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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira
Arquivo de 15 de janeiro de 2008, às 12:00h

Pauline - final

Pintura: Miles DAvignon
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Geni e o Zepelim (Chico Buarque)

Gadiel Perrusi

IV

Ninguém soube mais de nada. Pauline vendeu o barraco que já estava anunciado, aliás, com uma tabuleta pregada na porta. Com o dinheiro apurado, fez um enterro muito bonito para Floriano. Ela própria vestiu e preparou o defunto porque gostava muito dele, apesar da doença. Por isso, vieram dizer que o corpo de Floriano estava todo marcado com suas impressões digitais. Acusação besta.

A própria polícia, no dia da morte de Floriano, compareceu ao local, mas não disse nada. Era o aniversário do Delegado, todos tinham bebido bastante e, por isso, fizeram muita confusão. O próprio Floriano estava no caixão direitinho e o enterro era de manhã. À tarde, tinha que entregar o barraco ao novo dono.

Soube que haviam prendido a tal prostituta, que foi solta, logo em seguida, porque era amante do Delegado. Ele tivera boa vontade com ela, recebendo um rádio e dinheiro pra não pegar cadeia. Foi no sábado, logo após o enterro, que a colega fora solta pelo Delegado e, depois, dera no pé com o amante. Família de prostitutas e de ladrões de que até a polícia tinha medo. É claro que sua colega mentira muito na polícia, além da ajuda do Comissário.

Na terça-feira seguinte, estava lavando roupa em Muribeca quando a polícia veio prendê-la. Foi empurrada e caiu no riacho. Bateram nela até que confessasse tudo. Daí em diante, nem o juiz quis ouvi-la. Pauline fugira e ficava dormindo debaixo do pé de pau, perto do córrego onde encontrara Floriano. Gostava dele. Coitado! Nem queria acreditar que tinha morrido. Por nada. Nem tinha inimigos. Ela lhe dava tudo, dinheiro, casa, roupa e comida. Às vezes, sonhava com Floriano. Pensava que ainda estava vivo e guardara, com carinho, todos os seus pertences.

Outro dia, estava debaixo de uma árvore e ficara com raiva; desejava matar a mentirosa e traidora. Estava bebendo sozinha, quando foi presa de novo. Reagiu como pôde, mas ninguém queria acreditar na sua história e, por isso, baixaram o cacete no Comissariado.

Depois de ouvir tudo isso, Hilda não se conteve. Botou pra chorar, abraçando a filha com todo o calor de que ainda era capaz. A culpa era dela. Sabia que Floriano não era nenhum santo. Mas o fato, pensou, é que ele morrera com cinco peixeiradas, ainda dormindo, embora ninguém tivesse visto. O cara bem que merecera. Explorador de mulher dos piores. O culpado era Pinheiro que violentara e expulsara sua filha de casa, mais de dez anos atrás. Pauline já estava mais calma. Tomou café e foi dormir de novo.

Carinhosamente, Hilda cobriu a filha com um lençol velho e rasgado. Botou seu melhor vestido, se penteou com cuidado, pintou os lábios com batom e se apresentou ao Comissário de Muribeca para contar a mesma história, que repetiria, meses depois, ao Juiz.

Disse que saíra da pensão da Magra e fora viver em Prazeres, pra ficar junto de Pauline. Era puta de rua, como a filha, mas não se deixava explorar por ninguém, muito menos por um desclassificado como Floriano.

No dia seis de Santana, por volta das oito horas da noite, se dirigia para Muribeca, onde agora ganhava a vida. No Córrego da Batalha, se deparara com o homem de sua filha agarrado com outra mulher, talvez a pior da redondeza.

Estava cansada daquela vida. Homem só prestava pra mentir e explorar. Como estava armada de uma faca-peixeira, com medo de ladrão, e vendo que Floriano estava traindo sua filha, escondeu-se numa árvore, sacou da arma e, de surpresa, desferiu-lhe um golpe nas costas. O homem cambaleou e ela se aproveitou pra completar o serviço. Ele ficou lá, estirado na beira do córrego. Queria matar, também, a mulher que estava com ele, mas ela saiu correndo e se livrou.

Depois, foi avisar Pauline da morte de Floriano, mas não a encontrou em casa. Passou pela Igreja e disse a um menino pra dar o recado. Foi dormir e jamais pensou que sua filha pudesse ser acusada. Mas, agora, era o jeito. Não podia deixar ninguém pagar por um crime que era somente dela.

Hilda pegou o 121, com doze anos de cadeia. Já cumprira nove e, dali a um mês, sairia por bom comportamento. No presídio, era muito respeitada e não tinha motivo para se revoltar. Era muito melhor do que na rua. Fazer a vida dentro do Bom Pastor era comer bem, dormir a noite toda e catar botão, durante o dia. Ninguém mexera com ela, no início, mesmo depois do período do isolamento. Cinco peixeiradas impunham respeito a qualquer uma.

Hilda estava se sentindo muito velha e se preocupava com o fim da pena. Não sabia nada de Pauline, que nem sequer a visitara durante todo esse tempo. Só aprendera a separar botão ruim dos enormes sacos que a fábrica mandava. Ganhava pouco. Se, pelo menos, arranjasse um emprego na fábrica. Mas, como dizia a Assistente Social, catar botão era só pra explorar as presas. Depois, jogavam todas no lixo de onde vieram.

Hilda entrara com quarenta anos de idade. Mais nove, quatro meses e cinco dias, completaria cinqüenta em breve. Nos primeiros tempos, ouvira muita missa e rezara muita ladainha. Depois, apareceu um homem da Assembléia e Hilda achou melhor cantar os hinos do pastor do que rezar tanto como exigiam as freiras.

Procuraria a Assembléia quando saísse. Sabia tudo direitinho e o pastor bem que poderia lhe arranjar um emprego, nem que fosse de cozinheira. Depois ia procurar Pauline. Às vezes, sonhava com ela saindo da Igreja, toda de branco, segurando um buquê de rosas. De repente, a filha se virava e atacava o pastor com as flores que viravam um pedaço de cano preto. Nunca via o noivo. Pinheiro aparecia de vez em quando junto dela, sentado num banco, dormindo como se estivesse ainda bêbedo.

Faltava somente um mês para sair. Sabia de cor seu tempo de prisão. Ano a ano, dia a dia, minuto a minuto. Uma estudante de Direito, até bonitinha, lhe perguntara sobre um tal de relógio carcerário. Não sabia, não. Tinha um no refeitório que sempre vivia atrasado. Sabia, apenas, que sairia do presídio no dia quinze de Santana, quase no mesmo dia em que fora presa, e não tinha para onde ir somente com uma passagem no bolso. Para a esquerda ou para direita do portão? Resolveria na hora.

Já quase dormindo, a lembrança da novata voltou com força. Parecia com Pauline, mas não podia, era ainda uma menina bem mocinha. Dormiu com a sensação de ter achado alguma coisa.

Em quinze de Agosto, Hilda se vestira para ir embora. No dia anterior, houvera uma festa e as freiras fizeram um bolo, lhe entregaram o pecúlio pelo trabalho com os botões, um santinho, que ela guardou na Bíblia, e lhe desejaram felicidades. Nada mais. Precisava era de um emprego, de uma casa pra ficar.

Na secretaria, antes de sair, perguntou à Madre quem era a novata que chegara, desaparecera, chegara de novo e nunca mais tinha voltado.

Madre Tereza estranhou a pergunta. Por que Hilda queria se meter naquilo? Por nada. Parecia com alguém que conhecia, mas que não era ninguém, pois não pudera mesmo conhecer ninguém na prisão. Nunca recebera visita, exceto do pastor da Assembléia. Mas a moça tinha um jeito parecido com não sei quem.

A Madre riu um pouco, mas foi buscar a ficha da moça para satisfazer a curiosidade de Hilda. Que levasse uma boa impressão do Bom Pastor. E todo o cuidado pra não voltar! Boa presa, melhor em liberdade! A Madre é que não sairia mais dali. Por isso, Hilda devia se considerar uma pessoa de sorte.

Era coisa de política. A menina era suspeita e fora internada, mas tivera que sair muitas vezes para depor. Em pouco tempo, a família descobriu onde ela estava. Era filha adotiva de um coronel da Aeronáutica. Foi solta por isso. Amélia Sampaio de Albuquerque, filha do Coronel Albuquerque e de Dona Luzia Sampaio de Albuquerque. Dezoito anos, estudante universitária, suspeita de distribuição de panfletos contra o Governo. Nome de guerra: Pauline.

Quando chegara, fizera questão de registrar o nome da mãe de maneira diferente. A mulher do Coronel era Dona Luzia, mas Amélia escrevera que sua mãe se chamava Pauline, sem sobrenome. Coisa dessa juventude maluca de hoje em dia, como disse a Madre.

O portão se abriu para dar passagem a Hilda. Resolveu pegar o lado direito da calçada. Como se lembrava, a rua ia bater na Caxangá. O dinheiro do pecúlio não fora tão pequeno assim. Daria para passar uma semana se encontrasse uma pensão barata para ficar.

Pauline - Parte III

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