Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 5 de dezembro de 2007, às 17:47h

Lamento de quatro povos

Pintura: Marília Cruz
indio_txucarrames-marilia-cruz.jpg

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Cara de Índio (Djavan)

Maria Mattoso

- I -

Os Karajás

Terra mansa, feminina
Vestida de rios e
De verde adornada.
Na selva, a indiazinha
Colhe baunilha.
Flores selvagens brincam
Na noite dos seus cabelos.
Pintado de negro o guerreiro
Espera a guerra.
Virgens desnudas
Guardam segredos
Da morte e da vida.

Naus cruzam os mares
Trazendo em seu bojo
Homens sem cor.
Surgem na selva
Portando trovões.
Espadas sangrentas
Bailam no ar.

- II -

Os Sioux

Campos nevados,
Tendas ao vento,
Águias bravias
Cortando amplidão.
Colares de guerras,
Homens valentes
Enfrentam inimigos,
Mulheres pejadas
Esperam a paz.
Ciclos lunares
(Prenúncios do mal).

Demônios de neve
Cabelos de sol.
Rifles sedentos
esperam riquezas.
Bisões imolados
Num campo deserto.
Carniça, doenças,
Miséria, extinção.

- III -

Os Astecas

Brilha, rebrilha
Brinquedos de ouro,
Telhados dourados,
Penas rubras
(Deuses alados).
Virgens solares
(fogo sagrado)
Punhais sangrentos
(chuva, fartura).

Velas ao vento
(Estranhas barcaças).
Filhos de deuses
(Morte - cobriça).
Metal amarelo:
Rios de sangue
(Guerras, escravos).

- IV -

Os Negros

Colares de dentes,
Peles luzentes,
Facas, maracás.
Deusas dos rios,
Senhora dos Ventos,
Dono das Matas,
Rainha do Mar.
Fogueiras, batuques.
Tempo de guerra
(Tempo de amar).

Presentes estranhos
(Espelhos, miçangas).
Facas luzentes
Rebrilham no ar.
Porão oscilante,
Infecto, imundo.
Lamentos, revolta
(Saudades ardentes)
Corpos ao mar.

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