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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 10 de janeiro de 2008, às 0:00h

Pauline - Parte I

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Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Dimas Lins

A internet diminui distâncias e aproxima pessoas. Acrescento ao chavão a oração “e cria oportunidades”. No meu caso, me deu oportunidade de ler muita coisa interessante. Foi através dela, por exemplo, que conheci o Blog dos Perrusi e tive acesso aos textos de Gadiel ou, simplesmente, Perrusi Pai. Foi lá que li Pauline pela primeira vez.

Neste conto, o autor nos leva a um mundo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante do nosso ao narrar, de maneira crua, a história de duas mulheres, duas prostitutas, e suas vidas repletas de desventuras.

E embora as personagens atravessem caminhos tortuosos, o conto está longe de ser melancólico. O autor é preciso no tom da narrativa e nos dá a impressão desconcertante que essas mulheres podem ser encontradas em qualquer esquina de Recife ou em qualquer grande cidade brasileira.

O conto Pauline está divido em 4 partes e será publicado em sequência até o epílogo. Aproveitem a leitura.



Gadiel Perrusi

I

No pátio do presídio, o banho de sol fora interrompido por uma discussão acirrada. Uma nova presa havia chegado naquela manhã e as líderes de cela discutiam em que pedaço ela poderia circular, antes do período de adaptação. Não queriam mistura por enquanto, como de costume. Precisavam observar a novata, tomar informações, inquiri-la. Depois, quem sabe, poderia haver maior aproximação. Concordaram, enfim, que ela deveria passear somente perto da entrada da capela. Conversando com as freiras, a novata se habituaria ao banho de sol, enquanto, passando de vez em quando pelo local, poderiam, até mesmo, ouvir algum pedaço de conversa.

Ninguém avisara nada. No dia anterior, pela tardinha, abriram uma cela e colocaram a mulher. O costume era ficar uns dias fechada sem sair, exceto, se necessário, para a enfermaria. Aquele caso fora diferente, no entanto.

Hilda, a mais idosa e respeitada liderança da Colônia Penal, estranhara logo aquele tipo de tratamento. Era melhor isolar a novata embora não temessem nenhuma informante. A prisão era pacífica, pra gente bem comportada, em fim de pena e não havia motivos para a Diretoria se preocupar. Por que então a novata?

Pouco sol para tanto cuidado. A mulher desapareceu por uns dias e, quando voltou ao pátio, ficou novamente sozinha perto da capela. Desapareceu de novo e somente foi vista um mês depois, no mesmo lugar, vestida com roupa de saída. Era como se estivesse cumprindo pena a conta-gotas. Entrava e saía e ninguém sabia por quê. Nem as freiras nem as guardas e, muito menos, os vigilantes da Polícia Militar disseram nada. Ninguém parecia saber de coisa alguma. Apenas, uma figura solitária na pequena escadaria da Igreja, como ordenaram as próprias líderes de cela, no primeiro dia.

Na última vez em que a viram, ela estava falando com um homem de paletó e gravata que anotava tudo o que dizia. Possivelmente, um advogado. Terminou o banho de sol e ainda continuava por lá. Até que sumiu de vez. Hilda coçou a cabeça e disse às companheiras que, afinal de contas, não tinham nada com o caso. Era melhor esquecer.

Na cela, sem poder dormir, depois da hora de apagar a luz, Hilda achou que havia qualquer coisa com a novata. Algum pedaço de recordação, um pequeno formigão no pescoço. Achava que conhecia a mulher solitária, apesar de tê-la visto apenas de longe. Era possível. Estava há tanto tempo presa que a imagem do lado de fora lhe chegava em fragmentos, mas aquela maneira de gesticular ou de encolher as pernas não lhe parecia estranha. Num último momento, teve a impressão de que, discretamente,  o advogado e a novata lhe acenaram. Embora sua vista já estivesse muito cansada, um sentimento agudo de reconhecimento lhe feriu os olhos, mas fugiu tão rápido como chegou.

No outro dia, enquanto trabalhava na oficina, separando botões defeituosos de uma montanha enorme que a fábrica mandava todas as semanas, Hilda cismava sobre a vida e nos longos anos de prisão. Depois de tanto tempo, era a primeira vez que desconfiava de uma novata. Não sabia se era mesmo  desconfiança. Um mal estar, talvez. De longe, só percebera que a mulher era loura, magra e com uns gestos que lhe chamaram a atenção. Resolveu esquecer e se concentrar no trabalho. Faltava pouco tempo pra ganhar a liberdade e precisava pensar no que fazer quando saísse da Colônia.

Contudo, sua ansiedade aumentava. Não produziu quase nada e foi advertida pela chefe de secção, uma freirinha ainda jovem que gostava de mostrar serviço. Não respondeu. Estava mesmo distraída. Achava que conhecia aquela novata, mas não sabia de onde. Nem como, pois, há quase dez anos, estava presa sem conhecer ninguém.

De noite, antes de deitar, continuou a cismar. Como é que ela própria havia chegado na prisão? No princípio, tinha sido muito estranho. Fizeram milhões de perguntas que não sabia responder. Anos depois, quando trabalhara na secretaria,  vira sua ficha. A coisa mais esquisita do mundo. Estavam lá seus depoimentos na delegacia e em juízo, uma entrevista com uma Psicóloga e outra com uma Assistente Social. Mas, havia muitas palavras e sinais que, absolutamente, não conseguia saber. É certo que aprendera a ler e a escrever na prisão. Convertera-se à Assembléia de Deus e somente lia a Bíblia.

