Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 11 de janeiro de 2008, às 17:19h

Pauline - Parte II

pauline-2.jpg

Get the Flash Player to see the wordTube Media Player.

Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Gadiel Perrusi

II

Não era por isso. Não queria matar Pinheiro nem dar novo desgosto à mãe. Preferiu sumir de vez e fora morar no Pina com Neide, prima de uma amiga da escola. Tampouco sabia que o Pina, pouco a pouco, se tornava a zona mais freqüentada do Recife. Ficara sem fazer nada. A escola antiga era muito longe e Neide ganhava pouco. Somente tinha casa e comida.

Pauline ainda era virgem e muita gente que freqüentava a casa de Neide lhe fazia agrados, mas ela não queria nada com ninguém. Seu ódio por Pinheiro ainda era muito grande e vivia preocupada com a mãe, mas não podia voltar ao Caçote. Lembrava que o sonho de Hilda era vê-la casada virgem com alguém de respeito. Corpo e inteligência não lhe faltavam.

Um ano depois, se apaixonara por Zé Ronaldo, que lhe prometia casamento. No início, fora tudo muito bem. Iam ao cinema, tomavam banho de praia e namoravam no cassino perto de onde morava. Depois, Ronaldo desapareceu. Quando voltou, estava sem dinheiro, mas dois amigos lhe emprestariam algum, caso Pauline se deitasse com eles.

Pauline chorou. Ronaldo lhe prometeu que era só uma vez. Outros apareceram e  Ronaldo não segurava o dinheiro que Pauline conseguia. Era muito. Com apenas dezesseis anos, sempre passava por virgem, o que valorizava bastante o seu trabalho. Ronaldo só chegava de madrugada e, mesmo cansada, Pauline ficava alegre de se deitar com ele.

Até que um dia, ficou grávida. Ronaldo fez que não acreditava que o filho era dele. Antes de sumir, deu-lhe um pontapé na barriga. Pauline passou mal e quase perdia a criança. Trabalhou até completar oito meses. Depois, não agüentou mais e Neide deixou que ela ficasse no quarto dos fundos, onde nasceu Amélia, loura e magrinha como Pauline. De olhos pretos como Hilda.

Nunca mais quis se apaixonar por ninguém. Precisava sustentar a filha. Saíra da casa de Neide e fazia a vida em diversos locais. Preferia assim. Não ficava manjada, era jovem, nem completara dezoito anos, e podia continuar passando por virgem. Botara Amélia numa creche e todos os domingos a visitava. De noite, trabalhava; de manhã, tentava dormir e descansar. Somente isso. Mas, agora, sabia de tudo do ofício e não precisava de ajuda. Não tinha mais raiva de ninguém. Não aparecera para visitar, nem dera notícias, para não atrapalhar a vida de Hilda, mas sabia que, cedo ou tarde, as duas se encontrariam.

Terminaram bêbedas demais, chorando demais, para fazer qualquer plano para o futuro. Hilda dera uma esculhambação em Pinheiro, que nem ouvira de tão bêbedo que estava. Que adiantava botar o homem pra fora da casa que nem era dela? Fazia tanto tempo! Pelo menos, tinha ainda um homem embora ele não prestasse para grande coisa. Nem sequer pra dar bom exemplo a Pauline, quando ela era pequena. Duvidou um pouco, também, se Pinheiro tivera toda a culpa. Lembrava que Pauline, aos quinze anos, era namoradeira demais, apesar de seus conselhos. Era a vida. Nascera pra isso, carregara a filha para a vida. Enfim, Pauline não parecera tão mal assim.

Na rua, perto do seu portão, o cabo da polícia destratava Pauline, ameaçando-a com o pedaço de pau. Chamava-a de puta, rapariga, mulher de corno. Pauline revidava no xingamento, sempre escondendo o cano atrás do vestido. Hilda ficou aflita, temendo coisa pior, quando surgiu um rapaz, gritando.

- Repita, seu puto! Quem é corno aqui?

- Você e toda a sua raça, seu gigolô de merda! - Berrou o cabo, em resposta.

A mulher do vizinho atiçava ainda mais a briga e, antes que Hilda pudesse abrir o portão, os quatro entraram no corpo a corpo. Foi tudo muito rápido. O cano era mais forte e duro do que o pedaço de pau, além de um canivete que ninguém sabia de onde havia saído.

Quando a polícia chegou, o cabo sangrava na cabeça, sua mulher quebrara uma perna e tinha um corte profundo na barriga com risco de perder a criança. Pauline precisou, ainda, ser contida por três soldados pra se acalmar. O rapaz desaparecera e ninguém perguntou se uma mulher de vinte anos, franzina, poderia ter feito sozinha tanto estrago.

De nada adiantou o depoimento de Hilda a favor de Pauline, que, aos berros, continuava dizendo que era inocente e que só tinha ido visitar sua mãe. Mas ela sabia que havia insultado o homem primeiro. Aquele cara brochara com ela na zona e não quisera pagar. Nem sabia que era cabo da polícia e vizinho de sua mãe. Na esquina, topara com ele e o chamara de veado. Ele não a reconhecera e partiu logo prá agressão. Devia ser veado mesmo!

O Comissário de Areias não quis ouvir nada. O cano ensangüentado testemunhava mais forte contra ela. Além de Hilda, ninguém vira seu companheiro e o canivete fora achado por um investigador na bolsa de Pauline. No julgamento, ela pegara o 129, com cinco anos de cadeia.

Hilda envelhecera mais do que em toda a sua vida de zona. Visitara Pauline duas ou três vezes. Depois esquecera. Tinha que beber muito pra agüentar o trabalho. Somente lhe restava Pinheiro, que, cada dia, ficava mais inchado de tanto beber sem trabalhar. O bairro do Recife ficava cada vez mais fedorento e abandonado e todos estavam indo para o Pina.  O mundo começava a ficar de cabeça para baixo e Hilda não sabia viver fora da antiga zona. Beirando os quarenta anos, sentia-se um bagaço, quando Pinheiro fora assassinado em Areias. Quase tudo era dele e logo apareceu gente da família pra tomar a casa de quintal, perto do Caçote.

No Cais do Apolo, ainda pôde viver algum tempo, até  começar o aterro para construir o novo prédio da Prefeitura. Não tinha mais para onde ir. Pauline já devia estar solta, mas ela não sabia por onde andava. Achava que não tinha mais ninguém. Começara a fazer a zona na Camboa do Carmo, na pensão de Maria Magra. Poucos clientes, em geral bêbedos de fim de noite que não ligavam para sua velhice precoce. O trabalho era pouco e ruim, porém a Magra ainda lhe dava uma força.

De tanto falar de Pauline, uma noite lhe disseram que ela trabalhava para os lados de Muribeca, perto de Prazeres. Um dia iria por lá pra ver a filha. Sentia ainda muita culpa por Pinheiro ter estragado a vida de Pauline. E nem valeu a pena. O homem morreu como vivera. Bebendo sem saber quem lhe tinha plantado uma peixeira na barriga. A Polícia nem investigou. Não valia a pena se meter em briga de bêbedo. Menos um para dar alteração.

Num domingo de tarde, se vestira um pouco melhor porque era dia do seu santo. Estava no mês de Santana e tentava recobrar, talvez, um pouco de respeito por si mesma. Pegaria o trem pra Muribeca. Queria aproveitar o dia de folga que Maria Magra lhe dera pra ver se encontrava a filha.

Se morava mesmo naquele bairro, já devia ter voltado da praia de Piedade. Lembrava-se de que, quando fugira para o Recife, todo mundo de Prazeres freqüentava a praia nos domingos e feriados. Era o único divertimento que tinham. Morava, ainda, com um tio que vendia cerveja e peixe frito numa barraca,  até que caíra doente; as pernas incharam e, uma noite, foi levado ao posto de saúde. No outro dia, morreu. Não sabia para onde ir e fora morar no Caçote com Pinheiro, que conhecera numa farra.

Ainda se lembrava de algumas amigas de adolescência, perto da invasão, detrás da linha do trem. Foi até lá e só encontrou Creuza, que já criava cinco filhos e vendia frutas na feira. Disse quem era, mas a antiga amiga não a reconheceu, nem sabia quem era Pauline. Talvez o vizinho soubesse. Alugava uns terrenos para o lado de Muribeca, onde plantava mandioca pra vender na feira. Devia estar por lá colhendo alguma coisa.

(Continua)

Pauline - Parte I

Sem comentários