O país da delicadeza perdida

Acalanto (Chico Buarque)
Dimas Lins
Em Porto Alegre, desde o dia anterior, um homem velho está jogado numa maca no corredor de um hospital público e agoniza. Sem assistência médica, apesar da insistência dos parentes, ele morrerá em alguns minutos. Faltam leitos, médicos, medicamentos e solidariedade, embora sobrem justificativas injustificáveis por todos os lados.
No Rio de Janeiro, um jovem de classe média sobe o morro para conseguir mais drogas. Com seu dinheiro, traficantes comprarão novas armas e, entre elas, estará um fuzil AK-47 com capacidade para despejar 650 tiros por minuto. Dali a cinco dias, uma bala perdida disparada deste fuzil matará acidentalmente um jovem estudante morador do morro. Ele chegará em casa no momento em que policiais e bandidos trocarão tiros na favela.
Numa esquina de Recife, uma professora, em poucos instantes, receberá uma bala na cabeça durante um assalto. Ela estará aguardando a luz verde do semáforo e tentará arrancar a toda velocidade ao perceber que uma arma está sendo apontada para a janela do seu carro. O ladrão fugirá, em seguida, carregando consigo uns poucos trocados e um celular.
Em Brasília, políticos rasgam diariamente a constituição federal, e legislam em causa própria. Numa inversão de papéis, estes servidores públicos servem-se daqueles a quem juraram servir, para aumentar suas riquezas, prestígio e poder.
Em poucas horas, numa favela em Salvador, um homem espancará seu filho de menos de um ano de idade até a morte. O pai alcoólatra alegará, em sua defesa, a irritabilidade causada pelo choro do bebê. O choro da criança virá da fome.
Em Belo Horizonte, na volta de um feriado, um motorista em alguns minutos atropelará um pedestre que caminha no acostamento. Preso em flagrante, ele alegará que apenas tentava fugir do engarrafamento e ganhar alguns minutos na viagem. O homem morto, um simples camponês, deixará mulher e filhos.
Em São Paulo, uma empregada doméstica baterá contra a parede a cabeça de uma velha dona da casa, uma mulher sozinha presa a uma cadeira de rodas, e causará traumatismo craniano. Os filhos ficarão horrorizados e esquecerão que foram responsáveis por deixar a própria mãe aos cuidados de ninguém.
Em Maceió, amanhã neste mesmo horário, um adolescente será assassinado por um cidadão comum por haver molhado suas calças, enquanto passeava de bicicleta numa rua alagada da cidade.
Somos um país infecto, bacterializado e apodrecido. Corre em nossas veias um sangue contaminado de coisas vis. Valorizamos a individualidade, a covardia, o egoísmo, a corrupção e a violência. Em contraponto, desprezamos a boa vontade, o respeito à vida, a compaixão e o amor ao próximo.
Somos um país de acomodados, de homens e mulheres voltados com os olhos para o próprio umbigo. Assistimos indiferentes à fome estender a mão nas janelas dos nossos carros, à miséria se deitar embaixo das marquises nas noites frias e à desesperança invadir os corações dos desprovidos do necessário.
Escondemos o sol dos desassistidos, semeamos a pobreza, cultivamos o desespero e colhemos bestialidades. Fingimos compaixão, imaginamo-nos solidários, mas pregamos o abandono. Somos homens e mulheres vítimas e algozes da nossa própria brutalidade.
Faltam-nos a generosidade de desejar bom dia e o interesse sincero pelo outro, pois nos acostumamos ao “cada um por si”. Faltam-nos o desejo da felicidade alheia e o querer bem do outro, sem a expectativa da contrapartida.
Faltam-nos a sensatez, a civilidade, a caridade, o perdão e o sacrifício. Faltam-nos Justiça, Estado e Governo. Faltam-nos coragem, vontade e indignação. Faltam-nos compreensão, amizade, razoabilidade e ação. Faltam-nos ser homens e mulheres de verdade. Falta-nos vergonha. Falta-nos sensibilidade. Falta-nos desapego. Falta-nos serenidade. Falta-nos poesia. Falta-nos razão. Falta-nos educação. Falta-nos querer.
Faltam um gesto, um abraço, um aperto de mão e um sorriso. Faltam gratidão aos pais e respeito aos desiguais. Falta-nos tolerância. Falta-nos esperança. Falta-nos carinho e atenção. Falta-nos amar.
Há um desencanto em mim. Há também aflição e temor. Quero ter um filho e vê-lo acordar disposto. Quero levá-lo para brincar nas praças e nos parques da minha cidade, como eu fiz um dia. Quero vê-lo sorrindo, maravilhado com o mundo e encantado com as pessoas. Quero muito um filho, mas tenho medo de despertá-lo no país da delicadeza perdida.
8 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Realmente falta AMOR. Essa palavra que anda tanto em desuso, que alguns nem lembram mais o real significado…
“Amar ao próximo como a si mesmo”… Alguém já falava isso a milhares de anos atrás, como num anúncio de como a humanidade se comportaria no futuro(não que isso já não acontecesse na sua época…).
Eu também penso em ter um filho em breve, mas imaginar o mundo em que essa criança vai crescer me assusta.
