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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Paixão de Cristo

Pintura: Vicent Van Gogh
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Calix Bento - Milton Nascimento (Folclore mineiro adaptado por Tavinho Moura)

Dimas Lins

Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais velho, é que independente das religiões era estranho tornar-se partidário de algo sem ao menos ter uma idéia precisa daquilo em que estava tomando parte. Ia além. Considerava sem sentido tomar partido de qualquer coisa, enquanto fosse incapaz de articular idéias, como era o caso de qualquer recém-nascido. Dizia isso, embora compreendesse perfeitamente o desejo dos pais de querer repassar aos filhos seus usos, costumes e crenças.

Dessa forma, viveu a primeira fase da infância num ambiente católico. Morava próximo à Basílica da Penha no tradicional bairro de São José em Recife e ia lá, vez por outra, em alguma ocasião especial. Como a maioria das famílias católicas, a sua não seguia com rigor os dogmas da igreja. Havia certa frouxidão na relação entre sua família e o Vaticano e, para ele, isso estava de bom tamanho, pois significava um pouco mais de liberdade, ainda que comedida.

Na verdade, gostava mesmo de ir à igreja na semana santa, por causa da encenação da Paixão de Cristo, onde crianças indomáveis eram protagonistas da famosa peça sacra. A bem da verdade, o melhor papel que conseguiu em todos aqueles anos foi o de soldado romano Nº 8, um mero figurante sem direito a proferir uma palavra sequer, por mais monossilábica que fosse. E mesmo assim, nunca atuou na peça em qualquer apresentação pública. Ensaiava, ensaiava e ensaiava, mas ficava apenas no ensaio. Não era tão-somente um péssimo ator, era também irrequieto demais. Numa peça, há que se ter paciência para respeitar as marcações e este não era exatamente o seu caso. E esta inquietação não era apenas sua, mas também de seu melhor amigo, outro ator-mirim, cujo talento não foi reconhecido pelas freiras que produziam o espetáculo.

Acostumaram-se muito mais a tumultuar a montagem a portas fechadas do que propriamente a atuar. Na busca por Jesus no monte das Oliveiras, por exemplo, os dois costumavam procurá-Lo embaixo das cadeiras, atrás das cortinas ou até mesmo dentro dos sapatos dos atores que ensaiavam descalços. Tudo isso, obviamente, desagradava tremendamente às freiras. Ficaram conhecidos e marcados por isso e, um dia, a fama cobrou seu preço.

Certa vez, os dois amigos foram desqualificados como atores e rebaixados a assistentes de palco. De representar o soldado romano Nº 8, ele passou a cuidar dos efeitos especiais. Na verdade, as únicas participações dos dois na peça se restringiriam à cena da morte de Jesus onde, munidos de interruptores e lâminas de metal, simulariam os relâmpagos e trovões.

Do começo ao fim, em todas as sessões preparatórias à estréia para o público, agiram de acordo com a marcação do texto. Era só Jesus pronunciar a citação “Pai, perdoai! Eles não sabem o que fazem!” e as luzes acendiam e apagavam freneticamente, enquanto as lâminas de metal eram agitadas. Tudo ocorria perfeitamente, de acordo com o previsto.

Depois de tantos ensaios, o cansaço e a monotonia de esperar o tempo certo da marcação dos efeitos especiais finalmente chegaram. E vieram exatamente na estréia da Paixão de Cristo. O local improvisado para a reprodução dos relâmpagos e trovões assemelhava-se a um sótão acima e ao redor do palco e seu acesso se dava por uma escada de madeira. No dia do espetáculo, os dois recolheram a escada e, antes que alguém desse conta, já estavam isolados e inacessíveis.

Todos a postos, Jesus entrou triunfante em Jerusalém, montado numa bicicleta adornada com cabeça e rabo de jumento, para mostrar publicamente que, com seu reinado, chegava o tempo da simplicidade. Nesse momento, viu-se um discreto relâmpago. Um erro de marcação, talvez.

Um pouco mais adiante, Jesus pregava na cidade, enquanto no céu surgiam relâmpagos, agora um pouco mais desinibidos, desta vez acompanhados de um tímido trovão. A platéia não se deu conta, mas os atores-mirins já estranhavam os efeitos fora do tempo.

