Encontro marcado

Choro Bandido (Chico Buarque)
Dimas Lins
Conto inspirado em personagens do livro O Encontro Marcado de Fernando Sabino.
Miguel se apaixonou desde o primeiro instante em que a viu. Precisamente, desde o colegial. Porém, nunca tivera a coragem de se aproximar e puxar uma conversa, por mais casual que fosse. Sua beleza e seu sorriso ao mesmo tempo em que o atraíam também o intimidavam.
Nos tempos de escola, Sofia esteve sempre além do seu alcance. Ao menos era isso o que pensava. Costumava vê-la entre muitos amigos, transitando com a naturalidade de uma adolescente que se sabia admirada. Ele não se atreveria a disputar a sua atenção, pois a sorte certamente lhe seria desfavorável. Preferiu assim mantê-la apenas em seus pensamentos. Guardaria as suas impressões sobre ela somente para si.
Os tempos de escola também despertavam outros interesses em Miguel, além de Sofia. Paralelamente, tinha a sua atenção voltada para a literatura e as aulas de português, especialmente depois que um dos professores passou a incentivá-lo à escrita. Foi nessa época que começou a escrever os seus primeiros contos e chegou mesmo a ganhar um concurso patrocinado pela prefeitura do município onde morava. Recebeu o prêmio diretamente das mãos do próprio prefeito, uma honra para qualquer cidadão. Teve seus quinze minutos de glória.
Foi a partir daí que passou a escrever semanalmente para o jornalzinho da escola. Mas foi justamente para Sofia que ele, aos quinze anos, reservou o seu primeiro poema. Falava do amor platônico, vívido e contemplativo que sentia e esmagava-lhe a vontade, a voz e a naturalidade de ser e estar. Porém, assim como tornou recônditos os seus pensamentos sobre ela, manteve os versos na mais alta confidencialidade. Seria o guardião das palavras não reveladas.
O tempo passou e, embora nunca soubesse a razão, deixou de vê-la. Já não se fazia necessário chegar mais cedo à escola apenas para encontrá-la no portão de entrada. Também não via mais razão para precipitar-se ao recreio tão-somente para observá-la. Da mesma forma, deixou de fazer sentido abandonar às pressas a sala de aula para testemunhar a sua volta para casa. Onde quer que ele estivesse, ela não estaria lá. Sumiu da escola, da cidade e da sua vida.
Miguel então deixou para trás a adolescência, os versos de contemplação e cresceu. Agora era um homem de vinte e poucos anos e começava a carreira de jornalista. Durante a sua curta evolução profissional, fora anarquista, comunista e revolucionário. Escrevia crônicas ferozes contra o governo, a igreja e todos os opressores do povo, mas, aos poucos, aquietou-se. Contentava-se agora em apenas escrever a sua coluna diária no jornal e, nas horas livres, correr atrás do sonho de tornar-se escritor e poeta. Estava em fase de finalização do seu primeiro romance. Quando começou a escrever, pensava que um dia mudaria o mundo, através das palavras. Depois, deixou pra lá. Viveria, por que não, somente o momento. Por isso, virou farrista. Revirava as madrugadas, na companhia dos amigos de redação, metido nos botequins e bordéis da cidade.
Certa vez, em uma manhã de domingo, num de seus raros momentos diurnos fora da cama em dias inúteis, viu o passado atravessar a rua. Ele retornava personificado no seu amor virtuoso da adolescência.
Encontrou Sofia casualmente na saída da missa. Apenas ela saía da igreja, enquanto ele cruzava a praça principal da cidade. A princípio teve dúvidas. Levantou os óculos escuros até a testa e comprimiu os olhos ligeiramente míopes para enxergar melhor. Era ela, estava claro. O tempo não apagou o desenho do seu rosto que ele conhecia de memória, apenas transformou-o nas feições de uma mulher. Uma mulher exuberante. Muito mais que antes. Recordou, na marcha dos segundos, os tempos de amor não correspondido. Lembrou da Sofia dos pensamentos escondidos. Da Sofia entre muitos amigos. Da Sofia intangível. Da Sofia inatingível. Da Sofia que calara a sua voz e condenara seus poemas ao silêncio.
O coração disparou e acelerou ainda mais quando ela fixou o olhar em sua direção. Percebeu que ela buscava alguma coisa na lembrança. Sabia que não seria possível que ela o reconhecesse. Ela nunca o notara na escola e, portanto, não o reconheceria agora. Depois de alguns segundos de estudo, ela abriu um sorriso e caminhou em sua direção. Ele ficou desconcertado. O jovem eloqüente da coluna de jornal, das críticas mordazes ao governo e dos prazeres fugazes nos bordéis da cidade, como antigamente, fora tomado pela paralisia e pelo silêncio involuntário. Sorriu um sorriso amarelo ao ouvi-la chamar seu nome. Não imaginava que ela o conhecia e menos ainda que soubesse seu nome. Ficaram conversando em pé no meio da praça. Ela natural, ele coração palpitante. Ela sorrindo, ele com tremores. Ela espontânea, ele amaneirado. Ela descontraída, ele com os músculos crispados das pernas ao couro cabeludo.
Soube enfim a razão do seu desaparecimento nos tempos do colégio. Os pais a haviam mandado terminar o segundo grau em Recife e agora ele estava diante de uma estudante de medicina no último ano da faculdade. Ele também foi fazer faculdade na capital, mas voltou a sua cidade tão logo concluiu o curso.
