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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 1 de dezembro de 2007, às 10:00h

A rota do indivíduo

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A rota do indivíduo (Ferrugem) - Djavan (Djavan/Orlando Moraes)

Dimas Lins


Inspirado em personagens do filme A festa de Babette.


Como no fim de uma longa jornada, retornou ao lar depois de mais de cinqüenta anos de ausência. Durante todo esse tempo, nunca casou nem teve filhos, mas aproveitou a vida como se propôs a aproveitar. Agora já era um senhor de idade, cabeça branca, pele enrugada e com a experiência de quem correu o mundo. Voltou para se despedir da vida e descansar no colo da terra onde nasceu.

Suas feições pouco lembravam o jovem aventureiro que sonhou um dia partir. Na juventude, costumava deixar-se na janela de seu quarto, de onde, ao longe, ficava olhando a ferrovia, vendo a vida correndo, parada. Por muito tempo, pensou em seguir por aqueles trilhos. Desde menino fez planos, muitos planos, mas não teve coragem de levá-los adiante. Porém, mesmo com a severidade do tempo, o sonho de lançar-se mundo afora nunca enferrujou.

Mas, curiosamente, a decisão de seguir junto à ferrovia aconteceu quando se percebeu apaixonado. Temendo ficar preso a um mundo que considerava pequeno demais, bem diferente daquele que desejava, partiu para terras alheias. Receou que o amor lançasse amarras sobre si e paralisasse seus passos. O desejo de seguir adiante era mais forte e, sendo assim, sacrificaria o coração.

Durante o tempo em que esteve ausente, buscou, de maneira infrutífera, convencer-se que deixara para trás um sentimento pueril e que na tenra idade não seria suficientemente experiente para reconhecer um amor desarmado e verdadeiro. E embora a liberdade da estrada não o permitisse esquecer um romance deixado em abandono, preferiu manter seu rumo. Seguiu a vida como um homem incompleto.

De volta a sua casa, recebeu comovido o abraço sincero dos velhos amigos. Relembraram a vida juntos e contaram suas histórias e seus caminhos. Foi quando soube de Antônia, o amor abandonado. Ouvia com especial atenção os relatos de que ela nunca havia se casado, como se esperasse seu retorno. Vieram-lhe lembranças ainda muito vivas e acolhedoras.

Lembrou-se da delicadeza de Antônia, de sua timidez e de seus gestos contidos. Da pureza de seu espírito e de sua gentileza com todos. Lembrou da sua voz suave e de como se alegrava ao ouvi-la cantar. Do seu sorriso meigo, das suas mãos carinhosas e do seu aroma agradável.

E foi num resto de sonho sobre um novo dia que recebeu um convite para revê-la. Era um bilhete amável de uma velha amiga que desejava saudar a sua volta para casa.

Naquele fim de tarde, preparou-se com galhardia para o encontro e, já de saída, deparou-se com um jovem aventureiro sentado em seu sofá. Estava diante de si mesmo, cinqüenta anos mais moço. Percebeu que se encontrava agora com o passado para acertar as contas. Enquanto o jovem sorria confiante, o velho o olhava com seriedade. Reconheceu que havia vivido do modo que escolheu e que aproveitara bem a vida, mas que, só em instantes, saberia se esteve certo em sua escolha.

Durante o tempo em que esteve com Antônia, procurou manter sua alma livre de tempestades. Tiveram uma conversa longa e cordial, pois, naquela tarde cinzenta, serviam-lhes apenas as palavras sem artifícios nem intenção de disfarçar o sentimento.

Ao longo de todos esses anos, perceberam-se juntos. Sabiam que sempre estiveram lado a lado em cada oração, em cada pensamento e em cada momento.

Ao despedir-se de Antônia entendeu que a escolha que fizera não tinha mais importância, pois, independente de qual fosse a sua decisão, ele sempre seria incompleto. Talvez, agora na velhice, tivesse a chance de tornar-se um homem absoluto.

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