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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 13 de dezembro de 2007, às 0:50h

O país do adeus

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Pra não dizer que eu não falei das flores (Geraldo Vandré)

Dimas Lins


Baseado nos manuscritos inacabados do meu romance O País do Adeus.


- Unidade Um para Hospital. Responda…
- Hospital na escuta.
- Dois pacientes a caminho.
- Qual o tempo de chegada, Unidade Um?
- Aproximadamente vinte minutos. Necessito do centro cirúrgico para intervenção imediata.
- Entendido.
- Câmbio, desligo.

Estava naquele estágio entre o sono e a consciência, onde o sonho se mistura à realidade. Por isso, não era capaz de distinguir uma coisa de outra. No conjunto de imagens e sons que lhe vinham à mente, viu-se arrancado de casa por homens fortemente armados e reconheceu-se deitado no chão enquanto sofria golpes de pontapés. Agora ouvia vozes que simulavam a comunicação entre uma ambulância e um hospital. Em meio ao estado sonolento, tudo parecia de tal maneira verdadeiro que no sonho chegou a impressionar-se com sensações tão reais.

À medida que a consciência prevalecia ao sono imperfeito, suas percepções aumentavam. Sentia uma sensação incômoda de imobilidade e uma dor imensa, como se tivesse as costelas quebradas. Seu despertar atingiu o ponto máximo ao ter seu corpo sacolejado de um lado para outro e foi neste instante que se percebeu dentro de um veículo.

Lá dentro estava escuro. Apenas uma ou outra fresta de sol batia em seu rosto e cegava um dos olhos, pois já não era possível abrir os dois. Pelas costas, argolas metálicas prendiam suas mãos na altura do pulso. Mantinha-se forçosamente encolhido por dispor de pouco espaço e esbarrava em alguma coisa que se assemelhava a um corpo humano sempre que tentava estender as pernas.

Enfim, tornou a ser dono de seus pensamentos outra vez. Lembrou-se então do aparelho estourado pela repressão no exato momento em que estava reunido com os companheiros. Da invasão da polícia a tiros, de ver alguns corpos caídos na sala de estar e de ser arrancado de casa com uma violência brutal. Lembrou-se finalmente de ser algemado e jogado para dentro de uma veraneio.

Tudo estava claro. Havia sido capturado pela repressão do regime militar. As vozes que ouvira durante o estado intermediário entre o sono e a vigília nada tinham a ver com ambulâncias e hospitais. Certamente não estaria seguindo para centro médico algum. Seu destino indubitável seria um dos porões da ditadura, onde o aparato que o aguardava serviria tão-somente de instrumentos de tortura.

Seu estado consciente fez disparar o coração. Sabia o que viria pela frente e sentiu pavor. Teve dificuldades em respirar e pensou que morreria sem ar ali mesmo. Com os pés, tentou reanimar o companheiro, mas seu esforço foi em vão.

Quando a veraneio parou em definitivo, preparou-se para o pior. A porta da mala se abriu e ele foi arrancado com toda a força pelo corpo e pelos cabelos. Do pouco que viu, não reconheceu onde estava. Entre uma brutalidade e outra pode enfim identificar o outro carona. O corpo do amigo parecia sem vida, posto que ele não esboçava qualquer reação ao ser retirado do veículo.

Rapidamente foi levado para dentro do prédio. Já no centro cirúrgico, teve suas roupas arrancadas e sua cabeça imersa em um tonel de água, sem que nada lhe houvesse sido perguntado. Debatia-se enquanto era forçado a permanecer submerso. Sempre que parecia não agüentar mais, sua cabeça era puxada para fora da água e, segundos depois, era obrigada a mergulhar novamente.

Depois de algumas seqüências de mergulho involuntário, finalmente foi submetido a um interrogatório. Mostravam-lhes fotografias e pediam nomes e endereços. A cada hesitação ou negativa era mergulhado de volta.

À noite foi levado a uma cela e mantido sob o medo constante de novas sessões de tortura.

Por alguns anos, essa foi a sua rotina no cárcere. Durante o tempo em que permaneceu vivo, foi alvo de métodos cruéis. Apanhou no rosto, foi socado no estômago e pela boca expeliu sangue. Recebeu choques no canal do reto e sujou-se com os seus próprios excrementos, em decorrência da contração involuntária do esfíncter.

Esteve à beira da morte por algumas vezes e, em momentos extremos, chegou a ser ressuscitado por um médico-militar. Enquanto esteve vivo, deu nomes e endereços de antigos companheiros. Também confirmou informações sobre gente que sequer conheceu, apenas para livrar-se da dor.

Esteve à mercê do regime, mas guardou para si a decisão de sua morte e foi encontrado em sua cela com os pulsos cortados. Ainda hoje, embaixo de alguma camada de tinta de uma antiga cadeia da repressão militar, se escondem os traços de suas palavras. Junto com elas, está esquecido um pedaço da história do Brasil. Uma história manchada com o sangue do povo brasileiro.

A punho,
Sob a vista de ninguém,
Sanciono e outorgo minha liberdade.
Faz sombra em grande parte da cidade,
O sol que não ilumina a todos,
Adentra em minha janela com alvará de soltura.
Eu, rebelada criatura,
Em paz submeto-me a Deus.


A poesia que empresta voz ao personagem desta crônica chama-se Maioridade e foi escrita pelo amigo Francisco Antônio de Paula Machado, poeta que há tempos não encontro, mas que o coração não esquece.

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