Natal na favela

Papai Noel de camiseta (Celso Viáfora)
Dimas Lins
O tempo se movimentava no momento preciso em que o sol se interpõe entre a manhã e a tarde. Era meio-dia. Mesmo assim a festa de natal já havia começado. Por toda a favela, enfeites decoravam as vias públicas e as casas. Algumas crianças corriam de um lado para o outro, enquanto outras jogavam futebol pelas ruas estreitas.
O mundo cabia na favela e as pessoas chegavam mansamente de todos os lados. Surgiam de lugar nenhum meninos de rua, sem-tetos, sem-amores, amantes e amados, solitários, além dos vizinhos e amigos. Alguém chegou com um violão, outro com um tamborim e mais outro com um pandeiro.
Famílias inteiras se sentavam em volta da mesa e se confraternizavam. No almoço, uma feijoada preparada por várias mãos era servida aos presentes junto com cervejas, cachaças e refrigerantes, que saltavam das geladeiras espalhadas pela vizinhança e se assentavam nos copos e nas gargantas.
Quando enfim chegou a noite e as luzes da favela se acenderam, o mundo parecia mais iluminado. Para satisfação geral, Papai Noel também estava lá e chegou de cara limpa. Não havia barba branca, gorro ou roupa vermelha, nem botas pretas. Apenas chinelo, bermuda e camiseta. De dentro de sua Kombi saltaram bolas, bonecas, lençóis, camisas, toalhas e até mesmo um berço novinho em folha. A festa varou a madrugada, pois não tinha hora para acabar.
Havia muita coisa a celebrar. Um nascimento, sorrisos sinceros, abraços fraternos, amigos verdadeiros e o prazer de querer bem. Para quem mantém o coração aquecido, a felicidade se faz com poucas coisas. Às vezes, basta um tambor bater.
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Nós que aqui estamos, por vós esperamos



Até uma determinada época de minha vida eu era totalmente avesso às festas do final de ano. Eram, para mim, o império da babaquice universal, e tinha como sonho hibernar entre o dia 24 e o dia 31 de dezembro para me ver livre delas.
Com a maturidade veio a compreensão de que não importam as àrvores cheias de neve falsa, o velhinho de barbas brancas e todo o mercantilismo do qual essas festas se revestiram com o passar dos tempos.
Importante é estar junto às pessoas das quais gostamos, em casa ou em qualquer lugar onde possamos nos reunir. Durante um bom tempo me privei disso em nome de uma rebeldia oca e sem sentido, até descobrir que família- descontados os lances “parente é serpente”- e amigos são, e sempre serão, meu porto seguro.
Existe muita falsidade e hipocrisia nas “confras” ao redor do mundo? Provavelmente. Mas não nas minhas. E ainda bem que descobri isso a tempo.
Apesar do consumismo e das falsas confraternizações, existe o outro lado da moeda: as verdadeiras confraternizações. Sempre no Natal faço votos que estas confraternizações continuem. Afinal temos trezentos e sessenta e cinco dias por ano para amar o próximo, fazer o bem. Para mim, todo dia é dia de Natal. Um abraço Maria Mattoso.