Ainda conversaram um pouco mais, até que alguém a chamou de longe. Eles se despediram com um beijo no rosto, mas demorou alguns minutos para que o corpo dele reagisse naturalmente. Antes da despedida, marcaram de se encontrar. Nada de mais. Tomariam um sorvete, caminhariam pelas ruas da cidade, sentariam num banco da praça e jogariam conversa fora.
No dia do encontro marcado, tomou um banho demorado e cantou no chuveiro. Pôs-se a fazer a barba, vestiu sua melhor roupa e borrifou na nuca, no tórax e nos braços um pouco de perfume. Saiu a pé e caminhou até a casa dela. Tocou a campainha, colocou as mãos nos bolsos da calça, encolheu os ombros como que sentisse frio e aguardou ansioso. Ao vê-la abrir a porta com um sorriso no rosto, sentiu-se mais confortável e, aos poucos, relaxou.
Pararam na sorveteria, escolheram os sabores da iguaria e partiram em direção à praça. Conversaram durante todo o trajeto. Sentaram-se em um dos bancos e, sorvetes nas mãos, continuaram a troca de palavras e de idéias.
Passaram as horas e já era tarde da noite. Na praça, não havia mais casais enamorados. Nas ruas, não havia mais ninguém perambulando. A cidade agora pertencia apenas a eles. Havia uma paz na qual ela não estava acostumada na capital. Enquanto Recife estava sempre em movimento, aquela cidade do interior descansava.
- Então você é escritor?
- Ainda não. Não terminei o meu primeiro livro.
- Mas vai terminar…
- Certamente…
- Escritor e poeta… Que maravilha!
- Um falso poeta, ao menos por enquanto…
Seus versos estavam circunscritos à cidade. Apenas os leitores dali tiveram acesso a eles, através do jornal em que Miguel trabalhava. Não havia críticos que o confirmassem um poeta, pensava ele.
- Um poeta não precisa de confirmação - disse ela, categoricamente. Uma pessoa é poeta independentemente dos críticos. E qual homem ou mulher seria arrogante ao ponto de determinar quem é ou não poeta?
Miguel alegrou-se com a sua defesa eloqüente, afinal, para Sofia, ele era um poeta, não restavam dúvidas. Mesmo assim, manteve suas convicções iniciais.
- Não importa, ainda assim me considero um falso poeta.
Tão logo ele encerrou a fala, ela cantarolou uma canção.
Mesmo que os cantores sejam falsos com eu
Serão bonitas, não importam
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
- Chico Buarque - disse ela.
- Conheço a música - respondeu, sorrindo meio sem jeito, enquanto ela brincava com a sua timidez.
- Igualzinho à época da escola!
Embora já não estivesse na frente dela o menino tímido do colégio, ele ficou surpreso em saber que também era observado.
- Você notava?
- Sempre notei. Quando eu chegava à escola, não era a mesma coisa se você não estivesse no portão. Eu te procurava discretamente no recreio e na hora da saída. Me sentia lisonjeada quando você me seguia até a minha casa - disse ela, carinhosamente.
- E por que você nunca me disse nada?!
- Talvez eu também fosse tímida, igualzinha a você. As aparências enganam. Além do mais, eu era uma garota e garotas não tomavam iniciativas naquela época.
- E agora você toma?
- Às vezes, quando é necessário, mas prefiro ser conquistada. É mais romântico. Ele sorriu discretamente, enquanto ela mostrava um sorriso um pouco mais aberto.
- Sempre tive medo de chegar até você. Você era tão popular, tão dona de si e havia tantos aos seus pés.
- Eu não era tão dona de mim assim. As minhas pernas sempre paralisavam quando eu mais precisava delas.
- E quando era isso?
Ela sorriu e ficou em silêncio, acanhada. Ele baixou ligeiramente a cabeça e lhe disse com uma voz contida, sem olhar diretamente em seus olhos.
- Eu fiz o meu primeiro poema para você.
Ela estava tão emocionada com o que acabara de ouvir que passou-lhe no pensamento uma vontade de afagar os seus cabelos, mas conteve-se.
- Você ainda o tem guardado? Eu adoraria lê-lo um dia, se você permitir…
- Um dia te mostro…
Calou-se, embora o soubesse de cabeça. Ainda lembrava de cada verso, como se tivesse acabado de escrevê-lo. E não declamou ali, na alta madrugada, no vazio da praça, por considerá-lo um poema tolo, escrito por um adolescente de quinze anos e, ainda mais, por um falso poeta.
Desconversaram. O tempo avançou um pouco mais até que ela decidiu que estava tarde e era hora de voltar para casa. Foi a vez dele então de cantarolar a mesma canção.
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas, como cegos
Podem ver na escuridão
Ela sorriu e o olhou com vontade.
- E se meus lábios ofegantes se entregarem, você vai me levar até o fim?
Ele sempre soube a resposta para aquela pergunta desde o colegial e estava agora pronto para responder.
- Como na canção, você nasceu pra mim.
2 Comentários
Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Caro Dimas:
Quantas vezes não nos vimos nessa situação. Quanto tempo perdemos por causa da inocente timidez! Quantos amores deixamos para trás por não tentarmos ir adiante,expor nossa desejada e avassaladora paixão! Por que não tentar sempre … Não tentar, significa muitas vezes abdicar de um amor que muitas vezes só aparece uma única vez nessa vida … Temos que sempre abrir nosso coração, ainda assim que o outro não mereça nossa admiração!
VLW meu amigo tão romântico hoje como a vida não pode deixar de ser !!!!
Abraços !!!!
Bela crônica, Dimas!
Seria um prazer fazer tal poema. Na verdade, agora, ele vai acabar saindo. Até porque meu primeiro poema também foi para um amor impossível…
Quando estiver pronto te envio.
Abraço.