Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Bola de Cristal

Pintura: Cigana, de Orlando Santos
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Bijuterias (João Bosco)

Dimas Lins

Ano novo, antigas preocupações. Depois de trinta anos de casamento, Norminha andava desconfiada quanto à fidelidade de Borges. É verdade que nunca ouviu uma conversa intrigante ou alguma ação suspeita do esposo que desse motivação às suas dúvidas, mas, mesmo assim, vivia cismada. É que achava o marido perfeito e isso, obviamente, não era normal. Afinal, homem nenhum é assim, logo, não seria exatamente Borges uma exceção à regra. Desconfiava, pela lógica do universo masculino, que algum segredo certamente faria parte da vida de seu marido. E definitivamente este segredo ocultaria uma mulher, uma amante, um caso extraconjugal.

A princípio, decidiu ela própria seguir os vestígios e as pistas incriminatórias da infidelidade matrimonial, embora não houvesse nenhuma visível a olho nu. Vasculhou as gavetas, as roupas, os números de telefone armazenados na memória do celular e até mesmo o e-mail do marido, mas não encontrou nada. Depois contratou um detetive particular, mas desqualificou seu relatório final, uma vez que não surgiram quaisquer evidências de traição. Chegou mesmo a desconfiar que Borges, aquele “farsante”, havia descoberto a investigação e comprado o silêncio do detetive a peso de ouro.

Agora, andava pela casa olhando o marido atravessado, como se jogasse em sua cara que alguma ele andava escondendo. Borges, convém esclarecer, mesmo não tendo idéia do que se passava na cabeça de Norminha, nem achava isso tão estranho assim. É que depois de tanto tempo de casado, ele já havia se acostumado às esquisitices da mulher.

Porém, antes que sua paranóia tomasse proporções dramáticas - se já não era o caso - Norminha decidiu apelar para seu último recurso: uma vidente. Só alguém dotado da capacidade de ver o passado e profetizar o futuro teria a resposta às suas inquietações. Procuraria, então, uma cigana.

Para tanto, convenceu Marialva, sua melhor amiga, a acompanhá-la. Marialva, ao contrário de Norminha, não era muita dada a acreditar na arte da adivinhação. Achava tudo aquilo uma encenação, além da perda de tempo e de dinheiro. Entretanto, diante da insistência da melhor amiga, decidiu acompanhá-la.

Chegaram ao consultório de vidência - esse era o nome que constava na plaquinha pregada à porta - com sentimentos diferentes. Norminha confiante por estar no lugar certo para descobrir enfim as escapulidas do marido, enquanto Marialva mostrava-se notadamente inquieta e desconfortável por estar à porta de uma cigana fazendo algo em que não acreditava.

Tocaram a campainha e uma voz feminina perguntou quem era. Marialva, como quem cutucasse a amiga, ainda lhe disse em voz miúda que, se a mulher era incapaz de saber quem estava a sua porta, mesmo com a hora marcada, difícil seria imaginar que ela poderia realmente adivinhar o futuro.

Quando a cigana abriu a porta do consultório, Norminha, de impulso, puxou a amiga pelo braço e arrastou-a para dentro da sala, evitando a sua debandada. Marialva, a contragosto, deixou-se levar, enquanto olhava desconfiada a roupa extravagante e a maquiagem marcante de Madame Sabrina, a cigana. Já dentro do recinto, se depararam com uma tenda no meio da sala. Em seu interior, uma mesa e três bancos ao centro, além dos adornos característicos.

Marialva olhou a bola de cristal no centro da mesa e perguntou desconfiada, enquanto as três se aboletavam nas cadeiras, se a cigana era mesmo capaz de prever eventos passados, presentes e futuros. Madame Sabrina, em tom profético, respondeu que sim, pois captava imagens refletidas no cristal e, através delas, decifrava os eventos que ocorreram ou que estavam por vir. Na insistência de Marialva por entender o mecanismo de adivinhação, a cigana ainda respondeu que, na bola, não via imagens de pessoas ou coisas, mas jatos de luz e de cores que seriam justamente os sinais codificados desses eventos. Sua intuição faria o resto.