Mas, o que significava tudo aquilo? “Fator G - INI. 27 pontos no INV, equivalente a 20%. Fraca capacidade para A/C. CNA. O exame de personalidade permite sugerir RAT. Redução da A/S, apresentando primitivismo e traços de paranóia”.

Podia ser. Mas nunca tinha brigado na Colônia. O que seria paranóia? Hilda riu do seu começo. Fora melhor do que o tempo em que ficara na cadeia de Prazeres, esperando julgamento. Melhor ainda do que os dois dias sentada num banco duro no Tribunal, ouvindo as coisas malucas do Promotor e do Advogado de Ofício, que brigavam entre si, não sabia bem por quê. Já confessara o crime e não precisava tanta coisa pra pegar a pena.

Ouvira dizer que a Colônia era muito melhor do que morar na pensão de Maria Magra, no bairro de São José. Durante o júri, não dissera nada. Sempre fora muito calada, mas tivera vontade de pedir ao juiz que falasse logo quantos anos ia pegar. Para ela tanto fazia. Assim, teria mais tempo de pensar na vida. Quem sabe se na outra não seria tudo diferente? Esta mesmo que vivia não valeu nada. Foi tudo por água abaixo, desde o roçado em Bonito até o juiz mandar que ela se levantasse para ouvir a sentença. Depois, o camburão da PM entrando na Colônia.

Doze anos, talvez menos por bom comportamento. Até ali, tinha feito tudo de sua própria cabeça. Agora, só fazia o que mandavam pra poder comparar tudo direitinho, se ainda tivesse tempo.

Hilda achava que tudo havia começado num mês de março, não se lembrava do dia nem do ano. Pela tarde, caíra um aguaceiro, depois de um calor intenso. Não tivera tempo nem sequer de tirar as roupas do arame. A chuva parou, deixando o quintal encharcado. Durante o pé d’água, ficara apenas de combinação dentro de casa, ouvindo rádio. Depois, sem notar, saíra do mesmo jeito pra recolher as roupas. Não podia deixá-las dormir lá fora com medo de ladrão. Achava que nem mesmo o vizinho, um cabo da polícia enxerido, poderia lhe dar um flagra. Ainda era muito cedo e nem escurecera. Precisava tomar cuidado com o cabo. Era muito metido e tinha uma mulher grávida e arengueira demais para seu gosto.

Tampouco esperava que Pinheiro estivesse chegando do bar, onde ficava bebendo o tempo todo, dizendo que saía pra pegar serviço. A única coisa de que não gostava era do arame farpado em que pendurava as roupas. Toda semana, tinha de costurar algum rasgão provocado pelo vento ou por algum animal que atravessava o quintal.

Do outro lado da rua, havia um rolo danado. Não prestava atenção, mas discutiam em voz tão alta que não durou pra perceber alguma coisa. Sem saber dos motivos, aproximou-se mais um pouco. Afinal de contas, as brigas eram quase diárias, mas ela não podia assistir por causa do trabalho noturno. Uma briga durante o dia devia ser mais interessante.

O cabo e a mulher grávida, já com uma enorme barriga, gesticulavam contra uma menina de uns dezoito anos. Não é que estivessem armados, mas o cabo segurava um pedaço de pau de uma maneira ameaçadora e a moça escondia qualquer coisa atrás do vestido, talvez um pedaço de cano.

Hilda, de repente, percebeu que era Pauline, sua filha, que voltava à rua, depois de muito tempo. Ficou apavorada. Não via a filha há mais de cinco anos. Pinheiro não sabia de nada, dizendo que tinha saído para procurar emprego. Fugiu, talvez, acrescentou. Chorara o tempo todo sem saber nada de Pauline. Agora, ela estava se metendo numa confusão, bem diante de seus próprios olhos.

Procurara pela filha anos a fio. Até encontrá-la na mesma Rua da Guia onde Hilda trabalhava, desde mocinha, mal chegara do interior. Pauline não quisera falar com a mãe, que a perseguiu a noite inteira, desprezando todos os clientes que a abordavam.

Enfim, descobriu-a de novo,  bêbeda e sozinha num bar. O encontro não foi dos melhores. Continuaram a beber até o sol sair quando, então, Pauline se queixou de não ter pai nem mãe. Era sua primeira queixa e Hilda, apesar de exausta, ainda pôde lhe perguntar por que fugira de casa tão cedo. Que lhe tinha feito? Dava-lhe  de um tudo, comida, roupa e colégio. Uma menina de quinze anos, bonita, inteligente, pronta pra casar. Para Hilda, que carregava sua dor em silêncio, Pauline tinha fugido sem nenhuma explicação.

Agora, no amanhecer de um bar, Pauline, finalmente, se rendia. Não fugiu de casa porque quis. Pinheiro tentou violentá-la, rasgando seu vestido, mas não conseguira nada. Ela se trancou num quarto. Em seguida, expulsou-a, ameaçando-a de morte, com medo de que ela contasse a Hilda. Também ficara com vergonha. Sabia que a mãe fazia a zona e que era filha de um desconhecido, num dos enganos de Hilda.

(Continua)

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