Novos estatutos do homem moderno

Coração civil (Milton Nascimento)
Dimas Lins
Conheci Alice há muito tempo, por intermédio da minha esposa e, desde então, passei a admirar suas qualidades profissionais e suas virtudes pessoais. Dona de um senso de justiça apurado e de uma generosidade incomum nos dias atuais, Alice é daquelas pessoas que nos orgulhamos de conhecer e conviver.
Mas apesar de todo esse tempo de convívio, foi apenas há alguns meses que descobri sua inclinação para a poesia. Tímida, ela sempre recusou meu convite para publicá-las no Estradar. E, embora as poesias fiquem para outra oportunidade, finalmente consegui, a muito custo, que ela me enviasse um artigo, fruto da sua indignação relativa à postura do homem diante do homem.
E como justiça é uma palavra um pouco fora de moda, nada melhor do que trazê-la de volta ao nosso vocabulário num texto sensível e refinado.
Alice, que as suas palavras poéticas estejam sempre por aqui.
Alice Matias
Em um dia quase normal de trabalho numa emergência tranqüila desta cidade sou surpreendida por um paciente que, esmurrando a mesa, exigia e berrava para ser melhor atendido, já que possuía um carro da marca Honda. Não compreendendo sua solicitação (possuo um Mercerdes-Benz e não achava que merecia melhor atendimento) e pensando o que seria das outras pessoas que não têm um Honda como um argumento para serem melhor avaliadas por um profissional de saúde, lembrei dos “Estatutos do Homem” de Thiago de Mello. Talvez pudéssemos ajustá-los à idéia desta pessoa indignada com a suposta falta de ajuda profissional (na sua mente esquisita, é claro).
Os Novos Estatutos do Homem Moderno
Fica estabelecido, de forma perene e irrevogável, que a sensação de impotência diante da impunidade sempre prevalecerá.
Fica decretado que sempre haverá dor maior que a sua e por isso você estará sempre impedido de se lamuriar do seu infortúnio.
Fica estabelecido que o Homem, como animal que é, pode matar para comer, ou apenas para satisfazer seu desejo animal de matar por motivo torpe.
Fica decretado que o dinheiro pode comprar tudo, inclusive a felicidade, e que quanto mais dinheiro o Homem tiver, melhor Homem ele será.
Decreta-se que todo Homem será avaliado pelos bens que tem. Se nada tiver, não será digno de nada, de nenhum sentimento bom ou ruim e que, portanto, como Homem não existirá.
Fica estabelecido que quanto mais caro o seu carro, melhor você será tratado por todos os prestadores de serviço, inclusive pelos médicos, que lhe darão o antídoto especial da cura de todos os males incuráveis.
Fica decretado que se você tiver um carro velho você estará em maus lençóis e não terá direito ao melhor analgésico, permanecendo com sua dor até quando você não mais suportar. Se tiver sorte, sucumbirá.
Em caráter extraordinário, quem lhe salvaria a vida, desta lhe tirará, se você não dispuser de recursos financeiros para provar que por isso é uma pessoa melhor.
Finalmente, fica proibido o uso da palavra generosidade, bem como qualquer ato que possa lembrá-la, ainda que minimamente.
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