Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivo de 26 de janeiro de 2008, às 19:25h

As vinte e cinco noites de Sharon

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 Maria Mattoso

Na primeira noite, Sharon saiu do casulo, espreguiçou-se, partiu em direção ao infinito e depois esteve numa festa, na qual estavam presentes todos os seres das trevas.

Na segunda noite, calçou suas botas de montaria e cavalgou pelo universo na cauda de um cometa incandescente. Tomou chá com bolinhos de gergelim na casa da lua e das estrelas.

Na terceira noite Saharon entrou numa discoteca e dançou rock com o Gato-de-Botas.

Na quarta noite, brincou com os Anjos e descobriu que eles têm sexo.

Na quinta noite voou até a Terra do Nunca nos braços de Peter Pan.

Na sexta noite a Deusa Ártemis convidou-a para uma caçada e beijou-lhe delicadamente os lábios.

Na sétima noite Sharon brincou de roda com Chapeuzinho Vermelho.

Na oitava noite jantou com os gnomos e os duendes da floresta encantada.

Na nona noite, bebeu vinho nos braços do Deus Dionísio e ficou inteiramente embriagada.

Na décima noite, subiu pelas malhas prateadas de uma teia de aranha e dançou com as fadas e os elfos.

Na décima primeira noite jantou com o Conde Drácula. Comeu caviar e bebeu vodka polonesa.

Na décima segunda noite, Sharon montada num cavalo branco, segurando uma bandeira vermelha, liderou a revolução.

Na décima terceira noite assistiu a decapitação do Rei.

Na décima quarta noite vestida numa armadura de prata cavalgou ao lado do Deus Odin.

Na décima quinta noite, o Deus Pan a possuiu de mil maneiras diferentes e em seguida alimentou-a com néctar e ambrósia.

Na décima sexta noite, Sharon enfrentou bravamente o Tribunal da “Santa” Inquisição.

Na décima sétima noite foi amada pelo Deus Apolo que se mostrou a Sharon em toda sua glória e esplendor.

Na décima oitava noite assistiu a decapitação do Rei.

Na décima nona noite com uma espada de ouro enfrentou todos os Demônios e os venceu.

Na vigésima noite Sharon foi julgada pela Rainha de Copas.

Na vigésima primeira noite penetrou no âmago de uma flor, chorou todas as suas mágoas e em seguida cantou.

Na vigésima segunda noite, Sharon enfrentou a Grande Mãe.

Na vigésima terceira noite, lutou violentamente com Tânatos e saiu-se vitoriosa.

Na vigésima quarta noite, Sharon desceu ao fundo do poço e enfrentou o Dragão.

Na vigésima quinta noite esteve consigo mesma e dormiu.

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Notícias de lá

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O trem das sete (Raul Seixas)

Dimas Lins

Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.

Topei com ela ainda no corredor do meu prédio, por volta das duas da manhã, enquanto levava embora a velha senhora. À primeira vista, não entendi bem o que ali ocorria, mas, fosse o que fosse, não me parecia natural. A boa senhora mostrava-se ditosa, mesmo assim desconfiei.

Como aquela visão, para mim, carregava em si a sensação de que um evento de caráter extraordinário acontecia, decidi fazer uma incursão cuidadosa. Era necessário, ao menos, compreender o que se passava.

Por alguns segundos, apenas observei. Depois falei alguma coisa educadamente, mas não me deram atenção. Quando percebi que estava sendo ignorado, chamei-as com mais vigor. Como ainda insistiram em não me dar ouvidos, gritei. Por fim, ordenei que parassem. A Morte - embora eu ainda não soubesse que se tratava dela - parou e virou-se em minha direção. Confesso que senti um arrepio na nuca ao vê-la mudar seu curso por minha causa, pois apesar da forma humana, guardei a impressão de que aquele ser não parecia deste mundo. De alguma forma, eu sabia que não estava seguro. Talvez fosse o medo natural de quem lida com o que não compreende, sei lá. Embora o corredor do edifício não estivesse claro o suficiente, notei que a Morte me olhava de cima, como se perguntasse quem eu pensava que era para ordenar alguma coisa. Mesmo assim, não deu uma palavra.

Eu não era ninguém. Ninguém, não! Era um amigo. Um amigo de uma mulher idosa e adorável que sentia por ela uma grande afeição. E já que estava ali, em plena madrugada, diante do incompreensível, não achava nada de mais pedir explicações.

Quando me aproximei um pouco mais, pude ver com nitidez o seu rosto e gelei. Ela me lembrava alguém. Não sabia dizer quem, mas tinha algo familiar. Mesmo assim, senti medo.

Sim, havia algo familiar naquele rosto. Nos instantes em que ficamos parados, frente à frente, pude observar atentamente. Eu estava certo, ela me lembrava alguém. Só que não era apenas um rosto, mas muitos. Através dela, vi o meu avô, a minha avó, meus tios e tias, amigos e conhecidos. Todos mortos. Fiquei petrificado. Só nesse ponto entendi enfim que estava diante da Morte. Ela era diferente de tudo o que eu imaginava e nem de longe se assemelhava àquela representação iconográfica de um esqueleto humano armado de foice.

Assustado, dei um passo para trás. Sim, recuei diante da Morte. Quem não recuaria? Tenho medo de morrer, como qualquer outro. Até pensei em correr, mas não foi preciso, pois com o meu recuo, a Morte tornou a virar e a seguir seu caminho.

Elas já estavam no fim do corredor quando eu percebi que não poderia deixar a velha senhora partir. Andei em direção às duas com passos contérritos, mas andei. Como elas não pararam, eu gritei. Desta vez não ordenei nada. Apenas gritei. Soltei um som penetrante, dolorido, cortante. Pobre senhora, ainda tinha muito que viver, pensava eu. Não tinha que morrer agora. Não tinha que partir.

Elas pararam novamente. A mulher idosa sorriu, a Morte não. Pedi por favor, implorei. Supliquei à Morte que deixasse a boa senhora viver e caí no choro. Como não consegui segurar-me em pé, deixei meu corpo precipitar-se sobre o chão e agarrei-me às pernas do sobrenatural. E embora derramasse lágrimas sinceras, a Morte não se comoveu. De fato, ela nem se moveu. E enquanto ela me olhava, eu sentia uma dor forte, aguda, áspera, espessa, profunda.

A boa senhora passou a mão em meus cabelos e tentou me consolar. Ela estava tranqüila e até me pareceu remoçada. Ainda tentei convencê-la a resistir e ficar. Afinal, como ficariam seus filhos e netos? Como eu ficaria?!

Ficariam todos bem, disse ela. E acrescentou que ainda que fosse o seu desejo por aqui permanecer, esta era uma decisão que não lhe cabia, embora isso não tivesse importância. Ela se abaixou e com uma das mãos buscou enxugar minhas lágrimas. Ainda tentei lhe falar, mas ela não deixou. Apenas sorriu um sorriso franco e me disse que não tinha medo de morrer, pois quem tem esse temor também tem medo de viver. “Vá e viva!”, foram suas últimas palavras.

Fiquei sentado no chão desconsolado, vendo as duas porem-se a caminho dos seus destinos. Nada mais havia que eu pudesse fazer. O cansaço tomou conta de mim e acabei caindo no sono. Quando despertei, estava em minha cama. Mas eu sabia que não era apenas um sonho ruim e acordei chorando.


* Dedicado a Yuri.

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Bola de Cristal

Pintura: Cigana, de Orlando Santos
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Bijuterias (João Bosco)

Dimas Lins

Ano novo, antigas preocupações. Depois de trinta anos de casamento, Norminha andava desconfiada quanto à fidelidade de Borges. É verdade que nunca ouviu uma conversa intrigante ou alguma ação suspeita do esposo que desse motivação às suas dúvidas, mas, mesmo assim, vivia cismada. É que achava o marido perfeito e isso, obviamente, não era normal. Afinal, homem nenhum é assim, logo, não seria exatamente Borges uma exceção à regra. Desconfiava, pela lógica do universo masculino, que algum segredo certamente faria parte da vida de seu marido. E definitivamente este segredo ocultaria uma mulher, uma amante, um caso extraconjugal.

A princípio, decidiu ela própria seguir os vestígios e as pistas incriminatórias da infidelidade matrimonial, embora não houvesse nenhuma visível a olho nu. Vasculhou as gavetas, as roupas, os números de telefone armazenados na memória do celular e até mesmo o e-mail do marido, mas não encontrou nada. Depois contratou um detetive particular, mas desqualificou seu relatório final, uma vez que não surgiram quaisquer evidências de traição. Chegou mesmo a desconfiar que Borges, aquele “farsante”, havia descoberto a investigação e comprado o silêncio do detetive a peso de ouro.

Agora, andava pela casa olhando o marido atravessado, como se jogasse em sua cara que alguma ele andava escondendo. Borges, convém esclarecer, mesmo não tendo idéia do que se passava na cabeça de Norminha, nem achava isso tão estranho assim. É que depois de tanto tempo de casado, ele já havia se acostumado às esquisitices da mulher.

Porém, antes que sua paranóia tomasse proporções dramáticas - se já não era o caso - Norminha decidiu apelar para seu último recurso: uma vidente. Só alguém dotado da capacidade de ver o passado e profetizar o futuro teria a resposta às suas inquietações. Procuraria, então, uma cigana.

Para tanto, convenceu Marialva, sua melhor amiga, a acompanhá-la. Marialva, ao contrário de Norminha, não era muita dada a acreditar na arte da adivinhação. Achava tudo aquilo uma encenação, além da perda de tempo e de dinheiro. Entretanto, diante da insistência da melhor amiga, decidiu acompanhá-la.

Chegaram ao consultório de vidência - esse era o nome que constava na plaquinha pregada à porta - com sentimentos diferentes. Norminha confiante por estar no lugar certo para descobrir enfim as escapulidas do marido, enquanto Marialva mostrava-se notadamente inquieta e desconfortável por estar à porta de uma cigana fazendo algo em que não acreditava.

Tocaram a campainha e uma voz feminina perguntou quem era. Marialva, como quem cutucasse a amiga, ainda lhe disse em voz miúda que, se a mulher era incapaz de saber quem estava a sua porta, mesmo com a hora marcada, difícil seria imaginar que ela poderia realmente adivinhar o futuro.

Quando a cigana abriu a porta do consultório, Norminha, de impulso, puxou a amiga pelo braço e arrastou-a para dentro da sala, evitando a sua debandada. Marialva, a contragosto, deixou-se levar, enquanto olhava desconfiada a roupa extravagante e a maquiagem marcante de Madame Sabrina, a cigana. Já dentro do recinto, se depararam com uma tenda no meio da sala. Em seu interior, uma mesa e três bancos ao centro, além dos adornos característicos.

Marialva olhou a bola de cristal no centro da mesa e perguntou desconfiada, enquanto as três se aboletavam nas cadeiras, se a cigana era mesmo capaz de prever eventos passados, presentes e futuros. Madame Sabrina, em tom profético, respondeu que sim, pois captava imagens refletidas no cristal e, através delas, decifrava os eventos que ocorreram ou que estavam por vir. Na insistência de Marialva por entender o mecanismo de adivinhação, a cigana ainda respondeu que, na bola, não via imagens de pessoas ou coisas, mas jatos de luz e de cores que seriam justamente os sinais codificados desses eventos. Sua intuição faria o resto.

Marialva não se deu por convencida que jatos de luz e de cores associados à intuição da cigana poderiam determinar a infidelidade de Borges. Mesmo assim, optou pelo silêncio. Enquanto isso, Norminha, apesar da ansiedade, esperava a iniciativa de Madame Sabrina. De fato, ela esperava que a cigana lhe dissesse na bucha, sem meias palavras, que o seu marido era infiel.

Durante a conversa, Norminha ouviu obviedades da cigana sobre sua vida e seu futuro. Madame Sabrina assegurou que, apesar de alguns obstáculos, o ano vindouro seria promissor. Falou por dez minutos, mas, para a frustração da consulente, não mencionou uma palavra sequer sobre Borges.

- E quanto ao meu marido, o que você me diz?

- Vejo jatos de luzes vermelhas que indicam que ele passa por um momento de harmonia e felicidade.

- Eu sabia! Aquele safado tem uma amante! É daí que vem aquele risinho estúpido!

- Na verdade, não vejo nenhuma mulher, além da senhora, no caminho do seu marido. Quanto a isso, pode ficar tranqüila!

- Então veja de novo, minha filha! A madame está vendo tudo errado!

- Mas, senhora, a bola de cristal não mente!

- Então é a senhora que não está entendendo o que ela está dizendo! Madame está vendo tudo errado! Tudo errado!

A cigana se recompôs e, sob o olhar desconfiado de Marialva, tornou a consultar a bola de cristal. Em seguida, inclinou-se para frente e passou a mão sobre o oráculo.

- A senhora tem razão. Vejo uma mulher…

- Eu não disse?!

Enquanto Marialva abria um riso discreto, mas cínico, Norminha praguejava contra o marido e todos os seus ascendentes, até a sétima geração. Mesmo assim ficou satisfeita. Pagou cem reais à cigana e sugeriu à amiga que também consultasse o oráculo, pois ele sabia mesmo das coisas. Marialva esquivou-se dizendo que não tinha um centavo na bolsa.

- Essa aí não precisa, minha filha, pois tem o corpo fechado! - despistou a cigana.

- Pensei que esse negócio de corpo fechado fosse coisa de mãe ou pai de santo - provocou Marialva.

Para a cigana, tudo fazia parte das forças da natureza.

Já em casa, Norminha sentia-se aliviada em saber de toda a verdade. Na sala, deu com o marido assistindo TV, mas, para sua própria surpresa, beijou-o na testa e foi se recolher. Afinal, não estragaria um casamento de trinta anos por um caso fortuito. Estava agora disposta a recomeçar.

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Pauline - final

Pintura: Miles DAvignon
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Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Gadiel Perrusi

IV

Ninguém soube mais de nada. Pauline vendeu o barraco que já estava anunciado, aliás, com uma tabuleta pregada na porta. Com o dinheiro apurado, fez um enterro muito bonito para Floriano. Ela própria vestiu e preparou o defunto porque gostava muito dele, apesar da doença. Por isso, vieram dizer que o corpo de Floriano estava todo marcado com suas impressões digitais. Acusação besta.

A própria polícia, no dia da morte de Floriano, compareceu ao local, mas não disse nada. Era o aniversário do Delegado, todos tinham bebido bastante e, por isso, fizeram muita confusão. O próprio Floriano estava no caixão direitinho e o enterro era de manhã. À tarde, tinha que entregar o barraco ao novo dono.

Soube que haviam prendido a tal prostituta, que foi solta, logo em seguida, porque era amante do Delegado. Ele tivera boa vontade com ela, recebendo um rádio e dinheiro pra não pegar cadeia. Foi no sábado, logo após o enterro, que a colega fora solta pelo Delegado e, depois, dera no pé com o amante. Família de prostitutas e de ladrões de que até a polícia tinha medo. É claro que sua colega mentira muito na polícia, além da ajuda do Comissário.

Na terça-feira seguinte, estava lavando roupa em Muribeca quando a polícia veio prendê-la. Foi empurrada e caiu no riacho. Bateram nela até que confessasse tudo. Daí em diante, nem o juiz quis ouvi-la. Pauline fugira e ficava dormindo debaixo do pé de pau, perto do córrego onde encontrara Floriano. Gostava dele. Coitado! Nem queria acreditar que tinha morrido. Por nada. Nem tinha inimigos. Ela lhe dava tudo, dinheiro, casa, roupa e comida. Às vezes, sonhava com Floriano. Pensava que ainda estava vivo e guardara, com carinho, todos os seus pertences.

Outro dia, estava debaixo de uma árvore e ficara com raiva; desejava matar a mentirosa e traidora. Estava bebendo sozinha, quando foi presa de novo. Reagiu como pôde, mas ninguém queria acreditar na sua história e, por isso, baixaram o cacete no Comissariado.

Depois de ouvir tudo isso, Hilda não se conteve. Botou pra chorar, abraçando a filha com todo o calor de que ainda era capaz. A culpa era dela. Sabia que Floriano não era nenhum santo. Mas o fato, pensou, é que ele morrera com cinco peixeiradas, ainda dormindo, embora ninguém tivesse visto. O cara bem que merecera. Explorador de mulher dos piores. O culpado era Pinheiro que violentara e expulsara sua filha de casa, mais de dez anos atrás. Pauline já estava mais calma. Tomou café e foi dormir de novo.

Carinhosamente, Hilda cobriu a filha com um lençol velho e rasgado. Botou seu melhor vestido, se penteou com cuidado, pintou os lábios com batom e se apresentou ao Comissário de Muribeca para contar a mesma história, que repetiria, meses depois, ao Juiz.

Disse que saíra da pensão da Magra e fora viver em Prazeres, pra ficar junto de Pauline. Era puta de rua, como a filha, mas não se deixava explorar por ninguém, muito menos por um desclassificado como Floriano.

No dia seis de Santana, por volta das oito horas da noite, se dirigia para Muribeca, onde agora ganhava a vida. No Córrego da Batalha, se deparara com o homem de sua filha agarrado com outra mulher, talvez a pior da redondeza.

Estava cansada daquela vida. Homem só prestava pra mentir e explorar. Como estava armada de uma faca-peixeira, com medo de ladrão, e vendo que Floriano estava traindo sua filha, escondeu-se numa árvore, sacou da arma e, de surpresa, desferiu-lhe um golpe nas costas. O homem cambaleou e ela se aproveitou pra completar o serviço. Ele ficou lá, estirado na beira do córrego. Queria matar, também, a mulher que estava com ele, mas ela saiu correndo e se livrou.

Depois, foi avisar Pauline da morte de Floriano, mas não a encontrou em casa. Passou pela Igreja e disse a um menino pra dar o recado. Foi dormir e jamais pensou que sua filha pudesse ser acusada. Mas, agora, era o jeito. Não podia deixar ninguém pagar por um crime que era somente dela.

Hilda pegou o 121, com doze anos de cadeia. Já cumprira nove e, dali a um mês, sairia por bom comportamento. No presídio, era muito respeitada e não tinha motivo para se revoltar. Era muito melhor do que na rua. Fazer a vida dentro do Bom Pastor era comer bem, dormir a noite toda e catar botão, durante o dia. Ninguém mexera com ela, no início, mesmo depois do período do isolamento. Cinco peixeiradas impunham respeito a qualquer uma.

Hilda estava se sentindo muito velha e se preocupava com o fim da pena. Não sabia nada de Pauline, que nem sequer a visitara durante todo esse tempo. Só aprendera a separar botão ruim dos enormes sacos que a fábrica mandava. Ganhava pouco. Se, pelo menos, arranjasse um emprego na fábrica. Mas, como dizia a Assistente Social, catar botão era só pra explorar as presas. Depois, jogavam todas no lixo de onde vieram.

Hilda entrara com quarenta anos de idade. Mais nove, quatro meses e cinco dias, completaria cinqüenta em breve. Nos primeiros tempos, ouvira muita missa e rezara muita ladainha. Depois, apareceu um homem da Assembléia e Hilda achou melhor cantar os hinos do pastor do que rezar tanto como exigiam as freiras.

Procuraria a Assembléia quando saísse. Sabia tudo direitinho e o pastor bem que poderia lhe arranjar um emprego, nem que fosse de cozinheira. Depois ia procurar Pauline. Às vezes, sonhava com ela saindo da Igreja, toda de branco, segurando um buquê de rosas. De repente, a filha se virava e atacava o pastor com as flores que viravam um pedaço de cano preto. Nunca via o noivo. Pinheiro aparecia de vez em quando junto dela, sentado num banco, dormindo como se estivesse ainda bêbedo.

Faltava somente um mês para sair. Sabia de cor seu tempo de prisão. Ano a ano, dia a dia, minuto a minuto. Uma estudante de Direito, até bonitinha, lhe perguntara sobre um tal de relógio carcerário. Não sabia, não. Tinha um no refeitório que sempre vivia atrasado. Sabia, apenas, que sairia do presídio no dia quinze de Santana, quase no mesmo dia em que fora presa, e não tinha para onde ir somente com uma passagem no bolso. Para a esquerda ou para direita do portão? Resolveria na hora.

Já quase dormindo, a lembrança da novata voltou com força. Parecia com Pauline, mas não podia, era ainda uma menina bem mocinha. Dormiu com a sensação de ter achado alguma coisa.

Em quinze de Agosto, Hilda se vestira para ir embora. No dia anterior, houvera uma festa e as freiras fizeram um bolo, lhe entregaram o pecúlio pelo trabalho com os botões, um santinho, que ela guardou na Bíblia, e lhe desejaram felicidades. Nada mais. Precisava era de um emprego, de uma casa pra ficar.

Na secretaria, antes de sair, perguntou à Madre quem era a novata que chegara, desaparecera, chegara de novo e nunca mais tinha voltado.

Madre Tereza estranhou a pergunta. Por que Hilda queria se meter naquilo? Por nada. Parecia com alguém que conhecia, mas que não era ninguém, pois não pudera mesmo conhecer ninguém na prisão. Nunca recebera visita, exceto do pastor da Assembléia. Mas a moça tinha um jeito parecido com não sei quem.

A Madre riu um pouco, mas foi buscar a ficha da moça para satisfazer a curiosidade de Hilda. Que levasse uma boa impressão do Bom Pastor. E todo o cuidado pra não voltar! Boa presa, melhor em liberdade! A Madre é que não sairia mais dali. Por isso, Hilda devia se considerar uma pessoa de sorte.

Era coisa de política. A menina era suspeita e fora internada, mas tivera que sair muitas vezes para depor. Em pouco tempo, a família descobriu onde ela estava. Era filha adotiva de um coronel da Aeronáutica. Foi solta por isso. Amélia Sampaio de Albuquerque, filha do Coronel Albuquerque e de Dona Luzia Sampaio de Albuquerque. Dezoito anos, estudante universitária, suspeita de distribuição de panfletos contra o Governo. Nome de guerra: Pauline.

Quando chegara, fizera questão de registrar o nome da mãe de maneira diferente. A mulher do Coronel era Dona Luzia, mas Amélia escrevera que sua mãe se chamava Pauline, sem sobrenome. Coisa dessa juventude maluca de hoje em dia, como disse a Madre.

O portão se abriu para dar passagem a Hilda. Resolveu pegar o lado direito da calçada. Como se lembrava, a rua ia bater na Caxangá. O dinheiro do pecúlio não fora tão pequeno assim. Daria para passar uma semana se encontrasse uma pensão barata para ficar.

Pauline - Parte III

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Pauline - Parte III

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Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Gadiel Perrusi

III

Hilda foi a pé pela mesma estrada enlameada de antigamente. Perguntou por Severino, o homem da mandioca, e disseram que estava na beira do riacho. Ele falou que Pauline era gente que não prestava, pinta brava, e morava com o amante num barraco perto dali. Vivia roubando sua mandioca, mas o trabalho dela era a zona de Prazeres. Tinha que vigiar seu roçado; ladrão era que não faltava. Pediu desculpa e apontou para o lado da pista. O riacho vinha de lá, onde Pauline dizia que morava. Tudo era igual, não tinha cor pra dizer qual era o barraco. Ela que perguntasse.

Ao lado da pista, havia muitos. Hilda andou por quase todos, antes de encontrar Pauline se balançando numa cadeira, no meio da calçada. Crescera mais um pouco, engordara. Ainda tinha cabelos louros e estava sozinha.

Perguntou logo de saída por que a mãe estava por ali. Ofereceu uma batida de limão, mas avisou que não havia lugar no barraco. Uma colega de zona lhe dissera que Hilda morava na pensão da Magra. Nem ligara. O Pina já era ruim, imagine perto do Recife. Prazeres tampouco. Somente na praia, nos domingos, arranjava alguém. Assim mesmo, era muito barato e tinha que roubar mandioca pra vender na feira.

Hilda escutava tudo em silêncio. Viera somente pra saber como Pauline estava. Não queria nada. Disse que Pinheiro havia morrido e que não fora mais visitar Pauline na prisão por causa do trabalho, muito duro. Apenas, queria ver a neta, inventou sem saber por quê.

- As freiras da creche deram Amélia para um casal criar. - Respondeu Pauline, sem muito interesse.

Não podia ficar com a menina na prisão. Depois disso, não sabia mais de nada. Se a mãe prometesse sair no outro dia, podia dormir no barraco. Estendia uma rede e dava café com macaxeira de manhã. Mas tinha de sair bem cedo porque Floriano ia chegar logo. Não sabia o que ele fazia, mas, todo fim de semana, passava fora. Quando chegava, era bêbedo e dando alteração.

No mês seguinte, Hilda encontrou um barraco vazio, próximo à Estrada da Batalha. Precisava ficar perto da filha embora não dissesse nada a Pauline. Todo dia, pegava o trem e, da Estação Central para a Camboa do Carmo, era um pulo; de madrugada, voltava de ônibus. A Magra ainda insistiu pra que ela ficasse, mas ficou satisfeita com a mudança. Hilda envelhecia rápido e gastava mais do que recebia. Todo domingo de tarde, Hilda se aproximava do barraco de Pauline e a via de longe. Pelo menos, ficava sabendo como estava e, se precisasse, poderia socorrê-la.

Numa noite de chuva, foi chamada pelo Comissário de Muribeca. Tinha uma mulher da vida dizendo que era filha dela. Falavam que matara o amante e só fazia chorar, chamando por seu nome.

Hilda chegou na cadeia e viu Pauline toda suja de lama. Teve uma pena infinita de tudo e de si mesma. Sentia-se culpada pela desgraça de Pauline. Devia ter matado Pinheiro, anos atrás,  e ficado com a filha. Tão bonita que se casaria, logo, com um homem de bem. Culpa sua que fazia a vida e morava com um bêbedo velho e inútil.

Pauline, quase histérica, falava tudo o que lhe vinha na cabeça, mas negava ter matado alguém. No seu delírio, fora Pinheiro, seu padrasto, já morto e enterrado, que tentara cruzar de novo com ela e, na briga, ele caíra desmaiado, perto do riacho. Depois, contou outra história, depois outra. Tudo sem fio nem pavio.

A filha estava suja e embriagada. Apanhara no Comissariado e falava sem parar, como se tivesse enlouquecido. Como não havia provas nem testemunhas, foi solta. O comissário pensou que era doida. Noutro dia, ouviria de novo o depoimento. Hilda levou a filha para sua casa e deixou que ela dormisse pra curar a bebedeira.

No dia seguinte, quando acordou, Pauline contou a Hilda mais uma história sem pé nem cabeça.

Fora ver um taco de roça que trocara por uma radiola estragada. Pretendia moer farinha e perguntou ao companheiro se ele queria ir. Era um homem muito doente, epilético, que já passara um ano internado no Santo Amaro. Até a São Severino dos Ramos já levara. Mas não dera jeito. Toda semana, ele tinha um ataque. Não sabia o que fazer.

Caminhara sozinha prá roça, em Muribeca, pertinho dali. Ao meio dia, Floriano chegou trazendo o almoço que nem pedira. Comeram juntos e, às duas horas da tarde, pediu a um motorista, que passava na pista, que a levasse até Prazeres. Mais tarde, voltou pra terminar a farinhada. Deu catorze cuias, cada uma de dois quilos e meio. Mas não queria voltar à feira. Estava cansada. Entregou a farinha a um compadre, dizendo-lhe  pra pagar como pudesse. Foi beber cachaça com caju.

Já passava das dez da noite, quando chegou em casa. Perguntou pelo companheiro e soube, por um menino na frente da Igreja, que ele estava morto dentro do mato, no fim do córrego.

Ali, encontrou Floriano caído de bruços, perto do riacho. Revirou-o, não viu sangue e pensou que tinha sido um ataque de epilepsia. Depois, soube que o haviam morto com um espeto. Ainda não acreditava. Achava que fora mesmo uma crise. Já estava roxo quando o encontrou. Desemborcou-o, limpou a baba de sua camisa e trocou sua roupa. Que morresse pelo menos de uma maneira decente. Ele bem sabia que não podia beber por causa dos remédios que lhe passaram no Santo Amaro. E, agora, ali estava, babado e morto, sem saber o que fazer. Por isso, trocou sua roupa. Estava ainda com seu rádio de pilha, o relógio vagabundo, que ela própria havia roubado na feira de Prazeres e lhe dera de presente, um anel de bronze e mais duzentos e quinze cruzeiros no bolso.

No Comissariado, disseram que uma prostituta de uma pensão de Prazeres havia sido a causa. Estava embeiçada por Floriano. Enquanto Pauline estava na roça, a mulher entrara no seu barraco e, com ciúmes, matara Floriano em plena crise epiléptica, levando o corpo para o riacho. Uma vez, Pauline encontrou a tal mulher da vida escondida na sua casa, debaixo da cama, e muito assustada. Floriano disse que a moça fugia do amante, que estava bêbedo e queria furá-la.

Depois, ouviu dizer que tinha sido o próprio amante daquela mulher que, por ciúmes, matara seu rival, o coitado do Floriano que não podia fazer nada. Vivia tendo crises o tempo todo. Mas não acreditava nisso porque, na noite do crime, a menina estava na zona em sua própria companhia.

(Continua)

Pauline - Parte II

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Pauline - Parte II

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Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Gadiel Perrusi

II

Não era por isso. Não queria matar Pinheiro nem dar novo desgosto à mãe. Preferiu sumir de vez e fora morar no Pina com Neide, prima de uma amiga da escola. Tampouco sabia que o Pina, pouco a pouco, se tornava a zona mais freqüentada do Recife. Ficara sem fazer nada. A escola antiga era muito longe e Neide ganhava pouco. Somente tinha casa e comida.

Pauline ainda era virgem e muita gente que freqüentava a casa de Neide lhe fazia agrados, mas ela não queria nada com ninguém. Seu ódio por Pinheiro ainda era muito grande e vivia preocupada com a mãe, mas não podia voltar ao Caçote. Lembrava que o sonho de Hilda era vê-la casada virgem com alguém de respeito. Corpo e inteligência não lhe faltavam.

Um ano depois, se apaixonara por Zé Ronaldo, que lhe prometia casamento. No início, fora tudo muito bem. Iam ao cinema, tomavam banho de praia e namoravam no cassino perto de onde morava. Depois, Ronaldo desapareceu. Quando voltou, estava sem dinheiro, mas dois amigos lhe emprestariam algum, caso Pauline se deitasse com eles.

Pauline chorou. Ronaldo lhe prometeu que era só uma vez. Outros apareceram e  Ronaldo não segurava o dinheiro que Pauline conseguia. Era muito. Com apenas dezesseis anos, sempre passava por virgem, o que valorizava bastante o seu trabalho. Ronaldo só chegava de madrugada e, mesmo cansada, Pauline ficava alegre de se deitar com ele.

Até que um dia, ficou grávida. Ronaldo fez que não acreditava que o filho era dele. Antes de sumir, deu-lhe um pontapé na barriga. Pauline passou mal e quase perdia a criança. Trabalhou até completar oito meses. Depois, não agüentou mais e Neide deixou que ela ficasse no quarto dos fundos, onde nasceu Amélia, loura e magrinha como Pauline. De olhos pretos como Hilda.

Nunca mais quis se apaixonar por ninguém. Precisava sustentar a filha. Saíra da casa de Neide e fazia a vida em diversos locais. Preferia assim. Não ficava manjada, era jovem, nem completara dezoito anos, e podia continuar passando por virgem. Botara Amélia numa creche e todos os domingos a visitava. De noite, trabalhava; de manhã, tentava dormir e descansar. Somente isso. Mas, agora, sabia de tudo do ofício e não precisava de ajuda. Não tinha mais raiva de ninguém. Não aparecera para visitar, nem dera notícias, para não atrapalhar a vida de Hilda, mas sabia que, cedo ou tarde, as duas se encontrariam.

Terminaram bêbedas demais, chorando demais, para fazer qualquer plano para o futuro. Hilda dera uma esculhambação em Pinheiro, que nem ouvira de tão bêbedo que estava. Que adiantava botar o homem pra fora da casa que nem era dela? Fazia tanto tempo! Pelo menos, tinha ainda um homem embora ele não prestasse para grande coisa. Nem sequer pra dar bom exemplo a Pauline, quando ela era pequena. Duvidou um pouco, também, se Pinheiro tivera toda a culpa. Lembrava que Pauline, aos quinze anos, era namoradeira demais, apesar de seus conselhos. Era a vida. Nascera pra isso, carregara a filha para a vida. Enfim, Pauline não parecera tão mal assim.

Na rua, perto do seu portão, o cabo da polícia destratava Pauline, ameaçando-a com o pedaço de pau. Chamava-a de puta, rapariga, mulher de corno. Pauline revidava no xingamento, sempre escondendo o cano atrás do vestido. Hilda ficou aflita, temendo coisa pior, quando surgiu um rapaz, gritando.

- Repita, seu puto! Quem é corno aqui?

- Você e toda a sua raça, seu gigolô de merda! - Berrou o cabo, em resposta.

A mulher do vizinho atiçava ainda mais a briga e, antes que Hilda pudesse abrir o portão, os quatro entraram no corpo a corpo. Foi tudo muito rápido. O cano era mais forte e duro do que o pedaço de pau, além de um canivete que ninguém sabia de onde havia saído.

Quando a polícia chegou, o cabo sangrava na cabeça, sua mulher quebrara uma perna e tinha um corte profundo na barriga com risco de perder a criança. Pauline precisou, ainda, ser contida por três soldados pra se acalmar. O rapaz desaparecera e ninguém perguntou se uma mulher de vinte anos, franzina, poderia ter feito sozinha tanto estrago.

De nada adiantou o depoimento de Hilda a favor de Pauline, que, aos berros, continuava dizendo que era inocente e que só tinha ido visitar sua mãe. Mas ela sabia que havia insultado o homem primeiro. Aquele cara brochara com ela na zona e não quisera pagar. Nem sabia que era cabo da polícia e vizinho de sua mãe. Na esquina, topara com ele e o chamara de veado. Ele não a reconhecera e partiu logo prá agressão. Devia ser veado mesmo!

O Comissário de Areias não quis ouvir nada. O cano ensangüentado testemunhava mais forte contra ela. Além de Hilda, ninguém vira seu companheiro e o canivete fora achado por um investigador na bolsa de Pauline. No julgamento, ela pegara o 129, com cinco anos de cadeia.

Hilda envelhecera mais do que em toda a sua vida de zona. Visitara Pauline duas ou três vezes. Depois esquecera. Tinha que beber muito pra agüentar o trabalho. Somente lhe restava Pinheiro, que, cada dia, ficava mais inchado de tanto beber sem trabalhar. O bairro do Recife ficava cada vez mais fedorento e abandonado e todos estavam indo para o Pina.  O mundo começava a ficar de cabeça para baixo e Hilda não sabia viver fora da antiga zona. Beirando os quarenta anos, sentia-se um bagaço, quando Pinheiro fora assassinado em Areias. Quase tudo era dele e logo apareceu gente da família pra tomar a casa de quintal, perto do Caçote.

No Cais do Apolo, ainda pôde viver algum tempo, até  começar o aterro para construir o novo prédio da Prefeitura. Não tinha mais para onde ir. Pauline já devia estar solta, mas ela não sabia por onde andava. Achava que não tinha mais ninguém. Começara a fazer a zona na Camboa do Carmo, na pensão de Maria Magra. Poucos clientes, em geral bêbedos de fim de noite que não ligavam para sua velhice precoce. O trabalho era pouco e ruim, porém a Magra ainda lhe dava uma força.

De tanto falar de Pauline, uma noite lhe disseram que ela trabalhava para os lados de Muribeca, perto de Prazeres. Um dia iria por lá pra ver a filha. Sentia ainda muita culpa por Pinheiro ter estragado a vida de Pauline. E nem valeu a pena. O homem morreu como vivera. Bebendo sem saber quem lhe tinha plantado uma peixeira na barriga. A Polícia nem investigou. Não valia a pena se meter em briga de bêbedo. Menos um para dar alteração.

Num domingo de tarde, se vestira um pouco melhor porque era dia do seu santo. Estava no mês de Santana e tentava recobrar, talvez, um pouco de respeito por si mesma. Pegaria o trem pra Muribeca. Queria aproveitar o dia de folga que Maria Magra lhe dera pra ver se encontrava a filha.

Se morava mesmo naquele bairro, já devia ter voltado da praia de Piedade. Lembrava-se de que, quando fugira para o Recife, todo mundo de Prazeres freqüentava a praia nos domingos e feriados. Era o único divertimento que tinham. Morava, ainda, com um tio que vendia cerveja e peixe frito numa barraca,  até que caíra doente; as pernas incharam e, uma noite, foi levado ao posto de saúde. No outro dia, morreu. Não sabia para onde ir e fora morar no Caçote com Pinheiro, que conhecera numa farra.

Ainda se lembrava de algumas amigas de adolescência, perto da invasão, detrás da linha do trem. Foi até lá e só encontrou Creuza, que já criava cinco filhos e vendia frutas na feira. Disse quem era, mas a antiga amiga não a reconheceu, nem sabia quem era Pauline. Talvez o vizinho soubesse. Alugava uns terrenos para o lado de Muribeca, onde plantava mandioca pra vender na feira. Devia estar por lá colhendo alguma coisa.

(Continua)

Pauline - Parte I

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