Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 27 de dezembro de 2007, às 16:10h

O tempo e o vento - Parte I

Dimas Lins

Estava com vontade de fazer uma retrospectiva do Estradar em 2007. Seria meia retrospectiva, digamos assim, já que o blog nasceu no segundo semestre e, portanto, só havia metade das coisas para contar do ano de sua criação.

A forma que encontrei para materializar esta retrospectiva foi através de um vídeo caseiro, criado por Corações Perfeitos, minha produtora imaginária. O resultado foi o filme O tempo e o vento, uma retrospectiva de 2007. O agrupamento dos textos foi elaborado de acordo com as categorias em que as crônicas e contos foram publicados aqui no blog.

Por limitação do YouTube, onde hospedo os vídeos que produzo, cada filme só pode ter, no máximo, dez minutos de duração. Por isso, tive que dividir o longa metragem - calma, não me tornei megalomaníaco, é apenas uma brincadeira - em dois ou três curtas. Ainda não sei a quantidade de vídeos, pois não terminei de produzi-los.

Apesar do trabalho e do cansaço típico do fim de ano, fiquei feliz em recordar nossa caminhada até aqui. Espero que vocês também gostem.

Um abraço a todos,

Dimas

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Natal na favela

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Papai Noel de camiseta (Celso Viáfora)

Dimas Lins

O tempo se movimentava no momento preciso em que o sol se interpõe entre a manhã e a tarde. Era meio-dia. Mesmo assim a festa de natal já havia começado. Por toda a favela, enfeites decoravam as vias públicas e as casas. Algumas crianças corriam de um lado para o outro, enquanto outras jogavam futebol pelas ruas estreitas.

O mundo cabia na favela e as pessoas chegavam mansamente de todos os lados. Surgiam de lugar nenhum meninos de rua, sem-tetos, sem-amores, amantes e amados, solitários, além dos vizinhos e amigos. Alguém chegou com um violão, outro com um tamborim e mais outro com um pandeiro.

Famílias inteiras se sentavam em volta da mesa e se confraternizavam. No almoço, uma feijoada preparada por várias mãos era servida aos presentes junto com cervejas, cachaças e refrigerantes, que saltavam das geladeiras espalhadas pela vizinhança e se assentavam nos copos e nas gargantas.

Quando enfim chegou a noite e as luzes da favela se acenderam, o mundo parecia mais iluminado. Para satisfação geral, Papai Noel também estava lá e chegou de cara limpa. Não havia barba branca, gorro ou roupa vermelha, nem botas pretas. Apenas chinelo, bermuda e camiseta. De dentro de sua Kombi saltaram bolas, bonecas, lençóis, camisas, toalhas e até mesmo um berço novinho em folha. A festa varou a madrugada, pois não tinha hora para acabar.

Havia muita coisa a celebrar. Um nascimento, sorrisos sinceros, abraços fraternos, amigos verdadeiros e o prazer de querer bem. Para quem mantém o coração aquecido, a felicidade se faz com poucas coisas. Às vezes, basta um tambor bater.

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Conversando na mesa de bar

Pintura: Vicent Van Gogh
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Conversando no bar - Elis Regina (Milton Nascimento/Fernando Brant)

Dimas Lins

Crônica inverossímil de uma conversa em mesa de bar

Estávamos às voltas com uma celebração, mas àquela altura havia apenas resquícios de uma lembrança remotamente depositada entre os neurônios do hipocampo (segundo Houaiss, aquela estrutura curva existente na parte medial do soalho do corno inferior do ventrículo lateral cerebral acusada sem provas de ser a responsável pelo armazenamento da memória).

E não importava. O caráter essencial e determinante do encontro orbitava em torno de si próprio. Nenhum motivo especial, nenhuma razão particular. Bastavam apenas duas condições para justificar a convergência de interesses: boa conversa e cerveja no copo. Existem certamente estudos científicos baseados em pesquisas realizadas com alcoólatras inveterados que apontam que apenas a segunda condição é necessária. Há controvérsias quanto à questão. Assim, defender uma tese apontando para qualquer das direções só fará mesmo sentido numa mesa de bar onde, é claro, tudo tem cabimento.

