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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Direita, volver!

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Vote em mim - Rita Lee (Roberto de Carvalho/Rita Lee/Ezequiel Neves)

Dimas Lins

Politicamente, sempre esteve mais à esquerda. Ainda hoje mantém as suas convicções, apesar de se sentir um pouco órfão. Sumiram o respeito e a esperança que sentia por alguns políticos e pela forma de fazer política, mas seu pensamento filosófico pouco se alterou. E embora não seja mais assim, já enxergou a política de uma forma romântica.

Na sua visão apaixonada, de um lado estavam aqueles que defendiam os interesses gerais, do mais humilde, do mais pobre e dos que não tinham vez, nem voz. Do outro, os que utilizavam a máquina do Estado como um meio para atingir os fins pessoais mais recônditos e que exerciam o poder em nome do povo, mas por si e para si. De um lado, os que combateram a ditadura, lutaram pela liberdade e pelo direito à democracia. Do outro, os que usaram os governos para se locupletar e melhorar a sua vida e a vida dos seus. Em síntese, de um lado os mocinhos, do outro, os bandidos. Visão mais romântica, impossível.

Infelizmente, o tempo passou e, para ele, o romantismo político ficou no passado, na lembrança. Os mocinhos deixaram de ser mocinhos e os bandidos continuaram fazendo o que sempre fizeram. Foi-se o tempo em que ele olhava, por exemplo, o governo cubano com simpatia ou acreditava que, aqui pelas bandas do hemisfério sul, um novo mundo iria vingar. Cuba, por seus olhos, não passa de uma ditadura de esquerda e o hemisfério sul parece mesmo não ter jeito.

Embora nunca tenha sido filiado ao PT, ele nutria simpatia pelo partido e, em todas as eleições, votava em seus representantes. Nos comícios, saía de casa enrolado numa bandeira vermelha, acreditando mesmo que o Brasil poderia ser um país mais justo. Chegaram a botar preço no seu pendão, mas não vendeu por dinheiro nenhum. Deixou de ganhar um trocado na época. Uma pena.

Eram bons tempos aqueles. Tempos em que a esperança vencia o medo, apesar de o medo, de fato, meter medo. Embora ele agisse naqueles idos com muito fervor e romantismo político, teve um momento em que fraquejou. Traiu suas convicções políticas por dinheiro. Logo ele, um jovem orgulhoso que combatia humildemente o sistema, fora seduzido.

Aconteceu nas eleições gerais de 1986, quando Miguel Arraes, do PMDB, disputava com José Múcio, um pefelista, o governo do Estado de Pernambuco. Na ocasião, ele estava cursando a faculdade de Matemática e tinha orgulho das suas posições políticas. Nunca foi líder estudantil, mas em qualquer movimento ou passeata ele sempre estava lá. Sentia-se orgulhoso em sair às ruas para defender questões tão intangíveis quanto à democracia e à cidadania. Foi assim, desde o segundo grau.

1986 também foi um ano difícil do ponto de vista financeiro, pois seus bolsos serviam apenas para carregar a identidade, a carteira de estudante, alguns passes de ônibus e uns míseros trocados. Já era um rapaz e, naquela altura da vida, o dinheiro passava a ser mais necessário. Entre os jovens machos, os recursos financeiros, por mais curtos que fossem, eram um atrativo a mais para conquistar a fêmea. Liso, suas chances de transitar com alguma desenvoltura no universo feminino caiam consideravelmente. Não julgava mal as mulheres, que fique claro, mas com a grana que tinha, ou melhor, que não tinha, não dava nem mesmo para convidar uma garota para ir ao cinema. Coração de estudante, bolso de estudante.

Sem dinheiro, exercitava a inteligência para não ser um pária, um mancebo banido das castas estabelecidas. Sabia usar a cabeça e, como ninguém, beneficiar-se das próprias qualidades. Forçou-se também a deixar a timidez um pouco de lado e, com a ajuda da sua pouca erudição, tornou-se mais desinibido. Pragmático, transformou a si mesmo numa pessoa um pouco mais simpática, mais benquista e com mais amigos.

Mas ainda faltava a grana, aquelas notinhas que se desvalorizavam com a inflação numa velocidade alucinante lhe faziam uma falta tremenda. Era um socialista passando dificuldades num mundo capitalista.

E foi numa dessas circunstâncias, de absoluta falta de dinheiro, que recebeu o convite de um vizinho do bairro para trabalhar num dos comitês de campanha de José Múcio. O vizinho desconhecia seu convencimento a respeito da esquerda, por isso, o convite. Os rapazes da sua turma, ao menos os mais duros, toparam prontamente o trabalho ajustado. Do grupo de jovens pés-rapados, ele foi o único a rejeitar a oferta. O dinheiro não mudaria as suas convicções. Longe disso! Não aceitaria e ponto final. Ao menos ele pensava que era um ponto, mas o tempo mostrou-lhe que, no máximo, seria uma vírgula. Tentou ainda procurar o comitê de Arraes na vizinhança, mas não havia nenhum. E mesmo se houvesse, certamente não haveria pessoal contratado, apenas voluntários. Na época, a esquerda não tinha dinheiro para esses luxos.

Infelizmente, ideologia não enche barriga e os primeiros salários da rapaziada acabaram com sua auto-estima. Pária na faculdade, pária no bairro em que morava. Por isso, na segunda vez que recebeu o convite, rabo entre as pernas, não recusou. Estava feito! Transformou-se, aos seus próprios olhos, naquilo que mais repelia: um traidor! O que Miguel Arraes pensaria dele?! Certamente nada, já que Arraes não fazia a menor idéia de quem ele era, mas seus irmãos e amigos mais chegados ficariam desapontados. Ele próprio indubitavelmente ficaria.

Contrariado, entrou para o comitê. Ele mesmo era responsável por sua própria contrariedade. E, envergonhado, não havia o que fazer senão esconder da direita que era de esquerda e da esquerda que ele estava trabalhando para a direita. Restava persistir em manter-se incógnito pelos locais onde o comitê iria atuar.

A cada comício, carreata ou passeata seu constrangimento aumentava. Tentava se disfarçar o quanto podia, para não ser reconhecido. Algumas situações chegaram a ser patéticas. Numa passeata, certa vez, passou em desfile por um local e encontrou um amigo da faculdade. Desesperado, acabou completamente enrolado na bandeira do candidato do PFL arrancada providencialmente de um militante ao seu lado. Não foi notado, mas suou frio. Sentiu-se desconfortável. Para ele, fazer campanha para um candidato de direita significava a mesma coisa que trocar de time de futebol.

Foi em meio a este dilema que resolveu, por conta própria, fazer uma contra-ofensiva. Ao invés de abandonar o comitê, dado que continuaria sem grana, passou a fazer campanha para Arraes utilizando a estrutura eleitoral do candidato da direita. Saiu então de um dilema político para entrar num dilema ético. Mesmo assim seguiu em frente, convicto que estava, diante das circunstâncias, tomando a melhor resolução.

No começo, tentava agir discretamente. Distribuía os panfletos do candidato do PFL e dizia aos eleitores que o outro era melhor. Que um defendia as causas populares e sociais, enquanto o outro vinha de um partido que deu suporte à ditadura militar e continuaria agindo em benefício das mesmas elites.

Um dia, foi pego em flagrante delito por um dos militantes. Era seu amigo de bairro. Foi salvo pelo prazer da rebeldia típica dos jovens. Sua missão, para o outro, não passava de uma travessura e, por isso mesmo, excitante para um jovem de no máximo vinte anos. A idéia tomou corpo e logo ele tinha sob o seu comando um grupo de quase dez pessoas fazendo campanha para Arraes, dentro do comitê de Múcio. Uns por ideologia, outros por gozação.

A rebeldia virou anarquia. Passaram a agir com tanta naturalidade que despejavam toneladas de santinhos, de uma só vez, dentro dos carros, aos gritos de “vote em Múcio para ver a merda que vai dar, filho da puta!”.

Com tudo tão escancarado, acabaram descobertos. Contudo, pela ingenuidade dos seus poucos anos de vida, considerou que já havia feito um estrago na campanha do candidato do PFL e sua missão estava cumprida. Assim, chegou ao fim a sua incursão pela direita na política brasileira. Voltou à velha situação financeira, mas se considerou um herói da resistência. Quando Arraes ganhou a eleição naquele ano, orgulhoso, achou-se também responsável pela vitória eleitoral.

Hoje, já mais velho, anda afastado da política. Abandonou a bandeira vermelha, não participa mais de campanhas eleitorais, nem é mais simpatizante de nenhum partido. Considera todos farinha do mesmo saco. Costuma, às vezes, lê as notícias nos jornais, imaginando como tudo poderia ser diferente. Quanta coisa foi desperdiçada e quanto sonho foi jogado fora. Perdeu as esperanças e acredita que o hemisfério sul continua o mesmo mais do que nunca.

5 Comentários

  1. André Tricolor Virtual 2 de novembro de 2007, às 12:56h

    Dimas:

    Não gosto muito de POLÍTICA, apesar de nossa vida “SER UMA POLÍTICA” … Prefiro acessar seu BLOG para saber do MELHOR PARTIDO para se VIVER UM CAMINHO MELHOR !!!! Na estrada agente sempre se encontra, basta seguir !!!!

    Abraços amigo !!!!!

  2. Robson/Piauí 4 de novembro de 2007, às 9:16h

    Olá Dimas:

    Como disse Milton Nascimento : Quem viveu só vale se já sonhou demais…

    Tenho muita coisa em comum com o protagonista da crônica. Mas apesar do fim das ilusões é possível obeservar que existem políticos piores do que outros. E como dizia o slogan do candidato Zé Múcio: Pra tás nunca mais. Avancemos companheiro.

    Obs: Tinha um cidadão na minha rua que quando tomava umas lapadas gritava a pleno pulmões: É Arraia, o homi é Arraia. Na rua ele era conhecido como Arraia.

  3. josias de paula jr. 5 de novembro de 2007, às 11:27h

    A forma partido parece estar, efetivamente, ultrapassada. Daí, pergunta-se: o que fazer? Não sei. Mas, será que nada?

  4. Anizio Carlos da Silva 15 de novembro de 2007, às 1:00h

    Dimas, a crônica é baseada em fatos reais?

    Talvez a pergunta seja meio besta, dado aquele papo no carro de Claudemir - que aliás, é meu colega de partido.

    Um abraço (sin perder la ternura)

  5. Dimas Lins 15 de novembro de 2007, às 7:45h

    Anízio,

    Contei a história em terceira pessoa propositadamente para deixar uma nuvem de dúvida. Mas sim, a história é baseada em fatos reais e o personagem sou. Era um meninote aprendendo a trilhar os caminhos da política.

    Um abraço,

    Dimas

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