso da adolescência.

Encontrou Sofia casualmente na saída da missa. Apenas ela saía da igreja, enquanto ele cruzava a praça principal da cidade. A princípio teve dúvidas. Levantou os óculos escuros até a testa e comprimiu os olhos ligeiramente míopes para enxergar melhor. Era ela, estava claro. O tempo não apagou o desenho do seu rosto que ele conhecia de memória, apenas transformou-o nas feições de uma mulher. Uma mulher exuberante. Muito mais que antes. Recordou, na marcha dos segundos, os tempos de amor não correspondido. Lembrou da Sofia dos pensamentos escondidos. Da Sofia entre muitos amigos. Da Sofia intangível. Da Sofia inatingível. Da Sofia que calara a sua voz e condenara seus poemas ao silêncio.

O coração disparou e acelerou ainda mais quando ela fixou o olhar em sua direção. Percebeu que ela buscava alguma coisa na lembrança. Sabia que não seria possível que ela o reconhecesse. Ela nunca o notara na escola e, portanto, não o reconheceria agora. Depois de alguns segundos de estudo, ela abriu um sorriso e caminhou em sua direção. Ele ficou desconcertado. O jovem eloqüente da coluna de jornal, das críticas mordazes ao governo e dos prazeres fugazes nos bordéis da cidade, como antigamente, fora tomado pela paralisia e pelo silêncio involuntário. Sorriu um sorriso amarelo ao ouvi-la chamar seu nome. Não imaginava que ela o conhecia e menos ainda que soubesse seu nome. Ficaram conversando em pé no meio da praça. Ela natural, ele coração palpitante. Ela sorrindo, ele com tremores. Ela espontânea, ele amaneirado. Ela descontraída, ele com os músculos crispados das pernas ao couro cabeludo.

Soube enfim a razão do seu desaparecimento nos tempos do colégio. Os pais a haviam mandado terminar o segundo grau em Recife e agora ele estava diante de uma estudante de medicina no último ano da faculdade. Ele também foi fazer faculdade na capital, mas voltou a sua cidade tão logo concluiu o curso.

Ainda conversaram um pouco mais, até que alguém a chamou de longe. Eles se despediram com um beijo no rosto, mas demorou alguns minutos para que o corpo dele reagisse naturalmente. Antes da despedida, marcaram de se encontrar. Nada de mais. Tomariam um sorvete, caminhariam pelas ruas da cidade, sentariam num banco da praça e jogariam conversa fora.

No dia do encontro marcado, tomou um banho demorado e cantou no chuveiro. Pôs-se a fazer a barba, vestiu sua melhor roupa e borrifou na nuca, no tórax e nos braços um pouco de perfume. Saiu a pé e caminhou até a casa dela. Tocou a campainha, colocou as mãos nos bolsos da calça, encolheu os ombros como que sentisse frio e aguardou ansioso. Ao vê-la abrir a porta com um sorriso no rosto, sentiu-se mais confortável e, aos poucos, relaxou.

Pararam na sorveteria, escolheram os sabores da iguaria e partiram em direção à praça. Conversaram durante todo o trajeto. Sentaram-se em um dos bancos e, sorvetes nas mãos, continuaram a troca de palavras e de idéias.

Passaram as horas e já era tarde da noite. Na praça, não havia mais casais enamorados. Nas ruas, não havia mais ninguém perambulando. A cidade agora pertencia apenas a eles. Havia uma paz na qual ela não estava acostumada na capital. Enquanto Recife estava sempre em movimento, aquela cidade do interior descansava.

- Então você é escritor?

- Ainda não. Não terminei o meu primeiro livro.

- Mas vai terminar…

- Certamente…

- Escritor e poeta… Que maravilha!

- Um falso poeta, ao menos por enquanto…

Seus versos estavam circunscritos à cidade. Apenas os leitores dali tiveram acesso a eles, através do jornal em que Miguel trabalhava. Não havia críticos que o confirmassem um poeta, pensava ele.

- Um poeta não precisa de confirmação - disse ela, categoricamente. Uma pessoa é poeta independentemente dos críticos. E qual homem ou mulher seria arrogante ao ponto de determinar quem é ou não poeta?

Miguel alegrou-se com a sua defesa eloqüente, afinal, para Sofia, ele era um poeta, não restavam dúvidas. Mesmo assim, manteve suas convicções iniciais.

- Não importa, ainda assim me considero um falso poeta.

Tão logo ele encerrou a fala, ela cantarolou uma canção.

Mesmo que os cantores sejam falsos com eu
Serão bonitas, não importam
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons

- Chico Buarque - disse ela.

- Conheço a música - respondeu, sorrindo meio sem jeito, enquanto ela brincava com a sua timidez.

- Igualzinho à época da escola!

Embora já não estivesse na frente dela o menino tímido do colégio, ele ficou surpreso em saber que também era observado.

- Você notava?

- Sempre notei. Quando eu chegava à escola, não era a mesma coisa se você não estivesse no portão. Eu te procurava discretamente no recreio e na hora da saída. Me sentia lisonjeada quando você me seguia até a minha casa - disse ela, carinhosamente.

- E por que você nunca me disse nada?!

- Talvez eu também fosse tímida, igualzinha a você. As aparências enganam. Além do mais, eu era uma garota e garotas não tomavam iniciativas naquela época.

- E agora você toma?

- Às vezes, quando é necessário, mas prefiro ser conquistada. É mais romântico. Ele sorriu discretamente, enquanto ela mostrava um sorriso um pouco mais aberto.

- Sempre tive medo de chegar até você. Você era tão popular, tão dona de si e havia tantos aos seus pés.

- Eu não era tão dona de mim assim. As minhas pernas sempre paralisavam quando eu mais precisava delas.

- E quando era isso?

Ela sorriu e ficou em silêncio, acanhada. Ele baixou ligeiramente a cabeça e lhe disse com uma voz contida, sem olhar diretamente em seus olhos.

- Eu fiz o meu primeiro poema para você.

Ela estava tão emocionada com o que acabara de ouvir que passou-lhe no pensamento uma vontade de afagar os seus cabelos, mas conteve-se.

- Você ainda o tem guardado? Eu adoraria lê-lo um dia, se você permitir…

- Um dia te mostro…

Calou-se, embora o soubesse de cabeça. Ainda lembrava de cada verso, como se tivesse acabado de escrevê-lo. E não declamou ali, na alta madrugada, no vazio da praça, por considerá-lo um poema tolo, escrito por um adolescente de quinze anos e, ainda mais, por um falso poeta.

Desconversaram. O tempo avançou um pouco mais até que ela decidiu que estava tarde e era hora de voltar para casa. Foi a vez dele então de cantarolar a mesma canção.

Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas, como cegos
Podem ver na escuridão

Ela sorriu e o olhou com vontade.

- E se meus lábios ofegantes se entregarem, você vai me levar até o fim?

Ele sempre soube a resposta para aquela pergunta desde o colegial e estava agora pronto para responder.

- Como na canção, você nasceu pra mim.

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