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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

O filho que eu quero ter

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O filho que eu quero ter - Chico Buarque (Toquinho/Vinícius de Moraes)

Dimas Lins

É comum a gente sonhar, eu sei, mas esta semana sonhei acordado. Era um domingo à tarde e eu estava em frente ao computador, escrevendo alguma coisa para exercitar os dedos, a mente e o coração. Foi quando minha esposa chegou de mansinho e parou ao meu lado sem dizer nada. No rosto um sorriso bonito e nas mãos um teste de gravidez.

No instante em que vi o resultado, percebi uma leve desaceleração do mundo. Senti uma redução gradual dos movimentos de rotação da terra até chegar a um ponto de inércia, uma parada total. Não houve sobressaltados, apenas a perda da sensação da gravidade. Nossos corpos se elevaram no ar e flutuamos entre beijos e abraços, enquanto na cabeça distendia-se uma profusão de imagens, cores e sons de uma criança.

Suspensos no ar, nos deslocamos pelas ruas e, com o mundo parado, tivemos tempo para prestar atenção nas coisas. Vi um colorido diferente na cidade e uma leveza incomum nas pessoas. Senti um desejo incontrolável de abraçar quem vinha pela frente, de afagar um cão sem dono e de declarar o meu amor à humanidade. A cada passo no ar, uma dança, um carinho e um sorriso. Abraçava os desconhecidos como velhos amigos costumam fazer e chorava lágrimas de felicidade.

No rio Capibaribe, a vida estava desperta. Os peixes imitavam golfinhos e saltavam a nossa frente, enquanto caranguejos acenavam com as suas patas. No céu, esquadrilhas de andorinhas faziam acrobacias mágicas e araras vermelhas se misturavam à imensidão azul.

No passeio público, carreatas nos saudavam e sindicatos faziam manifestação de apoio à gestação de uma nova vida. Nas calçadas, as pessoas nos felicitavam e agitavam bandeirinhas estampadas com roupinhas de bebê. Milhares de crianças entoavam cantigas de ninar, enquanto poetas declamavam doces poesias.

No teatro, uma peça infantil foi montada em nossa homenagem e na TV a programação era interrompida a cada instante para dar a boa nova. Cantores e músicos se reuniram na praça e executaram uma audição pública para celebrar o amor.

Por toda a cidade, os bandidos, um a um, abandonavam o crime e plantavam árvores junto com policiais. Nas escolas, professores e alunos discutiam entusiasmados sobre a origem da vida e, nos hospitais, médicos e pacientes comemoravam a descoberta da cura para todos os males.

Nas estradas, os carros agora eram berços e os motoristas, crianças. Nos aeroportos, cegonhas aterrissavam e decolavam levando e trazendo recém-nascidos.

Nas casas, os muros eram derrubados pelas famílias e os vizinhos antecipavam o natal. Nos estádios, as torcidas rivais em harmonia entoavam acalantos.

Já de volta ao lar, encontramos uma criança engatinhando pela casa e nos sentamos ao seu lado para brincar. Em seu sorriso havia o nosso sorriso e em sua paz, a nossa paz. Quando enfim nela bateu o cansaço, cantamos uma cantiga de ninar e a pusemos a dormir.

Ao me debruçar naquele berço imaginário, acalentei o filho que eu quero ter e, baixinho, cantei os versos da canção:

Dorme, meu pequeninho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

Para Lena, com amor.

14 Comentários

  1. André Tricolor Virtual 25 de novembro de 2007, às 12:24h

    Dimas,

    A minha filhinha Ester hoje com 3 aninhos chegou ao mundo PRA SALVAR A MINHA VIDA !!!!!

    Que belo texto meu amigo

    Abraços !!!!

  2. Alice 25 de novembro de 2007, às 19:55h

    Dimas/Lena,
    chorei de tanta beleza que vi. Lindo Lindo Lindo!

  3. Ana Cláudia 26 de novembro de 2007, às 7:16h

    Que venha esse filho tão desejado!

    Essa música de Toquinho é de arrebentar corações.

