Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Quatro guerras em canção

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Passaredo - Chico Buarque (Francis Hime/Chico Buarque)

Dimas Lins

Quando lancei o Estradar, em 19 de agosto deste ano, tinha a perspectiva de criar um blog pessoal. Escreveria sobre pensamentos e sentimentos intimistas, mas também sobre personagens que fogem ao meu universo particular. O Estradar, enfim, seria uma forma de descobrir, aprender e exercitar o meu estilo literário.

Ao longo do tempo, percebi que o Estradar tornou-se daqueles personagens que ganham vida própria, apesar das escolhas iniciais do autor, e encontram o caminho a seguir por seus méritos. E foi naturalmente que passei a receber convidados, cujas palavras aconchegantes tornaram-se as minhas próprias palavras. Elas mantêm a agradável sensação de uma conversa descontraída entre amigos e estimulam a reflexão.

Minha convidada de hoje é Maria Mattoso. Ela é atriz, escritora de peças de teatro, contos e poesias. Maria tirou primeiro lugar no Concurso de Teatro Universitário em 1975 pelo MEC/FUNARTE/Serviço Nacional de Teatro, com a peça Dorotéia Lourenço, uma tragédia nordestina em três atos. A peça foi publicada num volume chamado Coleção Prêmios - Teatro Universitário - 1975 e foi encenada pelo Teatro Espontâneo do Recife. Em breve, a atriz estará retornando aos palcos. Como poetisa, Maria publicou um livro de poesias chamado Lamento de Mar e Brisa pela Editora Livros do Mundo Inteiro.

Atualmente, além de escritora, ela é Terapeuta Holística. E talvez daí venha a sua conexão com a natureza e o gosto por trilhas ecológicas.

Em seu primeiro poema no Estradar, Maria fala com rara sensibilidade do meio-ambiente, pois antes de qualquer coisa - e apesar de tudo - ela ainda acredita no ser humano.

Maria, seja bem-vinda a nossa conversa entre amigos.


Quatro Guerras em Canção

Maria Mattoso


“…queimou-se a terça parte das árvores e toda a erva verde foi queimada.” (Ap.7:8)

I

Já não há jasmins
Pássaros negros
Ou pavões azuis.

Por que os pátios
Continuam vazios?

Capins sem verde
Rosas sem carmim
Adornam os campos que foram.

II

Pássaros sedentos
Ensaiando vôos
Em meio a ruínas
E pastos devastados.
Astros opacos adornam
Um céu de chumbo.

III

Campos estéreis,
Lagos esmaecidos.
Pássaros arquejando
Em lodaçais.
Não há cigarras,
Libélulas douradas,
Garças níveas,
Lebres selvagens…

Só flores esmaecidas
Compõem jardins.

IV

No lago dos peixes de prata
Rouxinóis cantavam
Sob uma brisa leve.
Havia papoulas rosadas,
Gansos bravios e
Gaviões perseguindo lebres.

Peixes asfixiados e
Rouxinóis mudos se debatem.
Os gansos bravios e
Os gaviões que perseguiam lebres
Adornam salas de museus.
Papoulas emurchecidas
Pendem dos ramos
Outrora com vida.

10 Comentários

  1. André Tricolor Virtual 28 de novembro de 2007, às 10:38h

    … Um dia estava tão triste, me pediram pra abraçar uma árvore, a primeira que encontrasse no caminho … Foi aí que vi a IMPORTÂNCIA de termos uma RELAÇÃO DE AMOR pela natureza. Minha mainha tem um jardim bonito em casa, ela cuida com tanto carinho, como se fosse mais um filho dela, dos 7 que ela teve …

    Parabéns “Maria Mattoso” e um grande abraço ao meu amigo “Dimas” :)

  2. luiz 28 de novembro de 2007, às 21:08h

    Parabéns Maria Mattoso pelo belissimo poema, infelizmente a nossa terra está sendo destruida.

  3. Graça Oliveira 29 de novembro de 2007, às 6:52h

    Mattoso,
    Como sempre, muito inspirada!
    Que tal fazeres agora uma ode à vida?
    Meu abraço,
    Graça

  4. Pedro Regina 29 de novembro de 2007, às 16:08h

    Só mesmo você para escrever com tanta sensibilidade.
    Pedro e Cecy

  5. vera 29 de novembro de 2007, às 20:31h

    Maria
    É um belo poema, mas muito triste.
    É como o retrato de um momento.
    Beijos
    Vera

  6. Liana 29 de novembro de 2007, às 22:11h

    Maria, é tudo muito intenso, sofrido, mas uma beleza de poesia!

  7. Gisela Fischer 30 de novembro de 2007, às 14:13h

    Tia Maria,

    Como fica fácil, neste poema, sentir a sua sensibilidade.
    Nem tudo que é triste, é feio. Apesar de ser um poema triste, fala sobre nossa realidade. Mas o lado bom dele, é que os lindos jardins de outrora, podem voltar a florir, depende de nós mesmos.

    um beijo grande.

    Gisela

  8. Ciça 3 de dezembro de 2007, às 11:44h

    Tia Maria,
    assim como indiscutível a beleza e a sobriedade do poema, indiscutível também é a tristeza/ preocupação que dele emana…
    Poemas como esse servem para “dar um gás”, afinal, como diz Khalil Gibran, “quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter”…Se nós humanos cavamos no coração da terra, podemos - nós mesmos - preenche-lo com a alegria da renovação!
    Parabéns pelas palavras!
    Um cheiro,
    Ciça

  9. ANNA 5 de dezembro de 2007, às 18:44h

    sempre leio caros amigos é uma luz de razão entre as alianaçoes que vem sendo os meios de comunicaçao impressa e assistida.

  10. Val 20 de dezembro de 2007, às 22:12h

    Mattoso, que sensibilidade.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos