Pauline - Parte III

Geni e o Zepelim (Chico Buarque)
Gadiel Perrusi
III
Hilda foi a pé pela mesma estrada enlameada de antigamente. Perguntou por Severino, o homem da mandioca, e disseram que estava na beira do riacho. Ele falou que Pauline era gente que não prestava, pinta brava, e morava com o amante num barraco perto dali. Vivia roubando sua mandioca, mas o trabalho dela era a zona de Prazeres. Tinha que vigiar seu roçado; ladrão era que não faltava. Pediu desculpa e apontou para o lado da pista. O riacho vinha de lá, onde Pauline dizia que morava. Tudo era igual, não tinha cor pra dizer qual era o barraco. Ela que perguntasse.
Ao lado da pista, havia muitos. Hilda andou por quase todos, antes de encontrar Pauline se balançando numa cadeira, no meio da calçada. Crescera mais um pouco, engordara. Ainda tinha cabelos louros e estava sozinha.
Perguntou logo de saída por que a mãe estava por ali. Ofereceu uma batida de limão, mas avisou que não havia lugar no barraco. Uma colega de zona lhe dissera que Hilda morava na pensão da Magra. Nem ligara. O Pina já era ruim, imagine perto do Recife. Prazeres tampouco. Somente na praia, nos domingos, arranjava alguém. Assim mesmo, era muito barato e tinha que roubar mandioca pra vender na feira.
Hilda escutava tudo em silêncio. Viera somente pra saber como Pauline estava. Não queria nada. Disse que Pinheiro havia morrido e que não fora mais visitar Pauline na prisão por causa do trabalho, muito duro. Apenas, queria ver a neta, inventou sem saber por quê.
- As freiras da creche deram Amélia para um casal criar. - Respondeu Pauline, sem muito interesse.
Não podia ficar com a menina na prisão. Depois disso, não sabia mais de nada. Se a mãe prometesse sair no outro dia, podia dormir no barraco. Estendia uma rede e dava café com macaxeira de manhã. Mas tinha de sair bem cedo porque Floriano ia chegar logo. Não sabia o que ele fazia, mas, todo fim de semana, passava fora. Quando chegava, era bêbedo e dando alteração.
No mês seguinte, Hilda encontrou um barraco vazio, próximo à Estrada da Batalha. Precisava ficar perto da filha embora não dissesse nada a Pauline. Todo dia, pegava o trem e, da Estação Central para a Camboa do Carmo, era um pulo; de madrugada, voltava de ônibus. A Magra ainda insistiu pra que ela ficasse, mas ficou satisfeita com a mudança. Hilda envelhecia rápido e gastava mais do que recebia. Todo domingo de tarde, Hilda se aproximava do barraco de Pauline e a via de longe. Pelo menos, ficava sabendo como estava e, se precisasse, poderia socorrê-la.
Numa noite de chuva, foi chamada pelo Comissário de Muribeca. Tinha uma mulher da vida dizendo que era filha dela. Falavam que matara o amante e só fazia chorar, chamando por seu nome.
Hilda chegou na cadeia e viu Pauline toda suja de lama. Teve uma pena infinita de tudo e de si mesma. Sentia-se culpada pela desgraça de Pauline. Devia ter matado Pinheiro, anos atrás, e ficado com a filha. Tão bonita que se casaria, logo, com um homem de bem. Culpa sua que fazia a vida e morava com um bêbedo velho e inútil.
Pauline, quase histérica, falava tudo o que lhe vinha na cabeça, mas negava ter matado alguém. No seu delírio, fora Pinheiro, seu padrasto, já morto e enterrado, que tentara cruzar de novo com ela e, na briga, ele caíra desmaiado, perto do riacho. Depois, contou outra história, depois outra. Tudo sem fio nem pavio.
A filha estava suja e embriagada. Apanhara no Comissariado e falava sem parar, como se tivesse enlouquecido. Como não havia provas nem testemunhas, foi solta. O comissário pensou que era doida. Noutro dia, ouviria de novo o depoimento. Hilda levou a filha para sua casa e deixou que ela dormisse pra curar a bebedeira.
No dia seguinte, quando acordou, Pauline contou a Hilda mais uma história sem pé nem cabeça.
Fora ver um taco de roça que trocara por uma radiola estragada. Pretendia moer farinha e perguntou ao companheiro se ele queria ir. Era um homem muito doente, epilético, que já passara um ano internado no Santo Amaro. Até a São Severino dos Ramos já levara. Mas não dera jeito. Toda semana, ele tinha um ataque. Não sabia o que fazer.
Caminhara sozinha prá roça, em Muribeca, pertinho dali. Ao meio dia, Floriano chegou trazendo o almoço que nem pedira. Comeram juntos e, às duas horas da tarde, pediu a um motorista, que passava na pista, que a levasse até Prazeres. Mais tarde, voltou pra terminar a farinhada. Deu catorze cuias, cada uma de dois quilos e meio. Mas não queria voltar à feira. Estava cansada. Entregou a farinha a um compadre, dizendo-lhe pra pagar como pudesse. Foi beber cachaça com caju.
Já passava das dez da noite, quando chegou em casa. Perguntou pelo companheiro e soube, por um menino na frente da Igreja, que ele estava morto dentro do mato, no fim do córrego.
Ali, encontrou Floriano caído de bruços, perto do riacho. Revirou-o, não viu sangue e pensou que tinha sido um ataque de epilepsia. Depois, soube que o haviam morto com um espeto. Ainda não acreditava. Achava que fora mesmo uma crise. Já estava roxo quando o encontrou. Desemborcou-o, limpou a baba de sua camisa e trocou sua roupa. Que morresse pelo menos de uma maneira decente. Ele bem sabia que não podia beber por causa dos remédios que lhe passaram no Santo Amaro. E, agora, ali estava, babado e morto, sem saber o que fazer. Por isso, trocou sua roupa. Estava ainda com seu rádio de pilha, o relógio vagabundo, que ela própria havia roubado na feira de Prazeres e lhe dera de presente, um anel de bronze e mais duzentos e quinze cruzeiros no bolso.
No Comissariado, disseram que uma prostituta de uma pensão de Prazeres havia sido a causa. Estava embeiçada por Floriano. Enquanto Pauline estava na roça, a mulher entrara no seu barraco e, com ciúmes, matara Floriano em plena crise epiléptica, levando o corpo para o riacho. Uma vez, Pauline encontrou a tal mulher da vida escondida na sua casa, debaixo da cama, e muito assustada. Floriano disse que a moça fugia do amante, que estava bêbedo e queria furá-la.
Depois, ouviu dizer que tinha sido o próprio amante daquela mulher que, por ciúmes, matara seu rival, o coitado do Floriano que não podia fazer nada. Vivia tendo crises o tempo todo. Mas não acreditava nisso porque, na noite do crime, a menina estava na zona em sua própria companhia.
(Continua)
Pauline - Parte II
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