  4. josias de paula jr. 26 de novembro de 2007, às 10:44h

    Daqui há algumas décadas, ele te há de embalar…. Bonito texto e parabéns!

  5. ducaldo 26 de novembro de 2007, às 20:12h

    Que beleza, Dimas! Um verdadeiro bálsamo para aplacar as dores da minha combalida coluna e do meu coração tricolor.

    Parabéns a você e Lena.

  6. maria mattoso 26 de novembro de 2007, às 20:15h

    Puxa vida! Que sensibilidade. Lindo! E a música arrebenta o coração de qualquer um. Adorei!

  7. Leonardo Jr. 27 de novembro de 2007, às 14:28h

    Dimas,

    Parabéns e Parabéns!

  8. libarx 28 de novembro de 2007, às 8:09h

    velho Dimas,

    O Filho que eu quero ter

    também pode ser o Neto que eu quero ter

    Parabéns pra você e pra Lena.

    Abraço,

    Libarx

  9. joao vinicius 28 de novembro de 2007, às 18:54h

    simplesmente sensacional! mt bom mesmo.
    “o filho que quero ter” seria também o primo que quero ter, mas, vai ser mesmo o “sobrinho” que terei.
    grande abraço e meus parabens, bem atrasadinho por sinal!
    uma beijo em tia lena.

  10. sirley 29 de novembro de 2007, às 13:46h

    Dimas,
    estive atribulado com afazeres que me sercam, com problemas que me anuviam, por isso demorei a visitar o blog… li os ultimos textos que escreveste, porém, esse em especial me tocou muito possitivamente… lindo… tenho q certeza que esse será o primeiro de muitos sobre o filho que vocs terão… também acalantei a filha que teria antes de tela físicamente em meus braços.
    Um grande abraço e muitas felicidades… noites mal dormidas, porém, prazerosas… nos pequenos gestos dessa criancinha que está chegando, com certeza terás grandes emoções… muitas lágrimas e muitos sorrisos… “Em seu sorriso havia o nosso sorriso e em sua paz, a nossa paz.”

  11. Ana Cláudia 3 de dezembro de 2007, às 14:25h

    Eu desisto, Dimas.
    Jogo a toalha.

    Uma vez li uma sequência de contos seus sobre separação e fiquei preocupada,´até que Arnaldo me tranquilizou dizendo que tinha falado com vc e eram só contos.
    Quando li esse, pensei “será?”. Não, imagina, é o mesmo caso da outra vez.
    Mas era; aliás, é.
    Cara, meus parabéns mesmo. Sei o quanto vocês o desejavam, sei o quanto ele será amado, sei como todos vocês merecem.

    Estou muito feliz por vocês!
    Grande beijo!

  12. Fábio Montarroyos 3 de dezembro de 2007, às 20:23h

    Caro amigo,

    Por motivo de viagem, só hoje consegui retornar ao blog. É como eu falei: filho é um presente divino. A canção é simplismente tão pura e tão bela quanto o sorriso de uma criança. Parabéns pelo herdeiro.

  13. Cláudio 3 de dezembro de 2007, às 23:39h

    Esse é um momento muito especial mesmo, não cabe nós!
    Transborda para o mundo. Muitas felicidades para o casal.

  14. Kalina 27 de abril de 2008, às 20:22h

    Fico pensando nas maravilhas que um filho é capaz de despertar nos corações de seus pais. Esse texto é um exemplo. Gosto desse caráter mágico, do tempo parando para anunciar uma nova vida, das sutilezas e da redenção até mesmo daqueles que cometeram delitos e abrem mão desta vida pregressa para observar a chegada da vida. Não parece uma criança, parece a vida chegando e convidando a todos para terem um pouco mais de esperança. É nas cenas repletas de hipérboles, que passamos a esperar a chegada deste ser juntamente com vocês. Parabéns pelo texto; pelas emoções despertadas em nós, leitores do blog; pela alegria de vocês ao receberem essa dádiva de serem pai e mãe, marido e mulher, amigo e amiga, irmanados mais ainda com a chegada dessa criança.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos