Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 9 de novembro de 2007, às 0:00h

Novos estatutos do homem moderno

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Coração civil (Milton Nascimento)

Dimas Lins

Conheci Alice há muito tempo, por intermédio da minha esposa e, desde então, passei a admirar suas qualidades profissionais e suas virtudes pessoais. Dona de um senso de justiça apurado e de uma generosidade incomum nos dias atuais, Alice é daquelas pessoas que nos orgulhamos de conhecer e conviver.

Mas apesar de todo esse tempo de convívio, foi apenas há alguns meses que descobri sua inclinação para a poesia. Tímida, ela sempre recusou meu convite para publicá-las no Estradar. E, embora as poesias fiquem para outra oportunidade, finalmente consegui, a muito custo, que ela me enviasse um artigo, fruto da sua indignação relativa à postura do homem diante do homem.

E como justiça é uma palavra um pouco fora de moda, nada melhor do que trazê-la de volta ao nosso vocabulário num texto sensível e refinado.

Alice, que as suas palavras poéticas estejam sempre por aqui.


Alice Matias

Em um dia quase normal de trabalho numa emergência tranqüila desta cidade sou surpreendida por um paciente que, esmurrando a mesa, exigia e berrava para ser melhor atendido, já que possuía um carro da marca Honda. Não compreendendo sua solicitação (possuo um Mercerdes-Benz e não achava que merecia melhor atendimento) e pensando o que seria das outras pessoas que não têm um Honda como um argumento para serem melhor avaliadas por um profissional de saúde, lembrei dos “Estatutos do Homem” de Thiago de Mello. Talvez pudéssemos ajustá-los à idéia desta pessoa indignada com a suposta falta de ajuda profissional (na sua mente esquisita, é claro).

Os Novos Estatutos do Homem Moderno

Fica estabelecido, de forma perene e irrevogável, que a sensação de impotência diante da impunidade sempre prevalecerá.

Fica decretado que sempre haverá dor maior que a sua e por isso você estará sempre impedido de se lamuriar do seu infortúnio.

Fica estabelecido que o Homem, como animal que é, pode matar para comer, ou apenas para satisfazer seu desejo animal de matar por motivo torpe.

Fica decretado que o dinheiro pode comprar tudo, inclusive a felicidade, e que quanto mais dinheiro o Homem tiver, melhor Homem ele será.

Decreta-se que todo Homem será avaliado pelos bens que tem. Se nada tiver, não será digno de nada, de nenhum sentimento bom ou ruim e que, portanto, como Homem não existirá.

Fica estabelecido que quanto mais caro o seu carro, melhor você será tratado por todos os prestadores de serviço, inclusive pelos médicos, que lhe darão o antídoto especial da cura de todos os males incuráveis.

Fica decretado que se você tiver um carro velho você estará em maus lençóis e não terá direito ao melhor analgésico, permanecendo com sua dor até quando você não mais suportar. Se tiver sorte, sucumbirá.

Em caráter extraordinário, quem lhe salvaria a vida, desta lhe tirará, se você não dispuser de recursos financeiros para provar que por isso é uma pessoa melhor.

Finalmente, fica proibido o uso da palavra generosidade, bem como qualquer ato que possa lembrá-la, ainda que minimamente.

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O país da delicadeza perdida

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Acalanto (Chico Buarque)

Dimas Lins

Em Porto Alegre, desde o dia anterior, um homem velho está jogado numa maca no corredor de um hospital público e agoniza. Sem assistência médica, apesar da insistência dos parentes, ele morrerá em alguns minutos. Faltam leitos, médicos, medicamentos e solidariedade, embora sobrem justificativas injustificáveis por todos os lados.

No Rio de Janeiro, um jovem de classe média sobe o morro para conseguir mais drogas. Com seu dinheiro, traficantes comprarão novas armas e, entre elas, estará um fuzil AK-47 com capacidade para despejar 650 tiros por minuto. Dali a cinco dias, uma bala perdida disparada deste fuzil matará acidentalmente um jovem estudante morador do morro. Ele chegará em casa no momento em que policiais e bandidos trocarão tiros na favela.

