Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

O diálogo entre o corvo e o pombo

corvo.bmp

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Ancestral, Faixa Um (Quarteto Romançal)

Dimas Lins

Agora em dezembro, fará um ano que conheci Artur Perrusi e, apesar do pouco tempo de convívio, já o considero um de meus melhores amigos. A aproximação foi natural e a empatia, instantânea. Nessas condições, a amizade aproveitou o terreno fértil para crescer e se fortalecer.

Minha amizade com Artur, aliás, não por coincidência, vem da época em que criei o Torcedor Coral, um blog sobre o Santa Cruz, uma paixão comum no futebol. Na ocasião, ele era um dos únicos três leitores que eu tinha. O segundo era eu mesmo e o terceiro se manteve incógnito e permanece no anonimato até hoje. Há, inclusive, uma recompensa para quem descobrir o seu nome e paradeiro, mas isto já é outra história.

Com muita estrada na blogosfera, Artur passou a escrever artigos para o Torcedor Coral. Antes, ele escrevia para o extinto Futiba e foi responsável pela melhor crônica de todos os tempos sobre o Santa Cruz, uma história de um milagre presenciado por um Ateu Moderno, também conhecida como A Besta Fubana.

Artur atualmente é editor, diretor, escritor e serve cafezinho no Blog dos Perrusi, um espaço criado por ele para abrigar “crônica, política, doidice e o escambau!”. Perrusi foi também o primeiro a conhecer o projeto de criação do Estradar e colaborou comigo na fase de desenvolvimento da idéia do blog.

Semana passada, convidei-o para que me enviasse uma crônica para o Estradar. Dono de um estilo inconfundível, ele respondeu que aqui era um espaço para gente grande e escritora e que seu rabiscado sarcástico transformaria o blog numa usina de cinismo. Que venha o cinismo então. Mas, como é de seu feitio, que venha em alto nível!


O diálogo entre o corvo e o pombo

Artur Perrusi



pombo.bmp

- De tudo fica um pouco… - disse o pombo, já temeroso da reação sombria do corvo.

- Sim, um asco, gosto amargo na boca; sim, sempre fica um pouco na cabeceira da cama, o maxilar inferior de nossos mortos…

- Ora, corvo, por que não a esperança?

- A esperança é uma folha morta de outono!

- Não, corvo, você está enganado. A esperança é a saudade do futuro, uma folha marrom caindo flutuando sonhando com a primavera…

O corvo olhou o pombo com o seu pior olhar: o de comiseração. O pombo detesta isso, esse olhar de poeta desesperado, cujo maior inimigo é o tempo - meu Deus, logo o tempo, fundador do homem…

- O tempo… - riu triste, o corvo - Tempo é sinônimo de cansaço. O tempo diz adeus. Produz o esquecimento, essa força ativa, essa faculdade positiva que a tudo destrói para dar lugar à repetição.

- Qual o quê, corvo! O tempo não é a repetição de um “mesmo”, uma mera reprodução de algo, e sim o que Kierkegaard chamou de “repetição no sentido grego” ou repetição diferencial, produtora de diferenças. Repetição se identifica com o termo grego de Kinesis (mudança e movimento): a repetição implicaria algo novo.

- Repetição, pra mim, é a gosma do passado que gruda feito um pesadelo nos meus sonhos!

- Corvo, deixe de ser fresco! Sonhe de dia! Faça da sua ontologia uma vontade… Há alguma coisa mais poderosa do que a vontade, este rio caudaloso que não espera enchente para ultrapassar os seus limites? A vontade é a superação dos limites, uma fissura no ser que rasga no presente um futuro, ainda ensangüentado do parto que acontece - volição suprema de uma paixão em brasa que vulcaniza tudo ao seu redor. Um ato de vontade é a realização de um sonho em plena luz do dia!

- e sou eu o fresco da estória…

O corvo ficou surpreendido com a eloqüência do pombo. Não que as palavras pudessem ainda causar tempestades em sua alma, pois há muito o seu espírito vivia navegando numa calmaria sem fim - no núcleo de um furacão. Na verdade, estava surpreso com o otimismo do pombo.

- O otimismo é uma filosofia cruel nesse milênio maldito! - disse ele, olhando pro alto e suspirando. O corvo adora suspirar, a cada sílaba um suspiro, a cada suspiro uma pequena morte anunciada.

- Não sou otimista, corvo ibérico! Tampouco sou pessimista, um mero assassino da ação! Sou um céptico, duvido da própria dúvida, estou entre a alegria e a desgraça, entre o nascimento e a morte, entre o vermelho e o negro, entre o suspiro e a gargalhada - sou Prometeu, rindo dos deuses, embora acorrentado! Se você não entende que dar um sentido à vida é escolher e possuir o extraordinário privilégio da responsabilidade, o conhecimento dessa rara liberdade, desse império sobre nós mesmos e nosso destino, revelando o nome do nosso instinto dominante: a consciência; então, corvo, voe e mergulhe no Achéron, lugar onde terminam os corvos gays. Se de tudo fica um pouco, prefiro ficar com o pouco que resta nessa vida: a amizade entre dois pássaros, de cores diferentes, asas também, vôos, sem dúvida, mas que fazem da diferença o núcleo da fraternidade!

- não há corvo gay. Ficar entre o vermelho e o negro, isto sim é frescura rubro-negra! Fui!

O corvo, nem mesmo, meneou a cabeça. Lançou-se num vôo triste, mas decidido, em direção a Hispânia, terra dos corvos, junto da Lusitânia, origem dos pombos, os novos habitantes de Pindorama, onde tudo muda, mas sempre fica um pouco…

(O pombo, por sua vez, foi atrás de umas pombinhas, porque ninguém é de ferro.)

4 Comentários

  1. André Tricolor Virtual 16 de novembro de 2007, às 6:12h

    Tive o grande prazer “Dimas” das arquibancadas do Arruda conhecer essa pessoa formidável que atende pelo nome de “Artur Perrusi”!

    “…Um ato de vontade é a realização de um sonho em plena luz do dia…”

    Um dia tão esperançoso acordando no horizonte, esse texto maravilhoso nos serve para valorizar ainda mais a LEITURA!

    Parabéns “Dimas” por dar oportunidade de pessoas tão boas expressarem toda sua sabedoria!

    Valeu “Artur”

    abraços e saudações Santacruzenses!

  2. André Tricolor Virtual 16 de novembro de 2007, às 6:16h

    … Já ia esquecendo, vou tomar aquele café da manhã ao som do “Quarteto Romançal” … Formidável !!!!!

  3. Ana Cláudia 19 de novembro de 2007, às 8:32h

    Artur:

    É mesmo uma responsabilidade muito grande estar no espaço do Dimas (epa, cuidado com interpretações maldosas, lembre-se do corvo!), mas isso você tira de letra, literalmente.

    Prosseguindo a corrente “como conheci Artur”, iniciado por Dimas e seguido pelo André, bom, na verdade eu não conheço o Artur, eu conheço os textos do Artur. Os conheci fuçando os blogs indicados por Dimas no Estradar. Gostei e fiquei. Não é para menos.

    Se vc, Artur, diz que usa cinismo tudo bem, eu vou acreditar mas… o que eu identifico não é cinismo: é sagacidade, humor, ironia, inteligência. Tudo do bom e do melhor.

    Dimas eu conheço, então posso dizer: ele é um cínico. No bom sentido. E com as letras, o comparo a um trovador. Isso mesmo, um trovador, que emociona por “n” razões. Seus textos são arrasadores. Fazem com que eu me sinta uma “nhén nhém” (expressão mineira, que nem a pau revelo).

  4. josias de paula jr. 23 de novembro de 2007, às 10:18h

    E lá vai Perrusi… Grande texto. Por vício de ofício, fiz logo um paralelo sociológico: pombo, Gilberto Freyre; corvo, Sergio Buarque de Holanda.
    Mas a discussão ora é mais além, ora mais aquém do que isso…
    Excelente!

Nós que aqui estamos, por vós esperamos