Mas voltando ao bar, já havia se passado algumas horas desde o início das nossas atividades etílicas e, exatamente por isso, a conversa entrava em sua fase mais enroscada e de difícil compreensão. Ela passava a pertencer a um universo nebuloso onde cada palavra só encontra sentido graças à alteração química na corrente sanguínea. Nessas ocasiões, o ar torna-se rarefeito, os lábios ressecam, a bexiga pede penico, o fígado, outrora resistente, implora por socorro, a língua perde a coordenação motora e atropela as palavras, os olhos sofrem um ataque de estrabismo, o estômago é acometido por uma súbita inflamação na mucosa e o nível mental regride a pelo menos um ponto abaixo do tolerável.

Em minha teoria, baseada em dado científico nenhum, as maiores discussões filosóficas devem ter ocorrido em uma mesa de bar. Como contraponto, as maiores bobagens provavelmente também foram ditas por lá.

- Você anda escrevendo umas coisas legais, embora sejam bem tristes.

- É que um psiquiatra amigo meu disse que tenho a alma melancólica.

- Qual psiquiatra?

- Artur.

- Artur?!

-É.

- Mas, Dimas… Ele disse isso pra mim também!

- Verdade, Artur?!

- Pode ser.

- Já vi que você diz isso pra todos.

- Coitados dos pacientes. Seja qual for a patologia, receberão o mesmo diagnóstico.

- Bobagem, Josias. Vocês não são meus pacientes. Afinal, não saio com eles para beber…

(Pausa para um gole de cerveja).

- …Exceto se pagarem a conta ou levarem a bebida para o consultório.

- É justo.

- De acordo.

- Então vamos organizar assim, eu tenho a alma melancólica e você, o coração sentimental. Que tal, Dimas?

- Melhor ouvir o psiquiatra. E aí, Artur?

- Pode ser.

- Pode ser ou é?!

- Pode ser que seja.

- Mudando de assunto, eu acho que de nós três você é quem escreve melhor.

- Deixa disso.

- Falo sério! Cada um tem o seu próprio estilo, mas você tem algo mais. É ou não é, Josias?

- É. Às vezes, você dá umas rajadas no texto que são fantásticas.

- Meus caros, suas críticas literárias não me servem. Dimas, por exemplo, quando ama alguém não enxerga os defeitos, só as virtudes.

- Mas eu não amo você.

- Que seja. Além do mais, aprendi com o meu pai a não dar importância aos elogios, pois eles levam à vaidade e “a vaidade é o prato dos parvos”, já dizia Jonathan Swift.

- Mas ele também dizia que os sábios também condescendem em comer desse prato muitas vezes.

- Apoiado, Josias! Aproveito a deixa e, além de retirar o elogio, ainda vou radicalizar. Você é uma usina de cinismo!

- Usina de cinismo é o cacete!

- Ué, pelo que eu entendi, você havia aprendido com seu pai a lhe dar melhor com essas coisas.

- É, mas aprendi com minha mãe a não levar desaforo pra casa.

- Agora, eu tenho mesmo é inveja de Josias. O cara escreve cada poema pra se lascar! Eu mesmo não sei fazer poema. Aliás, tenho a maior dificuldade em diferenciar poema de poesia, quanto mais escrever. Falar nisso, quanto tempo você leva para fazer um?

- Rapaz, depende. Às vezes faço em cinco minutos, mas já fiz um poema em três anos.

- Três anos?!

- É.

- É por isso que não dá para viver de literatura neste país.

- Você pode não fazer poema, mas suas crônicas sobre o cotidiano são muito boas, Dimas.

- Mas, Josias, eu não escrevo sobre o cotidiano.

- Como não?! Você só escreve sobre o cotidiano.

- Eu escrevo ficção.

- Ficção? Você já escreveu alguma vez sobre invasão alienígena? Quem sabe sobre uns vermes assassinos ou alguma viagem ao centro da terra?

- Mas tem uma crônica que eu falo em disco voador.

- Muito pouco. Além do mais, o disco voador é só a imaginação coletiva de alguns personagens. Você escreve mesmo é sobre o cotidiano.

- Meu Deus, não me reconheço mais! Sempre pensei que escrevia sobre ficção!

- Para ser escritor de ficção você precisa ousar mais, não é Artur?

- “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente; não ousar é perder-se”, já dizia Kierkegaard.

- Então eu estou num momento bastante ousado, pois já não tenho equilíbrio nenhum.

- Eu acho a obra de Kierkegaard de difícil interpretação.

- Eu acho mesmo é o nome de difícil pronúncia. Nem ouso dizê-lo, ainda mais nestas condições.

- Agora numa coisa vocês concordam. Ana é a musa dos blogues literários.

- Que Ana?

- Do Ninho dA’Ninha.

- Ah, Cláudia!

- Que intimidade é essa com a minha musa?

- Sou íntimo, meu chapa! Morra de inveja!

- Faltou ela no bar.

- Faltou.

- Tá faltando também cerveja.

- Garçon, mais uma!


Artur Perrusi é psiquiatra e editor do Blog dos Perrusi, enquanto Josias de Paula Jr. é sociólogo e editor do blog Inscritos em Pedra. Além dos blogues pessoais, os três personagens desta crônica também escrevem para o Torcedor Coral. Esta é uma obra de ficção, mas pode não ser, já que descobri que só escrevo sobre o cotidiano.

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O menino e a flor

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Se meu jardim der flor - Boca Livre e MPB4 (Zé Renato/Xico Chaves)

Maria Mattoso

Um conto de fadas para adulto


Era uma vez uma flor selvagem, nascida e crescida nas montanhas. Certo dia, um menino da cidade viu a flor e apaixonou-se por ela, a flor por sua vez também apaixonou-se pelo menino. Foi amor à primeira vista. O menino falou:

- Minha flor, eu te amo. E a flor respondeu:

- Eu também te amo, meu menino.

- Minha flor, vem morar comigo na cidade? Perguntou o menino. E flor disse:

- Não posso. longe das montanhas eu morro. E o menino insistiu:

- E te amo muito. Vem comigo  cuidarei muito bem de você.

E a flor concordou e foi morar no belo apartamento do menino.

Ele a colocou num lindo vaso de cerâmica (aliás caríssimo), terra da melhor qualidade, adubos importados e só regava a flor com água mineral francesa. Todos os dias eles conversavam horas a fio. Mas, apesar de todos os cuidados e dedicação, estranhamente a flor começou a definhar. Um dia, o menino perguntou a flor:

- Minha flor, o que está acontecendo? E a flor respondeu:

- Eu não posso viver longe das montanhas. Preciso de ar fresco, ventos fortes, chuva e de sol. Longe das montanhas, eu morro. Vem comigo, meu menino.

E o menino como amava muito a sua flor, foi com ela para as montanhas. E a flor cuidava muito bem do menino. Mas estranhamente ele começou a definhar. Um dia a flor perguntou-lhe:

- Meu menino, o que está acontecendo? E ele respondeu:

- Longe da cidade eu morro.

E como eles se amavam muito, cada um seguiu o seu caminho. Mas apesar de separados eles foram muito felizes.

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O país do adeus

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Pra não dizer que eu não falei das flores (Geraldo Vandré)

Dimas Lins


Baseado nos manuscritos inacabados do meu romance O País do Adeus.


- Unidade Um para Hospital. Responda…
- Hospital na escuta.
- Dois pacientes a caminho.
- Qual o tempo de chegada, Unidade Um?
- Aproximadamente vinte minutos. Necessito do centro cirúrgico para intervenção imediata.
- Entendido.
- Câmbio, desligo.

Estava naquele estágio entre o sono e a consciência, onde o sonho se mistura à realidade. Por isso, não era capaz de distinguir uma coisa de outra. No conjunto de imagens e sons que lhe vinham à mente, viu-se arrancado de casa por homens fortemente armados e reconheceu-se deitado no chão enquanto sofria golpes de pontapés. Agora ouvia vozes que simulavam a comunicação entre uma ambulância e um hospital. Em meio ao estado sonolento, tudo parecia de tal maneira verdadeiro que no sonho chegou a impressionar-se com sensações tão reais.

À medida que a consciência prevalecia ao sono imperfeito, suas percepções aumentavam. Sentia uma sensação incômoda de imobilidade e uma dor imensa, como se tivesse as costelas quebradas. Seu despertar atingiu o ponto máximo ao ter seu corpo sacolejado de um lado para outro e foi neste instante que se percebeu dentro de um veículo.

Lá dentro estava escuro. Apenas uma ou outra fresta de sol batia em seu rosto e cegava um dos olhos, pois já não era possível abrir os dois. Pelas costas, argolas metálicas prendiam suas mãos na altura do pulso. Mantinha-se forçosamente encolhido por dispor de pouco espaço e esbarrava em alguma coisa que se assemelhava a um corpo humano sempre que tentava estender as pernas.

Enfim, tornou a ser dono de seus pensamentos outra vez. Lembrou-se então do aparelho estourado pela repressão no exato momento em que estava reunido com os companheiros. Da invasão da polícia a tiros, de ver alguns corpos caídos na sala de estar e de ser arrancado de casa com uma violência brutal. Lembrou-se finalmente de ser algemado e jogado para dentro de uma veraneio.

Tudo estava claro. Havia sido capturado pela repressão do regime militar. As vozes que ouvira durante o estado intermediário entre o sono e a vigília nada tinham a ver com ambulâncias e hospitais. Certamente não estaria seguindo para centro médico algum. Seu destino indubitável seria um dos porões da ditadura, onde o aparato que o aguardava serviria tão-somente de instrumentos de tortura.

Seu estado consciente fez disparar o coração. Sabia o que viria pela frente e sentiu pavor. Teve dificuldades em respirar e pensou que morreria sem ar ali mesmo. Com os pés, tentou reanimar o companheiro, mas seu esforço foi em vão.

Quando a veraneio parou em definitivo, preparou-se para o pior. A porta da mala se abriu e ele foi arrancado com toda a força pelo corpo e pelos cabelos. Do pouco que viu, não reconheceu onde estava. Entre uma brutalidade e outra pode enfim identificar o outro carona. O corpo do amigo parecia sem vida, posto que ele não esboçava qualquer reação ao ser retirado do veículo.

Rapidamente foi levado para dentro do prédio. Já no centro cirúrgico, teve suas roupas arrancadas e sua cabeça imersa em um tonel de água, sem que nada lhe houvesse sido perguntado. Debatia-se enquanto era forçado a permanecer submerso. Sempre que parecia não agüentar mais, sua cabeça era puxada para fora da água e, segundos depois, era obrigada a mergulhar novamente.

Depois de algumas seqüências de mergulho involuntário, finalmente foi submetido a um interrogatório. Mostravam-lhes fotografias e pediam nomes e endereços. A cada hesitação ou negativa era mergulhado de volta.

À noite foi levado a uma cela e mantido sob o medo constante de novas sessões de tortura.

Por alguns anos, essa foi a sua rotina no cárcere. Durante o tempo em que permaneceu vivo, foi alvo de métodos cruéis. Apanhou no rosto, foi socado no estômago e pela boca expeliu sangue. Recebeu choques no canal do reto e sujou-se com os seus próprios excrementos, em decorrência da contração involuntária do esfíncter.

Esteve à beira da morte por algumas vezes e, em momentos extremos, chegou a ser ressuscitado por um médico-militar. Enquanto esteve vivo, deu nomes e endereços de antigos companheiros. Também confirmou informações sobre gente que sequer conheceu, apenas para livrar-se da dor.

Esteve à mercê do regime, mas guardou para si a decisão de sua morte e foi encontrado em sua cela com os pulsos cortados. Ainda hoje, embaixo de alguma camada de tinta de uma antiga cadeia da repressão militar, se escondem os traços de suas palavras. Junto com elas, está esquecido um pedaço da história do Brasil. Uma história manchada com o sangue do povo brasileiro.

A punho,
Sob a vista de ninguém,
Sanciono e outorgo minha liberdade.
Faz sombra em grande parte da cidade,
O sol que não ilumina a todos,
Adentra em minha janela com alvará de soltura.
Eu, rebelada criatura,
Em paz submeto-me a Deus.


A poesia que empresta voz ao personagem desta crônica chama-se Maioridade e foi escrita pelo amigo Francisco Antônio de Paula Machado, poeta que há tempos não encontro, mas que o coração não esquece.

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Poeta morto

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Você só pensa em grana (Zeca Baleiro)

Dimas Lins

Como poeta, vestia-se de rimas e despia-se das amarras do preconceito. Escrevia pelo desejo incessante de escrever e versejava pela necessidade do espírito. E embora apenas a alegria contida e a melancolia desenfreada criassem uma aura de arrebatamento em suas palavras, amava a tristeza tão-somente como matéria-prima de seus versos. No fundo, não tinha a alma melancólica, mas apenas um coração comovido.

Como homem, vestia-se de pequenos sonhos e despia-se de vaidades. Seus desejos e ardores não iam além da simplicidade da vida e do aprimoramento contínuo da sua relação com o mundo. Amaria sem julgamentos e aceitaria a todos sem restrições. Sentia amor pelas pessoas, não pelas coisas. O poeta ensinou ao homem que sua casa é apenas uma moradia, que seu carro é apenas um meio de transporte e suas roupas são apenas vestimentas.

Porém, a paixão que alimenta versos às vezes corrói a alma, pois nem sempre para toda ação de amor há uma reação contrária de mesma leveza e intensidade. O amor é cego, mesmo para um poeta.

Levou um tempo para perceber que não era o amor que satisfazia a quem amava. Enquanto de si fluíam a comunhão íntima e a coesão com o universo, recebia de volta projetos de vida, planos de investimentos e uma busca descomedida por projeção social. Mais valia um carro a um verso e uma roupa a uma rima. Mais valia a aparência a um poema inteiro. Mais valia ter a ser. O amor carcomido pela mesquinharia e pela ambição sem limites não é amor, é carcoma.

Depois de tanto tempo veio a perceber o quanto se deixou mudar. Já não reconhecia a si mesmo. Roupas finas, cabelos simétricos, barba feita e perfumes franceses. Nunca andou como um mendigo, mas se fosse o caso, seria melhor do que assemelhar-se a um monarca sem trono.

Não reconhecia mais os seus versos, nem a sua verve. As palavras tornaram-se opacas e o coração comovido tornou-se vazio. O homem esquecera os ensinamentos do poeta e tornou-se apenas um homem. Não há mais rimas, nem versos, nem palavras que sirvam. Apenas as contas agora contam. São números, senhas, moedas, reais e ilusões. Trocou o prazer de recolher-se num momento calmo do dia para perceber o mundo por patuscadas e encontros sociais superficiais.

As palavras e os versos agora são apenas letras ordenadas, não dizem mais nada. Não há mais alma nos poemas, cores nas poesias e calor nas rimas. A fonte secou. A tristeza não é mais matéria-prima dos seus versos. Ela agora reveste a essência de sua existência.

Um coração que não sente
É uma caneta que não capta
Uma voz que não diz
É uma palavra abandonada

Um olho que não vê
É um verso não escrito
Uma mão trêmula
É um poema proscrito

Um
homem torto
É um poeta morto.

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