Marialva não se deu por convencida que jatos de luz e de cores associados à intuição da cigana poderiam determinar a infidelidade de Borges. Mesmo assim, optou pelo silêncio. Enquanto isso, Norminha, apesar da ansiedade, esperava a iniciativa de Madame Sabrina. De fato, ela esperava que a cigana lhe dissesse na bucha, sem meias palavras, que o seu marido era infiel.

Durante a conversa, Norminha ouviu obviedades da cigana sobre sua vida e seu futuro. Madame Sabrina assegurou que, apesar de alguns obstáculos, o ano vindouro seria promissor. Falou por dez minutos, mas, para a frustração da consulente, não mencionou uma palavra sequer sobre Borges.

- E quanto ao meu marido, o que você me diz?

- Vejo jatos de luzes vermelhas que indicam que ele passa por um momento de harmonia e felicidade.

- Eu sabia! Aquele safado tem uma amante! É daí que vem aquele risinho estúpido!

- Na verdade, não vejo nenhuma mulher, além da senhora, no caminho do seu marido. Quanto a isso, pode ficar tranqüila!

- Então veja de novo, minha filha! A madame está vendo tudo errado!

- Mas, senhora, a bola de cristal não mente!

- Então é a senhora que não está entendendo o que ela está dizendo! Madame está vendo tudo errado! Tudo errado!

A cigana se recompôs e, sob o olhar desconfiado de Marialva, tornou a consultar a bola de cristal. Em seguida, inclinou-se para frente e passou a mão sobre o oráculo.

- A senhora tem razão. Vejo uma mulher…

- Eu não disse?!

Enquanto Marialva abria um riso discreto, mas cínico, Norminha praguejava contra o marido e todos os seus ascendentes, até a sétima geração. Mesmo assim ficou satisfeita. Pagou cem reais à cigana e sugeriu à amiga que também consultasse o oráculo, pois ele sabia mesmo das coisas. Marialva esquivou-se dizendo que não tinha um centavo na bolsa.

- Essa aí não precisa, minha filha, pois tem o corpo fechado! - despistou a cigana.

- Pensei que esse negócio de corpo fechado fosse coisa de mãe ou pai de santo - provocou Marialva.

Para a cigana, tudo fazia parte das forças da natureza.

Já em casa, Norminha sentia-se aliviada em saber de toda a verdade. Na sala, deu com o marido assistindo TV, mas, para sua própria surpresa, beijou-o na testa e foi se recolher. Afinal, não estragaria um casamento de trinta anos por um caso fortuito. Estava agora disposta a recomeçar.

4 Comentários

  1. Gravatar josias de paula 21 de janeiro de 2008, às 16:48h

    Grande texto, Dimas! Não há o que tirar nem o que por. Idéia bem concebida, irônico e engraçado.
    E mais: em cima de um tema já bem explorado!

    ps: Depois de um longo inverso, volto a poder acompanhar a blogosfera.

  2. Gravatar Dimas Lins 21 de janeiro de 2008, às 18:28h

    Camarada,

    Bom saber da sua volta triunfante à internet. Sinal de que o Inscritos em Pedra voltará a ser atualizado, para felicidade geral da nação.

    De resto, o anti-spam do blog às vezes pega no teu pé. Na verdade, no Estradar é a primeira vez, já no Torcedor Coral… Não me pergunte a razão, que eu não sei. Mas vou ficar de olho.

    Um abraço,

    Dimas Lins

  3. Gravatar Sirley 30 de janeiro de 2008, às 16:51h

    Foi inspirado nos contos de Nelson Rodrigues??? muito bom… parabéns!
    Um grande abraço,

  4. Gravatar Maria Mattoso 2 de fevereiro de 2008, às 9:31h

    Oi Dimas, gostei do texto. Muito bem bolado. Você conseguiu algo novo num texto que já foi muito explorado.Gosto desse seru humor sarcaástico. é o tipo do humor que aprecio.Um grande abraço.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos