Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 20 de dezembro de 2007, às 0:00h

Conversando na mesa de bar

Pintura: Vicent Van Gogh
van-gogh.jpg

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Conversando no bar - Elis Regina (Milton Nascimento/Fernando Brant)

Dimas Lins

Crônica inverossímil de uma conversa em mesa de bar

Estávamos às voltas com uma celebração, mas àquela altura havia apenas resquícios de uma lembrança remotamente depositada entre os neurônios do hipocampo (segundo Houaiss, aquela estrutura curva existente na parte medial do soalho do corno inferior do ventrículo lateral cerebral acusada sem provas de ser a responsável pelo armazenamento da memória).

E não importava. O caráter essencial e determinante do encontro orbitava em torno de si próprio. Nenhum motivo especial, nenhuma razão particular. Bastavam apenas duas condições para justificar a convergência de interesses: boa conversa e cerveja no copo. Existem certamente estudos científicos baseados em pesquisas realizadas com alcoólatras inveterados que apontam que apenas a segunda condição é necessária. Há controvérsias quanto à questão. Assim, defender uma tese apontando para qualquer das direções só fará mesmo sentido numa mesa de bar onde, é claro, tudo tem cabimento.

Mas voltando ao bar, já havia se passado algumas horas desde o início das nossas atividades etílicas e, exatamente por isso, a conversa entrava em sua fase mais enroscada e de difícil compreensão. Ela passava a pertencer a um universo nebuloso onde cada palavra só encontra sentido graças à alteração química na corrente sanguínea. Nessas ocasiões, o ar torna-se rarefeito, os lábios ressecam, a bexiga pede penico, o fígado, outrora resistente, implora por socorro, a língua perde a coordenação motora e atropela as palavras, os olhos sofrem um ataque de estrabismo, o estômago é acometido por uma súbita inflamação na mucosa e o nível mental regride a pelo menos um ponto abaixo do tolerável.

Em minha teoria, baseada em dado científico nenhum, as maiores discussões filosóficas devem ter ocorrido em uma mesa de bar. Como contraponto, as maiores bobagens provavelmente também foram ditas por lá.

- Você anda escrevendo umas coisas legais, embora sejam bem tristes.

- É que um psiquiatra amigo meu disse que tenho a alma melancólica.

- Qual psiquiatra?

- Artur.

- Artur?!

-É.

- Mas, Dimas… Ele disse isso pra mim também!

- Verdade, Artur?!

- Pode ser.

- Já vi que você diz isso pra todos.

- Coitados dos pacientes. Seja qual for a patologia, receberão o mesmo diagnóstico.

- Bobagem, Josias. Vocês não são meus pacientes. Afinal, não saio com eles para beber…

(Pausa para um gole de cerveja).

- …Exceto se pagarem a conta ou levarem a bebida para o consultório.

- É justo.

- De acordo.

- Então vamos organizar assim, eu tenho a alma melancólica e você, o coração sentimental. Que tal, Dimas?

- Melhor ouvir o psiquiatra. E aí, Artur?

- Pode ser.

- Pode ser ou é?!

- Pode ser que seja.

- Mudando de assunto, eu acho que de nós três você é quem escreve melhor.

- Deixa disso.

- Falo sério! Cada um tem o seu próprio estilo, mas você tem algo mais. É ou não é, Josias?

- É. Às vezes, você dá umas rajadas no texto que são fantásticas.

- Meus caros, suas críticas literárias não me servem. Dimas, por exemplo, quando ama alguém não enxerga os defeitos, só as virtudes.

- Mas eu não amo você.

- Que seja. Além do mais, aprendi com o meu pai a não dar importância aos elogios, pois eles levam à vaidade e “a vaidade é o prato dos parvos”, já dizia Jonathan Swift.

- Mas ele também dizia que os sábios também condescendem em comer desse prato muitas vezes.

- Apoiado, Josias! Aproveito a deixa e, além de retirar o elogio, ainda vou radicalizar. Você é uma usina de cinismo!

- Usina de cinismo é o cacete!

- Ué, pelo que eu entendi, você havia aprendido com seu pai a lhe dar melhor com essas coisas.

- É, mas aprendi com minha mãe a não levar desaforo pra casa.

- Agora, eu tenho mesmo é inveja de Josias. O cara escreve cada poema pra se lascar! Eu mesmo não sei fazer poema. Aliás, tenho a maior dificuldade em diferenciar poema de poesia, quanto mais escrever. Falar nisso, quanto tempo você leva para fazer um?

- Rapaz, depende. Às vezes faço em cinco minutos, mas já fiz um poema em três anos.

- Três anos?!

- É.

- É por isso que não dá para viver de literatura neste país.

- Você pode não fazer poema, mas suas crônicas sobre o cotidiano são muito boas, Dimas.

- Mas, Josias, eu não escrevo sobre o cotidiano.

- Como não?! Você só escreve sobre o cotidiano.

- Eu escrevo ficção.

- Ficção? Você já escreveu alguma vez sobre invasão alienígena? Quem sabe sobre uns vermes assassinos ou alguma viagem ao centro da terra?

- Mas tem uma crônica que eu falo em disco voador.

- Muito pouco. Além do mais, o disco voador é só a imaginação coletiva de alguns personagens. Você escreve mesmo é sobre o cotidiano.

- Meu Deus, não me reconheço mais! Sempre pensei que escrevia sobre ficção!

- Para ser escritor de ficção você precisa ousar mais, não é Artur?

- “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente; não ousar é perder-se”, já dizia Kierkegaard.

- Então eu estou num momento bastante ousado, pois já não tenho equilíbrio nenhum.

- Eu acho a obra de Kierkegaard de difícil interpretação.

- Eu acho mesmo é o nome de difícil pronúncia. Nem ouso dizê-lo, ainda mais nestas condições.

- Agora numa coisa vocês concordam. Ana é a musa dos blogues literários.

- Que Ana?

- Do Ninho dA’Ninha.

- Ah, Cláudia!

- Que intimidade é essa com a minha musa?

- Sou íntimo, meu chapa! Morra de inveja!

- Faltou ela no bar.

- Faltou.

- Tá faltando também cerveja.

- Garçon, mais uma!


Artur Perrusi é psiquiatra e editor do Blog dos Perrusi, enquanto Josias de Paula Jr. é sociólogo e editor do blog Inscritos em Pedra. Além dos blogues pessoais, os três personagens desta crônica também escrevem para o Torcedor Coral. Esta é uma obra de ficção, mas pode não ser, já que descobri que só escrevo sobre o cotidiano.

7 comentários