Numa esquina de Recife, uma professora, em poucos instantes, receberá uma bala na cabeça durante um assalto. Ela estará aguardando a luz verde do semáforo e tentará arrancar a toda velocidade ao perceber que uma arma está sendo apontada para a janela do seu carro. O ladrão fugirá, em seguida, carregando consigo uns poucos trocados e um celular.

Em Brasília, políticos rasgam diariamente a constituição federal, e legislam em causa própria. Numa inversão de papéis, estes servidores públicos servem-se daqueles a quem juraram servir, para aumentar suas riquezas, prestígio e poder.

Em poucas horas, numa favela em Salvador, um homem espancará seu filho de menos de um ano de idade até a morte. O pai alcoólatra alegará, em sua defesa, a irritabilidade causada pelo choro do bebê. O choro da criança virá da fome.

Em Belo Horizonte, na volta de um feriado, um motorista em alguns minutos atropelará um pedestre que caminha no acostamento. Preso em flagrante, ele alegará que apenas tentava fugir do engarrafamento e ganhar alguns minutos na viagem. O homem morto, um simples camponês, deixará mulher e filhos.

Em São Paulo, uma empregada doméstica baterá contra a parede a cabeça de uma velha dona da casa, uma mulher sozinha presa a uma cadeira de rodas, e causará traumatismo craniano. Os filhos ficarão horrorizados e esquecerão que foram responsáveis por deixar a própria mãe aos cuidados de ninguém.

Em Maceió, amanhã neste mesmo horário, um adolescente será assassinado por um cidadão comum por haver molhado suas calças, enquanto passeava de bicicleta numa rua alagada da cidade.

Somos um país infecto, bacterializado e apodrecido. Corre em nossas veias um sangue contaminado de coisas vis. Valorizamos a individualidade, a covardia, o egoísmo, a corrupção e a violência. Em contraponto, desprezamos a boa vontade, o respeito à vida, a compaixão e o amor ao próximo.

Somos um país de acomodados, de homens e mulheres voltados com os olhos para o próprio umbigo. Assistimos indiferentes à fome estender a mão nas janelas dos nossos carros, à miséria se deitar embaixo das marquises nas noites frias e à desesperança invadir os corações dos desprovidos do necessário.

Escondemos o sol dos desassistidos, semeamos a pobreza, cultivamos o desespero e colhemos bestialidades. Fingimos compaixão, imaginamo-nos solidários, mas pregamos o abandono. Somos homens e mulheres vítimas e algozes da nossa própria brutalidade.

Faltam-nos a generosidade de desejar bom dia e o interesse sincero pelo outro, pois nos acostumamos ao “cada um por si”. Faltam-nos o desejo da felicidade alheia e o querer bem do outro, sem a expectativa da contrapartida.

Faltam-nos a sensatez, a civilidade, a caridade, o perdão e o sacrifício. Faltam-nos Justiça, Estado e Governo. Faltam-nos coragem, vontade e indignação. Faltam-nos compreensão, amizade, razoabilidade e ação. Faltam-nos ser homens e mulheres de verdade. Falta-nos vergonha. Falta-nos sensibilidade. Falta-nos desapego. Falta-nos serenidade. Falta-nos poesia. Falta-nos razão. Falta-nos educação. Falta-nos querer.

Faltam um gesto, um abraço, um aperto de mão e um sorriso. Faltam gratidão aos pais e respeito aos desiguais. Falta-nos tolerância. Falta-nos esperança. Falta-nos carinho e atenção. Falta-nos amar.

Há um desencanto em mim. Há também aflição e temor. Quero ter um filho e vê-lo acordar disposto. Quero levá-lo para brincar nas praças e nos parques da minha cidade, como eu fiz um dia. Quero vê-lo sorrindo, maravilhado com o mundo e encantado com as pessoas. Quero muito um filho, mas tenho medo de despertá-lo no país da delicadeza perdida.

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Direita, volver!

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Vote em mim - Rita Lee (Roberto de Carvalho/Rita Lee/Ezequiel Neves)

Dimas Lins

Politicamente, sempre esteve mais à esquerda. Ainda hoje mantém as suas convicções, apesar de se sentir um pouco órfão. Sumiram o respeito e a esperança que sentia por alguns políticos e pela forma de fazer política, mas seu pensamento filosófico pouco se alterou. E embora não seja mais assim, já enxergou a política de uma forma romântica.

Na sua visão apaixonada, de um lado estavam aqueles que defendiam os interesses gerais, do mais humilde, do mais pobre e dos que não tinham vez, nem voz. Do outro, os que utilizavam a máquina do Estado como um meio para atingir os fins pessoais mais recônditos e que exerciam o poder em nome do povo, mas por si e para si. De um lado, os que combateram a ditadura, lutaram pela liberdade e pelo direito à democracia. Do outro, os que usaram os governos para se locupletar e melhorar a sua vida e a vida dos seus. Em síntese, de um lado os mocinhos, do outro, os bandidos. Visão mais romântica, impossível.

Infelizmente, o tempo passou e, para ele, o romantismo político ficou no passado, na lembrança. Os mocinhos deixaram de ser mocinhos e os bandidos continuaram fazendo o que sempre fizeram. Foi-se o tempo em que ele olhava, por exemplo, o governo cubano com simpatia ou acreditava que, aqui pelas bandas do hemisfério sul, um novo mundo iria vingar. Cuba, por seus olhos, não passa de uma ditadura de esquerda e o hemisfério sul parece mesmo não ter jeito.

Embora nunca tenha sido filiado ao PT, ele nutria simpatia pelo partido e, em todas as eleições, votava em seus representantes. Nos comícios, saía de casa enrolado numa bandeira vermelha, acreditando mesmo que o Brasil poderia ser um país mais justo. Chegaram a botar preço no seu pendão, mas não vendeu por dinheiro nenhum. Deixou de ganhar um trocado na época. Uma pena.

Eram bons tempos aqueles. Tempos em que a esperança vencia o medo, apesar de o medo, de fato, meter medo. Embora ele agisse naqueles idos com muito fervor e romantismo político, teve um momento em que fraquejou. Traiu suas convicções políticas por dinheiro. Logo ele, um jovem orgulhoso que combatia humildemente o sistema, fora seduzido.

Aconteceu nas eleições gerais de 1986, quando Miguel Arraes, do PMDB, disputava com José Múcio, um pefelista, o governo do Estado de Pernambuco. Na ocasião, ele estava cursando a faculdade de Matemática e tinha orgulho das suas posições políticas. Nunca foi líder estudantil, mas em qualquer movimento ou passeata ele sempre estava lá. Sentia-se orgulhoso em sair às ruas para defender questões tão intangíveis quanto à democracia e à cidadania. Foi assim, desde o segundo grau.

1986 também foi um ano difícil do ponto de vista financeiro, pois seus bolsos serviam apenas para carregar a identidade, a carteira de estudante, alguns passes de ônibus e uns míseros trocados. Já era um rapaz e, naquela altura da vida, o dinheiro passava a ser mais necessário. Entre os jovens machos, os recursos financeiros, por mais curtos que fossem, eram um atrativo a mais para conquistar a fêmea. Liso, suas chances de transitar com alguma desenvoltura no universo feminino caiam consideravelmente. Não julgava mal as mulheres, que fique claro, mas com a grana que tinha, ou melhor, que não tinha, não dava nem mesmo para convidar uma garota para ir ao cinema. Coração de estudante, bolso de estudante.

Sem dinheiro, exercitava a inteligência para não ser um pária, um mancebo banido das castas estabelecidas. Sabia usar a cabeça e, como ninguém, beneficiar-se das próprias qualidades. Forçou-se também a deixar a timidez um pouco de lado e, com a ajuda da sua pouca erudição, tornou-se mais desinibido. Pragmático, transformou a si mesmo numa pessoa um pouco mais simpática, mais benquista e com mais amigos.

Mas ainda faltava a grana, aquelas notinhas que se desvalorizavam com a inflação numa velocidade alucinante lhe faziam uma falta tremenda. Era um socialista passando dificuldades num mundo capitalista.

E foi numa dessas circunstâncias, de absoluta falta de dinheiro, que recebeu o convite de um vizinho do bairro para trabalhar num dos comitês de campanha de José Múcio. O vizinho desconhecia seu convencimento a respeito da esquerda, por isso, o convite. Os rapazes da sua turma, ao menos os mais duros, toparam prontamente o trabalho ajustado. Do grupo de jovens pés-rapados, ele foi o único a rejeitar a oferta. O dinheiro não mudaria as suas convicções. Longe disso! Não aceitaria e ponto final. Ao menos ele pensava que era um ponto, mas o tempo mostrou-lhe que, no máximo, seria uma vírgula. Tentou ainda procurar o comitê de Arraes na vizinhança, mas não havia nenhum. E mesmo se houvesse, certamente não haveria pessoal contratado, apenas voluntários. Na época, a esquerda não tinha dinheiro para esses luxos.

Infelizmente, ideologia não enche barriga e os primeiros salários da rapaziada acabaram com sua auto-estima. Pária na faculdade, pária no bairro em que morava. Por isso, na segunda vez que recebeu o convite, rabo entre as pernas, não recusou. Estava feito! Transformou-se, aos seus próprios olhos, naquilo que mais repelia: um traidor! O que Miguel Arraes pensaria dele?! Certamente nada, já que Arraes não fazia a menor idéia de quem ele era, mas seus irmãos e amigos mais chegados ficariam desapontados. Ele próprio indubitavelmente ficaria.

Contrariado, entrou para o comitê. Ele mesmo era responsável por sua própria contrariedade. E, envergonhado, não havia o que fazer senão esconder da direita que era de esquerda e da esquerda que ele estava trabalhando para a direita. Restava persistir em manter-se incógnito pelos locais onde o comitê iria atuar.

A cada comício, carreata ou passeata seu constrangimento aumentava. Tentava se disfarçar o quanto podia, para não ser reconhecido. Algumas situações chegaram a ser patéticas. Numa passeata, certa vez, passou em desfile por um local e encontrou um amigo da faculdade. Desesperado, acabou completamente enrolado na bandeira do candidato do PFL arrancada providencialmente de um militante ao seu lado. Não foi notado, mas suou frio. Sentiu-se desconfortável. Para ele, fazer campanha para um candidato de direita significava a mesma coisa que trocar de time de futebol.

Foi em meio a este dilema que resolveu, por conta própria, fazer uma contra-ofensiva. Ao invés de abandonar o comitê, dado que continuaria sem grana, passou a fazer campanha para Arraes utilizando a estrutura eleitoral do candidato da direita. Saiu então de um dilema político para entrar num dilema ético. Mesmo assim seguiu em frente, convicto que estava, diante das circunstâncias, tomando a melhor resolução.

No começo, tentava agir discretamente. Distribuía os panfletos do candidato do PFL e dizia aos eleitores que o outro era melhor. Que um defendia as causas populares e sociais, enquanto o outro vinha de um partido que deu suporte à ditadura militar e continuaria agindo em benefício das mesmas elites.

Um dia, foi pego em flagrante delito por um dos militantes. Era seu amigo de bairro. Foi salvo pelo prazer da rebeldia típica dos jovens. Sua missão, para o outro, não passava de uma travessura e, por isso mesmo, excitante para um jovem de no máximo vinte anos. A idéia tomou corpo e logo ele tinha sob o seu comando um grupo de quase dez pessoas fazendo campanha para Arraes, dentro do comitê de Múcio. Uns por ideologia, outros por gozação.

A rebeldia virou anarquia. Passaram a agir com tanta naturalidade que despejavam toneladas de santinhos, de uma só vez, dentro dos carros, aos gritos de “vote em Múcio para ver a merda que vai dar, filho da puta!”.

Com tudo tão escancarado, acabaram descobertos. Contudo, pela ingenuidade dos seus poucos anos de vida, considerou que já havia feito um estrago na campanha do candidato do PFL e sua missão estava cumprida. Assim, chegou ao fim a sua incursão pela direita na política brasileira. Voltou à velha situação financeira, mas se considerou um herói da resistência. Quando Arraes ganhou a eleição naquele ano, orgulhoso, achou-se também responsável pela vitória eleitoral.

Hoje, já mais velho, anda afastado da política. Abandonou a bandeira vermelha, não participa mais de campanhas eleitorais, nem é mais simpatizante de nenhum partido. Considera todos farinha do mesmo saco. Costuma, às vezes, lê as notícias nos jornais, imaginando como tudo poderia ser diferente. Quanta coisa foi desperdiçada e quanto sonho foi jogado fora. Perdeu as esperanças e acredita que o hemisfério sul continua o mesmo mais do que nunca.

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