Pensou que eu não vinha mais

De volta ao samba (Chico Buarque)
Dimas Lins
Foi como chegar da belíssima praia de Porto de Galinhas no final da tarde, tomar um banho e dormir. Você esquece os compromissos e tem aquela sensação que só acordará uma semana depois. Porém, a semana se passa e você ainda está dormindo. Você ainda sonha com os caldinhos, lagostas e camarões - tudo a um preço camarada - que desfilam pelas mãos dos vendedores ambulantes à beira-mar. Em seu sonho, você entornará o precioso líquido amarelo-ouro e só pensará, no máximo, em dar alguns mergulhos em uma das águas mais claras e transparentes do Brasil. O resto é só preguiça.
Por falar em preguiça, você esquece da vida e tem dificuldades em retornar ao cotidiano, ainda que o cotidiano lhe seja aprazível. Convenhamos, as férias são melhores do que o dia-a-dia. Bem melhores. E o mais estranho de tudo é que você sequer saiu de férias. Apenas antecipou três dias, justamente entre o natal e o réveillon, para transformar um simples feriado em onze dias de descanso. Mais à frente você pagará com juros. Entretanto, enquanto o futuro não vem, melhor aproveitar o presente.
Mas, como eu dizia, o resto é só preguiça. Você acorda no meio da noite, sem necessariamente saber em qual dia está e descobre que tem de voltar à dura realidade. Dura, embora doce.
E está sumido por tanto tempo que algumas pessoas pensarão que você não voltará mais. É que seu metabolismo ainda está um pouco sonolento e suas pretensões se limitam a voltar para a cama e dormir, embora isso não seja mais possível. O batente te espera, camarada! À luta, então.
Você tenta vencer a preguiça - o que evidentemente não é fácil - joga uma água no rosto e tenta retomar a vida. Mas vencer o estado de prostração e moleza requer uma habilidade que você preteriu nos dias de festa. Mesmo assim, você liga o computador, abre o editor de texto, posiciona as mãos sobre o teclado e tenta escrever alguma coisa, mas não sai nada. A esta altura, seu cérebro está meio paralisado. E você, velhão, não tem inspiração. Nenhuma.
Em verdade, você percebe que esse negócio de inspiração não existe muito. O que existe mesmo é a prática. E sabendo de tudo isso, você tenta escrever por escrever, na esperança que um risco de unha de um sopro criador venha ao seu encontro, mas nada acontece. Apenas o tempo avança. Você olha o relógio e já é tarde da noite. É quase dia 07 de janeiro, o dia que você prometeu voltar e você teme quebrar a promessa. Nessas horas, é necessário um sinal dos céus, um fiapo de idéia, um trisco de pensamento.
Pelas estatísticas de acesso do blog, fica evidente que todo mundo já voltou, menos você. As pessoas querem ler alguma coisa nova, mas você não consegue pensar em nada, pois a preguiça não deixa. Seu desejo é de apenas ficar deitado, feito um jacaré na lama, totalmente imobilizado. No máximo, só os olhos se moverão. Quer continuar deixando o corpo descansar, afinal, o fígado, esse órgão maltratado nos fins de ano e nos períodos de festas, teve que carregar sozinho o piano nas costas, enquanto o restante da sua estrutura física apenas aproveitava.
Tudo parece continuar na mesma, até que você imagina o e-mail de um leitor lhe dizendo que está cansado de esperar e acrescenta anacronicamente: “nós que aqui estamos, por vós esperamos!”. O leitor-cobrador usaria as palavras do blog - que eu peguei emprestado do título de um filme - para me chamar à razão. Ele aproveitaria a oportunidade e encerraria a contenda dizendo no imperativo afirmativo “acende o refletor, rapaz!”.
Embora não tivesse recebido e-mail algum, imaginar, para mim, foi o suficiente. Procurei em meus discos compactos e encontrei no formidável Para Todos, de Chico Buarque, a resposta para o imaginário leitor.
Pensou que eu não vinha mais, pensou
Cansou de esperar por mim
Acenda o refletor
Apure o tamborim
Aqui é meu lugar
Eu vim
A partir de hoje, retomo os contos e crônicas, os vídeos inacabados e o convívio com os amigos virtuais. Aqui é nosso lugar. Pois que venham todos, então.
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