Duas crônicas “políticas” seguidas e de mesmo teor: desesperança. É a marca de nosso tempo, amigo. A esperança vence o medo, e depois se vê vencida pela frustração. Não acredito que essa situação possa perdurar.
Alguém disse que o que mais o deixava otimista em relação ao futuro, era o fato de saber que não participaria dele! Parece que foi Sabino.
Não sei quando vai passar a inércia, a paralisia, mas acredito que chegará o tempo de novas expectativas e possibilidades de avanço. Saravá!
ps: Não sei o nome do bar onde nos conhecemos, mas me lembro perfeitamente do dia. Estávamos eu, Paulo Aguiar, Gustavo, Artur Perrusi etc etc. Foi após um jogo e você estava bastante pessimista com o time. Advinhavas?
Depois nos vimos mais uma vez no bar da piscina…
Dimas
Sofremos muitas vezes pelo próprio mal que fazemos, a nós mesmos e ao próximo! Eu acredito bastante nas pessoas … Vai chegar um dia que iremos conseguir falar a mesma língua … Não podemos deixar de ter nossos filhos, mesmo com um MUNDO tão difícil … Temos é que mostrar o melhor caminho a ser trilhado, porque quem anda com o BEM não se perderá jamais !!!!
Um grande abraço !!!!
>>> VIVA SANTINHA
Josias,
É verdade, foram duas crônicas seguidas sobre desesperança e, aqui confesso, não foram intencionais. Mas o fato é que a realidade brasileira é dura e nos dá a sensação de que estamos por nossa própria conta e risco.
Foi no Paraíso da Carne de Sol, na rua 48. O pessimismo foi plenamente justificável, afinal, olha como nós estamos. Mas o interessante é que eu não tinha associado você, até porque todos lhe tratavam pelo apelido carinhoso, ao Josias do blog Inscritosempedra. Passei a visitar seu blog por indicação de Perrusi e não deixei mais de acompanhar.
Um grande abraço,
Dimas
Pois é, infelizmente compartilho do espírito do seu texto e adorei o nome, pois delicadeza é uma palavra que diz muito mais do que parece. Delicadeza implica em cuidado e atenção para com o outro e estamos muito carentes disto. Relaciono seu texto com o seguinte (de sua amiga); ambos me fizeram lembrar um texto que li sobre a “exclusão voluntária”, uma sindrome do brasileiro: acreditamos não fazer parte da “massa”, não precisar da escola pública, não precisar do hospital público, não precisar da segurança pública…enfim, sermos melhores, superiores e distantes (principalmente se tivermos um carro importado). E daí, o que que eu tenho a ver com isso, né!?? Quando vamos nos dar conta que temos muito a ver com isto? Que precisamos mais do que por a mão na massa, nos reconhecermos na massa e nos comprometermos com ela? Como sou uma otimista, sigo acreditando…
O que acho ainda mais estranho, Dimas, é que nossa cultura prega o individualismo cru, distinto até de amor-próprio. Mesmo que por individualismo, seria necessário raciocinar a difícil situação do outro como uma possível situação futura sua. E querer o bem para todos, pensando que está inserido nesse todo, por mais individualista que seja.
Essa merda não tem jeito. Admiro sua coragem em ansiar por um filho. Eu não a tenho, justamente por ter perdido a esperança num mundo melhor.
Velho Dimas,
Não resisti aos versos de “ACALANTO”, do também
velho Chico, onde se lê e se ouve:
Dor’minha pequena, não vale a pena despertar.
Maior pesssimimsmo(com 3 essess) só o meu.
Abração.
Caro Dimas, que belo texto você escreveu, realmente o nosso país está cada vez mais perdendo a delicadeza, a generosidade. A semana passada fui surpreendida com uma coisa que me assustou. Estava na casa de uns amigos em Maragogi, com o meu grupo de “aposentados” da Divisão de Educação da antiga SUDENE, éramos oito e dividimos os quartos duas a dua. Na hora de dormir, quando fui fazer a minha cama, perguntei a minha companheira de quarto se queria que também fizesse sua cama ela surpreendeu-se e me perguntou: - Você faz isso para mim? E eu disse claro. e fiz a cama dela. Mal deitamos, ela sentiu frio, como não sou friorenta, baixei um pouco o ar condicionado e ofereci a minha manta para ela W trocar de cama, pois a cama dela recebia mais vento(nova surpresa). Ela então me pediu se eu me incomodava de apanhar as meias dela. E eu respondi, não sou apanho como calço nos seus pés. Calcei as meias (e nova surpresa dela). No outro dia durante o café da manhã, ela só comentava: - Meu Deus, como Mattoso é generosa! Aí, foi a minha vez de ficar surpresa. Não vejo nenhuma generosidade nisso, para mim isso é um estado normal. E então me dei conta de como estamos ficando embrutecidos. Um gesto que para mim é normal e corriqueiro, causou imenso espanto, até hoje ela saiu comentando com as nossas companheiras, como eu sou generosa. Meu Deus! Em que mundo estamos? Falei isso tudo, porque o seu texto teve tudo haver com o que eu vivi. Um abraço meu amigo virtual e mais uma vez parabéns pela sua sensibilidade.