Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Poeta morto

livro-enterrado.jpg

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Você só pensa em grana (Zeca Baleiro)

Dimas Lins

Como poeta, vestia-se de rimas e despia-se das amarras do preconceito. Escrevia pelo desejo incessante de escrever e versejava pela necessidade do espírito. E embora apenas a alegria contida e a melancolia desenfreada criassem uma aura de arrebatamento em suas palavras, amava a tristeza tão-somente como matéria-prima de seus versos. No fundo, não tinha a alma melancólica, mas apenas um coração comovido.

Como homem, vestia-se de pequenos sonhos e despia-se de vaidades. Seus desejos e ardores não iam além da simplicidade da vida e do aprimoramento contínuo da sua relação com o mundo. Amaria sem julgamentos e aceitaria a todos sem restrições. Sentia amor pelas pessoas, não pelas coisas. O poeta ensinou ao homem que sua casa é apenas uma moradia, que seu carro é apenas um meio de transporte e suas roupas são apenas vestimentas.

Porém, a paixão que alimenta versos às vezes corrói a alma, pois nem sempre para toda ação de amor há uma reação contrária de mesma leveza e intensidade. O amor é cego, mesmo para um poeta.

Levou um tempo para perceber que não era o amor que satisfazia a quem amava. Enquanto de si fluíam a comunhão íntima e a coesão com o universo, recebia de volta projetos de vida, planos de investimentos e uma busca descomedida por projeção social. Mais valia um carro a um verso e uma roupa a uma rima. Mais valia a aparência a um poema inteiro. Mais valia ter a ser. O amor carcomido pela mesquinharia e pela ambição sem limites não é amor, é carcoma.

Depois de tanto tempo veio a perceber o quanto se deixou mudar. Já não reconhecia a si mesmo. Roupas finas, cabelos simétricos, barba feita e perfumes franceses. Nunca andou como um mendigo, mas se fosse o caso, seria melhor do que assemelhar-se a um monarca sem trono.

Não reconhecia mais os seus versos, nem a sua verve. As palavras tornaram-se opacas e o coração comovido tornou-se vazio. O homem esquecera os ensinamentos do poeta e tornou-se apenas um homem. Não há mais rimas, nem versos, nem palavras que sirvam. Apenas as contas agora contam. São números, senhas, moedas, reais e ilusões. Trocou o prazer de recolher-se num momento calmo do dia para perceber o mundo por patuscadas e encontros sociais superficiais.

As palavras e os versos agora são apenas letras ordenadas, não dizem mais nada. Não há mais alma nos poemas, cores nas poesias e calor nas rimas. A fonte secou. A tristeza não é mais matéria-prima dos seus versos. Ela agora reveste a essência de sua existência.

Um coração que não sente
É uma caneta que não capta
Uma voz que não diz
É uma palavra abandonada

Um olho que não vê
É um verso não escrito
Uma mão trêmula
É um poema proscrito

Um
homem torto
É um poeta morto.

5 Comentários

  1. Gravatar André Tricolor Virtual 8 de dezembro de 2007, às 14:41h

    … Um homem torto
    É um poeta morto.

    Um homem sem palavra é um ser sem luz !!!!!

    Valeu “Dimas”

    Abraços !!!!

  2. Gravatar O outro 9 de dezembro de 2007, às 11:18h

    Um coração que sente
    É um lápis que desenha
    dor
    Uma voz que diz
    (são) sinceridades grosseiras

    Um olho que vê
    é o inferno do outro
    Uma mão firme
    segura o cutelo

    e faz o poema conhecido

    Pois um homem morto
    é um poeta torto

  3. Gravatar maria mattoso 9 de dezembro de 2007, às 14:17h

    Caro Dimas, que sensibilidade, nunca permita que os seus versos e a sua inspiração morra. Um abraço.

  4. Gravatar Leonardo Jr. 10 de dezembro de 2007, às 13:57h

    Dimas,

    Belíssimo texto. Fiquemos alertas para que amição e mesquinharia não destruam o que temos de poético.

    Grande abraço!

  5. Gravatar Ana Cláudia 11 de dezembro de 2007, às 21:59h

    E o cara ainda diz que não sabe “poetar”…

Nós que aqui estamos, por vós esperamos