Entretanto, os efeitos especiais deixaram a timidez de lado mesmo quando Jesus indignou-se com a presença dos vendedores no templo. Relâmpagos surgidos no céu e trovões ensurdecedores davam dramaticidade à cena. Enquanto Jesus tropeçava nos ambulantes e os apóstolos colocavam as mãos nos ouvidos, embaixo do sótão percebia-se o movimento das freiras numa tentativa silenciosa de mantê-los sob controle. Era inútil.

A partir dali, cada uma das unidades de ação da peça era acompanhada de efeitos especiais. À medida que Jesus curava os enfermos, por exemplo, viam-se e ouviam-se relâmpagos e trovões seguidos de gritos de “viva!”, “aleluia!” ou “glória a Deus!” vindos do sótão. Também foi em meio a uma tempestade que aconteceu a última ceia. Conta-se que o Messias, já impaciente com o barulho, mandou os apóstolos calarem a boca antes de repartir o pão. E na cena do beijo em que Judas traiu Jesus, houve certo constrangimento no ar quando os dois gritaram lá de cima “safado!” e “morte ao traidor!”.

A platéia dividida reagia com indignação e gargalhadas, enquanto relâmpagos e trovões acompanhavam o suicídio de Judas e toda a via crucis do Mestre. Por coincidência, a única cena sem tempestade foi justamente a da morte de Jesus.

Quando finalmente terminou a peça, Jesus e seus apóstolos, além dos soldados romanos, os aguardavam furiosos embaixo do sótão. Sob os olhares de reprovação das freiras, eles, com ar de inocência, elogiaram a atuação de todo o elenco e ainda tiveram a cara de pau de perguntar o horário da próxima sessão.

7 Comentários para “Paixão de Cristo”

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    Parece uma encenação da Paixão de Cristo feita em Beberibe. Os efeitos fora de hora estão parecendo nossa expectativa inicial do Santa subir para a primeira. Soltamos bombas muito antes da hora. E agora…

    Putz, não consigo esquecer as coisas que aconteceram por aquelas bandas. João já me mandou várias piadinhas. Terceirona é de lascar. Ainda não consegui armar um contra-golpe para as piadinhas - sim, mesmo tão longe as escuto. Acho que não há contra-golpe possível.

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    Recado:

    Arnaldo não está por aqui, está em Sampa. Crédulo, coitado, crê que o carro enfim, após 8 meses, irá sair da oficina lá de Sampa. Aliás, Dona Renê está com ele, junto com Doutora Suzana. E eu aqui com o meu e com o seu afilhados.
    E sim, ele continua de licença médica. O acidente foi absolutamente ridículo (vc soube?), mas com consequência séria: uma fratura no osso da perna e outra fratura num dos ossos do pé. E a cirurgia parece que foi mal-feita, deixará sequela. Bom, são quatro meses sem trabalhar. Mas a folga termina no final deste mês.

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    Dimas … (rsrsrsrsrs)

    Muito bom o texto … engraçado que aprendemos a amar a Deus e pouco procuramos saber sobre ele !!!!!

    Ana Cláudia,

    Pior que ter soltados fogos antes do fim da Segundona foi terem falado que “…Somos a potência da Série B…”

    Abraços a Todos

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    essa me fez lembra meu tempo em que era católico por conveniência ou falta de opção, ou simplismente por que não sabia o que era e seguia as ordens de minha mãe. Tinhámos que ir a igreja aos domingos e muitas vezes escondiamos a roupa domingueira para não termos que ir. Lembro das encenações também, tua crônica me fez relembrar muitas coisas…
    parabéns e um grande abraço,

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    Alô Dimas,

    O soldado romano nr. 8 da Paixão de Cristo

    bem que poderia ter figurado no “A VIDA DE BRYAN”

    Abraço

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    Excelente texto! Ri muito. Divertidíssimo. Ele acerta no que narra - uma história simples e engraçada e, sobretudo, no tempo da narrativa. Ela cresce aos poucos, vai ganhando ritmo e graça. Até chegar no impagável, “Safado” e “Morte ao traídor”…
    Belíssima crônica.

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    Dimas: Morri de rir, me lembrei dos meus tempos de criança, eu era católica por força familiar e acontecia cada coisa engraçada. Me diverti. Abraços

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!